quarta-feira, 29 de junho de 2016

Entre livros e álbuns de retratos

Por Olívia de Cássia

Entre meus livros e álbuns de retratos antigos, além dos arquivos de fotos digitais, vou pensando na vida já nas primeiras horas da manhã. Olho-me no espelho e as mudanças não são nada promissoras. Marcas do tempo, do envelhecimento e da idade.

Sabe Diário, abro o computador e o Facebook me mostra lembranças de tempos atrás. De fotos que eu tirava já na juventude, de amigos queridos, compartilhamentos de mensagens e de situações e notícias que não saíram de evidência, como as notícias políticas do nosso país.

Lembro Cazuza que dizia: "São notícias velhas, de ontem", quando eram críticas negativas que se referiam ao Barão Vermelho. Na juventude a gente não se importa com a opinião alheia e quase sempre dá as costas aos falatórios.

Tio Antônio Paes de Siqueira, quando tinha saúde, ficava no bar da sinuca, na Avenida Monsenhor Clóvis e lá ouvia o falatório ao meu respeito, sobre 'possíveis envolvimentos' e lá ia ele contar para minha mãe, que não ficava nada satisfeita com aqueles comentários e me batia antes de procurar saber se eram fatos reais.

Avalio que se a gente for viver  dando tanta satisfação ao mundo, a gente não é feliz, não faz o que quer e o que tem vontade de fazer. Eu vivi minha adolescência entre momentos de felicidade com os amigos e situações angustiantes em casa, porque meus pais, principalmente minha mãe, não me aceitavam como eu era.

Isso tudo eu vivi na minha adolescência e juventude e recordo de o quanto eu era vítima de falatórios e críticas dos mais velhos, por ser uma jovem com a cabeça no futuro, que não queria viver no cabresto.

Hoje eu entendo que para a mentalidade dela, filha de senhor de engenho, nascida e criada na na roça, com todas as proibições daquela época, era difícil alcançar a minha cabecinha efervescente e sonhadora.

Me rebelei contra tudo, não admitia que falassem de mim pelas costas, avaliassem o que não sabiam e não viviam. Era um costume muito da época em União dos Palmares e não só por lá, a gente viver em bandos.

Tínhamos o nosso modo de ver a vida e me achava rebelde por demais. No entanto a nossa rebeldia era de poucos, porque quando se tratava de opiniões conservadoras, muitos repetiam as falas e opiniões dos fofoqueiros e fofoqueiras de plantão, sem nem saber o que se passava em minha vida.

E por ironia do destino, na maturidade fui descobrir tanta limitação em se tratando de saúde e perceber que vou ter que depender dos outros para as tarefas mais simples: logo eu que lutei tanto para morar sozinha, ter minha independência e ser livre, ter meu cantinho de leitura e solidão.

Hoje sou consciente de que num futuro bem próximo vou precisar da presença de outra pessoa, para cuidar das pequenas  tarefas de casa e das minhas também. Eu só espero que esse período possa ser retardado o mais longe que seja possível com a fisioterapia, porque isso tem me deixado apreensiva por demais. Bom dia.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Nunca deixe de sonhar

Por Olívia de Cássia

Peço a Deus em pensamentos que me dê fé e forças, qualidade de vida e retardamento dos efeitos da ataxia. Sou muito cética  diante da vida e já não acredito em ilusões. Hoje em dia perdi um pouco a capacidade de sonhar aqueles sonhos que sonhava na juventude.

Não sou muito de rezar como meu pai fazia sempre e depois também a minha mãe, mas tem dias que parece ser mais difícil a labuta. De repente a gente se vê de pés e mãos atadas diante de uma situação mais prática. "Sem lenço de sem documento", como disse Caetano.

A Doença de Machado Joseph é uma ataxia hereditária dominante e degenerativa, identificada há apenas 18 anos, transmitida em 50% dos casos dos portadores, e que conduz o paciente por uma crescente incapacidade motora, sem alterar o intelecto, culminando com sua morte. Tento não pensar que esse dia está chegando mais rápido.

A característica genética de cada um faz com que os tratamentos sejam praticamente individualizados. Segundo os especialistas, para garantir a qualidade de vida, sempre se trabalha a funcionalidade e continuidade do movimento, de preferência com uma equipe multidisciplinar liderada pelo neurologista, que, no fim das contas, é quem dita a linha do tratamento.

