quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Parte de casa construída em barreira desaba no Jacintinho

Desabamento da casa na Grota do Moreira
 foi ainda em consequência das chuvas 
que caíram em Maceió nos últimos dias
Olívia de Cássia - Repórter-Tribunas Independente - foto Adailson Calheiros

arte de uma casa construída em uma barreira, na Grota do Moreira, no bairro do Jacintinho, em Maceió, desabou na madrugada de terça-feira (24), ainda em consequência das fortes chuvas que castigaram em Maceió nos últimos dias.
O desabamento aconteceu por volta de 1h30 da manhã, segundo os moradores do local. A dona de casa Valderez da Conceição disse que o barulho foi muito grande e todos ficaram assustados, mas ela conta que o proprietário do imóvel não gostou da presença da imprensa e disse que vai voltar a construir.
O imóvel de seu Luiz Jorge, conhecido como Luiz do Galo, foi edificado em uma área de barreira e está colocando em risco a vida de vários moradores da comunidade. Logo abaixo da casa tem um terreno, que é de propriedade dele também, de onde foi retirado muito barro com um trator, segundo testemunhas do local.
Os moradores estão assustados como é o caso de Ana Lúcia Nascimento da Silva. Ela disse que a laje da casa terminou de ser feita no domingo e que pessoas ligadas à prefeitura (Defesa Civil) estiveram no local na terça-feira de manhã e disseram que outras casas estão correndo o risco de desabamento.
“Amanhã ele (seu Luiz) ficou de ir à secretaria para conversar com o pessoal de lá”, disse. Dona Ana Lúcia Nascimento mora em uma casa na parte de baixo da casa de seu Luiz, e está escorada com madeira, também em fase de construção. Quatro pessoas moram na casa de dona Ana Lúcia: duas crianças, ela e o marido.
A dona de casa disse que na residência onde teve o desabamento estava sendo construída uma laje, que foi concluída no domingo. “Ontem de madrugada ouvimos muito barulho e quando menos esperamos a parte da casa de cima estava desabando”, conta.
Seu Amaro Sebastião da Silva mora vizinho à casa de seu Luiz Jorge e teve parte de sua casa atingida pelo desabamento. “Eu estou por aqui de dia, mas me aconselharam a não permanecer no local à noite”, conta.
O morador da Grota do Moreira disse ainda que seu Luiz Jorge não gostou da presença de ‘estranhos’ (imprensa) no local e está achando que foi ele (Amaro) quem fez a denúncia. “Ele está achando que fui eu quem contei, mas não foi. Escutei um barulho e não queria sair da casa, mas no terceiro eu saí. Seu Luiz disse que vai fazer o reparo”, reforça.
DEFESA CIVIL
A reportagem entrou em contato com a Coordenadoria Municipal de Defesa Civil (Comdec) e foi informada pela assessoria que a casa não corre risco.
“A casa foi construída em terreno irregular, mas a situação está estabilizada. A Defesa Civil, Meio Ambiente e demais órgãos competentes vão acompanhar e apurar as causas do desabamento”, observou a assessoria.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Crianças de rua, parte esquecida da sociedade

Foto: Sandro Lima
Padre Manoel Henrique 

Quando a cidade não acolhe os vulneráveis

Olívia de Cássia – Repórter

Todos os dias, parte do que queremos é ter um mundo menos violento, onde não haja tantas pessoas famintas e desassistidas; pessoas que sejam acolhidas pela sociedade, que parece que esqueceu os vulneráveis. 

O padre Manoel Henrique é professor de Sociologia da Educação em uma faculdade particular de Maceió e reclamou em artigo escrito na página de Opinião da Tribuna Independente sobre esse esquecimento da sociedade, que é crítica em algumas questões, mas ignora os moradores de rua, principalmente as crianças.   

A pesquisa ‘A cidade que não acolhe suas crianças’, orientada pelo padre-professor para os seus alunos, quis saber o motivo de tanta criança de rua estar fora da sala de aula. “O aspecto que me interessava era saber: se ela vive na rua, se ia à escola, se tinha começado e parado e por que não ia para a escola; se não há interesse, ou quais motivos”, destaca.

Segundo o padre Manoel Henrique, moralmente esse aspecto é muito grave: “A elite da sociedade tem medo, condena toda forma de aborto; as mães não podem abortar, as famílias não podem abortar, a igreja também trabalha nesse sentido e até nas eleições esse aspecto foi para o debate, gente que não votou em candidato tal porque era favorável ao aborto, no entanto a sociedade aborta”, critica.

Manoel Henrique pontuou que a sociedade que não dá conta e não responde aos anseios dessas crianças está abortando: “Se não morrerem mais cedo ou mais tarde, abandonadas, ou pela droga, na miséria de todas as formas. Não adianta somente eu brigar para que as famílias não abortem suas crianças, quando eu permito depois que elas nasçam e venham a ser abortadas depois pela cidade e pela sociedade que não cuida delas”, observa.

Por outro lado, segundo o padre, no final da pesquisa, ele quis que os alunos sentissem e vissem alguns aspectos da sociedade e aí, segundo ele, saíram muitas histórias contadas pelas próprias crianças. “É muito bonito estar numa sala de aula, só que olhando para a rua a gente vai observar que muitas crianças nunca foram à escola, e se foram, não era o lugar delas. Eu ainda acredito que muitas escolas não cabem essas crianças, porque não têm o jeito delas”, disse.

“Uma criança de rua, você acha que vai caber em uma sala de aula, quatro horas seguidas, sentada e alguém na frente dela ditando, brigando, às vezes gritando, quando o menino ou a menina tem a liberdade da rua, o jeito de fazer o que bem quer ? Eu acho que não”, avalia. A pesquisa elaborada e discutida em sala de aula questiona também o futuro da cidade. Que futuro vai ter a cidade de Maceió, se grande parte de seus filhos estão fora da escola?, pergunta.   

“Se a gente considera que um país não tem futuro sem a educação, o que posso dizer das crianças que estão fora? Eu nem procurei saber se ali tem escola: a maioria diz que está na rua porque a mãe precisa de dinheiro, a mãe é sozinha, o pai abandonou a família e algumas até chegam a dizer que têm que trabalhar para ajudar o pai em casa. Outra disse que não estuda porque a escola é chata e é tudo sentado e eu não gosto de lugares fechados. É preciso que se tenha outro olhar para essas crianças, outra forma de educar. Escola tem que ter aquele mesmo modelo, com quatro paredes e alguém na frente, nem sempre simpática?”, indaga.

