segunda-feira, 30 de junho de 2014

Perdidos no tempo...

Olívia de Cássia Correia de Cerqueira

Um poema, uma bebida quente, uma saudade,
Uma lembrança, uma paisagem deslumbrante,
Um horizonte imaginário, sem fim.
No campo as flores se desnudam
Para uma nova estação.
Onde anda a juventude de outrora?
Um pensamento, uma saudade.
Cadê meus sonhos juvenis?



Com saneamento, Alagoas pode criar 3.896 novos empregos

Fotos: Sandro Lima
Estudo revela que R$ 45,69 milhões em renda poderiam ser gerados, principalmente nos polos turísticos

Olívia de Cássia – Repórter

O estudo 'Benefícios da Expansão do Saneamento Brasileiro', divulgado no mês de março último, realizado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento (CEBDS) e o Instituto Trata Brasil, concluiu que a precariedade no setor deixa de criar 139.836 empregos no Nordeste e R$ 1.332,48 milhões em geração de renda na região. Segundo a pesquisa, especificamente no Estado do Alagoas seriam criados 3.896 postos de trabalho e gerados R$ 45,69 milhões em renda se houvesse mais cuidado com o saneamento básico das cidades, principalmente nos polos turísticos.

O objetivo do Instituto foi ter um estudo onde fosse possível conhecer a real situação da construção dos Planos Municipais de Saneamento Básico nas 100 maiores cidades. “Escolhemos as maiores cidades pelo fato de elas terem mais recursos financeiros e técnicos para atender os prazos da lei. Infelizmente, os resultados mostraram que mesmo as grandes cidades ainda precisam avançar muito”, observa Edison Carlos, presidente executivo do Instituto Trata Brasil.

Segundo Edison Carlos, o Brasil possui 1,7 milhão de trabalhadores diretamente ligados ao turismo, sendo 277 mil no Nordeste (dados de 2013). “A universalização do saneamento ajudaria na criação de quase 500 mil novos empregos em turismo em todo o país, 140 mil no Nordeste”, destaca.
Segundo a presidente do CEBDS, Marina Grossi, a universalização do saneamento possibilitaria um incremento expressivo dos negócios de turismo em áreas que hoje estão degradadas por conta da poluição ambiental pela ausência de coleta e/ou tratamento dos esgotos e não atraem turistas locais ou estrangeiros.

ALAGOAS


O estudo pontua que, em 2013, Alagoas possuía 16,5 mil empregos no turismo e poderiam ser criados mais quatro mil se o Estado universalizasse o saneamento. “Melhores condições de balneabilidade nas águas, melhora na qualidade dos recursos hídricos e praias tendem a atrair mais turistas, necessitando mais hotéis, pousadas e restaurantes”, ressalta.

Marina Grossi observa que a precariedade do saneamento básico no Brasil se reflete, principalmente, em comprometimento da saúde e da qualidade de vida das pessoas. “A poluição dos recursos hídricos também reduz e encarece nossas águas, prejudicando diversos setores da economia além de implicar em queda de produtividade que afeta trabalhadores e estudantes”, pontua.

Segundo Marina Grossi, o estudo levou em consideração as oportunidades e ganhos em saúde, educação, produtividade, turismo e valorização imobiliária advindas dos investimentos em saneamento básico e destaca que em um ranking de 200 países, o Brasil está em 112° em saneamento básico. “Ainda que tenha havido, sim, avanços no saneamento brasileiro, é incompatível a 7° maior economia do mundo e a 5° maior população amargar essa posição”, destaca Grossi. 

População precisa ter acesso à água tratada, coleta e tratamento de esgoto

Por saneamento básico universal Marina Grossi classifica que toda a população brasileira tenha acesso à água tratada, coleta e tratamento de esgoto, garantindo condições básicas para o desenvolvimento humano e o desenvolvimento sustentável de todo o País.
A presidente do CEBDS destaca que há dois fatores principais a serem observados: “Primeiramente, há uma série de empecilhos técnicos e burocráticos que impedem que o montante total destinado ao saneamento de fato se transforme em projetos; ou seja, por falta de viabilidade técnica, demora e confusão dos processos e até falta de vontade política uma boa parte do montante aplicado não se transforma em realidade”, descreve.
O segundo fator observado por Grossi é a falta de visão global do saneamento: “É ainda pouco claro aos que detêm as decisões as muitas vantagens inerentes à universalização do saneamento, seja por uma perspectiva de atendimento e satisfação da população – que por si já justificaria o investimento –, até pela diminuição de gastos em saúde, aumento da produtividade e da escolaridade, entre outros pontos”, avalia.

Parcerias e conscientização são apontadas como indicadores para mudança da realidade



Para mudar positivamente esses índices avaliados pelo estudo, Marina Grossi entende que uma boa opção são as parcerias público-privadas (PPPs), que vem dando mais agilidade e flexibilidade às obras e operações de saneamento básico. Além disso, a conscientização da opinião pública, da população e do setor produtivo é ponto fundamental para que haja a pressão necessária para ação dos gestores públicos.

O estudo do CEBDS avalia ainda que, com a universalização do saneamento básico, haveria um ganho na renda média por trabalhador de 9,1 %. Este incremento na renda poderia aquecer a economia do Nordeste e aumentar a qualidade de vida de todos na região.

“Em termos relativos, considerando o total de residências da região, o déficit de coleta de esgoto atingia, em 2010, duas em cada três moradias. Esta precariedade nos serviços de saneamento implica diretamente na qualidade de vida da população, aumentando os gastos com saúde, por conta das doenças vinculadas à ausência de esgotamento sanitário adequado”. Com saneamento adequado, segundo avalia, o número de internações por doenças gastrintestinais cairia em 23% e geraria uma economia de R$ 14,3 milhões para o SUS”, avalia.

Mariana Grossi informa que o estudo ‘Benefícios da Expansão do Saneamento Brasileiro’ busca atingir  todos os setores da economia, dada a importância estratégica que o avanço do saneamento básico representa para o Brasil. “Assim, o CEBDS espera que esta publicação amplie o conhecimento e o debate sobre o tema, colocando a universalização do saneamento como uma das prioridades da sociedade brasileira como um todo”, explica.

 Saneamento básico no Brasil não é prioridade e ainda falta muito para ser o ideal

Um dos problemas mais reclamados pelo setor turístico e hoteleiro no Estado são os esgotos a céu aberto nas praias, as chamadas línguas escuras.  O presidente da Companhia de Saneamento de Alagoas - Casal  - Álvaro Meneses, disse que o saneamento básico no Brasil ainda não é prioridade e que apesar de o governo federal estar investindo no setor, ainda falta muito para ser o ideal.

Álvaro Meneses pontua que o problema dos esgotos nas praias não é só de Maceió, mas de todo o Brasil. “O governo federal tem o poder de liberar recursos e não tem sido assim parceiro no setor de saneamento, mas tem ajudado”. Segundo ele, os esgotos a céu aberto nas praias precisam de manutenção permanente do sistema - principalmente da Ponta Verde Pajuçara e Jatiúca, pontos turísticos da capital.

“A Casal está investindo este ano, com recursos próprios, aproximadamente um milhão de reais, que corresponde a fazer uma limpeza completa no trecho que vai da Praça Lions até a Praça 13 de Maio. Com isso, a gente já teve uma melhoria significativa; o esgoto estava correndo na rua, em frente a alguns restaurantes do bairro da Jatiúca; houve uma redução dos problemas que a gente tinha naquela bacia”, destaca.

No Estela Maris, segundo o presidente da Casal, também foi feita a manutenção: “A gente também não encontra mais esgoto lançado na rua; isso acontecia em função da obra que não foi concluída. No Posto Sete, também vai ser resolvido o problema; em Cruz das Almas só vai ter jeito quando houver esgotamento na Bacia por trás da Fits (Faculdade Integrada Tiradentes), na grota do Arroz”, observa.

PROJETOS

Segundo Meneses, o Governo do Estado tem realizado projetos de esgotamento sanitário em áreas turísticas de Maceió como Cruz das Almas, Pajuçara, com recursos do PAC, gerenciados e executados pela Secretaria Estadual de Infraestrutura, num investimento de aproximadamente R$ 100 a 120 milhões de reais. “Essas obras ainda não foram concluídas, mas até agosto ou setembro, deverão ser, para poder atender a toda aquela região até o shopping novo onde ainda não há esgotamento sanitário”, observa.

Álvaro Meneses explica que a demora na conclusão da obra ocorreu porque a empresa contratada entrou em processo de falência, numa briga contra o Estado e faltando 5% para terminar, não pôde mais concluir. “O estado teve que contratar outra empresa, em regime extraordinário, que começou o trabalho agora em abril de 2014. Essa obra representa um acréscimo de percentual de população atendida em mais 10% ao que já tem hoje, 36% e com essa obra a gente chega a aproximadamente 45% a 46%”, avalia.