Ouço notícias ruins todos os dias, de todos os lados e é impossível não me envolver e fingir que está tudo às mil maravilhas. Por mais que se tenha alguma expectativa de vida, não tem notícias de cura para o nosso problema. A ataxia não tem cura ainda.

Por outro lado, a intolerância que a gente vê todos os dias na televisão e nas redes sociais é absurda e nos deixa perplexa como esses atentados mundo afora. E nosso país está vivendo sua pior crise de identidade moral e política.

Aqueles que foram às ruas pedir a saída da presidente Dilma estão calados e omissos diante desse governo interino golpista. Tento ser otimista, porque o pessimismo só nos leva a um abismo maior, mas está difícil conviver com tudo isso. Tudo junto sufoca a gente.

Não é só o pessoal, é tudo junto e misturado que nos faz introspectivos a cada dia. Procuro me acercar de tudo o que tem de melhor, ser positiva, conviver com pessoas do bem e fazer boas leituras, participar de programações interessantes, mas até isso fica limitado.

Queria ter mais recurso, já que agora tenho todo o tempo para ir às atividades culturais que sempre me ressenti de não poder participar antigamente. Ainda estou tentando me acostumar com a nova rotina. Mas de repente percebo que não é só uma questão de tempo. É muito mais que isso. Não quero ficar apática diante de tudo.

Quero continuar a ser uma pessoa pensante e consciente do que se passa à minha frente. As questões de saúde não podem me tornar uma pessoa isolada e sem questionamentos. Pelo contrário: quero não ter medo de ter medo e não ter medo mesmo.

Quanto mais eu tenho tempo, mas eu penso nas injustiças e na violência que se comete todos os dias contra os mais vulneráveis. O mundo está mais feio; as pessoas estão mais preconceituosas, intolerantes, estão regredindo e esquecendo de sonhar: só pensem no poder e no dinheiro.

Isso não quer dizer que eu seja tão pura ao ponto de querer viver franciscanamente, pois o dinheiro serve para suprir as necessidades básicas, para a diversão e para a cultura e isso para mim é o bastante, se eu pudesse ter. Mas não quero viver na neurose de querer ter tudo.

Vejo gente jovem que não sonha mais, não tem aquele brilho nos olhos que nos tornava exóticos e interessantes na mocidade e isso me deixa um tanto quanto pensativa. O que será dessas pessoas que não têm sonhos e ideais? Para refletirmos hoje. Boa tarde.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

E se fosse isso ou aquilo?

Por Olívia de Cássia

Meu texto de hoje propõe mais uma reflexão: vivemos a vida em corda bamba, às vezes constantemente,  tendo que escolher uma das alternativas que se nos apresentam ou o que é possível viver e fazer. Ou isso ou aquilo e por que não aquilo outro?

O tempo passa muito rápido em nossa vida, sem que a gente perceba e como diz o poeta, quando a gente vê, já é noite'. Segundo os filósofos a gente não deve deixar o tempo passar e perder o que poeria ganhar se não fosse pelo medo de tentar. Eu confesso que sempre fui muito medrosa e por medo deixei de viver algumas coisas.

Augusto Branco disse em um de seus textos que quando estamos muito tristes,  é como se estivéssemos atravessando um desfiladeiro em uma corda bamba. "O que tem embaixo é um abismo, e o que está acima é o céu", diz ele.

Para Augusto Branco, se você olhar pra baixo, você verá o abismo. "O abismo atrai o olhar, mas o abismo é morte certa, e ao olhar para ele você pode entontecer e cair. Portanto, nunca olhe para o abismo. Mas também não olhe para o céu", disse ele.

Segundo esse pensador, o único lugar para o qual você deve olhar é para a frente, onde está o horizonte. "O horizonte é onde está tudo o que você pode descobrir, viver e alcançar. Basta seguir em frente", diz ele.

Em seu poema 'Ou isto  ou aquilo', Cecília Meireles escreveu que: "Ou se tem chuva e não se tem sol\ ou se tem sol e não se tem chuva! Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva!", pontuou.

Eu sempre me perguntei se não era possível uma terceira via. Mas hoje em dia avalio que esse é um exemplo plausível de que a gengte não pode ter tudo na vida. "Se se tem saúde e juventude, não se tem dinheiro", ou vice versa para todas as coisas. Temos sempre que escolher.