O padre disse ainda que outra criança respondeu que não estuda, mas que já foi à escola, passou pouco tempo, pois precisa trabalhar. Muitas crianças dizendo que precisam sustentar a família também, ajudar o pai e a mãe.

“Teve outra história de uma menina que tinha nove anos, queria ganhar cinco reais para sair com alguém. Ela entrou no primeiro carro, o rapaz não aceitou que ela saísse com ele, deu o dinheiro para ela levar para a mãe, ela dizendo que fazia aquilo porque a mãe obrigava e esse rapaz não saiu com ela, mas viu que outro carro parou e ela saiu com alguém, para ganhar cinco reais”, reclama.

Foram muitas as histórias de vida dessas crianças, quase sempre carregadas de muita tristeza, que o padre Manoel Henrique fez questão de destacar. Segundo o padre, há uma grande contradição na lei que proíbe o trabalho infantil, mas esse mesmo poder não oferece condições para que essas famílias sejam amparadas.

“Antigamente todo mundo ajudava em casa e isso nunca foi crime e nem impediu que as pessoas estudassem e tivessem uma vida respeitada, digna, em família. A lei somente proibindo não resolve”, avalia.

Segundo o padre, em Maceió há uma instituição que cuida de meninas, que passam a semana,  estudam e no final de semana vão para casa, “mas o Ministério Público proibiu o local de ter mais meninas, porque não pode, tem que ter um número X. Isso é um absurdo, hipocrisia de uma sociedade com as suas leis, que proíbem uma criança ter escola só para cumprir o número da lei. Por que não cuida de educá-las?”, indaga.

No entendimento do padre Manoel Henrique, teria que ter um trabalho de secretarias em conjunto: Assistência Social, Educação, Ministério Público: “Teria que cuidar; arrumar um jeito de abordagem para saber onde a criança de rua mora e responsabilizar o pai ou a mãe. Abordar não no sentido de responsabilizar prendendo ou punindo, mas de dar condições a ela;  saber o motivo de essas crianças não estarem cadastradas no Bolsa Família”, pontua.


Preço da cerveja em Alagoas não vai aumentar na época do Carnaval


Depósitos estão preparados para atender demanda da folia; preço da bebida sofreu reajuste em dezembro
Depósitos estão preparados para atender demanda da folia;
preço da bebida sofreu reajuste em dezembro
Foto: Adailson Calheiros
Olívia de Cássia - Repórter\Tribuna Independente
Apesar do reajuste no preço dos combustíveis concedido a partir do dia 1º de fevereiro pelo governo federal, o preço da cerveja em Maceió não vai aumentar, porque o reajuste já foi dado no começo da estação, pela indústria brasileira de bebidas, segundo os revendedores especializados visitados pela reportagem da Tribuna Independente, na segunda-feira (9).
Apesar do receio dos revendedores e consumidores de que os preços da bebida voltassem a subir à época do carnaval, revendedores asseguram que por enquanto não há previsão de aumento no produto.
“Por incrível que pareça o segmento de bebida não sentiu esse reflexo, mesmo porque, sempre que passa o período de inverno para começo do verão e Carnaval, o preço já tem um reajuste antecipado, vamos dizer assim”, observou Claudevan Alves Cavalcante,  gerente de um depósito de revenda de bebidas no bairro da Jatiúca.
Claudevan Alves  avalia que a indústria fica com receio de conceder aumentos consecutivos, já que no começo da temporada já houve um reajuste. “Acho que eles ficam até meio receosos de repassarem um aumento em cima do outro; pode até ser que daqui a um mês a gente possa sentir isso”, observa.
Ele reforça que a cerveja é o carro-chefe da empresa e por enquanto não vai aumentar de preço. “Outros segmentos como bebidas destiladas e aquelas tipo ice, a gente já tem comprado com reajuste, mas o preço de bebidas, no geral, está equilibrado”, destaca.
Um pacote com doze cervejas tipo latão no mesmo depósito está em torno de R$ 27. Já a  embalagem com doze unidades da lata  comum custa R$ 19,20, mas segundo o gerente Claudevan Alves, o que gira mais nesse período é o latão.
 “Estamos preparados e abastecidos para as vendas do carnaval, temos um espaço pequeno, sempre mantemos o estoque no limite; hoje já recebemos uma carga boa para suprir a demanda, se chegar daqui para sexta-feira e der uma boa esvaziada, a gente tem tempo útil para reabastecer novamente e não deixar para última hora”, destaca.
O jovem Gustavo de Morais estava fazendo uma compra de cerca 30 pacotes de cerveja (um carrinho de supermercado cheio) nesse mesmo local, no bairro da Jatiúca e disse que não aumentou. “Comprei a R$ 19,20, para passar o carnaval na Barra de São Miguel.”
No mercado os preços estavam assim em outro estabelecimento: o pacote do big latão a R$ 33 (550 ml);  o de 400 ml a R$ 27.
Num depósito do Dique-Estrada, o gerente disse que o estabelecimento é novo e não estoca bebidas, à medida que vai saindo ele vai comprando mais para reabastecer e repetiu o que disse Claudevan Alves: “Está preparado para o carnaval e os preços não vão subir”, garante. A unidade da Cerveja em latão é R$ 2,75 e R$ 2,50, variando de acordo com o tamanho da embalagem.
A reportagem da Tribuna Independente foi até a Distribuidora Ambev no Estado, para saber a respeito do assunto; depois de muita espera fomos recebidos pelo gerente que informou não ter autorização para falar e pediu desculpas por não poder nos ajudar, pois é norma da empresa. Segundo ele, qualquer informação só pode ser dada pelo setor de marketing da Ambev, que fica em São Paulo.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

