sexta-feira, 26 de junho de 2015

Trotes atrapalham serviço dos ‘anjos do asfalto’ do Samu

Ligações mentirosas são os

principais entraves para

 desempenho dos profissionais

Olívia de Cássia - Repórter
Os trotes são o maior empecilho para o desenvolvimento do trabalho dos servidores do Samu – Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, reconhecidamente um serviço de importante utilidade pública em Alagoas e no Brasil. Segundo a assessoria da instituição, os trotes chegam a cerca de 75% das ligações recebidas. Sete por cento são de ligações indevidas (que não tem pertinência ao serviço).
Segundo Lucas Casado, quando alguém passa um trote está colocando em risco a vida de muita gente, inclusive da própria família, porque um parente pode estar precisando, naquele momento em que a ambulância foi deslocada para uma ocorrência inexistente - Foto: Assessoria
“O Samu realiza um trabalho muito sério e cada segundo pode fazer diferença na vida de uma pessoa. Um chamado indevido prejudica o atendimento da equipe, que deixa de atender um caso real”, afirma o gerente do Samu Maceió, Lucas Casado.
Ele acrescenta que o número de trotes é muito alto e que as crianças são as principais responsáveis pelas ligações. Dados catalogados pela entidade indicam que somente em janeiro foram 45.539 trotes. O número absurdo de ligações mentirosas vai se repetindo ao mês até maio.
 Segundo Lucas Casado, quando alguém passa um trote está colocando em risco a vida de muita gente, inclusive da própria família, porque um parente pode estar precisando, naquele  momento em que a ambulância foi deslocada para uma ocorrência inexistente.
“Quem faz trote para os números de emergência está cometendo um crime. A pena é de um a três anos de reclusão, além de multa, conforme o artigo 266 do Código Penal Brasileiro (CPB)”, observa.

O Serviço

O Samu funciona 24 horas por dia, com várias equipes de profissionais: médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, condutores socorristas  e os técnicos auxiliares de regulação médica (TARMS) e pessoal de apoio.  O Samu atende às urgências de natureza traumática, clínica, pediátrica, cirúrgica, gineco-obstetrícia, psiquiátrica, entre outros.
O Samu funciona 24 horas por dia, com várias equipes de profissionais: médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, condutores socorristas e os técnicos auxiliares de regulação médica (TARMS) e pessoal de apoio - Foto: Assessoria
Os anjos do asfalto, como são chamados os socorristas do Samu, desempenham atividades de fundamental importância para as comunidades. “É um serviço pré-hospitalar e realiza o atendimento de urgência e emergência em qualquer lugar”, destaca.
Para ser atendido pelos socorristas é só ligar 192 e será atendido em residências, locais de trabalho e vias públicas. “Desde que assumi a coordenação, em  20 de fevereiro de 2013, tenho procurado parcerias para melhorar ainda mais o serviço”, disse Lucas Casado.
Condutor-socorrista diz que falta educação da população dificulta passagem
Adriano Macena da Silva é condutor socorrista, técnico de enfermagem e motosocorrista e diz que na situação de rua a dificuldade que encontra para executar seu trabalho a contento, nesse tempo todo de Samu, é a falta de educação da população.
 “As pessoas ainda não conseguiram facilitar a passagem da ambulância; a gente tem que se desdobrar, com todos os cuidados  para não causar outro acidente a terceiros e até pra gente,  se resguardando”, observa.
Adriano Macena da Silva é condutor socorrista, técnico de enfermagem e motosocorrista e diz que na situação de rua a dificuldade que encontra para executar seu trabalho a contento, nesse tempo todo de Samu, é a falta de educação da população - Foto: Paulo Tourinho
Outra questão que está se trabalhando muito, segundo ele, é a distribuição com outro ponto de apoio que são as motolâncias, para agilizar o atendimento e o socorrista chegar ao local do acidente o mais rápido possível, estabilizar a vítima, até que chegue a ambulância.
“Hoje em dia o trânsito está caótico e termina prejudicando a chegada do socorro. Ontem mesmo, por coincidência, teve um atropelamento no aeroporto e a gente na ronda da moto, já estava no Tabuleiro e facilitou a chegada ao local; infelizmente era um idoso e veio a falecer”, destaca.
Adriano Macena da Silva observa ainda que devido ao dia a dia, a população que está no local das ocorrências, tem a impressão que é uma eternidade a chegada do socorro: “Para quem visualizou o acidente, é demorado, mas para a gente que está em deslocamento, é o máximo que a gente está podendo fazer, com segurança e quando a gente está de moto e chega mais rápido, a população se surpreende”, pontua.
Segundo ele o trabalho nas motos tem facilitado muito o trabalho dos socorristas do Samu e muitos casos de atendimento clínico.                     Foto: Paulo Tourinho
Segundo ele o trabalho nas motos tem facilitado muito o trabalho dos socorristas do Samu e muitos casos de atendimento clínico: “A gente chega ao local, mensura os sinais vitais e por telefone o médico vai orientando o que deve fazer até ele chegar ao local. É gratificante para a gente que gosta do serviço”, avalia.