A vida é uma escolha constante e não adianta a gente achar que não: "Somos fruto das nossas escolhas", segundo alguns, mas sinceramente falando, eu não escolhir ser herdeira de um problema neurológico e não escolhi viver num perrengue danado. Duvido muito dessa fala, em alguns momentos.

Carol Andrade também escreveu que depois de tanto tempo é que foi  entender que não existe destino, porque se você mudar uma peça do seu presente, ela pode mudar todo o seu futuro.

Mas entendo que não adianta a gente lamentar o que já foi e o que já viveu. Em alguns momentos da minha vida eu vivi a lamentar algumas situações, mas com o tempo fui percebendo que não adianta nada 'chorar o leite derramado'; que o que passou não vai mudar.

São ensinamentos que parecem jargões repetitivos, mas que às vezes nos confortam. Aprendi com as dificuldades que devemos sempre estar atentos e não julgar os outros querendo fazer juízo de valor antes de qualquer coisa. Para hoje é o que tenho. Boa noite e fiquem com Deus.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Um dia de interrogações

Por Olívia de Cássia

Sabe Diário, hoje o dia foi de introspecção; interrogações; leitura, cansaço, sono, de lembranças, - algumas cheias de saudades -. O que me preocupa, Diário, é que eu não quero ficar pensando no que virá, na situação que me espera daqui para frente, mas é impossível não pensar e não ficar preocupada.

As lembranças de papai, do sofrimento pelo qual ele passou e de meu irmão Petrônio são muito presentes em mim, em cada pequeno gesto meu. E quando me indagam quando é que eu comecei a sentir os sintomas da ataxia, eu nem sei mais dizer, faz tanto tempo!

Mas a piora mesmo aconteceu de uns anos para cá, embora que moderadamente mais atrás, e mais rapidamente do ano passado para cá. Percebi que não consigo mais subir numa cadeira para pegar algo na estante de livros; isso aconteceu este ano.

Até dezembro do ano passado,  mesmo com sacrifícios, eu ainda conseguia lavar o piso da casa, mesmo com medo de escorregar e cair. Este ano fui percebendo que as limitações aumentaram, consideravelmente.

Aos poucos fui tendo a certeza de que precisava de ajuda, de socorro para ter um pouco mais de qualidade de vida e felizmente um grupo de amigos se mobilizou e empunhou essa bandeira. Sou eternamente grata a todos pela força e incentivo que me proporcionaram.

No começo eu não queria aceitar, com vergonha do que pudessem achar, mas depois cedi. Mas não quero ficar deprimida de novo; no entanto, tem momentos que é necessário a gente se abrir e falar de coisas ao vento.

Hoje eu pensei que seria melhor que eu tivesse chorado muito, como antigamente, que eu me derretia por qualquer situação e tivesse colocado todas as minhas inquietações e questionamentos para fora, num desabafo particular.

Mas até isso a ataxia tira da gente: a sensibilidade e a fragilidade parece que vai sumindo da gente. Vai nos endurecendo aos poucos e nos torna mais cética diante dos problemas da vida. Talvez essa seja um proteção que o próprio cérebro vai encontrando, para nos proteger de alguma forma.

Hoje eu não senti muitas dores e cheguei na fisioterapia mais animada e disposta, mas quando cheguei em casa, um misto de preocupação e inquietação tomou conta de mim: não preparei almoço e fui me deitar. Dormi até o meio da tarde, quando levantei e fiz uma besteira para comer, mesmo assim, sem muito gosto e vontade.

Essa sensação não é nova para mim; costuma me acontecer quando estou pressentindo algum acontecimento ou quando preciso escrever urgentemente e colocar alguns sentimentos para fora. Se não o fizer, morro sufocada pelas palavras que teimam em sair.

Tenho consciência de que não posso me fechar em copas e guardar para mim todas as minhas preocupações e expectativas; é melhor desabafar com alguém e o Diário, meu amigo de tanto tempo, é o meio mais indicado.

Não sou muito de guardar sentimentos e às vezes avalio que me exponho até demais na vida. Isso pode ser um fator positivo ou fazer um efeito contrário, dependendo da situação pela qual esteja passando.