Seinfra informa que governo quer chegar a 60% de cobertura no esgotamento

O secretário de Estado da Infraestrutura, Marcos Antônio Cavalcanti Vital, reconhece os problemas na questão do saneamento, mas observa que desde 2007 o Governo do Estado tem investido em saneamento básico, com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento – PAC, do governo federal.  “Cerca de 1,5 bilhão foi (ou vem sendo) investido em saneamento no Estado. Atualmente, as obras em andamento nesse setor equivalem a quase um bilhão de investimento (incluindo esgotamento, abastecimento e drenagem de água)”, observa. 

Segundo o secretário, não tem como mensurar quantas moradias ainda não têm acesso ao saneamento em Alagoas, mas a porcentagem de alcance do saneamento básico aponta um salto de 15% para 40% em todo Estado e de um alcance de 60% em Maceió em 2014, chegando a 80% em 2016.

Vital observa que a cobertura da rede de esgotamento sanitário de Alagoas atingiu índices históricos nos últimos sete anos, passando de 15% para 40%. “Em Maceió, a abrangência do sistema de esgoto praticamente dobrou, devendo chegar a 60% de cobertura até o final de 2014, atingindo 80% até 2016, com as novas obras executadas pela Seinfra e pela Casal”,  afirmou.

Mais de R$ 610 milhões estão sendo investidos em esgotamento na capital e municípios, segundo o secretário. Os recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)  envolvem obras de ampliação e melhoria na estrutura de esgoto e água,  que incluem estação de tratamento de esgoto, interceptores, estações elevatórias de esgoto, linhas de recalque e redes coletoras de esgoto.

Hotéis alagoanos receberam 756.714 turistas, em 2013

Apesar das reclamações de muitos turistas que vêm a Alagoas com relação aos esgotos jogados no mar, o setor de turismo no Estado vai bem e não tem muito do que reclamar. Segundo um levantamento divulgado pela Secretaria Estadual de Turismo, os hotéis alagoanos receberam no ano passado 756.714 turistas, 20,19% a mais que em 2012. Segundo a pesquisa, durante todo o ano de 2013, a rede hoteleira alagoana obteve uma taxa de ocupação média de 71,9%, cerca de 5% superior a do ano anterior e acima da média nacional, que é de 60,3%.

Os meses de janeiro, julho e outubro tiveram resultados ainda melhores, com médias superiores a 80%.  A Setur informou que o turista que vem ao Estado para lazer gasta, em média, 170 reais por dia. A taxa de ocupação dos hotéis alagoanos nos primeiros meses do ano foi a seguinte: em janeiro: 87,0%; fevereiro: 74,0%; março: 77,8%.

Consultada sobre o estudo a respeito do saneamento básico, a Associação Brasileira das Indústrias de Hotéis de Alagoas – Abih, por meio de sua assessoria, preferiu fazer uma avaliação após as eleições para não ter um entendimento de preferência partidária; além do estudo ser extenso para uma avaliação neste momento.

A assessoria da Abih\AL também informou que, em contrapartida, o trade turístico está elaborando uma lista de reivindicações para os três primeiros candidatos a governador,  ato este que acontece em toda a eleição.

Brasil quer universalizar serviço de saneamento básico até 2030

O Brasil quer universalizar o acesso aos serviços de saneamento básico como um direito social até 2030, contemplando os componentes de abastecimento de água potável, esgotamento sanitário, limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos, e drenagem das águas da chuva. É o que prevê o Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab), que está em consulta pública até 3 de setembro.

Entre as metas previstas estão a instalação de unidades hidrossanitárias em todo o território nacional até 2030, o abastecimento de água potável nas áreas urbana e rural das Regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste, e a erradicação dos lixões até 2014. Até o fim do prazo, propõe-se abastecimento de água potável em 98% do território nacional, 88% dos esgotos tratados e 100% dos resíduos sólidos coletados.

O plano, instituído pela Lei nº 11.445/07, prevê investimentos na ordem de R$ 420 bilhões para populações urbanas e rurais do País, sendo 60% do governo federal e 40% de estados, municípios e iniciativa privada. Desse total, R$ 157 bilhões vão para esgotamento sanitário, R$ 105 bilhões para abastecimento de água, R$ 87 bilhões para melhoria da gestão no setor, R$ 55 bilhões para drenagem e R$ 16 bilhões para resíduos sólidos.

domingo, 29 de junho de 2014

Meu tio Júlio e o mobiliário de vovó Olívia


Olívia de Cássia - jornalista

Meu tio Júlio Paes de Siqueira, irmão mais novo de mamãe, foi muito discriminado pela nossa família. Ele não tinha o jeito carrancudo do meu avô. Suas feições eram finas, nariz afilado, bom caráter, e era muito compreensivo com as pessoas. Era um homem pacato, pálido e doente, desprovido de vaidade e de preconceitos raciais, tanto que foi morar com uma mulher negra, o que causou a rejeição de toda a nossa família.

Sem profissão definida, tio Júlio transportava carvão no lombo de um burro do sítio para União dos Palmares, nos dias de feira do município. Ele não teve instrução escolar ou, se teve, foi muito pouca, da mesma forma que meus tios e meus pais, que só aprenderam as primeiras letras e as primeiras somas da tabuada. Tio Júlio era um homem bom e compreensivo, lembro muito dele, com saudade.

 Eu percebia que a minha avó Olívia ficava desgostosa pelo fato de viver afastada do filho caçula, mas os irmãos, a minha mãe e meu avô Manoel rejeitavam a mulher com quem ele morava. Ela teve dois filhos do meu tio: José Maria e Lúcia, que só fui conhecer quando já estavam garoto.

Quando ele foi morar no Rio de Janeiro nasceu outro filho, Cacau, mas não tivemos aproximação. Anos mais tarde, nasceu uma grande amizade entre José Maria e eu, embora vivamos afastados geograficamente. De vez em quando trocamos telefonemas longos ou mensagens na internet falando das novidades e fazendo intercâmbio das notícias dos nossos familiares. Zé Maria é uma pessoa muito decente.

Com Lúcia eu não tive muito contato, pois fomos criadas muito distantes uma da outra, devido a esses preconceitos e questões familiares, mas outro dia mantivemos contato numa rede social, que tem me servido para encontrar vários familiares distantes.

Vovó Olívia mantinha um quarto simples, mas limpo e preparado para quando tio Júlio chegasse pudesse fazer pernoite lá, na casa da Rua da Ponte. Era o segundo quarto do imóvel: uma camarinha, como vovó chamava, composta de apenas uma cama de catre e colchão de capim e um baú enorme, onde minha avó guardava alguns pertences: lençóis, panos de pratos e outros objetos do uso diário.

Tio Júlio morreu em União, época em que estava morando com meus pais. Sofria de baço e cirrose; tinha a chamada barrida d’água como é chamada no interior a doença provocada pela esquistossomose, causada por um verme, o Schistosoma mansoni, que ataca o fígado e o intestino do homem.

A pessoa doente que traz os vermes em suas fezes, quando faz suas necessidades fisiológicas próximo de rios, açudes ou lagoas, poços ou riachos, liberam essas larvas, que entram nos caramujos existentes nas águas. Alguém que a beba, tome banho, pesque ou que use estas águas se contamina, pois as larvas entram no homem pela pele. Da mesma forma que na roça não tinha saneamento básico e meu tio vivia metido nessas águas, contraiu a doença. 

O mobiliário da minha avó era muito rústico e simples. Na sala ficava armada uma rede, onde eu costumava me balançar com minhas bonecas; duas cadeiras pretas comuns da mesa e a famosa espreguiçadeira do meu avô acompanhada de uma escarradeira. 

No primeiro quarto tinha apenas uma cama de casal e dois baús enormes, onde ela colocava seus vestidos floridos e as roupas de uso diário do meu avô. O guarda-roupa não cabia no quarto e ficava na sala de janta, compondo com a velha mesa e o petisqueiro, espécie de guarda-comida, onde era guardada a louça da casa. 

Além dessa simples mobília, tinha um tripé de ferro com uma bacia cheia de água, para a limpeza das mãos, uma pequena mesa onde era colocada a quartinha de barro, os copos e os remédios de uso diário, para reumatismo, que minha avó chamava de “meisinha”, além do Biotônico Fontoura, que meu avô tomava todos os dias, religiosamente. 

O piso da casa era de tijolo batido e bem mais baixo que a calçada. As portas da frente e dos fundos eram antigas, daquelas que se costuma observar em cidades históricas do Brasil, a exemplo de Marechal Deodoro, em Alagoas, tudo na cor verde. Eram divididas em duas partes de madeira, com duas janelas na frente e uma nos fundos. 

A residência dos meus avós não tinha instalação sanitária, como a maioria das casas da Demócrito Gracindo, naquela época, e as necessidades fisiológicas eram feitas no penico e jogadas numa lagoa, braço do Rio Mundaú, que ficava localizada no quintal das residências, do lado esquerdo de quem entrava na Rua da Ponte. 