 Criação

O Samu foi criado em 14 de dezembro de 2003, no então governo Lula, por meio da Resolução 68 do Ministério da Saúde, com o objetivo de oferecer à população um atendimento de urgência e emergência com eficiência e eficácia.
No nosso Estado, está a cada 30 km existe uma Base Descentralizada (BD) do serviço.  No início existiam apenas quatro viaturas; hoje, somente em Maceió, o Samu dispõe de sete ambulâncias do tipo Unidade de Suporte Básico (USB) e quatro Unidades de Suporte Avançado (USA UTI móvel), uma delas para o Serviço Neonatal (o serviço é pioneiro no país).
Segundo o gerente Lucas Casado, o Samu dispõe de uma Viatura de Transporte Rápido (VTR), que serve como suporte para os casos mais graves como apoio alternativo, além do Aeromédico (UTI Aérea), único do Norte/Nordeste que é mantido com recursos próprios do governo do Estado e as motolâncias.
Em Alagoas o Samu funciona com duas Centrais Regionais: uma em Maceió e outra em Arapiraca. As Bases Regionalizadas do Samu que são reguladas por Maceió são: União dos Palmares, Viçosa, São Miguel dos Campos, Porto Calvo, Coruripe, Joaquim Gomes, São Luiz do Quitunde, Maragogi, Teotônio Vilela, Rio Largo, Murici, Marechal Deodoro, Barra de Santo Antônio, Colônia de Leopoldina e São Miguel dos Milagres.
Já as Bases pertencentes à Central de Arapiraca são: Penedo, Ouro Branco, Delmiro Gouveia, Pão de Açúcar, Santana do Ipanema, Palmeira dos Índios, Cacimbinhas, Maribondo, Porto Real do Colégio, Campo Alegre, Mata Grande, Girau do Ponciano, São Sebastião, São José da Tapera, Inhapi, Piranhas, Olho D´Água do Casado, Batalha e Traipu.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Demolição da Vila dos Pescadores terá desdobramentos


Ativista do movimento negro observa

 que será feita uma representação contra a omissão


Olívia de Cássia - repórter 
A professora de capoeira e dança Silene Gomes, produtora cultural e integrante do movimento negro disse no sábado, 20, que a demolição da Vila dos Pescadores de Jaraguá terá desdobramentos e que será feita uma representação contra a omissão das instituições pelo fato acontecido.
Silene Gomes comenta também que as casas da vila foram derrubadas automaticamente para ninguém retornar. Fotos: Paulo Tourinho
Ela observa que na visão dos poderosos, a pobreza precisa sair da vista do turismo e por isso foi feita a ‘faxina social’ pela prefeitura.  “Vamos juntar todo mundo, ver o que tem, como articular, fazer a denúncia nacional e fazer uma representação contra essas instituições que foram omissas”, observa.
Segundo ela será feita uma moção de apoio ao movimento; uma representação contra os direitos humanos que foram feridos, a forma como o pessoal está alojado, moradia social, entre outras questões a serem ponderadas.
Silene Gomes observa que dá aulas de capoeira há anos em Jaraguá. “Acompanho de perto a luta da comunidade e por conta da desocupação, alguns direitos foram jogados fora; a demolição, da forma que aconteceu, não poderia ter ocorrido”.
No local ela relata que tinha criança, idoso, gestante, e reforça que a Prefeitura não comunicou à comunidade nem a ninguém a retirada das famílias naquele dia, “usou um aparato de guerra para retirar o pessoal e tudo foi destruído”, reclama.
A ativista também relata que quem tirava os móveis e utensílios das casas eram os garis.  “Então os garis carregaram o lixo da faxina social que a Prefeitura fez, junto com os poderosos”, argumenta.
Silene Gomes comenta também que as casas da vila foram derrubadas automaticamente para ninguém retornar. “Dentro das casas derrubadas, houve a demolição de um terreiro de candomblé; questões que precisam ser colocadas e chamar a responsabilidade e essa reunião de hoje foi feita para isso: era uma comunidade tradicional, de pesca, que existia desde mais de 60 anos”, explica.
Silene Gomes destaca também que o terreiro era protegido pela Lei Federal Nº 12.288, de 20 de julho de 2010,  que institui o Estatuto da Igualdade Racial; altera as Leis nos 7.716, de 5 de janeiro de 1989, 9.029, de 13 de abril de 1995, 7.347, de 24 de julho de 1985, e 10.778, de 24 de novembro de 2003.
Além do terreiro, também o ponto de cultura do Governo Federal, que trabalhava com educação inclusiva das crianças , mais a comunidade tradicional de pesca. “A comunidade fazia parte de um museu: O Museu Cultura Periférica, que é uma nova metodologia no Brasil e trabalha com memória social. Então a memória social, a tradicionalidade  foram direitos jogados fora”, observa.
Essa batalha dos trabalhadores da Vila vem acontecendo há mais de oito anos, a professora argumenta que tem: “A luta contra o poder econômico, que é muito forte, tem a omissão durante muito tempo das instituições: o Iphan deveria ter assumido responsabilidade, Fundação Cultural Palmares, todas as entidades que defendem a memória”, avalia. O mais agravante, segundo Silene Gomes, é que no dia da demolição, 17 de junho, essas instituições não tiveram presentes ao ato.
(Até este sábado, 20), “já se passaram quatro dias e essas instituições não se manifestaram e nem vão se manifestar, inclusive a Federação de Cultos Ubandistas que não foi lá dizer ‘chega de intolerância’. Essa reunião foi para avaliar esses pontos , trabalhar as questões internas dos moradores e saber o que estão precisando de imediato”, complementa.
A professora também comenta que integrantes do grupo estão indo nos abrigos para onde os moradores foram alojados, para fiscalizar a ação da prefeitura e também “para gritar para o mundo que nós estamos no século XXI, por todas essas coisas que eu falei os direitos são rasgados e ninguém faz nada”, reclama.
Segundo ela, é preciso cobrar responsabilidade das instituições constituídas, de todo mundo, “porque a informação que nós temos é que agora foi a Vila dos Pescadores e depois será o pessoal da orla lagunar, pois a orla precisa estar à disposição dos poderosos, eles querem fazer a faxina de fato: tirar preto, negro, cigano, moradores de rua, feio, pobre e sujo”, pontua.