Eu não quero mais passar por uma situação de depressão e nem de baixa autoestima, como antigamente, quando eu não me valorizava e tive as energias drenadas por esse sentimento pesado e não afetivo.

Sempre gostei de cultura, de programas festivos com os amigos, mas agora eu entendo que a locomoção não está fácil e tudo fica mais impeditivo, mas não impossível. Preciso encontrar um mote nessa seara da cultura e da arte, para não sucumbir. E quer a alegria volte a povoar os corações. Boa noite.

sábado, 11 de junho de 2016

Conversando com meu Diário

Por Olívia de Cássia

Querido Diário, volta e meia recorro a ti, para conversar um pouco, já que minhas opções hoje em dia não são muitas, devido à minha atual reclusão, por força das circunstâncias e limitações.

Me desculpa se comentarei alguma coisa que não seja pertinente a esse nosso diálogo\monólogo nosso, de uma noite de sábado, em casa e sem opção que não seja esta.

Hoje eu queria falar de poesia, de suavidade e boas vibrações, porque acredito que isso atraia energia positiva. Os dias estão muito pesados, ultimamente, para a conjuntura do país e do mundo. Aqui a corrupção anda à solta e alhures também, além da violência e da falta de amor.

Tenho evitado falar em coisas negativas e que não sejam de incentivo para mim, uma tática que já adotei faz tempo. Mas tem momentos que a reflexão fala mais alto, diante de tanta notícia negativa desse governo provisório corrupto, resultado de um golpe muito baixo no Congresso Nacional.

Ontem foi dia de  mobilização em todo o país e, embora a mídia tradicional tenha mostrado muito rapidamente; ter  incluídas as mobilizações na pauta do noticiário já é um avanço, mesmo porque, em tempos de internet; Mídia Ninja, sites alternativos e blogs, seria impossível o noticiário omitir as grandes mobilizações exigindo o Fora Temer; volta Dilma e por um Judiciário transparente e apartidário.

São tantas as ilações que vemos na internet e é necessário ficar de olho e atento. A gente tem que fazer um esforço e colocar o exercício da dúvida, procurar meios alternativos para adquirir conteúdo e informações diversificadas.

Respeito muito, e já o disse nesse mesmo espaço, várias vezes,  quem pensa diferente de mim, contanto que tenha argumentos convincentes e que sejam respeitosos e cordatos. Do contrário, não é pertinente ficar jogando hipocrisia, maledicências e palavrões nas postagens e mídias sociais dos outros.

Felizmente já consegui fazer uma boa limpeza das minhas redes sociais e retirar pessoas intransigentes e sem educação e sem noção do que dizem e espalham por aí. Os que se opõem ao meu modo de pensar, mas que respeitam e não me incomodam, continuarão sendo amigos virtuais com todo o respeito que sempre tive e tenho.

Mas euu queria retornar à minha fala inicial e falar de amor, já que estamos às vésperas de um festejado e recorrido Dia de Santo Antônio, o santo casamenteiro e das causas impossíveis. Eu nunca fui de acreditar em simpatias, mas nessa época do ano, no interior do Nordeste, as moças casadoiras se oriçavam e algumas ainda mantêm a tradição, todas tentando conseguir um pretendente.

Fosse por brincadeira ou coisa séria, nunca me dediquei a esses costumes e nunca fui de ser contemplada e perseguir esse objetivo. Talvez a minha formação e meu modo de pensar a vida não tenham me levado a tais ilações, mesmo tendo sido uma adolescente romântica, mas rebelde.

A todos os meus leitores e leitoras eu desejo um domingo de muita paz e que o Dia de Santo Antônio, comemorado na próxima segunda-feira, 13, seja de muita festa de comemorações. Do meu lado eu fico com as lembranças das festas da infância e adolescência, que é o que me resta a fazer. Ultimamente meus dias têm sido de lembranças. Boa noite e fiquem com Deus.

domingo, 5 de junho de 2016

Desde quando a mortalidade nos torna lúcidos?

Por Olívia de Cássia

De um tempo para cá venho pensando nesse tema que não é muito comum e nem suave. Hoje vou falar de um assunto que muita gente não gosta e evita falar, mas que é o caminho de todos nós: a morte dos seres humanos. É questão bastante discutida pela filosofia no mundo.

