sábado, 22 de outubro de 2016

O choro não vem

Por Olívia de Cássia

Quero chorar, mas as lágrimas que antes jorravam com facilidade, já não me chegam assim. Tem horas que me sinto feito um zumbi, andando cambaleando, entre um desequilíbrio, uma queda e a falta de firmeza nas pernas.

Entre contradições; dores, perdas e experiências a gente vai seguindo em frente, tentando ser forte e acreditando que ainda posso ser eu. Antes, me bastava 'uma cara feia' e já estava eu a chorarando, não precisava de muito esforço.

A vida endureceu um pouco meu coração que já foi por demais magoado: muita experiência adquiri. A ataxia tira a sensibilidade da gente e nos torna mais céticos diante de fatos. Não quero me tornar uma pessoa fria que não se emocione com uma bela paisagem, uma bonita história de amor ou uma amizade sincera.

Não devemos fazer julgamentos e nem juízo de valor a respeito de quem quer que seja, muitas vezes sejamos tentados a isso. Quando me deparo com alguém muito rígido, frio e que aparenta não ter sensibilidade, me ponho a analisar com meus botões, o que tornou aquela pessoa tão insensível.

Não sou psicóloga, mas as experiências adquiridas que chegam com a maturidade, vai nos guiando e levando a entender algumas nuances que se apresentam no cotidiano. Amanheci pensativa com minhas dores físicas.

Quando me percebo ansiosa e inquieta, o jeito é colocar pra fora todo esse turbilhão de sentimentos que afloram, porque não adianta sair por aí falando pois nem mundo tem capacidade de mensurar esses sentimentos meus ou é obrigado a ficar ouvindo isso.

Não abro mão da simplicidade, da humildade, sem querer ser coitadinha ou inspirar dó seja lá de quem for. Dizem que algumas coisas simplesmente são, e não se pode querer mudá-las ou mesmo compreendê-las.

É assim que têm sido meus dias; não adianta me revoltar com a minha 'sorte', 'herança maldita', ou seja lá que nome eu vou dar às minhas limitações e impedimentos que chegaram com a falta de saúde. Não é fácil, mas não vou cair na cilada de ficar pensando o que está por vir; se é pior ou não do que o agora.

Gosto de estar com pessoas que me fazem bem. Pessoas positivas que me trazem um alento. Gente que gosta de cultura e de coisas boas. Infelizmente eu não posso dispor a toda hora da companhia de amigos assim e então corro para o teclado para descarregar todo esse sentimento que nem todos entendem.

Hoje em dia não é fácil falar de sentimentos; de ética e de boa conduta: parece que as pessoas foram contaminadas pela usura, materialidade e desamor. Tem horas que queria um colo para deitar e chamar de meu. Receber uns afagos e cafunés, como aqueles que a gente recebe da avó ou de pessoas queridas.

Mais um fim de semana chega, sem que eu tenha perspetivas de divertimento, de alívio das tensões e tenho que me contentar, ou pelo menos tentar, a aceitar o que vai chegando e o que me resta: ver a luz do dia; poder levantar, articular as palavras e ainda ter lucidez. Bom dia.

domingo, 16 de outubro de 2016

Eu vivi os anos 1980

Por Olívia de Cássia

No ano de 1980, quando perdi meu primeiro vestibular para Medicina, que era sonho da minha mãe, fiz a última viagem das muitas que costumava fazer quase todos os anos ao Rio de Janeiro, para onde mamãe me encaminhava, à casa dos meus tios, para me afastar das minhas amizades de União dos Palmares, que era uma preocupação dela.

Dessa vez fui ver se aventurava emprego em terras cariocas; já com 20 anos, apenas com curso de datilografia e o científico terminado, tinha meus sonhos de liberdade e independência bem aprofundados e queria deixar de depender dos meus pais.

Fiquei 'morando' no Rio de Janeiro quatro rápidos meses, passando temporadas na casa de um parente ou outro. Não tinha incursões por grandes aventuras por lá. Saídas só com os primos e primas, para programas com as crianças, que eu gostava muito.

Os passeios à Quinta da Boa Vista, Pão de Açúcar, à casa de familiares e à praia. Era o tempo da novela Água Viva. A violência já dava seus sinais naquela época, mas infinitamente menores do que hoje em dia. Nesse tempo, eu já começava a ir à quitanda, padaria e supermercados sozinha na Penha, onde minha tia Noêmia morava.

Ir à à Barra da Tijuca de ônibus, visitar duas amigas e voltar, ou para Realengo, à casa do meu tio José, até que recebi uma ligação de mamãe, informando que era para eu voltar às Alagoas, imediatamente: mamãe era quem determinava tudo em nossas vidas.