Acesso à moradia está garantido no Estatuto da Igualdade Racial

O acesso à moradia está garantido no Capítulo IV do Estatuto da Igualdade Racial. “O poder público garantirá a implementação de políticas públicas para assegurar o direito à moradia adequada da população negra que vive em favelas, cortiços, áreas urbanas subutilizadas, degradadas ou em processo de degradação, a fim de reintegrá-las à dinâmica urbana e promover melhorias no ambiente e na qualidade de vida”, diz o texto.
Segundo o advogado e ativista  cultural Tiago Nagô de lá de Olinda – PE, “o direito à moradia adequada, para os efeitos desta Lei, inclui não apenas o provimento habitacional, mas também a garantia da infraestrutura urbana e dos equipamentos comunitários associados à função habitacional, bem como a assistência técnica e jurídica para a construção, a reforma ou a regularização fundiária da habitação em área urbana”.
Segundo o advogado e ativista cultural Tiago Nagô de lá de Olinda – PE, “o direito à moradia adequada, para os efeitos desta Lei, inclui não apenas o provimento habitacional, mas também a garantia da infraestrutura urbana 
Segundo ele, em depoimento no Facebook, o Estatuto garante que os programas, projetos e outras ações governamentais realizadas no âmbito do Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social (SNHIS), regulado pela Lei no 11.124, de 16 de junho de 2005, devem considerar as peculiaridades sociais, econômicas e culturais da população negra.
“Os estados, o Distrito Federal e os municípios estimularão e facilitarão a participação de organizações e movimentos representativos da população negra na composição dos conselhos constituídos para fins de aplicação do Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social (FNHIS)”.
Art. 37. Os agentes financeiros, públicos ou privados, promoverão ações para viabilizar o acesso da população negra aos financiamentos habitacionais. Cumpra-se a lei”,  diz o texto.

Marisqueira morava no local há 32 anos e diz que todas as leis eram favoráveis  à permanência

A marisqueira Francineide Oliveira, casada dois filhos, um de treze e uma menina de oito,  morava na Vila dos Pescadores de Jaragua há 32 anos. Filha de pescadores e casada com um, ela conta que faz parte do grupo da resistência: é diretora da Associação de Moradores e argumenta que seu grupo permaneceu no local porque todas as leis eram favoráveis aos moradores quando diz que em comunidade tradicional não se pode mexer e a vila estava dentro desse contexto.
Francineide Oliveira observa que agora os filhos estão com dificuldade para irem à escola, porque o ônibus que colocaram para o transporte escolar não traz até o local onde ela está e disse que vai brigar por isso também
“A vila existia há mais de 80 anos, tem uma senhora de 78 anos, dona Audisseia, que dizia que quando chegou lá a vila já existia. Tanto ela quanto o esposo pescador são pessoas que moravam lá há anos. Essas retirada pra gente foi uma perda incomparável, um choque, estamos com trauma até hoje, não acordamos ainda, parece que foi um pesadelo”, comenta.
Francineide Oliveira  observa que agora os filhos estão com dificuldade para irem à escola, porque o ônibus que colocaram para o transporte escolar não traz até o local onde ela está e disse que vai brigar por isso também. “Não tem comparação, a distância; estamos sem condições de trabalho, porque a fábrica de gelo foi desativada, nós estamos sofrendo”, pontua.
A marisqueira destaca que cercaram a vila, para que ninguém mais tenha acesso ao local. “O prefeito matou uma comunidade tradicional, é revoltante como as autoridades poderiam ter feito alguma coisa e não fizeram. Para o bom entendedor boa palavra basta, os governantes  são uma panelinha só, é revoltante e quem sofre é a população. Nós temos direito, mas a lei nunca quer dar o direito que o povo tem. Se realmente existisse justiça a gente não sairia da vila e se tivesse interesse essa causa estava ganha”, avalia.

REFLEXÃO

Catarina de Laboure esteve à frente da Secretaria de Cultura do Estado e Ministério da Cultura na época da implantação e implementação do Ponto de Cultura da Vila dos Pescadores.  Em contato com a reportagem, ela escreveu no Facebook: “Peço a todos os amigos que vejam, reflitam e colaborem como puderem com essa Comunidade, Vila dos Pescadores do Jaraguá. Conheço a sua história de luta desde 2005 e ainda não acredito que as coisas tenham caminhado para esse desfecho”, observou.
Segundo Catarina Laboure, a  forma como foi conduzida a desocupação da área mostrou descuido total com o destino das pessoas, especialmente das crianças e os idosos.”E as crianças do Ponto de Cultura Enseada das Canoas, com seus tambores, pincéis e câmeras fotográficas? O Ponto de Cultura que nem tem outro local para se instalar ou pelo menos guardar os equipamentos e mobiliários adquiridos com recurso do Estado e da União (Ministério da Cultura e Secretaria de Estado da Cultura de Alagoas )”, pontua.
Na postagem Catarina coloca ainda: “Esperamos que as autoridades estejam a par destas coisas e que as providências estejam sendo tomadas. Ah, e o IphanGovBr , como fica a questão dessa comunidade tradicional da pesca? Esperamos que a imprensa informe mais a população sobre esse episódio e seus desdobramentos”, finaliza. 

terça-feira, 23 de junho de 2015

Movimento Abrace a Vila vai construir um memorial para homenagear moradores

Intelectuais e estudantes também 

vão editar um livro contando 

o processo de desocupação 

e demolição da Vila de Pescadores de Jaraguá



Olívia de Cássia - Repórter
Representantes do movimento Abrace a Vila, grupo que defende os moradores da Vila dos Pescadores de Jaraguá, disseram que vão construir um memorial para registrar a história da resistência dos moradores e do local, que tinha mais de 60 anos.  