A ética e os interesses de cada um

De volta a Capela

Olívia de Cássia – Jornalista
São muitos os atores em nossa sociedade que pregam a ética como princípio básico para se atingir um objetivo, mas nem a maioria deles consegue alcançar aquilo que pregam. A ética, na maioria das vezes, serve apenas como desculpa, como pano de fundo para realizar os interesses de um determinado segmento ou grupo.
A ética devia estar acima dos interesses pessoais e políticos de cada um. No Brasil se fala muito em respeito à Constituição e às instituições, mas a nossa Constituição é desrespeitada todos os dias, desde o seu princípio básico “todos são iguais perante a lei”.
No Brasil, a lei só é aplicada para os mais fracos, os pobres e negros; para os ricos há sempre um atenuante. Todas as categorias têm um código de ética que deveria ser respeitado de fato, mas todos os dias esse documento é desrespeitado. Existe código de ética para médicos, para jornalistas, professores e demais profissões.
A palavra ética vem do grego, tem a ver com os costumes, com os princípios que devem orientar a convivência humana. A observância dos direitos e deveres do cidadão, dos princípios de responsabilidade, igualdade, solidariedade, cidadania e respeito mútuo.
Mas a gente sabe que na teoria é tudo muito bonito e entre o que se prega e a prática vai uma distância muito grande. É o que observo no meu dia a dia. Estou exausta de ver autoridades e profissionais que pregam a ética publicamente e na realidade da vida praticam tudo ao contrário daquilo que pregam. “Esqueçam o que escrevi”, argumentou o ex-presidente FHC quando lhe questionaram sobre determinada prática.
Essas pessoas, principalmente muitas que assumem cargos públicos, alardeiam os princípios constitucionais de todo cidadão, mas na prática não os cumpre. A ética deveria estar presente em todos os atos das pessoas, pois envolve valores que adquirimos ao longo da vida, da formação e da educação, na vida familiar e no trabalho.
Muitos autores definem a ética profissional como sendo a ação "reguladora" da ética agindo no desempenho das profissões, fazendo com que o profissional respeite seu semelhante quando no exercício da sua profissão. Mas a gente sempre se depara, na vida do trabalho, com pessoas que quando ganham um cargo melhor na profissão, começam a querer massacrar quem se encontra em posto de escala menor, esquecem a ética.
Parece ser uma tendência do ser humano, como tem sido objeto de referências de muitos estudiosos, a de defender, em primeiro lugar, seus interesses próprios e, quando esses interesses são de natureza pouco recomendável, ocorrem seriíssimos problemas.
Os escritores Rosana Soibelmann Glock e José Roberto Goldim observam que é extremamente importante saber diferenciar a Ética da Moral e do Direito.
“A Ética é o estudo geral do que é bom ou mau, do correto ou incorreto, justo ou injusto, adequado ou inadequado. Um dos objetivos da Ética é a busca de justificativas para as regras propostas pela Moral e pelo Direito. Ela é diferente de ambos - Moral e Direito - pois não estabelece regras. Esta reflexão sobre a ação humana é que caracteriza a Ética”, segundo argumentam.
(O texto acima foi escrito em 27-8-2009, mas permanece atual e achei que cabe no momento atual).  

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A fonte secou...

Olívia de Cássia - jornalista

De repente dá um nó na garganta, um aperto no peito, uma vontade de chorar, mas as lágrimas não descem. Talvez em protesto porque em outras épocas eu já chorei o bastante: por sentimentos tão profundos, que já não tenho mais nada para chorar dentro de mim. Talvez a fonte tenha secado.

Não, não é transtorno de ansiedade ou síndrome do pânico o que estou sentido: são apenas sentimentos verdadeiros acumulados querendo explodir de alguma forma, extravasar o cansaço, conversar com um amigo, falar de coisas que às vezes nem sei dizer, protestar contra as injustiças do mundo ou nem sei o quê mais.

Todos nós ficamos ansiosos, às vezes, e essas minhas preocupações, ainda bem, não interferem na minha capacidade de levar a vida; eu consigo relaxar se ouço uma boa música, se leio um bom livro, se estou na companhia de gente que me traz alguma mensagem positiva, de gente do bem.

Mas esses são sentimentos e emoções que às vezes se fundem num só desejo: o de ser feliz. Sinto que já não tenho tanto tempo disponível e vem aquela vontade de viver muito mais, aproveitar a vida de forma que ela seja intensa e positiva.

Mas como vou viver intensamente se não tenho capacidade nem para administrar a minha vida? São perguntas que me veem à cabeça, depois de um dia de trabalho e a cabeça cheia de informações, adrenalina que serve de combustível para quem vive nesse mundo da comunicação.

E foram tantos os sonhos da juventude, tanta expectativa gerada, quereres acumulados, algumas frustrações; mas eu sempre tive a certeza do que eu queria ser e essa vontade era maior e a vida toda foi assim. Minha profissão sempre estava e esteve acima de tudo para mim, até de alguns sentimentos, eu confesso.

Nunca abri mão desse sonho profissional, embora lá na frente a gente vá percebendo que a família é muito mais importante que tudo. Mas no andar da minha carruagem eu não formei a minha própria família e como dizia Machado de Assis, não terei descendentes diretos.

Às vezes essa constatação arranha um pouco a minha existência, mas a essa altura da vida eu não tenho mais tempo para ilações a respeito de como teria sido minha vida se fosse de outra maneira.

O jeito é viver e viver muito mais, tentando ser feliz, afinando e refinando o gosto pela leitura, diversão e arte, procurando um pouco de qualidade de vida, embora as dificuldades encontradas sejam muitas, mas na certeza de que as escolhas que fiz me levaram e me levam aonde eu quero chegar.

E eu quero e sei o que quero: sonhar, viver e querer o bem comum. Que tenhamos daqui para frente um mundo melhor e mais justo; que saibamos escolher sempre o melhor para nós e que a gente perceba que o nosso conceito de verdade não é absoluto, pois existem muitas versões para os mesmos fatos.

A infância

Olívia de Cássia - Jornalista

Minha mãe se preocupava com a quantidade de piolhos que eu adquiria na escola, pois, da mesma forma que meu cabelo era muito grande, abaixo da cintura, ficava difícil dizimar aquelas criaturas. Eu morria de vergonha quando sentava em algum lugar que caía um piolho. Mamãe colocava Baygon, álcool e amarrava minha cabeça com um pano branco, para matar os miseráveis.

Depois fazia uma verdadeira sessão de catação, com o pente fino, para tirar aquelas criaturas nojentas, que estavam mortas. Eu não entendia o motivo de eu pegar tanto piolho, já que tomava tanto banho e mamãe tinha tanto cuidado com a nossa higiene, mas com tanto aglomerado e sentando com outros coleguinhas nas bancas escolares ficava fácil a transmissão.

Nas passeatas comemorativas à Emancipação Política de União dos Palmares fui escalada para sair de baliza, por quatro vezes, representando a escola, o que me rendeu de Antônio Matias a alcunha de “Baliza”.

