terça-feira, 23 de junho de 2015

Resistência e luta dos trabalhadores da Vila dos Pescadores não acaba com demolição

Movimento Abrace a Vila se reúne para discutir estratégias de ação e têm apoio de estudantes e professores da Ufal

Olívia de Cássia - Repórter 
A resistência e luta dos trabalhadores da Vila dos Pescadores, em Jaraguá, não vai acabar, mesmo diante da remoção dos moradores e demolição de toda a vila, promovida pela Prefeitura de Maceió, no último dia 17. A Vila dos Pescadores tinha mais de 60 anos e os ex-moradores, estudantes e professores da Universidade Federal de Alagoas, amigos e simpatizantes da causa estão em reunião permanente para discutir os próximos passos do movimento com relação à tentativa de acabar com a história do local.

Segundo dona Enaura Alves do Nascimento, presidente da Associação dos Moradores da Vila dos Pescadores, a comunidade nunca pensou que a desocupação seria dessa forma, apesar das ameaças que vinham sofrendo há algum tempo - Fotos: Paulo Tourinho

Revoltados com a ação que eles consideram ter sido truculenta, sem consideração, os integrantes do Movimento Abrace a Vila, surgido para defender os moradores, também vão responsabilizar as instituições que se omitiram diante da demolição das casas e barracos dos pescadores, marisqueiras e demais trabalhadores e estão preparando toda a documentação necessária para isso.
A reunião do grupo foi para mostrar que os moradores não estão só. Segundo dona Enaura Alves do Nascimento, presidente da Associação dos Moradores da Vila dos Pescadores, a comunidade nunca pensou que a desocupação seria dessa forma, apesar das ameaças que vinham sofrendo há algum tempo.
“Vinte e cinco famílias cadastradas ficaram na Vila, depois que cerca de 400 foram para os apartamentos na Praia do Sobral. A gente sabia que a qualquer hora eles poderiam nos tirar, mas tínhamos esperança de que fossem construir uma vila naquele local”, destaca.

Segundo Enaura Nascimento, a pior situação é para aquelas famílias que não têm para onde ir e foram deslocadas para abrigos insalubres, sem estrutura para receber seres humanos

Segundo Enaura Nascimento, a pior situação é para aquelas famílias que não têm para onde ir e foram deslocadas para abrigos insalubres, sem estrutura para receber seres humanos. “A gente nunca pensou que isso pudesse acontecer. Pessoas que tinham um barraquinho, mesmo um local pequeno, mas era delas e hoje estão num abrigo na Cambona, outros estão numa creche, jogaram tudo”, reclama.
Se a questão da Prefeitura é turística, segundo Enaura Nascimento, “o turista gosta de ver o nativo, mas os poderosos colocam os menos favorecidos na parte alta da cidade, para mostrar o que é bonito para o turista e nos tirar do nosso local de origem”. Segundo a líder comunitária, a comunidade não tinha estrutura, “mas ali a gente não passava fome, tem o peixe, a lagosta, o camarão, há essa diferença até de outras comunidades que a gente sabe que passa fome e eles não conseguem nem o alimento”, observa.
A presidente da associação dos moradores argumenta que aprendeu a lutar pelos seus direitos e por isso o seu grupo criou o movimento de resistência da vila. “Nós aprendemos a lutar por nossos direitos. Primeiro você não acredita que pode lutar contra os poderosos, mas quando a gente aprende a lutar, não vai saber até onde você pode chegar se não aprender a lutar. A gente conseguiu juntar esse grupo, que disse: eu não tenho medo e ficou, mas a gente sabia que tinha mais gente”, disse.

A presidente da Associação diz que tem 45 anos e essa é a primeira mudança que fez na vida.

Há oito anos, ela observa que foi feito um cadastro. “O tempo passou e essas pessoas casaram, constituíram família, mas tinham um cantinho para morar. Eu hoje moro num apartamento que não tem porta, janelas, não tem estrutura, mas a gente vai conseguir melhorar, trabalhando; a gente olha para outros que estão na rua e já vão sair nesta segunda-feira, o aluguel social é de 200 reais por três meses e não dá para nada, além da água e da luz”, explica.
Todo esse tempo, os trabalhadores da vila estão parados> Dona Enaura Nascimento observa que quem vendia o peixe na balança, o local foi isolado, desde a Praça Marcílio Dias. “Ninguém vem comprar peixe”, a Prefeitura de Maceió está prometendo outro local, “mas não sabemos qual vai ser, eles anunciam na televisão um cadastro para um conjunto no Benedito Bentes, mas já conhecemos essa história, vimos como foi o cadastramento dos desabrigados das enchentes no que deu”.