O encontro ocorrido no sábado, 20,  contou também com a presença de estudantes, Diretório Central de Estudantes (DCE-UFAL), de professores da Universidade Federal de Alagoas, lideranças e simpatizantes da causa, que se reuniram para falar sobre a ação da Prefeitura - Fotos: Paulo Tourinho

Os intelectuais, com a ajuda dos estudantes, disseram que vão editar um livro contando todo o processo de desocupação e demolição da Vila, que aconteceu no dia 17 e terminou no dia 19 último.
O encontro ocorrido no sábado, 20,  contou também com a presença de estudantes, Diretório Central de Estudantes (DCE-UFAL), de professores da Universidade Federal de Alagoas, lideranças e simpatizantes da causa, que se reuniram para falar sobre a ação da Prefeitura.
O professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) Parmênides Justino, do curso de Ciências Sociais, falou à reportagem que acompanha  a comunidade da Vila dos Pescadores há anos e vem estudando esse processo de resistência deles.  
No local, cerca de 120 famílias foram despejadas e o professor comenta que fez sua tese de mestrado em 2005 abordando o dia a dia da vila. Parmênides Justino conta que a universidade tinha uma parceria com a vila e o Ministério da Cultura também e disse que abordará a questão na tese de doutorado que está finalizando.
“Vai ser o fechamento da minha tese, estou fazendo doutorado na Unicamp e já cheguei à última frase: ‘a vila acabou, mas a resistência continua’”, observou. Segundo o professor, o poder constituído destruiu a parte física da vila, mas a memória, não. “Eles acabaram com o Quilombo dos Palmares, mas a consciência negra, não”, lembrou.

Parmênides Justino desabafa observando que a Prefeitura de Maceió passa a imagem para a sociedade, por meio da mídia, que os pescadores e marisqueiras eram invasores e traficantes perigosos

Segundo Parmênides Justino, os moradores da Vila dos Pescadores de Jaraguá, em Maceió, desenvolveram ao longo dos anos vários níveis de consciência. “Por isso que estou falando em resistência. A Prefeitura está comemorando a derrubada da vila que eles chamam de favela, só que eles destruíram a parte material, mas as pessoas continuam, inclusive aquelas que eles despejaram”, analisa.
O estudioso conta também que várias famílias estão dispersas na cidade, em casas de parentes:  “Veja bem, casa de pobre já é pequena, ainda mais com outras famílias juntas, estão imprensados com os móveis, pelo menos no abrigo tem cerca de 30 famílias, essas famílias eu estou colhendo documentos, dos maios antigos, que a gente vai fazer um grande memorial, para mostrar o contrário do que a prefeitura mostra”.  
Parmênides Justino desabafa observando que a Prefeitura de Maceió passa a imagem para a sociedade, por meio da mídia, que os pescadores e marisqueiras eram invasores e traficantes perigosos, mas ele destaca que essas pessoas são moradores antigos; alguns tinham vinte a quarenta anos de moradia no local “e estão sendo expulsos como invisíveis, porque como a prefeitura diz que tirou traficantes e invasores, essas pessoas não existem na visão deles, só que elas existem”, ressalta.
Meta agora é provar que moradores foram aniquilados oficialmente’
Segundo o professor, a meta agora é exatamente provar que essas pessoas existem e oficialmente foram aniquiladas. “Como no esquema de clientelismo e corrupção eles não foram contemplados com apartamentos, aí eles ficaram largados lá e a prefeitura trabalhou uma forma de aniquilar a identidade deles, para que a sociedade não tenha conhecimento do crime que eles cometeram”, avalia.
O sociólogo pontua que a ação da prefeitura foi truculenta e violou todos os direitos dos cidadãos: “Em nome da lei violaram os direitos e a minha dor maior como acadêmico é primeiro resgatar a memória dessa luta dos invisíveis, porque são pessoas simples, boas, que conheço há anos e nossa grande preocupação é resgatar a humanidade delas; depois disso é manter a memória delas; criar um memorial, uma página na internet, insistir na memória”, ressalta.
Segundo o professor Parmênides Justino, que também é psicólogo, durante a demolição, encontrou um idoso que não sabia para onde ir, estava desorientado e pensava que fossem levá-lo para um asilo. “Eu perguntei para onde ele ia e ele informou: ‘parece que vão me levar para um asilo’. Perguntei pelos móveis e ele disse que tinham levado. Para você ter uma ideia da violência praticada contra essas pessoas”, pontua.
Além de idosos abandonados, dormindo no chão, nos abrigos que a prefeitura destinou para alojar os moradores da Vila de Pescadores, o professor destaca uma série de problemas que não foram avaliados, como os locais insalubres e sem infraestrutura para abrigar seres humanos.

Parmênides Justino critica também a falta de preparação dos funcionários da prefeitura e dos oficiais de Justiça e diz que os moradores da vila ficaram sabendo da ação pelas redes sociais.

“Um paciente com transtorno foi levado para o abrigo e teria que ter assistência especial, previamente cadastrado, as pessoas do abrigo não aceitaram a presença dele, que estava muito nervoso, e por sorte nós tínhamos uma série de pessoas do consultório do grupo de rua, que inclusive estão sendo mal vistos pela prefeitura”, explica.
Dentre a diversidade de problemas apresentados, o professor Parmênides Justino aponta ainda que as crianças da vila estão sem escola. “Pela lei essas crianças têm que ser cadastradas, providenciadas escola, elas estão num abrigo, longe da escola, o aluguel social é de 200 reais, não vai dar para eles alugarem casa aqui na região, na periferia fica em torno de 40 quilômetros”, observa.
Outro incidente acontecido durante a demolição das casas apontado pelo professor foi o de   uma senhora entrou em trabalho de parto “e pela lei tem que ter tratamento especial para ela”, entre outras questões elencadas pelo professor.
Para que o pessoal pudesse ter apoio psicológico ele acrescenta que foi preciso acionar o pessoal dos direitos humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-AL), na pessoa de Daniel Nunes,  para que intervisse na questão, diante de tantos problemas encontrados. “Eu tenho foto e documentos de tudo”.
Parmênides Justino critica também a falta de preparação dos funcionários da prefeitura e dos oficiais de Justiça e diz que os moradores da vila ficaram sabendo da ação pelas redes sociais.
“Também houve abuso de autoridade: a reintegração de posse era do terreno, mas as casas, o tijolo, a madeira, eram de propriedade dos moradores e não da União; o oficial de Justiça estava ameaçando dar voz de prisão às pessoas que estavam levando suas portas e telhas, janelas, que para eles é o bem deles, lutaram por aquilo e eles estavam abusando da autoridade”, denuncia.
Defesa dos pesquisadores sempre foi que houvesse inclusão dos pescadores  
O também professor da Ufal Daniel Vasconcelos  disse que pesquisa a Vila dos Pescadores desde a sua graduação e que a proposta dos pesquisadores que participam do movimento Abrace a Vila sempre foi pela inclusão das pessoas que realmente trabalham com a pesca e nunca foi a favelização de Jaraguá.
“Publiquei artigos que foram parte da minha monografia, que foram análise do processo de  revitalização turística do bairro e desde aquela época, década de 1990 a 2000, que existem propostas que visam a permanência das pessoas que têm identidade com a pesca, com o território, entre essas propostas teve um projeto que foi premiado, do arquiteto Pascoal, baseado na sustentabilidade”, destaca.