Na cozinha estavam colocados mais dois baús pequenos, de jacarandá, uma mesa, uma prateleira, o pilão de pisar o café caseiro, que vovó torrava num grande tacho de cobre e um grande fogão movido a carvão onde dona Olívia cozinhava os alimentos e meu avô Manoel preparava o café que bebia o dia inteiro.

Era uma chaleira à beira do fogo, o dia todo, esquentando e requentando aquele café, porque vovô não tomava água e dizia que água era só para tomar comprimido, quando precisasse. Foi com ele que adquiri dois hábitos considerados hoje “politicamente incorretos”: tomar café e fumar, hábito que alimentei por muito tempo. 

O acesso ao quintal da casa era por meio de uns degraus; ao lado dos degraus tinha uma ladeirinha onde eu gostava de brincar de escorrego, enquanto meu avô regava os pés de laranja ali plantados. Vovó Olívia criava alguns patos, que recebia de presente dos seus vizinhos, seu Damásio e dona Paulina. Seu Damásio era amigo do meu avô e fazia foguetes e outros artefatos de pólvora. 

Vovó fazia deliciosas paneladas com aqueles patos, que comíamos com farofa d’água e arroz branco. Era uma das especialidades dela. Minha avó gostava de animais e possuiu um gato preto, trazido do sítio, que tinha uma manchinha branca no pescoço. O gato se chamava Mimi e depois que vovó se foi, o bichano desertou e nunca mais o vimos. 

Dos cinco baús que pertenceram a minha avó Olívia, eu fiquei com um, onde guardo antigas fotografias. Além do pequeno baú, “herdei” um par de brincos de ouro do Juazeiro e meu avô me deixou um broche com um desenho de São Braz, que ele afirmava livrar a pessoa de morrer engasgada. 

Quando meus avós precisaram viajar para o Rio de Janeiro, no final da década de 60, para que vovó se submetesse a uma cirurgia de catarata, eu sofri muito. Achava que não fossem voltar mais. No dia da viagem fiquei muito triste, amuada, porque também queria viajar na companhia deles. No meu desespero de criança, corri para a mercearia do meu pai, peguei um pedaço de papel de embrulhar pão e coloquei minhas poucas roupas, afirmando que também ia viajar. 

Eu acreditava que tudo era muito simples, não entendia dos trâmites burocráticos para se fazer uma viagem e na hora em que o ônibus estacionou em frente à nossa casa da Rua da Ponte, para que eles embarcassem, caí em prantos e meu avô também chorava. Depois de crescida fiquei sabendo, pelos meus tios, que durante a viagem ele chorou muito, preocupado com o meu estado emocional. 

No retorno da viagem, meu avô trouxe dois joguinhos de panelas de plástico, com cores diferenciadas. Um para mim e outro para a minha prima Rita, além de várias panelinhas de alumínio, que eu tinha muito ciúmes. 

Os brinquedos que eu recebia de presente eu mantive conservados até os 17 anos, idade em que ainda brincava de bonecas, muitas vezes na rua, em frente à casa da minha nova amiga Yelnya Cardoso, na Praça Antenor de Mendonça Uchôa. Só me desfiz das bonecas e dos brinquedos, doando-os à minha prima Ana Mariette, filha de Sônia e Marcelo, quando comecei a namorar mais sério.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

A política e seus meandros



Olívia de Cássia - jornalista

A política é cheia de meandros e de situações ininteligíveis muitas vezes;  tem uma face nojenta, de acordos espúrios de virada de lado, de opiniões que não se sustentam e outras características que vou aqui ocultar para não ser indelicada.

Sempre circulei nesse meio, desde criança, influenciada pelo meu pai que era um apaixonado por isso; para ele época de eleição era uma festa e se fosse vivo e lúcido agora, avalio que sua empolgação já teria acabado.

Eu não quero e nem vou entrar na discussão rasteira de difamar e enxovalhar quem quer que seja por aqui,  em época de eleição: seja de direita, de esquerda, de centro, feio, troncho, bonito de olhos azuis ou de outras qualidades e defeitos, mas causa-me espécie algumas aparições na mídia.

E vou logo dizendo que tenho meus candidatos, mas está difícil de a gente escolher o’ menos ruim’. Este senhor, que é candidato ao Senado à reeleição, eu não digo com soberba, jamais, como diria minha mãe, não teria meu voto em circunstância nenhuma, nem para síndico de prédio: ele e outros mais. Perdoem-me minha franqueza os seus partidários, idólatras e aqueles que negociaram sua dignidade e seus mandatos.

Eu não teria como votar numa criatura que ‘foi o responsável’ pelo agravamento do estado de saúde da minha querida tia Ozória, irmã mais nova de mamãe, que veio a falecer com a agravamento de seus problemas de saúde, vitimada pelo confisco da sua poupança, que ela tinha acabado de fazer um depósito, por conta de uma casinha que tinha vendido em União. 

Eu não esqueço desse fato que quase levou-a à loucura. Mas não é por essa questão apenas de afetividade; é uma questão de princípio mesmo. E nesse contexto, quero declarar minha indignação quando vejo postagem nas redes sociais de lideranças políticas alagoanas enaltecendo ‘qualidades’ e a ‘importância’ de tal  sujeito para a República.

Francamente, me dá vergonha; sempre tive meus ideais e embora a maior parte deles tenha se perdido no tempo, por conta das decepções que venho acumulando, ainda guardo comigo um pouco de dignidade e coerência.

E peço novamente desculpas àqueles que discordarem de mim, pois o contraditório faz parte da democracia. Mas para os mais jovens que não têm conhecimento da história política do País, recomendo o livro “Passando a Limpo, a trajetória de um farsante’, livro de Pedro Collor de Mello e a jornalista Dora Kramer, que  traz tudo o que as pessoas precisam saber, para quem não sabe ainda ou já esqueceu; infelizmente eu emprestei o meu e não devolveram.

E como disse o jornalista Augusto Nunes em sua coluna, Elle continua o mesmo, ninguém se engane. Os brasileiros que votaram no candidato a presidente fantasiado de caçador de marajás podem alegar que não sabiam o que estavam fazendo".

"Os alagoanos que votaram no candidato a senador em 2008 e prettendem recolocá-lo sabem perfeitamente o que fazem. Quem gosta da ideia de reprisar o pesadelo é um caso clínico. Quem assiste passivamente ao seu recomeço merece experimentá-lo de novo”, diz Nunes. Fica a dica para refletir nessa tarde. .  

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Sem explicação

Olívia de Cássia – jornalista

A gente já sabe o que vai ouvir do médico, tem a certeza e consciência do problema, mas quando escuta a informação, dá uma tristeza danada, pode acreditar, não é autopiedade, não. Fui atendida no começo da tarde por uma neurologista e ela, além de lembrar e destacar todos os inconvenientes da ataxia, me confirmou que ainda não tem remédio, depois de eu fazer um relato do que é conviver com o problema e dizer que tenho pesquisado sobre a doença.  

Em 2005 eu escrevi meu primeiro sobre a ataxia e o que é conviver com ela. O texto foi uma solicitação de Priscila Fonseca,  presidente da Associação Brasileira dos Portadores das Ataxias Hereditárias e Adquiridas, para fazer parte de um livro sobre os portadores do problema e seus familiares.  

Naquela época, meu problema ainda não tinha se agravado e os sintomas eram leves: foi logo após eu ter uma crise emocional, provocada pela minha separação, que me levou à depressão. Muita gente na minha idade, inclusive vários parentes meus, já não consegue se locomover sem a ajuda de um andador ou de uma cadeira de rodas, devido aos tombos e quedas que são frequentes.

Ultimamente já sinto os sintomas se agravarem, mas não faço mais disso um cavalo de batalha. Logo que me certifiquei ser portadora de DMJ (Doença de Machado Joseph) eu fiquei entristecida, embora já desconfiasse por ter acompanhado meu pai e meu irmão e muitos dos meus parentes.

Não sou hipócrita ao ponto de dizer que esse problema não me afeta, porque não estaria sendo verdadeira, pois as limitações que se apresentam em meu corpo já não me permitem alguns movimentos mais ousados. Mas hoje em dia encaro a vida de forma diferente e sigo aquela máxima de tentar aproveitar, na medida do possível, ainda, o que eu puder, pois não sei por quanto tempo ainda vou poder fazê-lo.

Se  esse momento fosse em outras épocas eu estaria agora em prantos, desdizendo do mundo e da minha sorte, mas tenho que agradecer a Deus por ainda poder caminhar, embora que de forma cambaleante e poder ver o sol. Tenho tido a sorte de também a minha fala ainda não ter sido comprometida; mas as quedas e os tombos aumentaram, assim como os engasgos e outros problemas.

