quarta-feira, 1 de junho de 2016

No meu tempo era assim...

Por Olívia de Cássia

 O filósofo e professor Leandro Karnal falando sobre a utopia da melhor idade, em uma de suas palestras, observou  que quando a gente começa a usar o termo 'no meu tempo era assim', é porque já estamos velhos.

Envelhecer não é fácil e muito menos quando a saúde da gente já não está tão presente. E nos pomos a lembrar dos bons momentos vividos e que jamais voltarão. Eu envelheci faz tempo, mas por enquanto só no corpo.

Na alma ainda carrego sonhos, não tão doces e ingênuos como eram antes, mas eu me recuso a envelhecer, como dizia minha mãe americana Rosa Amada Gil. "Seria bom se tivéssemos permanentemente a juventude", diz o professor em sua palestra.

Na conversa em uma universidade, ele  cita a lenda de Peter Pan, um garoto que se recusa a crescer. Tem gente que não cresce nunca e carrega dentro de si a síndrome do garoto flautista. São pessoas inseguras, imaturas, dependentes, irresponsáveis, têm acessos de raiva e dificuldade em manter um compromisso afetivo.

Apesar de não demonstrarem, costumam ter baixa autoestima; são muitos e estão em vários lugares, independentemente de país ou conta bancária, observa o site Vai e vem da vida.

 A velhice vem lembrar que não somos eternos e que estamos um dia mais próximo do fim, observa o professor Leandro Karnal. "No meu tempo marca o declínio final" e não tem jeito", diz ele.

O filósofo interpela seu público observando que,  "com o impacto das técnicas de manutenção da juventude artificial, qual seria o desdobramento de um corpo "sempre jovem" para uma alma que vê o envelhecimento como apodrecimento sem significado?"

Karnal destaca ainda que quando somos jovens buscamos independência e sabedoria, mas, quando a alcançamos estamos velhos e desejamos de volta o vigor da juventude. "Será que passamos a vida esperando pela idade em que seremos plenamente felizes?", pergunta.

Sempre observo nas conversas que tenho com familiares e colegas, quando o assunto vem à baila, que a gente deveria envelhecer até uma certa idade e depois retornar à juventude. Esse tema é muito complexo, mas estimulante.

O professor cita o filme "O Curioso Caso de Benjamin Button", Nova Orleans, 1918. Benjamin Button (vivido por Brad Pitt) nasceu de forma incomum, com a aparência e doenças de uma pessoa em torno dos oitenta anos mesmo sendo um bebê.

Ao invés de envelhecer com o passar do tempo, Button rejuvenesce. Quando ainda criança ele conhece Daisy (Cate Blanchett), da mesma idade que ele, por quem se apaixona. É preciso esperar que Daisy cresça, tornando-se uma mulher, e que Benjamin rejuvenesça para que, quando tiverem idades parecidas, possam enfim se envolver.

Quando somos jovens a gente acha que pode tudo, não pensa em futuro tão distante, mas em viver o agora e não pensamos na velhice; pelo menos grande parte da minha geração. Hoje em dia os jovens são bem mais práticos e o mundo não é um conto de fadas: a realidade já bateu à minha porta faz tempo.

Dizem que todos nós temos medos de morrer, de uma forma ou de outra. Eu não tenho medo da morte, em si, tenho receio do futuro que me espera, de me tornar dependente de terceiros até para as mínimas tarefas diárias, tal como meu pai. Tenho medo de ter medo.

Comentando a palestra  do professor no canal You Tube, Danielle Yuri Yutani Dani observou que a curiosidade nos faz envelhecer porque o conhecimento é incessante. "Quando queremos voltar no tempo temos a vontade de conhecer por nós. Quando você olha no espelho o passado se transforma, porque o que você era ontem não é o mesmo de hoje. Ou seja, fomos quem somos", filosofa.

Mas o que vale na vida, "o que a torna mesmo interessante é viver o presente; o passado é colocado em pauta por falta de opção ou saudosismo, em vários sentido nós ganhamos e perdemos", comenta Sier Sol Oicnama Amancio.

O ator e diretor Woody Allen disse que na sua próxima vida,  quer viver de trás para frente. "Começar morto, para despachar logo o assunto. Depois, acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa. Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a reforma e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia", disse ele.

Mas a cada notícia de falecimento de alguém bem próximo, aquela luz vai acendendo dentro de mim e vem à mente aquela assertiva de que restam os bons momentos a serem vividos ainda, outros a serem lembrados, os sonhos que foram sonhados, construídos ou não. Para refletir nesse final de tarde.


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