E toda vez que eu passava em frente a casa dele, ele gritava: “Baliza!”. Eu não acredito que eu tivesse desenvoltura, nem beleza, como eu via nas minhas amigas, além de ser muito pequena, para sair de pelotão em frente às bandas de fanfarra. Eu era muito sem jeito e dava meus tropeços, mas dona Lalinha ia lá em casa pedir a mamãe e ela deixava eu desfilar, ainda agora não entendo o motivo.

Além dessas participações em frente às bandas de fanfarra das escolas, fui porta-aliança  de quatro casamentos na cidade: o de meu tio Antônio com tia Hermínia (eu e a prima Rita), o de dona Carminha Leão e Anselmo, o Nininho (novamente a mesma dupla),  o de tia Renalva com Zequinha (idem),  além de ter sido, também, dama de outra moça da rua do Jatobá, que já não lembro mais quem foi.

Eu sempre fui muito desajeitada, atrapalhada, desastrada e quando estava aprendendo a andar de bicicleta, caía muito. Quando Rosemary Veras ganhou sua primeira Monark eu pedi emprestado para dar uma voltinha. Era nova em folha, vermelha, e fui andar na rua do “Cangote”. 

Mas para desviar de uma carroça, fiz uma manobra tão maluca que levei uma bruta queda, me arranhei toda, amassei e empenei o novo brinquedo de Mary. Coitada da minha amiga, não sei  qual  foi a desculpa que deu quando chegou em casa com  sua bicicleta  toda destroçada.

Minhas traquinagens de criança arteira chegavam ao fim quando mamãe descobria que eu estava tomando banho no Rio Mundaú, quase ao meio dia, com minhas amigas de infância, Maria José e Marisa, irmãs por parte de pai de Quitério Matias.

Levava umas boas sovas com o cinturão de meu pai, que mamãe guardava atrás da porta do quarto.  E assim eu ia desobedecendo às ordens da minha mãe, ao contrário do meu irmão Petrônio, que era sempre muito obediente e terminou sendo chamado por nós, os outros filhos, de o “queridinho da mamãe”.

Nas festas de Santa Maria Madalena papai, que era devoto fervoroso da santa, nos levava ou ia às nove noites para o evento. Era quando a gente cometia os excessos: da gula, com os tira-gostos que mamãe fazia, e tomávamos bastante refrigerantes, além de comer pipoca, amendoim e tudo o que pudéssemos consumir, além das voltinhas na roda-gigante, corrida nos barcos, que faziam parte das nossas pequenas realizações infantis.

Nossa casa ficava cheia de visitas, dos parentes e dos amigos dos meus pais. Eu ficava contente porque sabia que mamãe não ia nos bater, caso cometêssemos algum deslize, e que ela ia preparar comidas diferentes. Eu sempre fui muito comilona.

Mamãe nunca teve problema com a  minha alimentação, porque sempre comi de tudo. Mas quando eu adoecia, não queria comer nada e mamãe me adulava, oferecendo as comidas que eu mais gostava. Se eu ficasse sem comer, era porque não estava bem, era o primeiro sinal de que estava doente.

Meu padrinho Durval Vieira ia me buscar, todos os domingos, na Rua da Ponte, para passear de jipe. Íamos para a fazenda Sete Léguas, de propriedade dele, onde comíamos muitas frutas e tomávamos banho no açude.

Na Semana Santa, meu padrinho mandava represar o açude que transbordava de tão cheio, para que fosse feita a pescaria. Entrávamos ali, eu e Luciana, sobrinha de madrinha Nenzinha, esposa de padrinho Durval, junto com os empregados do sítio, para observarmos os peixes que eram pescados.

Eu adorava aqueles passeios com o meu padrinho, que só me trazia para casa na hora do almoço. 
Tinha muita afeição por ele e por minha madrinha Nenzinha que ainda vive em União. Mas quando ele morreu,  não fui ao seu enterro, porque mamãe estava de mal comigo e achei por bem não ir à cidade naquele dia.

Minha avó e meu pai queriam que eu seguisse a carreira religiosa e me tornasse feira. Eu dizia para minha avó que nunca iria me casar e que adotaria uma criança, quando ficasse mais velha. Eu sempre repetia isso: que não queria ter filhos porque tinha medo de parir.

Dizia também que não queria casar porque, logo cedo, desenvolvi uma aversão pela instituição oficial do casamento, como se eu já estivesse prevendo o que iria me acontecer no futuro. Eu não queria, assim como muitos membros da minha família, casar apenas por casar, por uma obrigação, ou por determinação dos meus pais.

Eu ouvia muitas histórias de primas e primos que tinham se casado porque os pais os obrigaram, ou para não ficarem solteiros. Eu queria me unir com alguém que gostasse de mim, que me amasse, pois sempre fui muito sonhadora e utópica, talvez influenciada pelos livros que lia e pelas novelas que eu assistia.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Carlito Lima diz que o setor turístico é 'coveiro do Carnaval'