Para muita gente, a ataxia (DMJ) é ainda um mistério. No nosso núcleo familiar todos só a conheciam como “a doença da família” ou  a “maldição da família Siqueira/Cerqueira\Correia” e há bem pouco tempo é que descobrimos o nome científico. É uma doença rara e segundo os cientistas teve início na Ilha dos Açores, em Portugal; na nossa família os casamentos consanguíneos se deram de forma desordenada e isso contribui com a descendência.  

Na internet é fácil a gente encontrar links e comunidades de piadas que foram criados por atáxicos com a finalidade de tornar o nosso dia-a-dia mais digerível, ameno e menos pesado e é isso que tenho tentado fazer.  A internet nos trouxe muitas facilidades porque podemos trocar informações com outros portadores da doença em comunidades como o Facebook, grupos como o Ataxia net no Yahoo e outros.

Quem convive diariamente com um portador de ataxia, no estágio mais avançado, sabe do que eu estou falando. Há muito preconceito ainda na sociedade para com as pessoas que têm esse problema, tanto que muita gente esconde a doença e diz que é apenas uma labirintite.

Não preciso de teste genético, molecular, para saber que eu fui uma ‘escolhida’. Convivi com meu pai, acompanhei tudo de perto e tenho consciência dos meus sintomas e limitações, mas não é nada fácil conviver com isso. 

As festas juninas

Olívia de Cássia - jornalista

Festa junina de antigamente tinha pamonha, canjica, brasileiras, milho assado e muita animação. Era um tempo em que a gente costumava se reunir e aproveitar o que tinha de melhor.  Este ano o São João passou e quase nem lembro que era dia. Sem fogueiras, sem chuvinhas e sem animação e no trabalho.

No interior os festejos dessa época sempre eram comemorados com muita alegria. Lá em casa minha mãe se desdobrava entre os afazeres domésticos corriqueiros e a correria para providenciar o milho e garantir as pamonhas e as outras comidas típicas, que o meu pai gostava.

Era um clima animado, mas eu fugia das responsabilidades sempre que podia. Nunca me adaptei às tarefas domésticas, reconheço,  e o pouco que fazia não era de muito gosto. Para fazer as pamonhas minha mãe se valia da ajuda do meu irmão Petrônio José para ajudá-la a amarrar.

Eu sempre tive minhas falhas também nesse campo e preferia ler, fazer palavras cruzadas, ou estar na companhia dos amigos, enquanto minha mãe cuidava com todo o esmero da casa e da nossa alimentação.

Depois que o tempo passa, a gente vai perdendo a família e com ela as nossas referências. No dia de São João, a única coisa que lembrou que era festa junina foi a programação da televisão e o noticiário. Afora isso, cheguei do trabalho, tudo era silêncio na rua onde moro e fui dormir.

Liguei o rádio do celular na Rádio Educativa FM, como faço todos os dias e ouço gostosas músicas regionais que me reportaram às doces lembranças da minha infância e juventude em União dos Palmares, quando os compromissos eram poucos e o divertimento estava sempre presente.

Lembranças da Festa do Milho, Femil, na administração do primo Afrânio Vergetti, que fez tanto sucesso na região e atraia gente de todo o canto. Pelo menos os bons forrós me levaram à Praça Basiliano Sarmento e em pensamentos vou lá, revejo os queridos amigos se divertindo, batendo gostosos papos e saboreando guloseimas diversas.

E tenho ido mais longe nas minhas lembranças, nos forrós do Santa Maria Madalena, às nossas quadrilhas estilizadas, as fogueiras na Barriguda, Rua da Ponte, o forró da Palmarina, e volto à Praça Basiliano Sarmento.

Músicas de Luiz Gonzaga, Alceu Valença, Elba Ramalho e tantos outros bons forrozeiros que animavam a nossa festa. Lembrança dos amigos que já não estão nesse plano e que tanto apreciavam esses festejos.

Nossa cultura tem muita beleza, nossa região é riquíssima de valores, da agricultura à culinária e manifestações culturais. É muita fartura na agricultura nessa época do ano, no Sertão e em outras partes do Estado, apesar das dificuldades.

Muito milho, feijão de corda, carne de bode e outros produtos mais. Lendo sobre esse tema,  a gente fica pensando que poderia ser assim o ano todo, com muita fartura para o povo da roça. Se fosse assim o ano todo, não existiria o êxodo rural para as grandes cidades e talvez a miséria e a violência no País não fossem tão acentuadas. 

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Aumenta a procura por escolinhas de futebol em Maceió, por conta da Copa

Fotos: Santos Lima

Pais e mães de alunos incentivam filhos a praticarem o esporte na esperança de vê-los se tornarem craques do futebol

Olívia de Cássia – Repórter

A procura pelas escolinhas de futebol em Maceió aumentou de 10 a 15%: o aumento se deve à  Copa do Mundo, que desperta nas crianças ainda mais a paixão pelo futebol. Na Escolinha Arena da Serraria, o professor Ibson Costa ensina sete turmas: quatro delas segunda e quarta e mais três turmas às terças e quintas e uma de preparação de goleiro às sextas-feiras.

Com a realização da Copa no Brasil ele explica que houve uma aparição maior de alunos à procura pelo esporte e dos pais também. “A procura é constante: o pai que tem um menino sempre sonha que o filho seja um jogador de futebol; a gente tem turmas a partir dos três anos, que se iniciam com a parte lúdica, brincadeiras voltadas para o futebol, pega pega com bola, que inclui a criança diretamente ao jogo”, observa.

Segundo Ibson Costa, cada turma da Arena da Serraria tem 15 alunos; a escola tem alunos dos três aos 17 anos e essa turma de adolescentes tem convênio com outro time. “A gente está jogando no Campeonato Alagoano e jogou com o CRB, foi considerado até melhor pela imprensa; não cansou, devido ao nosso treinamento aqui, que tem um destaque na parte de preparação física e também porque a gente tem um time muito qualificado: temos quatro canhotos e o time já se sobressi por isso”, explica.
Na Escolinha Arena da Serraria,
o professor Ibson Costa ensina sete turmas

O professor pontua que seus alunos se espelham em jogadores como Neymar Júnior,
Daniel Alves, Huck, Júlio César, entre outros da seleção brasileira. A escolinha de futebol tem apenas um ano e já comemora a procura dos alunos e pais.

A escola tem time sub-15, que jogará no campeonato promovido pela TV Gazeta: “Participamos do campeonato Sesc-TV Gazeta, no Juvenil; saímos nas quartas-de-final, na primeira participação e ficamos entre os 16 melhores dos 64 clubes. É um feito muito grande, porque é difícil chegar logo de cara e vencer”, argumentou.

O proprietário da escola, Nelito Rocha, conta que faz um trabalho social inserindo crianças da comunidade nas atividades que eles desenvolvem: “São mais de 30 crianças que a gente faz um trabalho, tanto da parte educacional quanto de fundamento, para fazer com que eles interajam e saiam um pouco das ruas, do convívio com a malandragem e estejam sempre aqui”, destaca.

Nelito Rocha explica que algumas crianças da comunidade chegaram com um comportamento agressivo, mas mudaram depois que interagiram com a escola. “Tivemos alunos que chegaram com um comportamento um pouco agressivo e com o convívio conosco e com o futebol conseguimos fazer com que eles mudassem de comportamento; até os pais já observaram isso e elogiaram”, ressalta.

proprietário da escola, Nelito Rocha,
 conta que faz um trabalho social
 inserindo crianças da comunidade 
 Cristiano Caxias, pai de um dos alunos da escola, disse que o filho despertou para o futebol porque via tios e outros membros da família brincando e ele mesmo quis: “Todo mundo lá em casa gosta de futebol e o incentiva, porque é importante no desenvolvimento e disciplina”, destaca.

Maria Neuza Santos mora no José Tenório e estava na escola acompanhando o filho de oito anos no treino de futebol; ela disse que ele fica todo animado com a Copa e entrou na escolinha tem seis meses, mas já jogou em várias outras e que não para de treinar quando chega ao bairro onde mora.

“Por eu não ter tempo de levá-lo para outras escolas mais longe, eu o trouxe aqui. Acho muito importante que ele pratique futebol, porque é uma coisa que ele gosta e é bom para a saúde e eu incentivo. Ele é apaixonado e no dia que não vai para o treino, chora e briga comigo; aí mando ele jogar na quadra do conjunto que tem um rapaz voluntário que ensina. Ele já disse que vai ter  campeonato e que vai participar, quem sabe o futuro se ele não vai ser um craque”, sonha dona Maria Neuza.

O gerente geral da escolinha do Corinthians alagoano, Marcos Túlio, confirma à reportagem da Tribuna Independente que a procura pelas aulas de futebol, com relação ao ano passado,  aumentou de 10 a 15%.  A escolinha tem turmas de 7 a 13 anos: “Duas pela manhã e duas à tarde. São alunos que os pais matriculam mais para brincar, fazerem atividades físicas e ocuparem o tempo. Aos sete anos, as atividades são mais na parte educacional, lazer e induzir a criança para a atividade física”, conta.