Segundo o teólogo Leonardo Boff, "tudo ocorre dentro de um imenso processo de evolução. Nesse processo tudo vem regido pelo equilíbrio entre a vida e a morte. A morte não vem de fora. Ela se encontra instalada dentro de cada ser", explica.

Já Simone de Beauvoir (1908-1986), em seu romance "Todos os homens são mortais", de l946, demonstra o absurdo de uma vida mortal como a nossa ser imortalizada. E argumenta que esta condição seria um "inferno".

"Nada deste mundo satisfaz a estrutura do desejo que habita famintamente o ser humano insaciável", acrescenta Leonardo Boff. "De pouco valem os mil estratagemas de prolongamento da vida. Chega o momento em que, mesmo a pessoa mais velha do mundo, tem que morrer", acrescenta o teólogo.

"Apesar da discussão de que a morte traria ao homem um esclarecimento da sua condição, e que esta teria um impacto de como ele viveria o período, não é a garantia de que sua vida seria digamos "bem vivida" e compartilhada de forma pacífica e mais igualitária em relação aos seus pares", destaca.

Quando eu era adolescente costumava ir muito ao cemitério, em União dos Palmares, e ficava por lá horas a fio, sentada nas catacumbas dos meus familiares. Naquele lugar silencioso, onde só escutava o barulho de alguns insetos ou de pássaros, eu conversava e desabafava num monólogo existencial com meus entes queridos.

Falava dos meus pequenos problemas de adolescente e dos conflitos que vivenciava naquela época. Mas apesar desse costume, a prática foi minguando até que eu deixasse de ir a esse local. Eu também costumava frequentar a igreja e ia à missa todo fim de semana.

Na missa dos jovens eu cantava, participava e chorava muito. Hoje esse hábito quase não mais existe. Era uma menina com baixa autoestima e sentimental e há pouco tempo descobri outras pessoas que tiveram ou tinham essa mesma rotina de ir a cemitérios.

Talvez eu fizesse isso pela dor da perda dos meus avós e outros familiares; da extrema necessidade de ser ouvida e não encontrava guarida em algumas situações. Minha família, primos e parentes sempre foram cercados por tragédias e mortes, por motivo de cânceres ou de acidentes, o que me tornou um pouco cética diante da vida.

Na infância eu fui muito ligada aos meus avós e ao meu tio Antônio Paes de Siqueira e frequentava o engenho da Barriguda nas férias escolares. Sendo assim senti muito todas essas mortes que aconteceram na família desse meu tio, de forma muito frequente e trágicas, e isso me trouxe muito sofrimento e um certo amadurecimento diante desses assuntos.

Meu tio perdeu a primeira esposa dois filhos de acidente e quatro de câncer. Vendo umas entrevistas de filósofos na internet, o assunto me veio  á baila e resolvi falar um pouco sobre ele. Na minha modesta avaliação, morrer simplesmente não é doloroso, doloroso para mim é ficar dando trabalho a terceiros e sofrendo de algum mal incurável.

Por isso, tenho pedido a Deus, se me for de direito, que não me deixe ficar na dependência de outras pessoas, vegetando em cima de uma cama ou na cadeira de rodas, até que a morte chegue e me consuma o último instante.

Se eu tiver alguma dívida com o divino quero pagá-la, mas não dessa forma, embora eu saiba que não está em nossas mãos decidir. Dizem que ninguém morre antes da hora e que já está tudo determinado quando viemos ao mundo.

Nas religiões esse tema é visto de forma diferenciada. Pesquisei que para os muçulmanos, segundo a história, Alá (o seu Deus) criou o mundo e por essa razão trará de volta todos os mortos no último dia. Todos terão direito a um julgamento começará uma nova vida depois da avaliação divina.

Já o espiritismo, doutrina do século XIX criada pelo francês Alan Kardec, defende a continuação da vida após a morte num novo plano espiritual ou pela reencarnação num outro corpo. Esta doutrina acredita que podem ser invocados os espíritos dos mortos, pois após a morte física, o espírito ascende a uma outra realidade onde se aventura numa nova vida.

Como na Igreja Católica, os evangélicos acreditam que há um julgamento para a alma e que esse mesmo julgamento resulta na condenação (ida para o inferno) e ou na eternidade da alma (céu).