Maceió lá fora como cidade que não tem a festa

 / Tribuna Independente

Foto: Adailson Calheiros
Carlito Lima avalia que o Carnaval deve ser resgatado, mas acredita que da forma como era antigamente não é mais possível
Carlito Lima avalia que o Carnaval deve ser resgatado, mas acredita que da forma como era antigamente não é mais possível
O secretário de Cultura de Marechal Deodoro e incentivador da cultura alagoana, Carlito Lima, em entrevista à reportagem da Tribuna Independente sobre o resgate dos antigos carnavais em Maceió disse que o setor turístico do Estado é ‘coveiro do Carnaval’.
Segundo ele, o trade começou a vender Maceió lá fora como a cidade que não tem Carnaval e o prefeito da época gostou porque não gastaria dinheiro; “Aí o Carnaval de Maceió foi esfriando. Hoje, os hotéis estão lotados e eles (setor) acham ótimo; são os “coveiros do Carnaval”, observa.
Carlito Lima avalia ainda que o Carnaval deve ser resgatado, mas que da forma como era antigamente não é mais possível. “É preciso que haja uma adaptação aos tempos atuais, pois fica muito caro, por exemplo, o desfile pelas ruas. Participei de algumas reuniões e coloquei isso: não se pode vender Maceió como uma terra sem Carnaval, é preciso resgatar a nossa cultura”, avalia.
Segundo ele, o Carnaval é a cultura mais espontânea do mundo e o de Maceió estava praticamente acabado, mas acredita que está havendo alguns esforços de grupos culturais para fazer um resgate da nossa cultura.
“O projeto que a prefeitura está fazendo é muito bom, mas só vai ter visibilidade daqui há três anos. Eu participei de algumas reuniões e discuti com secretários; disse que não se pode pensar assim, que Maceió seja um balneário e nem um sanatório”, observa.
O Velho Capita pontua que no ano passado, a Prefeitura de Maceió já fez um projeto de Carnaval. “Acho que vai continuar, não com a mesma verba, mas vai dar assistência aos grupos carnavalescos nos bairros. Eu creio que a prefeitura está querendo resgatar o Carnaval, mas não será como antigamente, é muito caro: não adianta a gente querer fazer como antigamente, tem que ser adaptado aos novos tempos”, avalia.
Carlito observa que um economista disse que Maceió tem um milhão de habitantes. “Durante o Carnaval, saem 200 mil pessoas da capital não só para Recife, Olinda, Salvador, mas para Paripueira e Barra de São Miguel. Se cada um desses turistas gasta 100 reais, vai deixar de circular R$ 20 milhões em Maceió. Esse argumento eu usei na prefeitura o ano passado; é muito dinheiro”, explica.
A reportagem tentou contato com o setor de turismo do Estado, para ouvir sua opinião a respeito desta questão de Maceió ser vendida em outros estados como o local que não tem Carnaval, mas até o fechamento da matéria não conseguiu o contato.
Programação incluía maratonas carnavalescas na Rua do Comércio
O Carnaval antigo de Maceió faz parte do imaginário de quem era jovem em décadas passadas e era extraordinário.
A festa de Momo começava 15 dias antes do Carnaval e havia maratonas carnavalescas todos os dias na Rua do Comércio. Quem conta essa história é o secretário de Cultura de Marechal Deodoro, Carlito Lima.
Ele rememora aquele tempo e descreve que nos antigos carnavais de Maceió tinha o corso e duas ou três orquestras, nas esquinas.
“Para a gente fazer o passo, brincar, cantar música de Carnaval, misturar pobre com o rico, a empregada com o soldado, o capitão. Eu ia todas as noites na maratona carnavalesca”, lembra.
Segundo ele, o Carnaval popular de Maceió acontecia durante todo o dia e à noite e uma semana antes tinha o banho de mar à fantasia e as troças (que se assemelhavam aos Clubes de Frevo, apresentando-se nas ruas do centro ou do subúrbio).
TROÇAS
Nas comunidades em que se originavam, as troças arrebatavam homens, mulheres, crianças e idosos. O improviso, a descontração e a irreverência eram a tônica no desfile dessas agremiações.
“Tinha banho de mar à fantasia, na Praia da Avenida, e o pessoal ia fantasiado. Eram várias categorias como as troças do Bráulio Leite, do Santa Rita, o Rubens Camelo”, lembra.
Segundo Carlito, os carnavalescos saiam pelas ruas falando mal do governo, fazendo muito humor e havia concurso da fantasia mais bonita.
“Era bem organizado: antes do Natal, a prefeitura organizava a Comissão Organizadora do Carnaval (COC), essa comissão fazia esses concursos; era na Praia da Avenida, com muito frevo e muita alegria e só terminava no final da tarde ou começo da noite”, descreve.
ORQUESTRAS
Quando chegava o período carnavalesco, a prefeitura aproveitava a maratona e aumentava o número de orquestras, que iam desde a Praia da Avenida até a Praça dos Martírios.
“Era um carro atrás do outro, o corso, a gente paquerando; as meninas eram alegres e a gente caia no passo. Era uma coisa bem bacana o Carnaval de rua”, pontua.
Pontal da Barra terá dez blocos desfilando nas ruas do bairro
Os moradores do Pontal da Barra vão repetir a tradição este ano e voltarão às ruas do bairro para brincar o Carnaval. Conhecido internacionalmente pela produção de artesanato como o filé, o Pontal está se preparando para colocar nas ruas 10 blocos carnavalescos.
Segundo o presidente da Associação de Moradores, Davi Carvalho, no dia 8 de fevereiro, um domingo, sairá o Bloco Meladinho, numa prévia carnavalesca, percorrendo as principais ruas do bairro e os foliões saem à vontade.
“Uns vão fantasiados e outros saem como preferirem”. Davi assumiu a presidência da entidade há pouco tempo, mas declara que já está finalizando os contatos com os poderes competentes para a realização do evento.
Durante os quatro dias, animação da população do bairro ficará por conta dos blocos e apresentações na praça (Foto: Adailson Calheiros)
“Serão quatro noites de festa, até o dia 17. A folia vai ser na Praça Caio Porto e durante os quatro dias terá blocos carnavalescos de todos os setores do bairro desfilando pelas ruas: rendeiras, pescadores e outros”, observa.
No Pontal, segundo Davi Carvalho, tem blocos engraçados como o Bloco das Virgens, no qual os homens saem de mulher e as mulheres trajadas de homens. “Tem também Os Traíras, Rosa Chiclete”, descreve.
Algumas moradoras falaram à reportagem. Dona Lena disse que não é chegada a Carnaval, nem gosta de ver, mas a moradora Paula da Silva, de uma das lojas que vende filé, disse que adora.
“Para mim é a melhor festa, se eu pudesse brincaria todos os dias. Antes eu saía na rua, mas agora tenho uma filhinha de um ano, mas sempre aproveito. Carnaval para mim tem que ser frevo, não gosto de pagode e nem de suingueira”, disse Paula.
Ela disse que não podemos deixar que o Carnaval de rua acabe. “Tem que ser firme e não deixar acabar”, observa.
Carnavalesco diz que ninguém pode trazer de volta o que passou
O carnavalesco Ronaldo de Andrade, diretor do bloco Filhinhos da Mamãe, disse que não concorda com o termo resgate do Carnaval, pois, segundo ele, ninguém pode resgatar o que já passou.
“Na verdade, é exigir o direito de brincar o Carnaval, apresentando sua demanda, na direção de ter o direito da festa e exigir dos órgãos responsáveis um investimento maior”, observou.
Segundo ele, o bloco Filhinhos da Mamãe foi criado porque, em 1983, o Carnaval de rua de Maceió estava quase inexistente. “O investimento era na Praça Moleque Namorador e em Bebedouro, os clubes já estavam perdendo o glamour”, destaca.
TEATRO
Foi daí, segundo Ronaldo de Andrade, que os artistas de teatro de Maceió e da Companhia Alagoense de Teatro criaram o bloco, no sentido exatamente de brincar o Carnaval na capital, “porque a gente ia para a Bahia e brincava frevo, ainda não era o axé, aí nos sentimos na obrigação de brincar o Carnaval em Maceió, mas não queríamos perder o Carnaval da Bahia também”, explica.
Segundo Andrade, cabe ao povo de cada cidade organizar seus blocos (Foto: Sandro Lima)
Ronaldo destaca que não adianta dizer que as pessoas não gostam de Carnaval, “porque nas prévias carnavalescas, o Filhinhos da Mamãe recebe muitos turistas que vêm brincar, participar e verem como a gente brinca”, destaca.
Ele avalia que a população é quem deve exigir o Carnaval nas ruas de Maceió. “Não é o poder público que planta os desejos da população, mas a população que deve fazer e os responsáveis se sentirem coagidos e obrigados a fazerem jus à demanda e acontecimento público”.
Ronaldo de Andrade avalia ainda que onde não existe os artistas trabalhando, não existe o poder público para inventar nada, é preciso que a população se manifeste durante o Carnaval.
“Só muda quando a população faz um clamor grande, num caso grave, obviamente; e se é grave a população de Maceió não ter Carnaval, ela tem que se manifestar”, entende ele.
Segundo Ronaldo de Andrade, não podemos ficar dependendo do poder público, pois Carnaval não é uma brincadeira do poder público, é do povo de uma cidade, e cabe à população se organizar nos seus blocos. “E aí eu tenho certeza que o poder público vai ver um foco interessante que precisa do apoio. Depende da demanda”, destaca.
“O Carnaval que é uma manifestação do ser humano tem que encontrar esse espaço para se manifestar carnavalescamente. Eu acho que é isso”, finaliza.

