sábado, 31 de março de 2012

União em cena

Olívia de Cássia - Jornalista


Numa esquina chamada 90 graus, numa noite de vaquejada em União dos Palmares, o movimento na cidade era intenso. Gente nova e descontraída circulava pelo local. Todos os meninos de carro do ano de marca ou de moto. Filhos de classe média do local. A minha cidade já não é a mesma de tempos atrás. Mudou a paisagem, mudaram as pessoas. O cotidiano da vida mudou tudo.

Tem festa no interior, festa de vaquejada. Os jovens se articulam, rapaziada animada que não pensa na vida, que não pensa em nada. Já fiz parte dessa rapaziada que aproveita a vida sem muitas preocupações. Mas mudaram os costumes da gente simples do interior. Cadê o meu povo? Cadê os amigos de antes? Para onde foram todos? Não encontro os amigos de antes. Cadê você? Todo mundo que eu via ali era diferente. Não tinha vínculo nenhum.

Devo admitir que quando eu era jovem sentia falta quando não havia movimentação na cidade. Ficava na porta da minha casa, na Rua Tavares Bastos, 35, pensando em amores ausentes, esperando a volta sem volta. Hoje as meninas são espertas, quase todas o são. Não ligam muito para as tolices que a gente alimentava na minha época de adolescente.

As meninas não pensam mais em amores platônicos, impossíveis, nem em amores de romances clássicos da literatura, encaram a vida. Estão certas. Perdi tanto tempo com esses assuntos bobos. A vida é tão bela, o tempo passa tão rápido e quando passa, queremos voltar atrás. E aí o nosso tempo já foi.

Saí para espairecer um pouco, beber uma cervejinha. Estava com a cabeça cheia, tinha ido para União para fazer duas entrevistas para minhas matérias da Tribuna Independente. De repente, na esquina da frente, três meninas da classe média se colocaram esperando alguém. Apareceram dois rapazes num carro cinza e combinaram algum programa. Soube que os rapazes do carro são casados...

Fiquei pensando como mudaram os costumes da minha cidade. Na minha época de adolescente, mulheres que faziam isso eram chamadas de prostitutas, com todas as letras da palavra. Mulheres que faziam programa com homens casados sempre foram vistas como “de vida fácil”, numa alusão preconceituosa àquelas que sobrevivem dessa profissão que de fácil não tem nada.

Posso estar sendo conservadora e preconceituosa apesar de ter lutado tanto tempo em frentes e movimentos pela libertação da mulher, mas as mocinhas de hoje já não se comportam como tal.

A revolução dos costumes entrou de cheio na sociedade interiorana e eu nem sei se essa mudança trouxe, nesse sentido, algum benefício para elas. Não sabem diferenciar luta feminina por direitos de participação igual na sociedade, por liberalidade, por permissibilidade e vulgaridade. Perderam elas.

Desde adolescente pensei em viver num mundo melhor, numa sociedade mais justa para todos: homens e mulheres. Numa sociedade onde não houvesse tantos desiguais, onde os homens fossem mais parceiros das mulheres, mais companheiros. Sempre fui contra a sociedade machista que dá ao homem toda a permissão de erros e às mulheres a condenação.

Apoiei os movimentos femininos, fui pra rua lutar contra a carestia, pedir eleições diretas para presidente e outras questões políticas mais. No entanto, hoje avalio que houve um descontrole social, um descontrole das famílias, os vínculos são outros, as famílias muitas se desfizeram e os lares já não são os mesmos.

Muitas mulheres ainda não sabem o que fazer com a liberdade conquistada e metem os pés pelas mãos. Não sabem o sentido da luta feminina ao longo dos séculos. Deturparam a luta e se vulgarizaram se expondo como uma mercadoria à venda num balcão de negócios. Elas confundem ou se deixaram levar pelo apelo machista da vulgarização e da superexposição.

Obtive informações indicando que algumas meninas da classe média de União dos Palmares vão para os programas em troca de quase nada: uma bolsa da moda, uma calça jeans cara, um jantar mais sofisticado. Pela luxúria e o consumismo desesperado se entregam como se fossem um quilo de carne no açougue.


(Esse texto publiquei pela primeira vez em meu primeiro blog em 13/04/2008, mas ele está tão atual que resolvi republicar. no link http://oc-cerqueira.zip.net/arch2008-04-01_2008-04-15.html

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