Segundo ele, o objetivo da escola é educar, em primeiro lugar. Com relação às chances dos atletas que treinam cedo a chegarem a ser um jogador de futebol, ele pontua que é muito relativo: “Qualquer esporte que se começa cedo, a perspectiva é maior, devido à experiência adquirida. Às vezes o pai tem o sonho de ter um filho jogador de futebol porque o sonho é dele”, finaliza sorrindo.  

domingo, 22 de junho de 2014

Artesãos do barro exportam cultura alagoana para o mundo

Seu Antônio e dona Irinéia,
 uma parceria que vem de longe (Foto: Olívia de Cássia)
Tradição está ameaçada, em União dos Palmares, caso não seja criado um incentivo para que haja continuação dessa arte 

Olívia de Cássia – Repórter

Uma arte que resiste às intempéries do tempo é exportada para o mundo pelas mãos de Dona  Irinéia Rosa Nunes da Silva, seu Antonio Nunes e dona Marinalva, artesãos do povoado quilombola do Muquém, em União dos Palmares. Eles sobrevivem da confecção de peças e indumentárias de barro que retratam o dia a dia da comunidade e sua religiosidade.

Dona Irinéia Nunes, aposentada,  67 anos,  é reconhecida em toda parte do País e foi reconhecida pelo Governo como patrimônio imaterial do Estado. Patrimônio Cultural Imaterial é uma concepção que abrange as expressões culturais e as tradições que um grupo de indivíduos preserva em homenagem à sua ancestralidade, para as gerações futuras.

Por ter recebido essa honraria, os artesãos do Muquém recebem uma bolsa-incentivo, mas atualmente o pagamento está em atraso de mais de três meses, segundo a reportagem apurou no dia da matéria.


A artesã de vida simples vive com a família, descentes dos quilombos, desde que nasceu e segue a tradição de seus avós, mas reclama que seus filhos e netos não querem dar continuidade à arte do barro e a tradição está ameaçada em União dos Palmares, caso não seja criado um incentivo para que haja continuação dessa arte. 

“Eles não querem aprender; só querem estudar e eu não posso pegar ninguém para fazer nada a pulso. Vou fazendo aos poucos mais meu velho e agora tenho uma cunhada trabalhando mais eu, porque eu sozinha não aguento trabalhar o dia todo, sentindo uma dor no osso dos quartos e quando eu passo muito tempo sentada me prejudica”, explica.

RECONSTRUÇÃO

Um hotel de São Paulo encomendou 300 unidades
das cabeças feitas pela artesã que veio do barro
(Foto: Olívia de Cássia)

Atualmente com problemas de audição,  Dona Irinéia Rosa Nunes da Silva destaca que vai receber um aparelho de audição, pois está com problema nos dois ouvidos. Ela ressalta que paga R$ 50 à sua cunhada para que ela ajude na parte mais rústica do trabalho, por conta das dificuldades físicas próprias da idade. 

“Pago a minha cunhada R$ 50, para ela fazer a conchinha  e o nariz e o restante eu faço e fico satisfeita, porque se não fosse ela, não sei como seria”, explica. O Muquém foi um dos locais atingidos pela enchente de 2010, que derrubou e danificou várias residências do local.

O Programa da Reconstrução do governo construiu no povoado 120 casas para pessoas da comunidade que ficaram desabrigadas, mas segundo informações, 27 casas foram invadidas por pessoas que não são desabrigados quilombolas da região. 

A artesã palmarina conta que tem recebido muitas encomendas de sua arte. As peças da têm preços módicos se comparado à importância da arte de dona Irinéia Nunes: “Tem peça que é vendida por R$ 20, tem outras de R$ 25. Tem um dois meses que aumentou a procura por cabeça (uma peça de barro exclusiva dela). Tenho uma encomenda de 300 cabeças para um rapaz de São Paulo, acho que é de um hotel. Tenho peças expostas em vários estados por aí”, conta.

Arte  mantém famílias e história da artesã do Muquém  virou livro

São Paulo, Recife, Rio de Janeiro, Maceió, são locais do País onde as peças de dona Irinéia Nunes estão expostas. “Até fora do Brasil já tem meu trabalho”, conta ela orgulhosa. Como lembrança da tragédia da enchente de 2010, ela mostra uma peça que representa a jaqueira que abrigou mais de 30 moradores que ficaram abrigados durante a enchente do Rio Mundaú. 

Dona Irinéia Nunes virou personagem do livro A menina de barro, que conta a história de uma família que morava às margens do rio Mundaú, no interior de Alagoas, e vivia a partir da criação de objetos feitos de barro colhido na beira do rio. Num dia chuvoso de inverno, as águas fizeram o rio transbordar, carregando o que havia pela frente.

O livro é da escritora Gianinna Bernardes, ilustração de Pablo Perez Sanches, foi impresso na Gráfica Graciliano Ramos, Imprensa Oficial do Estado e é comercializado a R$ 20, incluindo a internet. A artesã tem vários exemplares em casa, conta que é muito procurado e disse que no dia do lançamento foram várias pessoas para o evento.  “O prefeito chamou um monte de gente”, diz ela.

(Foto: Olívia de Cássia)
Dona Irinéia Nunes pontua que começou a fazer peças de barro há cera de 40 anos e destaca  que sua mãe confeccionava panelas; disse que depois de adulta começou a fazer peças de barro para pessoas que iam pagar promessas.

“As pessoas me procuravam para que eu fizesse imagens de partes do corpo para pagarem promessas: cabeças, mãos, braços, pernas, pé, coração; qualquer parte do corpo; aí comecei fazendo e graças a Deus, hoje meu trabalho é um sucesso”, explica.

A artesã disse que participou recentemente  do Casa Cor, em Maceió, importante evento de arquitetura que acontece nas principais cidades do país e da América Latina. Morando atualmente em uma casa doada pelo Programa da Reconstrução, dona Irinéia Nunes destaca que o artesanato de barro sustenta toda a família. Ela conta que só não está passando dificuldade por conta das encomendas que recebe, por meio do Sebrae\AL.

“Quando eles recebem botam um dinheirinho em minha conta. Recentemente recebi um prêmio de R$ 10 mil, foi dividido com outros artesãos daqui e fiz uma reforma na casa”, observa.

A PARCEIRA

Dona Irinéia Nunes ressalta ainda que também conta com a parceria de seu  esposo, seu Antônio Nunes, para fazer seu trabalho.  Ele começou fazendo os primeiros passos das peças e o acabamento ficava por conta dela.  “Hoje ele dá pisa em mim e me chama a atenção quando faço alguma coisa errada. Ele ajeita a peça quando eu erro alguma e eu ajeito as dele e assim nós vamos”, declara.

Seu Antônio Nunes, 74 anos, um senhor simples de riso fácil diz que a esposa foi sua professora. “Eu trabalhava com cana, parei, trabalhei com tijolo e telha e ela começou me ensinando; aprendi. Tiro o barro carrego, corto a  lenha e também faço as peças”, observa.

Seu Antônio Nunes reclama que não querem o nome dele nas peças: “O povo só quer as peças que têm o nome dela e eu fico lá em baixo e ela subindo”, diz o artesão sorrindo. Dona Irinéia e seu Antônio criaram juntos dez filhos. Três dela (que era separada) e sete dele, que era viúvo e diz que estão nessa união até o fim.

Comunidade sobrevive até hoje do artesanato do barro

Dona Marinalva diz que está doente
 e produz pouco agora (Foto: Olívia de Cássia)
Os moradores do povoado quilombola do Muquém, em sua maioria,  sobreviveram até agora confeccionando objetos de cerâmica, desde os antepassados. “Começou aqui é tudo desse trabalho: minha bisavó, minha mãe e eu”, conta dona  Marinalva Bezerra da Silva, de 75 anos.

A artesã confessa que está cansada, que já trabalhou demais e está com problemas de saúde: “Criei  irmãos, sobrinhos e netos, seis filhos e agora estou com uma irmã inválida”, destaca.  O trabalho de dona Marinalva Bezerra também é reconhecido internacionalmente e ela conta que já participou de diversas exposições.

As peças da artesã são utensílios domésticos: ela confecciona cuscuzeiras, chaleiras, panelas, potes, frigideiras e destaca que todos vendem bem. “O caco de torrar café, o pote, a cuscuzeira, qualquer um que fizer”, destaca.


Panelas e utensílios domésticos
que  dona Marinalva confecciona.
Foto: Olívia de Cássia)
As miniaturas ela diz que as pessoas compram ‘para enfeitar as casas’. Dona Marinalva Bezaerra, assim como dona Irinéia Nunes, afirma que os filhos e netos também não têm interesse em continuar a arte do barro porque, diferente dela que não teve estudos, “eles querem estudar”.

 “Eu me criei trabalhando no barro direto, ele dizem que suja muito a roupa; eu digo que tem água no rio para lavar, mas meu marido faz. Ele tira o barro, pisa, me ajuda a fazer as peças, faz as miniaturas. Eu fazia 60 panelas no dia, quando eu era nova. Agora se eu fizer dez já é muito”, conta.