Carnaval em Alagoas terá distribuição de quase 1,5 milhão de camisinhas

Distribuição será feita para os municípios e a 

divisão ocorrerá de acordo com a população de cada cidade

Olívia de Cássia - Repórter

Com o objetivo de orientar a população sobre os cuidados para evitar a transmissão de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs/Aids), o Ministério da Saúde disponibilizou e a Secretaria de Estado de Saúde (Sesau) vai distribuir 1.486.755 preservativos durante o Carnaval deste ano no Estado.
Segundo a assessoria da Sesau, a distribuição será feita para os municípios e a divisão ocorrerá de acordo com o montante populacional de cada cidade. “Nos municípios, a distribuição vai ocorrer nos postos de saúde e onde houver blocos carnavalescos haverá distribuição itinerante”, observa.
Cada folião pode pegar quantas unidades necessitar e também ficará a critério de cada município. Ainda segundo informações da assessoria, não haverá distribuição de preservativos femininos, uma vez que o Ministério da Saúde não enviou, mas as mulheres podem ter acesso aos masculinos para repassar aos seus parceiros.
A assessoria comenta ainda que também serão feitas operações no trânsito para distribuir o material. “A Sesau irá realizar uma blitz no trânsito, no sábado (7), durante o Bloco Pinto da Madrugada, onde haverá distribuição de preservativos”, destaca.
Além disso, estarão no bloco os personagens Camisildo e o Hepatildo, que são símbolos da prevenção do HIV e da Hepatite, transmitidas pela via sexual, quando não se utiliza o preservativo.
PESQUISA
Pesquisa do Ministério da Saúde com base em dados de 2013 mostrou que 94% da população sexualmente ativa reconhecem a eficiência da camisinha como prevenção de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST/Aids), mas que 45% admitem que não recorreram ao método nos 12 meses anteriores ao levantamento.
O resultado foi divulgado na quarta-feira (28), durante lançamento de campanha de prevenção de DST/Aids no Carnaval. Na primeira pesquisa, realizada em 2004, 58% admitiam ter se relacionado sexualmente sem preservativo e 96,9% reconheciam a eficiência da camisinha. Em 2008, 48% declararam ter feito sexo sem preservativo e 96,6% tinham a percepção da importância na prevenção de doenças.
SMS
A assessoria da Secretaria Municipal de Saúde de Maceió encaminhou e-mail à reportagem informando que haverá uma reunião na segunda-feira (2), para definir como será feita toda a logística de distribuição nas prévias e durante o Carnaval, e isso inclui também a definição da retomada ou não do Bloco do Prazer como estratégia de prevenção para o carnaval deste ano.