O também professor da Ufal Daniel Vasconcelos disse que pesquisa a Vila dos Pescadores desde a sua graduação e que a proposta dos pesquisadores que participam do movimento Abrace a Vila sempre foi pela inclusão das pessoas que realmente trabalham com a pesca e nunca foi a favelização de Jaraguá

Segundo o professor, na proposta se contemplava a permanência dos pescadores, mas o projeto não foi viabilizado.  “Houve a revitalização do bairro, dos monumentos históricos, das ruas, foi retirada uma grande parte da vila, onde hoje é o estacionamento de Jaraguá, e o descaso vem ocorrendo há muito tempo”, avalia.
Daniel Vasconcelos  ressalta que a defesa também é pelas pessoas que têm identidade cultural com o local. “De dez anos para cá foi criado um ponto de cultura da professora Marluce, que deu uma auxílio às crianças que ficavam ociosas no bairro, incluindo-as em atividades culturais e as coisas funcionavam. O que faltou foi uma sensibilidade do poder público, para que se pudesse ser de forma organizada e resolver o problema da favela”, avalia.

Daniel Vasconcelos ressalta que a defesa também é pelas pessoas que têm identidade cultural com o local.

O professor da Ufal disse que a demolição foi uma solução autoritária, de higiene social. “Eles argumentam que é uma melhoria para o bairro, para as questões da violência que ocorre, apesar de existir o tráfico na comunidade sabe-se que não é maioria. Se o problema era o tráfico, que fossem atrás do traficante e não expulsar a comunidade toda”, analisa.
Ainda como argumento, Daniel Vasconcelos explica que o objetivo do movimento não é promover a miséria, como eles argumentam. “O turista quer ter contato com a identidade do local, as pesquisas apontam que existem informações de que ali poderiam estar descendentes de pessoas que fundaram a cidade”, observa.
Se fosse feito um mapeamento antropológico e genealógico, na avaliação do professor, algumas pessoas poderiam ter essa identidade, de serem descendentes dos fundadores de Maceió residindo na Vila dos Pescadores. “É uma área que merecia maior atenção; tanto do governo municipal,  Iphan e outras instituições que fazem pesquisas antropológicas e visam a fomentar a preservação do patrimônio cultural e tudo isso foi demolido. A justificativa hoje é que se acabou com a violência, a favela, mas a maioria da população que é leiga acredita nisso; não sabem da proposta cultural e do que existia anteriormente”, pontua.
Daniel finaliza sua fala ressaltando que o fato que ocorreu em Maceió não é uma situação pontual: “Vem ocorrendo no mundo inteiro, como no Pelourinho, em Salvador, onde as populações negras estão sendo retiradas do local histórico; o próprio Recife antigo, onde também tem pesquisadores que têm colocado as questões de higienização social, que  prejudicou a dinâmica e identidade do local e mais uma vez, em Maceió”, pontua.

Resistência e luta dos trabalhadores da Vila dos Pescadores não acaba com demolição

Movimento Abrace a Vila se reúne para discutir estratégias de ação e têm apoio de estudantes e professores da Ufal

Olívia de Cássia - Repórter 
A resistência e luta dos trabalhadores da Vila dos Pescadores, em Jaraguá, não vai acabar, mesmo diante da remoção dos moradores e demolição de toda a vila, promovida pela Prefeitura de Maceió, no último dia 17. A Vila dos Pescadores tinha mais de 60 anos e os ex-moradores, estudantes e professores da Universidade Federal de Alagoas, amigos e simpatizantes da causa estão em reunião permanente para discutir os próximos passos do movimento com relação à tentativa de acabar com a história do local.

Segundo dona Enaura Alves do Nascimento, presidente da Associação dos Moradores da Vila dos Pescadores, a comunidade nunca pensou que a desocupação seria dessa forma, apesar das ameaças que vinham sofrendo há algum tempo - Fotos: Paulo Tourinho

Revoltados com a ação que eles consideram ter sido truculenta, sem consideração, os integrantes do Movimento Abrace a Vila, surgido para defender os moradores, também vão responsabilizar as instituições que se omitiram diante da demolição das casas e barracos dos pescadores, marisqueiras e demais trabalhadores e estão preparando toda a documentação necessária para isso.
A reunião do grupo foi para mostrar que os moradores não estão só. Segundo dona Enaura Alves do Nascimento, presidente da Associação dos Moradores da Vila dos Pescadores, a comunidade nunca pensou que a desocupação seria dessa forma, apesar das ameaças que vinham sofrendo há algum tempo.
“Vinte e cinco famílias cadastradas ficaram na Vila, depois que cerca de 400 foram para os apartamentos na Praia do Sobral. A gente sabia que a qualquer hora eles poderiam nos tirar, mas tínhamos esperança de que fossem construir uma vila naquele local”, destaca.