A artesã confessa que seu trabalho é bastante reconhecido.” Já fui muito filmada e meu trabalho está espalhado por aí. De vez em quando alguém vem me dizer que me viu na internet”, ressalta.

De Capela, João das Alagoas e seus discípulos  produzem  arte que faz a diferença

De Capela, João das Alagoas mantém
um ateliê  na entrada da cidade

(Foto: Olívia de Cássia)
No município de Capela, a 57 minutos de Maceió, o artesão João Carlos da Silva - João das Alagoas,  mantém um ateliê  na entrada da cidade, onde, além de produzir sua arte (esculturas em cerâmica), repassa seus conhecimentos para familiares e a comunidade (os discípulos) como ele diz.

De família de artistas, seu João Carlos  disse que quando era jovem queria que o pai lhe ensinasse a ser alfaiate, mas começou com arte numa exposição em campinas em 1987; tela a óleo, peças de madeira;  presépios, mas hoje o barro levou a uma produção maior, pois o  trabalho é mais valorizado: as miniaturas são vendidas a R$ 200 e R$ 300 reais.

Ele explica que começou a desenhar; pintou algumas telas e foi sobrevivendo de arte, foi vendendo e hoje vive exclusivamente de arte. João das Alagoas observa que tem muitos discípulos que já saíram do ateliê, mas nunca esquecem o trabalho desenvolvido por lá.

Dono de uma técnica muito própria, João das Alagoas dá vida ao barro, tendo a imaginação como sua aliada. Mestre no modelar de lapinhas, na religiosidade de seu povo, nas brincadeiras infantis, tem sua marca registrada no "boi bumbá", representado em pequenas e grandes peças, com saias esculpidas em alto e baixo relevo.

PATRIMÔNIO VIVO

Hoje é reconhecido como um dos maiores escultores do país, tendo participado de exposições nacionais e internacionais.  Trabalhos do artista;  da sua cunhada;  do filho; do sobrinho e de outras pessoas da comunidade que têm interesse em aprender e difundir o trabalho pelo  Brasil afora, são  encontrados no  ateliê em Capela. 

Tradições preservada (Foto: Olívia de Cássia)
Esculturas como cavalos;  estátua de santos ; o  cinema; uma torre com brincadeiras de crianças e peças em miniaturas, entre outras. É uma diversidade. Seu João começou a sua arte na madeira, mas com o tempo foi se especializando com o barro. O trabalho dele é mais apurado, estudado e tem leitura.

As peças são conhecidas internacionalmente também e têm preços mais altos. Uma delas custa R$ 5 mil e vai variando de acordo com o tema e o trabalho. “Tem peças de R$ 2 mil, R$ 5 e vai variando conforme o tema e a procura”.

As miniaturas feitas por Cláudio, um dos discípulos de seu João das Alagoas,  foram inspiradas no trabalho do artesão Arlindo Monteiro, que expõe e comercializa seus trabalhos no Mercado de Artesanato de Maceió e já foi tema de abertura de novela de televisão.

Cada discípulo tem um tema de trabalho que desenvolve livremente no ateliê de Capela. Maria Neide, conhecida como Nena,  cunhada de seu João,  há dez anos faz peças como: torres, casamento, cinema, “tudo inspirado no cotidiano do município”.

Arte de João das Alagoas  (Foto: Olívia de Cássia)
 O filho do artista confecciona peças como o guerreiro, bois pequenos e outras peças. Seu João das Alagoas diz que, dependendo da peça, leva de oito a 24 horas para queimar no forno e que vem procurando uma maneira mais rápida para fazer o trabalho. “Quando começou demorava mais, já passamos até duas noites queimando”, conta.

Patrimônio vivo de Alagoas, o artista, conhecido internacionalmente, conta que começou o seu trabalho desde pequeno. Com seis a sete anos, inspirado nas coisas mais simples, como o vaqueiro no cavalo; o vaqueiro ordenhando a vaca; bois e cavalos pequenos.

Agora com 55 anos, a peça mais vendida hoje no ateliê, segundo ele, é o boi e o cavalo, o boi bumbá e o cavalo marinho do Nordeste. As peças maiores demoram até quatro meses para ficarem prontas, segundo conta.

Conhecido internacionalmente, seu João das Alagoas conta que dois franceses encomendaram peças grandes; um deles  veio fazer um trabalho na Barra de Santo Antonio e está entregando a peça esta semana.

O trabalho de seu João pode ser encontrado em galerias, em shoppings no Rio de Janeiro e São Paulo e em quase todas as capitais do Brasil. Ele conta que também tem exposições permanentes: em  feiras; em Belo Horizonte, em lojas pelo país a fora e em casas de amigos.

Quem quiser encomendar o trabalho do artista pode entrar em contato pelo celular 9986-8521, mas cada discípulo tem telefone.

sábado, 21 de junho de 2014

Meus antepassados....

 Olívia de Cássia - jornalista

Segundo as minhas pesquisas para montar a árvore genealógica da minha família, que acabei abandonando por falta de mais alguns dados, nossos antepassados Francisco Vieira de Siqueira, José Vieira de Siqueira e João Vieira de Siqueira vieram da região de Jacaré dos Homens e Água Branca, região do Sertão de Alagoas, com destino à cidade de Capela, Microrregião da Mata alagoana.

Em Capela, José Vieira de Siqueira comprou terras na Serra do Periperi, naquele município. João Vieira de Siqueira instalou-se na cidade de Branquinha e Francisco Vieira de Siqueira, conhecido como Francisco Rosa, na passagem pela cidade, casou-se com Maria Francisca Viera Correia, que era portadora de uma doença até então desconhecida e que nos últimos anos tem sido alvo de estudos científicos: a ataxia spinocerebelar ou Doença de Machado Joseph (DMJ).

Essa doença tem acometido grande parte da minha família, incluindo meu pai, que faleceu em consequência dos problemas causados pela ataxia;  quase todos os seus irmãos e muitos sobrinhos, por parte de pai e mãe; meu irmão do meio, Petrônio José e eu, em modalidade mais leve.

De acordo com informações que colhi ouvindo depoimento de parentes, depois de casados Francisco Vieira de Siqueira e Maria Francisca Vieira Correia instalaram-se no sítio Jitirana, região de Branquinha, em Alagoas. Francisco e Maria Francisca tiveram dez filhos: Pedro (tio Pedrinho), Manoel (conhecido como Manoelzinho), Francisco, Tranquilino, Jonas, João, Silvina, Rosa, Olívia (minha avó materna) e Luzia.

Esses meus tios-avós casaram-se, todos, com primos legítimos e consanguíneos. Manoelzinho era proprietário de uma mercearia, na fazenda Jitirana de Baixo e morava vizinho ao irmão Tranquilino, que não tinha posses. Segundo informações de meus familiares, Manoelzinho casou com Paulina Vieira Correia, sua prima legítima, filha de Silvestre Correia, meu trisavô.  Silvestre Correia era filho de Tonico Correia e pai do meu bisavô Tibúrcio Vieira Correia, que na certidão de casamento de meus avós, pais de mamãe, consta como Tibúrcio Correia de Araújo.

Silvestre era pai de Santina Vieira Correia, Paulina Vieira Correia, Maria Francisca Vieira Correia e Satili Vieira Correia. Tonico Correia era dono do Engenho das Pedras, próximo à cidade de Capela e possuía escravos. O Engenho das Pedras, em Capela, hoje é a fazenda Pedrinhas, segundo meu primo José Cícero Almeida de Siqueira.

Silvestre, meu trisavô, conforme a minha pesquisa, não queria que as filhas Santina, Paulina e Maria Francisca fossem alfabetizadas, para que elas não escreverem cartas a seus namorados. As filhas de Silvestre ajudavam os negros cativos a fugirem do engenho, fosse devido aos maus-tratos, ou pelo desejo de liberdade que os negros alimentavam entre si. Silvestre Correia também era conhecido pelos amigos como “Pai Silva”.

Ainda de acordo com entrevistas informais e conversas com meus familiares, José Vieira, conhecido como Cazuza Vieira, primo dos meus ascendentes, também era proprietário da fazenda Cachoeira da Orelha, no município de Capela. Francisco Filho, irmão de vovó Olívia e de Pedro casou com Maria Correia de Araújo (Mariazinha), que era filha de Terto. Francisco e Mariazinha geraram: Josefa Correia (tia Zefinha), dois filhos com o nome de José, outro chamado Pedro (conhecido como Doca), Zezito e Lourdes.

Luzia, irmã mais nova de vovó Olívia Maria, casou-se com José Correia Paes, seu primo legítimo, irmão do meu avô Manoel Paes, e gerou: Otávio Paes, Maria Paes, Jonas Paes, João Paes. Quando Luzia morreu, José Correia Paes casou com Raimunda e geraram: Lourival, José Paes, Marieta, Raimundo e Antônia. Dos irmãos da minha avó Olívia só quem possuía terras eram: Pedro, Manoelzinho e José Correia Paes.