Legalização do aborto: 79% são contra, segundo pesquisa nacional do Ibope

Divulgação
Maioria condena a prática abortiva sob o argumento
e que é preciso garantir o direito à vida para bebês
que foram gerados e não nasceram ainda
Olívia de Cássia-Repórter
Quem defende que o aborto seja legalizado no Brasil apoia a vontade e a decisão da mulher de escolher o que fazer com o seu corpo: é que o prega o movimento de mulheres e alguns partidos de esquerda.
Uma pesquisa do Ibope divulgada no final do ano passado indica que 79% dos entrevistados são contra, e apenas 16% são favoráveis.
Quem defende posição contrária são grupos religiosos, espíritas e alguns setores da sociedade, que condenam a prática abortiva argumentando que é preciso garantir o direito à vida para bebês que foram gerados e não nasceram ainda.
Para o movimento sindical cutista, a criminalização do aborto tem colocado as mulheres nas mãos de pessoas despreparadas, pondo em risco sua vida e saúde. Nos últimos dias, a imprensa nacional divulgou matéria de mortes de mulheres que se submeteram ao procedimento em clínicas clandestinas e morreram devido à falta de assistência médica.
A reportagem da Tribuna Independente, dando sequência à série de matérias que vem fazendo sobre a consulta do Instituto sobre temas polêmicos, foi ouvir segmentos diferenciados da sociedade civil alagoana sobre a questão.
Segundo Girlene Lázaro, secretária da Mulher da Central Única dos Trabalhadores (CUT/AL), não dá para tratar a questão da descriminalização do abordo com hipocrisia. “Muitos candidatos dão opinião para agradar a população, sem aprofundamento do debate, mas têm que enfrentar a discussão; fazer como tem que ser feita”.
Segundo ela, queira ou não, a sociedade não pode fazer de conta que o problema não existe “e colocar a sujeira embaixo do tapete”. A secretária da Mulher pontua que, quando as mulheres que têm melhores condições financeiras podem, praticam o aborto tendo acesso a uma assistência mais qualificada e segura. “Mas, essa nem sempre é a regra”, observa.
Segundo Girlene Lázaro, números de abortos no Brasil são apenas estimativas (Foto: Adailson Calheiros)
Segundo a secretária da CUT, tanto em nível nacional quanto local, a entidade já tem um debate sobre o tema há bastante tempo e entende que há no Brasil a necessidade de que seja legalizado o aborto e tratado como política pública de saúde. “Muitas mulheres procuram o serviço de saúde para fazer o aborto e não têm dentro do SUS o espaço, mas não deixam de fazer”, destaca.
Girlene Lázaro, que também é diretora do Sindicato dos Trabalhadores em Educação (Sinteal), observa que por esse motivo, essas mulheres correm o risco de morrer, como tem acontecido nesses últimos dias. “A discussão tem que ser encarada, de frente; é polêmica, mas é preciso esgotar todas as questões que o debate envolve. Não dá para continuar as mulheres morrerem jovens por causa disso”, argumenta.
‘Discussão tem que ser pelo direito à saúde’
A sindicalista avalia também que o tema aborto não vai para votação no Congresso Nacional este ano. Ela analisa que a discussão da legalização do aborto não se resolve tratando pela questão religiosa: “Tem que ser pelo direito à saúde, a definir o que é que a mulher quer do seu corpo e ser tratada como cidadã de direitos e exercê-los em qualquer situação”, pontua.
Girlene Lázaro analisa ainda que a questão da descriminalização do aborto é um problema social muito grande e precisa ser tratado como política pública de saúde, porque de fato a situação fugiu do controle. “Defendemos que seja permitido a essas mulheres fazer o aborto sem deixar sequelas sem correrem risco de morte”, explica.
‘Mulher tem direito a decidir sobre seu corpo’
A diretora da Mulher da CUT acrescenta ainda que o movimento feminino defende que a mulher tenha o direito de decidir sobre o seu próprio corpo. “Ninguém é a favor do aborto pelo simples fato de retirar um feto; não é isso, é por todas as complicações que envolvem a questão, as sequelas, e os riscos que causam à mulher e não dá para criminalizá-la, pois na maioria das vezes ela tem uma gravidez indesejada e é quem sofre mais as consequências disso”, ressalta.
Segundo dados da CUT, no Sistema Único de Saúde a morte em decorrência das complicações de aborto gira em torno 13%, e é a terceira causa de mortalidade materna no Brasil. “No mundo todo, as complicações do aborto deixam sequelas na vida das mulheres, especialmente nos países em desenvolvimento como o Brasil, que lidera a lista da Organização Mundial de Saúde (OMS) de abortamentos provocados”, pontua.
As pesquisas apontam também que uma em cada nove mulheres brasileiras recorre ao aborto como meio para terminar uma gestação que não foi planejada ou indesejada: “Os números do aborto no Brasil ainda são apenas estimativas, pois a ilegalidade e clandestinidade faz com que não seja possível saber quantas mulheres têm sua saúde prejudicada por causa do aborto realizado em condições precárias”, observa a direção da CUT.
CÓDIGO PENAL
De acordo com o Código Penal Brasileiro, promulgado em 1940, o aborto induzido é considerado crime e só é permitido pela legislação em casos de estupro e quando a mãe corre risco de vida. Recentemente, o Supremo Tribunal Federal (STF) aprovou uma jurisprudência em que o aborto pode ser realizado nos casos de fetos anencéfalos.
‘Primeiro é preciso traçar um perfil de sociedade’
O advogado Mirabel Alves, que é secretário de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil/Alagoas, observa que a sociedade brasileira está dividida sobre o tema. Ele observa que, como cidadão e advogado, é contra o aborto “sem arriscar a dizer qual seria a saída para tantos problemas envolvendo o tema, uma vez que se trata de problema de alta complexidade que, além de tratar da vida e da morte, envolve discussões sobre políticas de saúde pública, de educação, de cultura e, sobretudo de natureza espiritual”, pontua.
Secretário de Direitos Humanos da OAB, Mirabel Alves é contra a prática (Foto: Arquivo pessoal)
O advogado ressalta que  não se pode descontextualizar a discussão e observa que seria irresponsável tratar do tema sem primeiro traçar um perfil de sociedade que temos. “Basta olhar para cada família brasileira, especialmente as de baixa renda e notar o quanto a nossa juventude está exposta a uma série de ataques que vêm, através da mídia, especialmente no conteúdo erótico exibido diariamente na televisão, bem como nas músicas populares, o que serve de estímulo para a prática do sexo sem proteção e sem consequência, o que leva muitas jovens, adolescentes e até crianças a engravidarem fora do momento, ocasião e condições adequadas”, explica.
Segundo Mirabel Alves, isso faz lembrar a falta de compromisso que a sociedade tem com crianças e adolescentes, “infringindo de forma coletiva aquilo que está no artigo 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente, onde está previsto que a família, a comunidade, a sociedade e o poder público são os responsáveis pelo saudável desenvolvimento deles”, destaca.
EVANGÉLICO
O advogado, que é cristão e evangélico, entende que frente à complexidade do tema a sociedade tem que se debruçar sobre o assunto desprovido de todo e qualquer preconceito. “Entendo também que discutir o aborto sob um foco reducionista é deixar de enxergar todos os fatores que fazem com que em nossa sociedade existam tantas mulheres querendo praticar o aborto”, analisa.