Segundo Enaura Nascimento, a pior situação é para aquelas famílias que não têm para onde ir e foram deslocadas para abrigos insalubres, sem estrutura para receber seres humanos

Segundo Enaura Nascimento, a pior situação é para aquelas famílias que não têm para onde ir e foram deslocadas para abrigos insalubres, sem estrutura para receber seres humanos. “A gente nunca pensou que isso pudesse acontecer. Pessoas que tinham um barraquinho, mesmo um local pequeno, mas era delas e hoje estão num abrigo na Cambona, outros estão numa creche, jogaram tudo”, reclama.
Se a questão da Prefeitura é turística, segundo Enaura Nascimento, “o turista gosta de ver o nativo, mas os poderosos colocam os menos favorecidos na parte alta da cidade, para mostrar o que é bonito para o turista e nos tirar do nosso local de origem”. Segundo a líder comunitária, a comunidade não tinha estrutura, “mas ali a gente não passava fome, tem o peixe, a lagosta, o camarão, há essa diferença até de outras comunidades que a gente sabe que passa fome e eles não conseguem nem o alimento”, observa.
A presidente da associação dos moradores argumenta que aprendeu a lutar pelos seus direitos e por isso o seu grupo criou o movimento de resistência da vila. “Nós aprendemos a lutar por nossos direitos. Primeiro você não acredita que pode lutar contra os poderosos, mas quando a gente aprende a lutar, não vai saber até onde você pode chegar se não aprender a lutar. A gente conseguiu juntar esse grupo, que disse: eu não tenho medo e ficou, mas a gente sabia que tinha mais gente”, disse.

A presidente da Associação diz que tem 45 anos e essa é a primeira mudança que fez na vida.

Há oito anos, ela observa que foi feito um cadastro. “O tempo passou e essas pessoas casaram, constituíram família, mas tinham um cantinho para morar. Eu hoje moro num apartamento que não tem porta, janelas, não tem estrutura, mas a gente vai conseguir melhorar, trabalhando; a gente olha para outros que estão na rua e já vão sair nesta segunda-feira, o aluguel social é de 200 reais por três meses e não dá para nada, além da água e da luz”, explica.
Todo esse tempo, os trabalhadores da vila estão parados> Dona Enaura Nascimento observa que quem vendia o peixe na balança, o local foi isolado, desde a Praça Marcílio Dias. “Ninguém vem comprar peixe”, a Prefeitura de Maceió está prometendo outro local, “mas não sabemos qual vai ser, eles anunciam na televisão um cadastro para um conjunto no Benedito Bentes, mas já conhecemos essa história, vimos como foi o cadastramento dos desabrigados das enchentes no que deu”.

Integrante do movimento Abrace a Via, diz que testemunhou desocupação e diz que foi um pesadelo

Ana Luiza Firemmam é professora de linguística e ensina argumentação jurídica e disse que acompanhou todo o processo de perto. “Faço parte do movimento Abrace a Vila e venho acompanhando todas as lutas dos moradores, há onze meses. Não conseguimos suspender os efeitos da sentença e na quarta-feira, 17, por volta das quatro e meia da manhã, inciou-se o processo de desocupação”, observou.
Segundo Ana Luiza Firemman, o que deveria ter sido um plano pacífico, com assistente social, para dar assistência aos moradores, fazendo cadastro, explicando para onde eles iriam, virou um pesadelo. “Cerca de cinco horas da manhã a comunidade foi isolada de um lado a outro, ninguém podia passar, cavalaria acionada, muita polícia, Bope, não avisaram à população local que a desocupação ia acontecer daquela forma”.
Ana Luiza, que frequenta a comunidade há quase um ano explica que havia uma decisão judicial, os moradores sabiam que a desocupação poderia acontecer a qualquer momento, “mas o correto seria terem avisado: a desocupação vai ser tal dia, tal hora, se preparem”, argumenta.

Segundo Ana Luiza Firemman, o que deveria ter sido um plano pacífico, com assistente social, para dar assistência aos moradores, fazendo cadastro, explicando para onde eles iriam, virou um pesadelo

“O discurso do Ministério Público Federal é que se tinha uma sentença, medida cautelar que visava suspender os efeitos da sentença e não foi acatada, caberia aos moradores saírem do local. Ocorre que das cerca de 120 famílias que moravam na vila, somente 23 eram cadastradas e tinham apartamento para ir; as demais, cerca de 80, não tinham local para ir, e como elas iam sair?”, interroga.
Segundo a professora, caberia à Prefeitura de Maceió fazer o processo organizado e providenciar em primeiro lugar o local de deslocamento dessas famílias e encontrar um destino para cada uma delas.
“No que diz respeito á moradia, escola para as crianças, pois elas estudavam numa escola ali próximo, e nada disso foi feito. Simplesmente mandaram tirar as pessoas, sem os pertences, jogaram tudo num caminhão, sem identificação, as pessoas iam fazer o cadastro de qualquer forma, não entraram na comunidade para conversar e se não fosse a gente ali para dar assistência, pegar na mão, acolher, dizer que eles não estavam só, teria sido pior”, argumenta.
Ana Luiza Firemamm disse ainda que, no desespero, as crianças corriam do lado, vendo tudo aquilo, a demolição das casas ainda com o pessoal saindo, os animais de estimação para um lado, e cerca das 80 famílias que não tinham para onde ir ficar sem nenhuma informação. Isso para as pessoas que não tinham para onde ir.

Segundo a professora, caberia à Prefeitura de Maceió fazer o processo organizado e providenciar em primeiro lugar o local de deslocamento dessas famílias e encontrar um destino para cada uma delas.

“Tive que chamar dr. Daniel da Comissão de Direitos Humanos da OAB para acompanhar, a defensoria Pública da União também, porque não houve planejamento da prefeitura, eles não tinham dimensão das pessoas que moravam ali e a Prefeitura de Maceió não se organizou. Foi uma situação caótica, violando todo tipo de direito fundamental, garantido na Constituição Federal”, avalia.