Minha prima Fátima Paes, com apenas 26 anos, estava nas últimas: metástase. Eu precisava passar meus últimos dias com ela. Éramos muito apegadas; foi muito sofrimento viver tudo aquilo. Avalio que o ceticismo de hoje se dá por conta de tanta perda.

Minha família, principalmente da parte do meu tio Antônio de Siqueira Paes, viveu muitas tragédias que dariam romances volumosos. Mas não vou fazer aqui incursões por elas, porque não é o foco do texto.

Foi na década de 80, que alcancei a universidade, depois de muita luta e muitas barreiras impeditivas. Fazer vestibular para jornalismo, numa época em que em União minhas amigas e amigos foram fazer medicina, engenharia, direito e outros cursos mais elitizados, causou revolta em dona Antônia, que sempre se via contestada por mim em sua forma de pensar.

As recomendações dela eram sempre as mesmas: 'cuidado com quem anda, cuidado com os comunistas'. E foi com quem primeiro me afinei no primeiro dia da faculdade, construindo amizades, tendo solidariedade deles. E Eu sempre transgredindo as determinações do sistema', que para mim, naquela época se chamava dona Antônia, com sua mão de ferro.

Hoje avalio que para minha mãe, conviver com uma filha rebelde naquele tempo não era fácil de entender. Ao contrário do que se pensa, tive muitos ensinamentos da minha mãe e deles não abro mão, apesar das nossas divergências de pensamentos.

Foi nesse tempo saudoso de faculdade que aprofundei minhas leituras e adquiri mais conhecimento e fui perdendo um pouco aquela ingenuidade; conhecendo mais da vida e do caráter das pessoas.

Em oposição a isso, me enredei na trama do sentimentalismo, que me embotou o pensamento por muito tempo e deixei de viver situações melhores e mais produtivas. Mas tudo isso faz parte da minha história de vida e não posso renegar.

Por conta desse atraso sentimental, quase deixava de lado minhas teorias e todo o aprendizado adquirido até então, me deixando levar pela tal submissão aos sentimentos. Demorou, mas a voz da razão falou mais alto e me livrou dos maus presságios, finalmente.

O especialista Gilberto Maragoni lembra que a volta da democracia (em 1985) possibilitou uma reorganização do movimento social, num patamar inédito até então. Ele destaca que nos países da América Latina esse período ficou conhecido como “a década perdida”, no âmbito da economia.

"No Brasil, a desaceleração representou uma queda vertiginosa nas médias históricas de crescimento dos cinquenta anos anteriores; mas sob o ponto de vista político, aquela foi literalmente uma década ganha", destaca.

Todas essas lembranças dos anos 80 me vieram hoje, depois de ser testemunha partícipe de tantas lutas e assistir o país sofrer um retrocesso e atraso que não estava na imaginação do mais pífio pensador. Bom dia.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Desorganização e caos

Por Olívia de Cássia

Talvez eu não tenha mais tempo para ver o que vai acontecer no Brasil daqui a 20 anos, quando estiver pago a cota do pacote de maldades do governo ilegítimo aprovado pela Câmara Federal. Mas o que o país está vivenciando, essa onda de atraso e retrocesso social, só vai ser percebida pelos mais jovens talvez quando nada tiver mais jeito.

Sou uma pessoa cronicamente desorganizada. Minha vida não tem sido fácil, como a de muitos brasileiros, mas bem mais estável em alguns aspectos do que a maioria que vai perder todos os benefícios adquiridos ao longo dos 12 anos dos governos Lula e Dilma.

Dependo do Sistema Único de Saúde-SUS que bom ou ruim é o que me tem valido nas horas de precisão, pois não tenho aporte financeiro para pagar planos exorbitantes de saúde. O desmonte na educação e na saúde está me deixando agoniada.

As políticas públicas que eram o carro-chefe do governo do PT estão sendo todas destruídas pela insanidade e incompetência de quem está no poder. Desorganização e caos é o que se apresentam por aqui, cotidianamente, e só poderemos ter dias melhores se o povo tiver consciência e voltar às ruas para protestar por todo esse desmonte.

No que se refere ao desmonte da minha vida pessoal, não posso atribuir culpas pelo meu mal desempenho na vida ou ao que aparece para eu resolver. Sou um desastre. Não fui treinada para as coisas práticas ou não me interessei para aprender e isso tudo agora me afeta de forma muito grave.

Vazamentos, entupimentos, reposição de peças; esses problemas que aparecem em casa, de ordem doméstica, me deixam em pânico, apavorada e eu fico sem saber o que fazer, mas sei que eles aparecem para me mostrar o quanto frágil eu sou nas tarefas do lar e na vida. Não vim ao mundo para administrar.