Integrante do movimento Abrace a Via, diz que testemunhou desocupação e diz que foi um pesadelo

Ana Luiza Firemmam é professora de linguística e ensina argumentação jurídica e disse que acompanhou todo o processo de perto. “Faço parte do movimento Abrace a Vila e venho acompanhando todas as lutas dos moradores, há onze meses. Não conseguimos suspender os efeitos da sentença e na quarta-feira, 17, por volta das quatro e meia da manhã, inciou-se o processo de desocupação”, observou.
Segundo Ana Luiza Firemman, o que deveria ter sido um plano pacífico, com assistente social, para dar assistência aos moradores, fazendo cadastro, explicando para onde eles iriam, virou um pesadelo. “Cerca de cinco horas da manhã a comunidade foi isolada de um lado a outro, ninguém podia passar, cavalaria acionada, muita polícia, Bope, não avisaram à população local que a desocupação ia acontecer daquela forma”.
Ana Luiza, que frequenta a comunidade há quase um ano explica que havia uma decisão judicial, os moradores sabiam que a desocupação poderia acontecer a qualquer momento, “mas o correto seria terem avisado: a desocupação vai ser tal dia, tal hora, se preparem”, argumenta.

Segundo Ana Luiza Firemman, o que deveria ter sido um plano pacífico, com assistente social, para dar assistência aos moradores, fazendo cadastro, explicando para onde eles iriam, virou um pesadelo

“O discurso do Ministério Público Federal é que se tinha uma sentença, medida cautelar que visava suspender os efeitos da sentença e não foi acatada, caberia aos moradores saírem do local. Ocorre que das cerca de 120 famílias que moravam na vila, somente 23 eram cadastradas e tinham apartamento para ir; as demais, cerca de 80, não tinham local para ir, e como elas iam sair?”, interroga.
Segundo a professora, caberia à Prefeitura de Maceió fazer o processo organizado e providenciar em primeiro lugar o local de deslocamento dessas famílias e encontrar um destino para cada uma delas.
“No que diz respeito á moradia, escola para as crianças, pois elas estudavam numa escola ali próximo, e nada disso foi feito. Simplesmente mandaram tirar as pessoas, sem os pertences, jogaram tudo num caminhão, sem identificação, as pessoas iam fazer o cadastro de qualquer forma, não entraram na comunidade para conversar e se não fosse a gente ali para dar assistência, pegar na mão, acolher, dizer que eles não estavam só, teria sido pior”, argumenta.
Ana Luiza Firemamm disse ainda que, no desespero, as crianças corriam do lado, vendo tudo aquilo, a demolição das casas ainda com o pessoal saindo, os animais de estimação para um lado, e cerca das 80 famílias que não tinham para onde ir ficar sem nenhuma informação. Isso para as pessoas que não tinham para onde ir.

Segundo a professora, caberia à Prefeitura de Maceió fazer o processo organizado e providenciar em primeiro lugar o local de deslocamento dessas famílias e encontrar um destino para cada uma delas.

“Tive que chamar dr. Daniel da Comissão de Direitos Humanos da OAB para acompanhar, a defensoria Pública da União também, porque não houve planejamento da prefeitura, eles não tinham dimensão das pessoas que moravam ali e a Prefeitura de Maceió não se organizou. Foi uma situação caótica, violando todo tipo de direito fundamental, garantido na Constituição Federal”, avalia.

Durante a reunião algumas lideranças também sugeriram que vão chamar instituições à responsabilidade, por meio de uma denúncia pela omissão à causa como a Fundação Cultural Palmares, movimento negro, entre outra. Foto: Paulo Tourinho

Ana Luiza comenta que viveu um verdadeiro pesadelo: “Testemunhei um verdadeiro pesadelo, estou praticamente há três dias sem dormir, angustiada, porque isso atinge a gente, sobretudo quem frequenta a comunidade. Há quase um ano que venho frequentando a comunidade, conheço as pessoas, acompanhando aquele sofrimento todo, uma sensação de insegurança completa”, explica.
Durante a reunião algumas lideranças também sugeriram que vão chamar instituições à responsabilidade, por meio de uma denúncia pela omissão à causa como a Fundação Cultural Palmares, movimento negro, entre outras. “As instituições se omitiram diante da ação, não fizeram nada para impedir a total demolição: estamos numa luta contra os poderosos; tem coisas que nos separam e outras que nos unem e temos que nos acercar das coisas que nos unem para lutar contra essa oligarquia, porque senão nós seremos esmagados”, disse a professora de capoeira Silene Gomes. 

"As instituições se omitiram diante da ação, não fizeram nada para impedir a total demolição:", disse a professora de capoeira Silene Gomes. Foto Paulo Tourinho

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