Mirabel Alves observa também que, com mais escolas, mais saúde, mais cultura de qualidade e outras políticas inclusivas, “nós teríamos uma sociedade mais justa e por consequência mais pacificada, lembrando aquela máxima que diz que o fruto da justiça é a paz”, avalia.
Igreja Católica: aborto é um atentado
Para o padre Márcio Roberto, pároco da Igreja Nossa Senhora Rosa Mística, a Igreja Católica, vê o tema aborto como um atentado à vida. “Um aborto voluntário é visto pela Igreja como um pecado gravíssimo; o ato em si conduz à excomunhão”. Dentro dessa afirmação padre Marcio Roberto avalia que entram em um estado de excomunhão todas as pessoas que, direta ou indiretamente, colaboram conscientemente com o ato.
Segundo o pároco, a Igreja não quer restringir o campo da misericórdia: “Manifesta, sim, a gravidade do crime cometido, o prejuízo irreparável causado ao inocente morto, a seus pais e a toda sociedade”, ressalta. Segundo o pároco, se a sociedade fosse de fato democrática, não voltaria a discutir o tema aborto por um bom tempo, “pois sempre que a mídia aborda a questão, o resultado é a favor da vida e contra esta cultura de morte que o governo quer de todas as formas impor”, ressalta.
Padre Márcio Roberto: ‘Defende a vida quem tem juízo, responsabilidade e amor à dignidade humana’ (Foto: Arquivo pessoal)
Marcio Roberto observa que o resultado da pesquisa do Ibope, (79% contra e 16% a favor) não é uma diferença que deva ser desconsiderada ou ignorada pelo povo e também pelas autoridades constituídas. “Não é uma questão meramente religiosa; defende a vida quem tem juízo, responsabilidade e amor à dignidade humana”, observa.
O padre argumenta que mesmo que algumas pessoas não acreditem em Deus, ao cometerem um aborto, com o tempo sentem um grande remorso. “Os psicólogos que o digam pelos números (não baixos) de mulheres em seus consultórios, pedindo ajuda para superar o trauma”, diz ele.
O pároco ressalta ainda que a Igreja busca ajudar as pessoas em situações especiais (gravidez de alto risco) com a ajuda de médicos, psicólogos e religiosos para dar suporte biofísico, psicológico e espiritual. “A mesma coisa fazemos para as vítimas de violência sexual ou de gravidez indesejada, de tal modo que o novo ser humano seja protegido em todas as etapas da vida, sobretudo naquela que o ser humano é mais dependente”, pontua.
Padre Marcio Roberto também argumenta que se realmente houvesse interesse pelas mulheres, os políticos iriam investir na educação e em favorecer a entrada de mais mulheres no campo do trabalho e trabalho digno e não escravo nem sexual. “Existe na nossa sociedade uma minoria que se diz preocupada com a saúde da mulher, mas eu pergunto: por que quem pensa assim não investe mais contra a exploração sexual da mulher? Por que não se unem para fazer reivindicações para termos mais postos de saúde nos bairros e hospitais com mais leitos para atender a nossa população?”, indaga o padre.
O líder espiritual da Igreja Nossa Senhora Rosa Mística ressaltou que o conselho que a Igreja dá para mulheres jovens e adultas que engravidaram sem o devido planejamento, é o de não abortar, pois o aborto não é a solução, segundo ele. “Antes será a causa de toda uma vida marcada pelo dor do ato voluntário e em si criminoso. Para quem já abortou orientamos que procure um padre para confessar o pecado e não voltar a pecar”, pontua.
Segundo o padre Márcio Roberto, a igreja é contra a teoria de quem defende o aborto dizendo que onde ele foi legalizado, diminuiu o número de mortes por esse motivo. “Questiono tal resultado de pesquisa, mas também motivaria que avaliassem se não aumentou também em tais locais que legalizaram o aborto o número de suicídios, de pessoas que desenvolveram alguma neurose ou loucuras e o número de clientes nos consultório de psicologia”, conclui o pároco.
Médico espírita ressalta que a partir da fecundação já existe um novo ser
O médico José Ricardo Santos, presidente da Associação dos Médicos Espíritas de Alagoas e presidente do Lar São Domingos, entidade que cuida de menores carentes, avalia que a pessoa que é a favor da descriminalização do aborto é desinformada. Ele avalia que a proposta de descriminalização do aborto que tramita no Congresso Nacional é inconstitucional e merece repúdio e concorda com a pesquisa do Ibope sobre a rejeição da legalização do aborto.
“O que temos é uma sociedade mal orientada, mal educada, desprotegida pelo Estado e pela sociedade, que não cuida do jovem, das pessoas carentes e mal informadas e que pretendem realizar o aborto, para se livrar de um problema; mas na verdade estão cometendo um assassinato da pior espécie, contra um ser indefeso que não tem condição de gritar ou de reagir”, reclama.
Para José Ricardo Santos, a proposta que tramita no Congresso Nacional é inconstitucional e merece repúdio (Foto: Sandro Lima)
Segundo o médico, todos os dados científicos de há mais de 200 anos comprovaram que a vida do ser humano começa na fecundação. “Quando o espermatozoide fecunda o óvulo, um novo ser tem início, o ser humano vai do ovo fecundado até o desencarne: o ser humano é um todo e interromper a vida em qualquer uma dessas circunstâncias é um assassinato; é eliminar um ser humano totalmente completo. Não existe nenhuma controvérsia científica que vá de encontro a esse argumento”, destaca.
Segundo José Ricardo Santos, a legalização do aborto “é crime perante as leis vigentes em qualquer país, porque matar é crime e diante disso não é possível fazer o aborto com qualquer argumento ou manipular embriões para experiência científica”, conceitua.
SER DISTINTO
O médico diz ainda que o feto não pertence ao corpo da mulher. “O feto é um ser distinto que se hospeda no corpo da mãe; ele tem uma carga genética totalmente individual e já tem, comprovadamente, uma vida psíquica e emocional no interior do útero materno, desde as primeiras semanas, do início do desenvolvimento embrionário”, destaca.
O especialista em cardiologia também pontua que o seu argumento é comprovado cientificamente, por várias pesquisas, demonstrando que muitas crianças nascem com problemas psicológicos, em decorrência das conversas, das emoções que foram trabalhadas pela mãe, pelo pai ou pela família, durante o período gestacional: “Está comprovado que elas já têm uma vida psíquica”, reforça.
Crítico contumaz da proposta de legalização do aborto, o médico espírita diz também que é imoral da parte de quem propõe, movido por uma série de interesses: “Um deles é a limitação do crescimento demográfico e para esconder a incapacidade do governo de investir em políticas públicas, como educação; orientação às famílias carentes; orientação nas escolas públicas mostrando a verdade a respeito dessa questão”, destaca.
O médico avalia que o que há na sociedade brasileira é muito egoísmo em não proteger as gestantes, as jovens e a incapacidade de lidar com esse tipo de problema, acolhendo esses seres humanos que surgem muitas vezes de uma fora indesejada. “As estatísticas divulgadas a respeito de mortes de mulheres por causa de abortos mal feitos e sem higiene são mentirosas, são divulgadas pelo governo para poder influenciar a população que desconhece o assunto”, diz ele.
Ricardo Santos acrescentou seu raciocínio dizendo que quando os que defendem o aborto falam que são milhares de mulheres que estão morrendo por essa causa, não é verdade: “São 200 ou 300 no Brasil inteiro, por complicações que acontecem dentro dos hospitais; são as curetas, que perfuram o útero e causam necrose, por exemplo. Não tem uma mulher que praticou o aborto que não tenha problemas mentais”, finaliza.

Alguns instantes. Vivendo por aí...