Pela informação que obtive do primo José Cícero Almeida de Siqueria, conhecedor da história da nossa família, o meu tio-avô José Correia Paes teria casado quatro vezes. Sua última mulher, Mariquinha, foi natural de Branquinha, da família Fernandes. Dois filhos mais novos de José Correia Paes e Mariquinha, Neuza e Antônio, foram localizados por outros parentes meus em Niterói, no Rio de Janeiro, mas Neuza já faleceu, também vítima da ataxia spinocerebelar.

 Meu avô Manoel Paes também teve uma irmã chamada Luzia, assim como minha avó e meu pai. Essa Luzia, irmã do meu avô Manoel e do tio-avô José Correia Paes, morreu com 15 anos, quando já estava em cadeira de rodas, vítima da mesma doença. Pedro, irmão da minha avó Olívia, casou-se com Amélia. Amélia foi criada pelo coronel Lúcio Lopes, do engenho Timbó, conhecido como “Timbó dos Cula”.

Pedro e Amélia tiveram: Floriano Vieira de Siqueira e Júlio Vieira de Siqueira, sobrinhos dos meus avós Olívia e Manoel. Floriano e Júlio também se casaram com duas irmãs da família Vergetti que é descendente de italianos. Desse tronco familiar, os descendentes de Júlio e Floriano, eu tenho poucas informações porque só conheço os mais velhos e por isso não me aprofundei nas informações e preferi retirar do texto até que obtenha mais informações.  

Jonas Vieira de Siqueira, pai do meu pai, que foi registrado como Jonas Correia de Cerqueira, casou com a sua prima legítima, Rosa Correia Paes, irmã do meu avô Manoel Paes, do tio José Correia Paes e da tia Luzia. Ela era filha de Tibúrcio Correia.

Meu avô paterno e minha avó Rosa geraram: João Correia de Cerqueira, conhecido como João Jonas (meu pai), Graciliano Siqueira, que foi registrado como Graciliano Correia de Siqueira, Antônio Jonas, Júlio (conhecido como Júlio Rosa), José Jonas, Manoel Jonas, Luzia e teria tido outra irmã por nome Olívia, que foi morar no Paraná. Essa minha tia Olívia não se sabe do paradeiro.  Quando vovó Rosa morreu, meu avô Jonas casou com Maria (vó Nenen) e tiveram: Pisciliano, Alfredo, Ester, Renalva e José.

João Vieira de Siqueira, conhecido como João Rosa, casou com Dionília Olímpia de Siqueira, que era filha de Santina Vieira Correia, filha de Silvestre Correia e que era sua prima legítima. Os seis membros da família Vieira de Siqueira casaram-se com os Vieira Correia, portadores de ataxia; os netos continuaram se casando com os primos, todos portadores desse problema genético degenerativo.

Silvina Vieira de Siqueira, Rosa Vieira de Siqueira, Francisco Vieira de Siqueira e Tranquilino Vieira de Siqueira foram para São Paulo e para o Rio de Janeiro, para tentar a vida e não consegui informações sobre o destino dos seus descendentes. Vovô Manoel e Vovó Olívia tiveram: Josefa, Sebastiana, Antônio, José, Noêmia, Antônia (minha mãe), Júlio e Osória. Tia Josefa, irmã mais velha de mamãe, casou com José Antônio da Silva, de Paulo Jacinto e geraram: Julião, Olival e Edleuza. Minha tia Josefa morreu e José Antônio casou com Josefa Correia de Siqueira (Zefinha), filha de Francisco Vieira de Siqueira Filho, irmão de vovó Olívia, prima legítima da mulher falecida.

Josefa Correia de Siqueira passou a se chamar Josefa Correia da Silva e teve: Aluízio, Maria José Siqueira, Maria José Correia (que era dentista, morreu acometida de uma doença degenerativa que lhe atacou muito rapidamente, no espaço de um ano, deixando-a inválida e levando-a à morte), Silvia, José,  Izabel e  Rejane.

Minha tia Sebastiana, irmã mais velha de mamãe, casou com Anízio Rosa (sobrenome que os cartórios deram, mais tarde, aos Vieira de Siqueira) e geraram: José (que era surdo e mudo), Juvenal, Maria, Dermeval, Antônio, Dinalva e Darci. Mas minha tia Sebastiana também teria tido um filho paralítico que morreu muito pequeno.

Meu tio José Paes de Siqueira, outro irmão da minha mãe, casou com Luzinete e tiveram: Maria José, Josete, Josival, Jandete, Carlos e Sérgio. Noêmia casou com Pedro, que descobri tem parentesco conosco, já que sua mãe, Natália, era prima da nossa prima Amelinha, que casou com o tio Pedrinho. Noêmia e Pedro geraram: Petrúcio e Rita. Petrúcio está acometido, segundo os médicos, de Mal de Parkinson.

Antônia Paes de Siqueira (minha mãe) casou com o primo legítimo João Correia de Cerqueira (meu pai), e depois de casada passou a se chamar Antônia Correia de Cerqueira. Mamãe e papai geraram: Petrúcio, Petrônio, Paulo e eu, Olívia de Cássia.  Meu irmão faleceu em dezembro de 2013, em consequência de problemas gerados pela ataxia. Meu tio Júlio Paes de Siqueira, irmão de mamãe, viveu em regime de união livre com Valdeci, que dele teve José Maria, Lúcia e Carlos.

Minha tia Osória, irmã mais nova de mamãe, casou com Fernandes Adelino de Freitas (seu Fernando soldado), teve seis filhos, mas só uma filha ficou viva, Rita de Cássia Paes de Freitas, que depois de  casada acrescentou o sobrenome do marido e passou a se chamar Rita de Cássia Paes de Freitas Castro. Natália Máximo Mesquita, mãe de Pedro Peixoto, marido da minha tia Noêmia, era prima legítima de Amélia, filha de Joaquim Vieira. João Mesquita era tio de Natália e também seria portador da doença, conforme minhas pesquisas.

De José Vieira de Siqueira e João Vieira de Siqueira sabe-se apenas que seus descendentes teriam migrado para outros estrados do País. Uma particularidade dos meus ascendentes é que os nomes se repetiam e foram muitos os de: Luzia, José, Maria, Manoel, Júlio, João, Jonas, Olívia (teria havido pelo menos umas três ou quatro, além de mim). Dizem os mais antigos que temos descendência com portugueses e judeus.  Esse esboço de árvore genealógica foi interrompido e faltaram algumas informações complementares que eu desisti de procurar por falta de tempo.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Não precisas me julgar

Olívia de Cássia Correia de Cerqueira.

Às vezes a gente só quer 
ter um pouco de sossego.
Ou ter um amigo ou amiga
que nos escute, 
sem nos censurar 
Não precisa dizer nada:
Só ouvir já nos basta.
Não é estado de desespero
Nem de infelicidade...
Ás vezes é só uma inquietação
Ou constatação daquilo
que a gente já sabe.
Só preciso que me escutes,
não me condenes,
Não me faças
julgamentos tolos ...

Meus avós Manoel Correia Paes e Olívia Maria Siqueira Paes

Olívia de Cássia - jornalista

Pelas informações da Certidão de Casamento dos pais da minha mãe, Manoel Correia Paes e Olívia Maria, expedida na República dos Estados Unidos do Brasil (como se chamava o País naquela época), meu avô Manoel Correia Paes e minha avó Olívia Maria de Cerqueira ou Olívia Vieira de Siqueira casaram-se em 31 de outubro de 1908, época da criação do extinto Jornal de Alagoas, criado pelo jornalista Luiz Silveira. 

Os nome e sobrenome de minha avó teriam sido modificados pelo cartório, pois constatei várias alterações nos sobrenomes dos nossos familiares. Vovô teria nascido em 1883, era agricultor, natural de Branquinha. Filho de Tibúrcio Correia de Araújo (ou Tibúrcio Vieira Correia) e Maria Paes de Oliveira (sobrenome que acredito também tenha sido modificado).

Minha avó Olívia, segundo o documento, nasceu em 1889, quando o Brasil iniciou o período conhecido como República Velha; tempo marcado pelo domínio político das elites agrárias mineiras, paulistas e cariocas. Nessa época o País firmou-se como exportador de café e a indústria brasileira deu um significativo salto. Na área social, várias revoltas e problemas sociais aconteceram nos quatro cantos do território brasileiro.

Olívia Maria, de quem herdei meu primeiro nome, era natural de Branquinha, filha de Francisco Rosa de Cerqueira (ou Francisco Vieira de Siqueira) e Luzia Maria de Serqueira (ou Maria Francisca Vieira Correia) nomes e sobrenomes que também foram embaralhados e alterados no cartório, segundo as minhas pesquisas. 