Durante a reunião algumas lideranças também sugeriram que vão chamar instituições à responsabilidade, por meio de uma denúncia pela omissão à causa como a Fundação Cultural Palmares, movimento negro, entre outra. Foto: Paulo Tourinho

Ana Luiza comenta que viveu um verdadeiro pesadelo: “Testemunhei um verdadeiro pesadelo, estou praticamente há três dias sem dormir, angustiada, porque isso atinge a gente, sobretudo quem frequenta a comunidade. Há quase um ano que venho frequentando a comunidade, conheço as pessoas, acompanhando aquele sofrimento todo, uma sensação de insegurança completa”, explica.
Durante a reunião algumas lideranças também sugeriram que vão chamar instituições à responsabilidade, por meio de uma denúncia pela omissão à causa como a Fundação Cultural Palmares, movimento negro, entre outras. “As instituições se omitiram diante da ação, não fizeram nada para impedir a total demolição: estamos numa luta contra os poderosos; tem coisas que nos separam e outras que nos unem e temos que nos acercar das coisas que nos unem para lutar contra essa oligarquia, porque senão nós seremos esmagados”, disse a professora de capoeira Silene Gomes. 

"As instituições se omitiram diante da ação, não fizeram nada para impedir a total demolição:", disse a professora de capoeira Silene Gomes. Foto Paulo Tourinho

http://www.1momento.com.br/noticias/cidades/resistencia-e-luta-dos-trabalhadores-da-vila-dos-pescadores-de-jaragua-nao-acaba-com-demolicao

 São João do carneirinho



Olívia de Cássia - Jornalista
Nessa época do ano no interior de antigamente era muita animação. Na União dos Palmares, na década de 1970, minha pré e adolescência, era tudo muito bom, embora eu vivesse num mundo interior de conflitos.
A Festa do Milho (Femil) criada na administração de Afrânio Vergetti de Siqueira, meu primo estimado, era tudo de bom. A Praça Basiliano Sarmento ficava lotada de forrozeiros e população comparecia em massa, mesmo com as chuvas intermitentes dessa época do ano.

Lembro que o palhoção era erguido no meio da praça, feito de madeira e palha de coqueiro e ficava lá durante todos os festejos juninos e até depois. Ao redor daquela grande palhoça ficavam várias barraquinhas de souvenir e comidas típicas que eram vendidas quase em sua totalidade, gerando emprego e renda.
As quadrilhas e brincadeiras de São João não eram como agora. As roupas para a dança era alguma coisa arranjada e costumizada de alguma peça que se tinha em casa. Antonio Matias, nosso carnavalesco, não perdia a animação com sua família também em época de São João.
Nessa época eu gostava mais de ficar como espectadora de tudo aquilo. Na adolescência, improvisávamos quadrilhas. Lembro pelo menos de duas que tenha dançado. Uma em frente à casa do então prefeito Rosiber Oliveira e outra na Sétima Coordenadoria Regional de Ensino, onde fizemos a primeira quadrilha estilizada e trocada de par. Eu fui o noivo da dança e meu terno e gravata foram emprestados de dr. Nilson, pai das minhas amigas Roseane, Rose e Rita Mendonça.
Nesse dia viramos a atração de União porque saímos às ruas num trator de seu Danclads Uchoa e éramos vistos como a elite da cidade. Nossa turma sempre estava inovando em se tratando de rebeldia. E como eu me divertia com aquilo tudo! Mas apesar de ter muita saudade daquilo tudo, chega um tempo que a vida te chama à responsabilidade das ideias e a decidir de que lado você vai estar, quando exigir de você um posicionamento.
Analisando nossas vivências, de ontem e de hoje, a gente pode estar seguro do que quer, mas chega um dia em que todas as lembranças vêm à tona e nos pegamos viajando em pensamentos, vivenciando coisas que fazem parte de um passado distante, da adolescência e juventude, mas que às vezes se faz tão presente que dói na alma da gente.
Todas essas lembranças nos servem de lição, são acontecimentos que fizeram parte do nosso crescimento interior, aquelas vivências mais profundas que influenciaram de alguma forma na nossa vida e construíram a nossa personalidade.
Acho que é isso o que faz a pessoa madura. Eu sou o que sou e nunca fingi ser diferente,  porque não posso passar para os que estão próximos de mim uma imagem diferente daquilo que nunca fui.
Quem me conhece sabe que eu sou assim mesmo: às vezes um pouco louca, romântica, antagônica ao extremo. Mas nunca dissimulada.  Sou feliz assim, não penso que seria diferente, foi a minha escolha. Aprendi a ser feliz na minha solteirice e tenho o meu trabalho como o foco da minha vida e tenho pensado nisso nos últimos dias, quando a saúde já está frágil.
Às vezes a gente se angustia pela falta de reconhecimento pelo nosso esforço, mas isso também faz parte do jogo. Não vamos esperar que tudo seja perfeito e que os outros também o sejam.
Tem momentos que nos pegamos fazendo interrogações, querendo saber o motivo de tais situações, mas nem isso vai tirar o foco se acreditamos e amamos o que fazemos.  Mas essa digressão de agora foi para lembrar meu São João, São João do carneirinho.....

domingo, 21 de junho de 2015

Religiosa diz: “O quebra se repete depois de 100 anos em Maceió”