A diferença entre as duas religiões é que os evangélicos acreditam que a alma faz uma grande viagem e a ressurreição só acontecerá quando Jesus voltar à Terra, na chamada “Ressurreição dos Justos”, ou, então, aqueles que forem condenados ao Inferno terão uma nova oportunidade de ressurreição no “Julgamento Final”.

Os evangélicos sustentam que a morte física é resultado do pecado. Quando Deus criou o homem, não o fez para envelhecer, adoecer ou morrer, mas porque o homem optou por se afastar do criador, por renunciar os ensinamentos, acabou por escolher o caminho do pecado e da desobediência e consequentemente o caminho da morte.

A morte para os católicos vem com os conceitos de um céu, de um inferno e de um purgatório. A avaliação dos atos de cada um na sua vida terrena decide para qual destes lugares vai a alma repousar eternamente.

Ainda segundo a história, os católicos consideram que a alma é única e por essa razão não regressa reencarnada em outros corpos físicos. Para eles, os únicos princípios são o da imortalidade e da ressurreição e não o da reencarnação. Cada crença e cada religião tem o seu conceito a respeito da morte.

Às vezes quero acreditar em alguns preceitos religiosos, em outras situações, acho tudo lenda e literatura e lembro do que minha mãe dizia, que não acreditava em assombração e nem que os mortos pudessem voltar. Segundo ela, se fosse isso verdade, os entes queridos voltariam para dizer se era bom ou ruim a quem ficou na terra.

Dizem alguns filósofos que não importa na vida o tanto que se viveu, mas o legado que a pessoa deixou para os seus. Raimon Alves, em artigo publicado na mídia eletrônica, disse que qualquer que seja a duração de sua vida, ela é completa.

Segundo ele, a utilidade  da vida não reside na duração e sim no emprego que lhe dais. "Há quem vive muito e não viveu; meditai sobre isso enquanto o podes fazer, pois depende de vós, e não do número de anos, todos vividos", observa.

Para Marcelo Galli, a morte é amedrontadora, mas motor da ação também e pode ser o elemento para enfrentar a vida de maneira filosófica. Já Márcia Tiburi, no seu "Filosofia em comum" (Editora Record, 2008), faz o seguinte questionamento acerca do tema: "Desde quando a mortalidade nos torna lúcidos? Ou ela nos torna cada vez mais irracionais e bárbaros em perpétua guerra de todos contra todos?", questiona.

Para refletir nessa noite de domingo e começo de uma nova semana. Boa noite.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

A vida é um eterno recomeço

Por Olívia de Cássia

O corpo dói, os impedimentos físicos e limitações chegam para lembrar que já não posso tudo. Sabe Diário, às vezes penso que estou bem pertinho do fim; em outros momentos, na minha fértil imaginação, que eu posso tudo se eu ainda quiser.

Mas eu queria mesmo era estar saudável para sair por aí, como antigamente, na juventude, na época da faculdade, aproveitando a noite de sexta-feira, recebendo um banho de cultura e voltar para casa refeita.

Nos sonhos e na imaginação a gente pode tudo.  Renato Russo já dizia em sua poesia: "Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena acreditar no sonho que se tem ou que seus planos nunca vão dar certo ou que você nunca vai ser alguém".

Acredito nessa assertiva porque passei a minha vida persistindo em meu sonho e acredito que a gente só concretiza aquilo que sonha um dia se tentar e tentar e tentar, mesmo que esse sonho esteja lá no fundo da nossa alma e avaliamos que tudo aconteceu por acaso; o que não foi o meu caso.

Eu persegui muitos sonhos a vida inteira, desde a mais tenra idade. Posso afirmar que realizei poucos e um deles foi o de conseguir me formar jornalista; o principal deles. Me emancipar, morar sozinha, sem a interferência de terceiros. Na minha juventude isso era tudo.

Sempre coloquei a minha profissão acima de muita coisa ou de qualquer coisa e hoje reflito se isso foi bom ou se foi o que deveria ter sido feito, mas assim o fiz e não me arrependo do que foi feito.
Deixei de viver outras situações normais na vida, mas cada escolha  nossa é cercada de renúncias.

Eu escolhi a profissão que tenho por amor; estar afastada dessa atividade me entristece e vem a certeza de que não vou poder exercê-la mais como eu gostaria: tenho que me acostumar com isso, ou preencher esse vazio com terapias ocupacionais e outros que tais.