Pelas informações desse documento que tenho em mãos, a certidão de casamento dos meus avós só foi expedida no dia 29 de julho de 1966, muitos anos depois da cerimônia, em Branquinha, à época distrito de Murici, tendo como escrivão o senhor Humberto de Lucena Sarmento. Assinaram como testemunhas José de Almeida e Francisco Correia de Araújo.

Talvez porque as pessoas não tivessem documentos naquela época tenha havido tantos erros nos nomes e sobrenomes dos meus parentes. A maioria só veio a ter registro de nascimento ou outro documento depois que casava e os cartórios colocavam as informações de qualquer jeito, sem ter o cuidado de verificar nomes e datas, como aconteceu com vovô e vovó e alguns dos meus tios.

Vovó Olívia fugiu de casa para casar com vovô Manoel, seu primo legítimo, segundo me contou uma das minhas tias, porque vovó era muito espancada pelo pai, Francisco Vieira de Siqueira, senhor de engenho. Com autoridade absoluta, os senhores de engenho da República Velha submetiam todos ao seu poder: mulher, filhos, agregados e qualquer um que habitasse seus domínios. 

Ela saiu de casa com apenas um pequeno baú na mão, levando o mínimo necessário de seus pertences pessoais. Ela contava para os filhos que ajudava seu pai na lida do campo e do gado e sabia ordenhar vacas, mas era uma mulher muito doente. Na infância contraiu meningite, além de vários tumores nas unhas chamados de panarícios, dores ciáticas e reumatismo.

Eu convivi muito de perto com meus avós por parte de mãe, pois os pais do meu pai morreram quando ele ainda era muito pequeno. Minha avó Rosa Correia Paes, faleceu quando meu pai estava ainda com dois anos de idade e meu avô Jonas Vieira de Siqueira, registrado como Jonas Correia de Cerqueira, quando papai tinha quinze anos. Desse meu avô herdamos o sobrenome com erro no cartório.

Meu pai foi criado pela madrasta Maria José (Nenen), devota e beata do Frei Damião e do padre Cícero do Juazeiro do Norte, no Ceará, onde ela foi morar mais tarde, na cidade do Crato. Minha avó-madrasta era muito conservadora e transmissora de toda a ideologia daquela cultura das beatas e costumava fazer viagens para o Ceará, com os romeiros, em cima de um caminhão pau-de-arara. Ela foi encontrada morta, no Juazeiro, na casa onde estava morando sozinha, depois de alguns dias do seu falecimento.

Mas as lembranças da minha infância me remetem ao meu avô Manoel Paes, seu Né Tibúrcio, ou “Papai Né”, como meus primos o chamavam, pois ele me fazia quase todos os gostos. Vovô herdou o apelido de Tibúrcio devido ao nome de seu pai, Tibúrcio Correia. Já vovó Olívia Maria era mais apegada aos meus irmãos Paulo e Petrônio e não encobria meus defeitos e traquinagens da forma como o meu avô Manoel o fazia; se alguém me fizesse alguma desfeita ou mamãe quisesse me bater, bastava um olhar do meu avô para desarmar qualquer um. Seu olhar era implacável. 

Eu fui muito apegada ao meu avô e só fui ter mais convivência com meu pai bem mais tarde, depois que vovô morreu e eu já estava com 15 anos, porque papai passava o dia todo na mercearia e só estava em casa na hora das refeições ou na hora de dormir. Com meu avô era diferente: ele tinha todo o tempo do mundo para mim, para me dar atenção. Eu chegava da escola e já buscava a sua companhia, se não estivesse de brincadeira com os amigos da rua, pois eu não parava em casa.

Vovô era alto, magro, branco, tinha os olhos claros, entre o azul e o verde e já o conheci calvo. É engraçada a semelhança que encontro no ator Castro Gonzaga, da Rede Globo, com o meu avô Manoel Paes. Toda vez que o vejo no vídeo, me reporta à imagem que tenho dele, principalmente quando Gonzaga representou o papel do Formiguento, na novela Saramandaia, na primeira exibição da novela, em que as formigas brotavam do seu nariz.  Seu Né Tibúrcio tinha aquele jeito carrancudo e áspero, mas comigo era sempre menos autoritário e se rendia às minhas brincadeiras.    
      
Na casa de vovô, na saudosa Rua da Ponte, tinha uma cadeira tipo espreguiçadeira onde eu me sentava junto com seu Manoel, para ouvi-lo contar as suas aventuras nas matas. Meu avô contava-me histórias da Serra da Barriga, das caçadas que empreendia mata adentro, pois, segundo ele, era bom caçador, e acredito que comecei a me interessar pela história de Zumbi dos Palmares e pela questão dos negros com ele, mesmo que as histórias que me contasse fossem carregadas de preconceitos, porque vovô era racista e, tal  qual seu pai, seu avô, e seu bisavô não gostava de negros.

Talvez tenha sido o seu preconceito racial que tenha me despertado para esta causa. Comigo as coisas sempre funcionaram assim. Mamãe também era racista, puxou ao pai, mas esta é outra parte da história, que contarei lá mais na frente.  Vovô também gostava muito de literatura de cordel e comprava vários livretos na feira livre para que eu ou alguma visita fizesse a leitura daquelas histórias, já que ele não sabia ler. Aos sábados, eu costumava ir com seu Manoel Tibúrcio à feira de União e ao Mercado Público.

Eu tinha uma pequena cesta de palha que voltava sempre cheia das minhas pequenas compras: pitomba, goiaba e outra fruta qualquer que fosse quase verde, por que não gostava e não gosto de frutas maduras. Meu avô fazia questão de comprar tudo o que eu gostava e as pessoas admiravam a afeição que ele tinha por mim, já que era um pouco temido pelos outros netos e sobrinhos, pelo seu jeito durão de ser. 

Seu Manoel chegou a ser senhor de engenho (o Mucuri), assim como o meu bisavô Tibúrcio, mas vendeu as terras a preço módico para cuidar de uns sobrinhos, filho de um irmão dele que ficaram órfãos. No entanto, vovô Manoel e vovó Olívia terminaram seus dias de vida morando em casa alugada; e quando já estavam bem velhinhos e doentes foram morar lá em casa, na Tavares Bastos, em União, numa dependência que tinha nos fundos do imóvel e ali faleceram. 

Minha avó Olívia era uma mulher bondosa e angariava a simpatia de quem a conhecia, mas às vezes ela se colocava com raiva. Era apaixonada pelo meu avô, não chamava palavrão e o único xingamento que fazia, quando se aborrecia com ele, era chamá-lo de “cu da injura”, assim mesmo. Já o meu avô gostava de chamar por outros nomes: “peste-bubônica”, que ele aliviava chamando “péia” e “bixiga” ou “bixiguento”, deixando a minha avó revoltada. 

Meu avô guardava o dinheiro que meus tios mandavam para as despesas diárias dentro de uma meia e debaixo do colchão ou dentro de um dos baús da minha avó. Acredito que foi desse costume dos antepassados de guardarem dinheiro dentro de meias que se gerou o dito popular “fazer um pezinho de meia”, quando se diz que se vai juntar algum trocado em poupança ou em algum investimento.

Além de ter tido oito filhos vovó Olívia cuidou de outros, por adoção. Ela era baixinha e gordinha, ao contrário do meu avô. Gostava de usar roupas floridas e de passar carmim. Dona Olívia usava um pequeno coque no cabelo e tinha aversão aos seus logos e escassos cabelos grisalhos. Minha avó vivia dizendo que queria encontrar uma pasta que os escurecessem, pois naquela época ainda não era costume usar tintura no cabelo; se já existia, minha avó não conhecia.

Dona Olívia e seu Manoel Paes tinham o hábito de ficar na porta da casa onde moravam, na Rua Demócrito Gracindo, a Rua da Ponte, toda tarde, observando o movimento. A vizinhança tinha uma afeição enorme por ela e os mais moços a chamavam de vovó. Sempre tinha alguém que passava por lá para tirar um dedinho de prosa com ela, que ficava toda animada pela atenção que lhe era dispensada. Minha avó não gostava de barulho, mas ensaiava cantigas e batucava na mesa, quando sentava para comer ou conversar.

O lanche predileto de vovó era a bolacha canela ou o biscoito palito que papai revendia na mercearia e meu irmão Paulinho levava para ela, com refrigerante. Dona Olívia ficava esperando a hora do lanche, mas se meu irmão não levava o biscoito ela ficava aborrecida e reclamava o tempo inteiro. Quando vovó já estava bem esquecidinha, certa vez eu mostrei uma foto minha, com três anos, e disse para ela que aquela era uma namorada do meu avô. Vovó ficou com tanta raiva, pegou a foto, pisou, cuspiu e só não a rasgou porque eu interferi a tempo e trabalho deu para convencê-la de que aquela pessoa da foto era eu. 

E agora, o que fazer?

Por Olívia de Cássia E agora, o que fazer? Essa pergunta me veio à baila, antes e depois da aposentadoria por invalidez e em alguns dias q...