Mãe Vitória  fala dos maus momentos

que passou com a demolição

de terreiro e ponto de cultura

na Vila dos Pescadores  

Olívia de Cássia - Repórter
Decepcionada com a falta de humanidade, de caridade e humanismo, proporcionada pela ação dos  funcionários da Prefeitura de Maceió, no ato da desocupação dos moradores da Vila dos Pescadores, em Jaraguá, a sacerdotisa Maria Vitória de Lima Oliveira, a Mãe Vitória, que residia e mantinha um terreiro de candomblé no local,  há 35 anos, em depoimento emocionante em vídeo que viralizou na internet, denunciou a ação truculenta para reintegração de posse do local,  acontecida  na manhã da última quarta-feira (17). 
A sacerdotisa Maria Vitória de Lima Oliveira, a Mãe Vitória, que residia e mantinha um terreiro de candomblé no local, há 35 anos, em depoimento emocionante em vídeo que viralizou na internet, denunciou a ação truculenta para reintegração de posse do local - Foto: Paulo Tourinho
O vídeo com o depoimento da religiosa falando da demolição do terreiro de candomblé e do ponto de cultura foi compartilhado na internet por lideranças de cultura, religiosos e simpatizantes  da causa de várias partes do país, que já se manifestaram indignados com a ação da Justiça alagoana. (Veja vídeo - reprodução Youtube - Sabage Midiática)
A operação foi realizada pela Polícia Militar, em parceria com a Secretaria de Estado da Defesa Social e Ressocialização (Sedres), o apoio do Corpo de Bombeiros, Polícia Federal, Guarda Municipal e outros órgão municipais. A reportagem foi ouvir neste sábado, 20, moradores da Vila dos Pescadores, lideranças de movimentos culturais e apoiadores que estão mobilizados para buscarem alternativas e cobrar um posicionamento a quem de direito.
Segundo a religiosa, muita gente não tem para onde ir e foram para abrigos que a Prefeitura determinou, sem a mínima estrutura para abrigar seres humanos, principalmente crianças. Foto: Paulo Tourinho
Segundo a religiosa, muita gente não tem para onde ir e foram para abrigos que a Prefeitura determinou, sem a mínima estrutura para abrigar seres humanos, principalmente crianças.  Mãe Vitória comentou emocionada que seu terreiro foi demolido, ‘sem dó nem piedade’, juntamente às casas e barracos do local.
Tudo foi ao chão e quem passou pelo local neste sábado viu que foram colocados tapumes ao redor, onde antes eram as casas. A religiosa lembrou que a liberdade de crença é um direito assegurado na Constituição Federal e que esse direito foi violado barbaramente em Alagoas. 
Tudo foi ao chão e quem passou pelo local neste sábado viu que foram colocados tapumes ao redor, onde antes eram as casas. Foto: Everaldo Dantas 
“Eu não ia construir no local sem autorização. O oficial de Justiça não teve o mínimo respeito e disse: ‘quem é Oxalá?’ Por que não pode derrubar o santo?’ Isso me deixou  muito constrangida”, pontuou.
Para construir o templo, a religiosa conta que pediu autorização à União, meio ambiente,  para a ocupação. “São 35 anos que eu morava lá, no templo tinha mais quatro famílias, um total de quinze pessoas, nós sempre ajudamos as pessoas necessitadas; eles não têm para onde ir”, desabafa.
Para construir o templo, a religiosa conta que pediu autorização à União, meio ambiente,  para a ocupação - Foto: Paulo Tourinho
Certidão de Inscrição de Ocupação - Fotos: Paulo Tourinho
Segundo a religiosa, a demolição das casas, do terreiro e do ponto de cultura foi uma violência inesperada: “A intolerância e a discriminação que há séculos perseguem as religiões de matriz africana representam uma das faces mais perversas do racismo brasileiro”, avalia.
Segundo a religiosa, a demolição das casas, do terreiro e do ponto de cultura foi uma violência inesperada -  Foto: Everaldo Dantas
Mãe Vitória comenta ainda que os oficiais de Justiça do Estado estão despreparados, pois não têm traquejo para lidar com o ser humano. “Eu estou em choque e decepcionada com o prefeito Rui Palmeira, em quem eu e meu povo votamos. Prefeito, muito obrigada pelo o que o senhor fez conosco, esse foi o agradecimento que tivemos pelos votos que demos ao senhor”, disse ela.
Segundo a mãe de santo, nesse momento os povos da religião de matriz africana estão  vivendo um novo Quebra de terreiro. “Isso não pode ficar assim. O Estado publicamente reconheceu e pediu perdão pelo que aconteceu em 1912 e agora acontece outra vez”, pontua a Mãe Vitória, mostrando a documentação que tem em mãos, com a autorização da União de funcionamento do terreiro.
A religiosa lembra ainda que o que aconteceu foi uma violação dos direitos humanos. “Foi uma violação dos nossos direitos; estou muito constrangida com a forma que eles chegaram; a abordagem; a crítica à religião; falta de respeito e de consideração. Eles não quiseram acordo, pedi que me dessem três dias, 24 horas  para a gente organizar as coisas, mas eles não quiseram acordo”, explica.
A religiosa lembra ainda que o que aconteceu foi uma violação dos direitos humanos - Foto: Paulo Tourinho
Mãe Vitória disse que está morando de favor na casa de amigos e que os pertences do terreiro foram divididos em outros locais, porque não caberiam na casa onde está alojada. “Não posso pagar aluguel, porque uma casa para caber todas as minhas coisas, as panelas de barros, os santos, tem que ter espaço e o aluguel é alto. Eles estão pagando um aluguel social de R$ 200 e não dá. Sou viúva e não tenho como pagar”, observa.
A religiosa destaca que os oficias disseram que ela tinha que tirar as coisas, urgente, dentro de duas horas: “Queriam que eu colocasse os móveis e pertences fora, o negócio era derrubar imediatamente, derrubar logo o terreiro. É tanto que quando deram início à demolição, foi antes de eu retirar as coisas. Estou me sentindo constrangida”, reforça.
A mãe de santo finaliza observando que ela e todos os demais moradores da Vila dos Pescadores de Jaraguá estão sofrendo - Foto: Everaldo Dantas 
Segundo a mãe Vitória, se a ação tivesse sido com outras religiões os oficiais não teriam agido dessa forma: “Eu queria ver se fosse uma igreja evangélica, ou católica ou outro local. Eu não vou ficar de braços cruzados e vou procurar autoridades que se comprometeram em dar apoio e não o fizeram: eles podem ter demolido a construção, mas a nossa história não vai morrer”, reforça.
A mãe de santo finaliza observando que ela e todos os demais moradores da Vila dos Pescadores de Jaraguá estão sofrendo: “Eu não posso ir para os albergues que não tenho saúde. Eu quero justiça, confio na justiça divina. Ali tem pescador, tem marisqueira, pessoas dignas, trabalhadores, que convivi muitos anos. É preciso que alguém ajude esse povo que foi escorraçado de sua moradia”, ressalta. 

 Mais fotos da demolição (Fotos: Everaldo Dantas)