Tudo na vida da gente tem limite, tem hora para começar, tem o meio, tem o fim e a vida é sempre um recomeço, não importa onde você parou. "Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo; renovar as esperanças na vida e acreditar em você de novo", observou Paulo Roberto Gaefke em seu poema Recomeçar.

Em A revolução da alma, o mesmo autor diz que ninguém é dono da sua felicidade, por isso não entregue a sua alegria, a sua paz, a sua vida nas mãos de ninguém, absolutamente ninguém.

"Somos livres, não pertencemos a ninguém e não podemos querer ser donos dos desejos, da vontade ou dos sonhos de quem quer que seja. A razão de ser da sua vida é você mesmo. A sua paz interior deve ser a sua meta de vida", observa.

Segundo Roberto Gaefke, quando sentir um vazio na alma, quando acreditar que ainda falta algo, mesmo tendo tudo, remeta o seu pensamento para os seus desejos mais íntimos e busque a divindade que existe dentro de si.

"Pare de procurar a sua felicidade cada dia mais longe. Não tenha objetivos longe demais das suas mãos, abrace aqueles que estão ao seu alcance hoje", comenta.

Eu tenho aprendido muito na vida e a maturidade me trouxe algumas certezas, desilusões e discernimento do que devo aceitar e do que não devo. Não devo aceitar jamais as injustiças e não deixarei de lutar por dias melhores e mais justos. A vida é um eterno recomeço. Boa noite.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

A gente tem que decidir ...


Por Olívia de Cássia

Então chega aquele momento que a gente tem que decidir. O poeta já dizia que uma hora ou outra a gente tem que decidir se fica, se segue em frente ou se dá alguma chance ao que ficou lá trás.  É difícil, mas  o melhor a fazer é tomar a decisão e seguir em frente.

A gente precisa ter um pouco de dignidade e perceber quando não há mais motivos para ter esperança e supervalorizar o outro que nunca soube te dar o devido valor.  "Na dúvida, largue a incerteza no meio do caminho e siga por onde os sinais forem mais fortes".

Mas não pense, meu Diário, que eu tenha agido e pensado sempre assim: foi preciso o peso da idade e dos anos vividos;  que a vida batesse muito no meu lombo; me levasse quase ao fundo do poço, para que, aos poucos, eu tenha ressurgido das cinzas, feito a fênix, aquele passo da mitologia grega.

Apesar das limitações físicas de hoje, sem sombras de dúvida, eu posso dizer que sou uma mulher livre de amarras e impedimentos internos que me  consumiam a alma. Livre de qualquer sentimento opressor e que me levava a ter tão baixa autoestima.

E como é ruim esse sentimento de inferioridade que eu carregava comigo. Por causa disso cometi desatinos; as pessoas não me entendiam ou não procuravam entender que eu era uma menina e jovem tímida, em busca de seu eu, querendo acertar na vida.

Me humilhei até ao ponto que um ser humano jamais deve chegar: de pedir perdão sem nada ter feito, quando eu mesma era a vítima daquilo tudo: vítima da minha ingenuidade e insensatez. A gente tem que tomar as rédeas do destino e decidir.

Num dia qualquer a gente amanhece disposta e aí  age como deveria ter sido  em toda a vida e mesmo que venha a se arrepender depois, não importa: o importante é decidir.  Não ter medo de ter medo e se libertar de todas as amarras que nos impedem de ser feliz. Independente de qualquer coisa, sem fingimento, sem querer ser o que não é.

A vida vai nos levando por caminhos distintos. Fernando Pessoa, em 'O Livro do Desassossego', disse que "a decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida".

E reflito que quase sucumbi a essa decadência que fala Pessoa  mas, felizmente, por mérito meu ou do destino, ou seja lá de que entidade espiritual tenha sido, sobrevivi àquela tempestade, Diário. Boa noite.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

No meu tempo era assim...

Por Olívia de Cássia

 O filósofo e professor Leandro Karnal falando sobre a utopia da melhor idade, em uma de suas palestras, observou  que quando a gente começa a usar o termo 'no meu tempo era assim', é porque já estamos velhos.

Envelhecer não é fácil e muito menos quando a saúde da gente já não está tão presente. E nos pomos a lembrar dos bons momentos vividos e que jamais voltarão. Eu envelheci faz tempo, mas por enquanto só no corpo.