Ter problema neurodegenerativo não é fácil; tudo se complica a cada dia, as limitações do corpo vão falando alto, gritando, pedindo socorro, silenciosamente, e vamos dependendo mais dos outros para tudo, coisa que eu nunca esperei.

E vou ler para entender isso. Segundo a teoria do caos, uma pequena mudança ocorrida no início de qualquer situação, pode ter consequências desconhecidas no futuro. Talvez seja essa a explicação e entendo que nem tudo nesse rolo compressor deixa de ser positivo.

Diante desses imprevistos vou aproveitando para crescer, ou a vida oferece substância para isso. Que meus dias de ocaso sejam mais leves, para que eu ainda possa viver um pouco mais com suavidade e aproveitar o que me resta. Ainda tenho esperança, apesar de tudo. Bom dia e fiquem com Deus.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

De repente você percebe

Por Olívia de Cássia

Hoje amanheci um tanto quanto niilista, saudosa, decepcionada e desacreditada. De repete você percebe que as instituições que foram criadas para proteger o cidadão, não protegem nada e estão aí para acudir apenas quem tem poder.

A gente não conhece as pessoas por inteiro e vem aquele sentimento que não cabe dentro da gente: de decepção e tristeza. Aprendi que não devemos alimentar expectativa a respeito dos outros. Já nos bastam as nossas, que nem conseguimos resolver.

O mundo está mais feio, violento, sem gentileza, cheio de ódio e de intolerância e essa constatação me deixa mais triste. Eu continuo a perseverar e acreditar que podemos ser melhores, mas até lá vai um caminhão de decepções.

Me reporto ao pensador e filósofo Frederico Nietzsche, que vem lembrar que os valores tradicionais depreciam-se e que os "princípios e critérios absolutos dissolvem-se e tudo é sacudido, posto radicalmente em discussão.

"A superfície, antes congelada, das verdades e dos valores tradicionais está despedaçada e torna-se difícil prosseguir no caminho, avistar um ancoradouro". No livro Assim Falava Zaratustra, em tradução base de José Mendes de Souza, Nietzsche fala que o homem é um rio turvo.

"É preciso ser um mar para, sem se toldar, receber um rio turvo. Pois bem; o além-do-homem; é ele esse mar, nele se pode abismar o vosso grande menosprezo", diz o autor. E nesse ceticismo danado, vamos tentando entender atitudes e pensamentos, sem chegarmos a conclusões positivas.

A violência estampada nos meios de comunicação, diariamente, seja ela física, por constrangimento moral ou quando ela expõe o ódio, o preconceito e arbitrariedade ainda me surpreende, contrapondo ao que vejo todo dia.

A falta de investimentos em políticas públicas; a ignorância, seja ela intelectual ou em qualquer forma pode ser a resposta. Diversos sábios da ciência tentam explicar a 'ignorância dos seres humanos.

Goethe disse que não há nada mais terrível que a Ignorância; já Pitágoras observou que "se me perguntar o que é a morte, respondo-te: a verdadeira morte é a Ignorância. Quantos mortos entre os vivos!”.

Só para falar de um período mais recente, desde 2013 o Brasil vem passando por um processo de ignorância intelectual, social e moral inexplicável. Em artigo publicado no Blog Cidadania, Eduardo Guimarães escreve que a ação brasileira é uma entre tantas outras nações do Terceiro Mundo que, há séculos são mantidas sob estrito controle por uma discretíssima elite intelectual, econômica, financeira, étnica e regional.

"Controle em que sentido? No sentido mais óbvio em um país com tanta injustiça social: o controle da revolta de um povo que, em parcela expressiva, ainda se vê privado de um mínimo de igualdade de oportunidades e, portanto, de esperança", diz ele.

A posse do governo ilegítimo trouxe mais inquietação àqueles que perseguem justiça social e menos desigualdade social, longe de estancar a sangria da crise. O governo ilegítimo e impopular só tem desfeito o que foi proporcionado de melhorias no campo social pelos governos Lula e Dilma, doa a quem doer.

A gestão dol ilegítimo Temer, como já ficou claro em suas medidas recentes, está a serviço do ajuste fiscal e do aprofundamento das medidas neoliberais. O conjunto de medidas do reacionário governo está recheado de cortes nos direitos trabalhistas.

Aumento na idade da aposentadoria, plano de congelamento de gastos sociais por 20 anos, a redução dos direitos políticos dos partidos de esquerda, entre outras medidas. Será que o sonho acabou? Deixo a reflexão.