Na alma ainda carrego sonhos, não tão doces e ingênuos como eram antes, mas eu me recuso a envelhecer, como dizia minha mãe americana Rosa Amada Gil. "Seria bom se tivéssemos permanentemente a juventude", diz o professor em sua palestra.

Na conversa em uma universidade, ele  cita a lenda de Peter Pan, um garoto que se recusa a crescer. Tem gente que não cresce nunca e carrega dentro de si a síndrome do garoto flautista. São pessoas inseguras, imaturas, dependentes, irresponsáveis, têm acessos de raiva e dificuldade em manter um compromisso afetivo.

Apesar de não demonstrarem, costumam ter baixa autoestima; são muitos e estão em vários lugares, independentemente de país ou conta bancária, observa o site Vai e vem da vida.

 A velhice vem lembrar que não somos eternos e que estamos um dia mais próximo do fim, observa o professor Leandro Karnal. "No meu tempo marca o declínio final" e não tem jeito", diz ele.

O filósofo interpela seu público observando que,  "com o impacto das técnicas de manutenção da juventude artificial, qual seria o desdobramento de um corpo "sempre jovem" para uma alma que vê o envelhecimento como apodrecimento sem significado?"

Karnal destaca ainda que quando somos jovens buscamos independência e sabedoria, mas, quando a alcançamos estamos velhos e desejamos de volta o vigor da juventude. "Será que passamos a vida esperando pela idade em que seremos plenamente felizes?", pergunta.

Sempre observo nas conversas que tenho com familiares e colegas, quando o assunto vem à baila, que a gente deveria envelhecer até uma certa idade e depois retornar à juventude. Esse tema é muito complexo, mas estimulante.

O professor cita o filme "O Curioso Caso de Benjamin Button", Nova Orleans, 1918. Benjamin Button (vivido por Brad Pitt) nasceu de forma incomum, com a aparência e doenças de uma pessoa em torno dos oitenta anos mesmo sendo um bebê.

Ao invés de envelhecer com o passar do tempo, Button rejuvenesce. Quando ainda criança ele conhece Daisy (Cate Blanchett), da mesma idade que ele, por quem se apaixona. É preciso esperar que Daisy cresça, tornando-se uma mulher, e que Benjamin rejuvenesça para que, quando tiverem idades parecidas, possam enfim se envolver.

Quando somos jovens a gente acha que pode tudo, não pensa em futuro tão distante, mas em viver o agora e não pensamos na velhice; pelo menos grande parte da minha geração. Hoje em dia os jovens são bem mais práticos e o mundo não é um conto de fadas: a realidade já bateu à minha porta faz tempo.

Dizem que todos nós temos medos de morrer, de uma forma ou de outra. Eu não tenho medo da morte, em si, tenho receio do futuro que me espera, de me tornar dependente de terceiros até para as mínimas tarefas diárias, tal como meu pai. Tenho medo de ter medo.

Comentando a palestra  do professor no canal You Tube, Danielle Yuri Yutani Dani observou que a curiosidade nos faz envelhecer porque o conhecimento é incessante. "Quando queremos voltar no tempo temos a vontade de conhecer por nós. Quando você olha no espelho o passado se transforma, porque o que você era ontem não é o mesmo de hoje. Ou seja, fomos quem somos", filosofa.

Mas o que vale na vida, "o que a torna mesmo interessante é viver o presente; o passado é colocado em pauta por falta de opção ou saudosismo, em vários sentido nós ganhamos e perdemos", comenta Sier Sol Oicnama Amancio.

O ator e diretor Woody Allen disse que na sua próxima vida,  quer viver de trás para frente. "Começar morto, para despachar logo o assunto. Depois, acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa. Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a reforma e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia", disse ele.

Mas a cada notícia de falecimento de alguém bem próximo, aquela luz vai acendendo dentro de mim e vem à mente aquela assertiva de que restam os bons momentos a serem vividos ainda, outros a serem lembrados, os sonhos que foram sonhados, construídos ou não. Para refletir nesse final de tarde.


E agora, o que fazer?

Por Olívia de Cássia E agora, o que fazer? Essa pergunta me veio à baila, antes e depois da aposentadoria por invalidez e em alguns dias q...