quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Gaspari diz que agressão de Bolsonaro aos argentinos foi assombrosa

247 – O jornalista Elio Gaspari ficou indignado com a agressão de Jair Bolsonaro ao povo argentino, dois dias atrás. "A declaração de Jair Bolsonaro de que a derrota de Mauricio Macri na prévia eleitoral argentina pode significar uma vitória da 'esquerdalha de Dilma Rousseff, Hugo Chávez e Fidel Castro foi coisa inédita, assombrosa. Ele pode achar o que quiser, mas não tem mandato para meter o Brasil numa disputa eleitoral argentina", afirmou.

"Falando de questões internas, pode se intitular 'Capitão Motosserra' ou expor sua teoria da relação do meio ambiente com o cocô. Bolsonaro é assim e, sem dúvida, prefere ver os brasileiros discutindo cocô, em vez do cheiro de uma recessão na economia", escreveu ainda o colunista, que lamentou o fato de o País não ter um chanceler, uma vez que Ernesto Araújo é pau mandado do clã Bolsonaro e não tem qualquer autonomia à frente do Itamaraty.

Saiba mais sobre o caso na reportagem da Reuters:

(Reuters) - O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta segunda-feira que a Argentina pode enfrentar uma crise migratória, com cidadãos deixando o país em direção ao Brasil, caso a oposição ao presidente Mauricio Macri vença as eleições de outubro, como aconteceu em uma votação primária no domingo.

O neoliberal Macri, que é aliado de Bolsonaro, sofreu uma dura derrota para o candidato de centro-esquerda Alberto Fernández nas eleições primárias argentinas, indicando a derrota do presidente na votação presidencial deste ano.

Fernández tem como vice a ex-presidente Cristina Kirchner, que liderou o país entre 2007 e 2015.

“Não se esqueçam, mais ao sul, da Argentina, o que aconteceu nas eleições de ontem. A turma da Cristina Kirchner, que é a mesma da Dilma Rousseff, que é a mesma de Maduro, Chávez e Fidel Castro, deu sinal de vida aqui”, disse Bolsonaro em discurso durante cerimônia de inauguração de obra de uma estrada no Rio Grande do Sul.

“Povo gaúcho, se essa esquerdalha voltar aqui na Argentina, nós poderemos ter, sim, no Rio Grande do Sul, um novo Estado de Roraima, e não queremos isto, irmãos argentinos fugindo para cá, tendo em vista o que de ruim parece que deve se concretizar por lá caso essas eleições realizadas ontem se confirmem agora no mês de outubro”, acrescentou.

Bolsonaro já havia afirmado no passado que uma vitória da oposição na eleição presidencial da Argentina poderia transformar o país em uma “nova Venezuela”, fazendo referência à crise atravessada pelo país governado pelo socialista Nicolás Maduro.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Solidariedade aos jornalistas em greve.


Por Olívia de Cássia Cerqueira



Nunca pensei em toda a minha vida que iria agradecer todos os dias pela miha aposentadoria, por invalidez. Quando fui homenageada ano passado, com a Medalha Denis Agra, de maior reconhecimento para jornalistas, fiquei honrada e ao mesmo tempo lamentando por receber a honraria, justamente num momento de crise por que passa o jornalismo alagoano, em que o principal jornal de circulação demitiu um monte de jornalista e fechou, passando a ser impresso semanalmente.

Agora, por conta do dissídio coletivo da categoria, cuja data-base é o mês de maio, os donos das principais empresas de jornalismo propoem a redução de 40% nos salários da categoria, proposta rechaçada até pelo MP.

É uma indecência isso. Hoje eles tentam desmentir com nota fake nas TVS dizendo que não estão propondo a redução de salário. Isso quer dizer que estão desmentindo o próprio MP, com o intuito de comover a sociedade alagoana.

Fazer jornalismo foi um sonho que durou pouco para mim, barrada pela limitação da ataxia-Doença de Machado Joseph, num momento em que eu estava produzindo ainda, fazendo matérias especiais que me davam prazer e alegria. Mas a gente precisa se acomodar à nova realidade.

Estou solidária com todos os companheiros que estão nessa luta e quero dizer que nunca desistam de lutar. Avante e na resistência até a vitória.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Bolsonaro edita trapalhadas por decreto

Por Helena Chagas
Publicado por Diario do Centro do Mundo - 26 de junho de 2019

Publicado originalmente no site Os Divergentes

POR HELENA CHAGAS

Raras vezes se viu um presidente da Republica tão indiferente à negociação daquela que será, certamente, a principal reforma de seu governo – a da Previdência. Jair Bolsonaro não move uma palha por ela. Anda ocupadíssimo em confrontos – e trapalhadas – com o Congresso sobre flexibilização de porte de armas, demarcação de terras indígenas e listas tríplices para nomeações em agências reguladoras.

A vida é assim. Cada um escolhe suas batalhas. As de Bolsonaro, porém, o colocam cada vez mais distante da agenda essencial ao país, aquela que, para o bem ou para o mal, poderá impactar na geração de empregos, no crescimento da economia e na melhoria da qualidade de vida dos brasileiros. Nada disso parece estar entre as preocupações imediatas do presidente, concentrado numa pauta acessória de promessas de campanha, demonstrações de força perante o Legislativo e, sobretudo, abobrinhas.

Nesta terça, Bolsonaro mandou ao Congresso seu ex-articulador político Onyx Lorenzoni, destituído de surpresa da função na semana passada, para explicar a trapalhada dos decretos editados e revogados sobre posse e porte de armas. O que deu para entender foi a total incapacidade do presidente da República de se sentar à mesa com líderes do Parlamento para negociar.

Ele tentou impor sua vontade legislando (inconstitucionalmente) por decreto num tema que exige lei. Foi derrotado no Senado com a derrubada do decreto e, antes que o vexame se repetisse na Câmara e no STF, revogou a medida e editou duas outras repetindo trechos da anterior – fazendo o que seu porta voz horas antes negara que faria. Onyx foi explicar a confusão e o acordo final, que envolveu o envio de, finalmente, um projeto de lei para regular a questão das armas com o Congresso.

Quando a situação parecia resolvida, eis que surge um novo decreto, o sétimo, revogando o da véspera, conforme o acerto feito pelo ex-articulador Onyx com os presidentes da Câmara e do Senado. Fez o que prometeu e o que não prometeu, peitando novamente o Congresso ao manter, por exemplo, uma brecha no texto permitindo a compra de fuzis.

Gesto semelhante ao de, dias atrás, ter mandado nova medida provisória ao Legislativo fazendo retornar da Funai ao Ministério da Agricultura a atribuição de demarcar terras indígenas – mudança que havia sido feita pelo parlamento na votação da MP da reorganização administrativa do governo. A medida está sendo devolvida ao Planalto pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, pela flagrante inconstitucionalidade de tentar reeditar proposta já rejeitada na mesma sessão legislativa.

Num caso parecido, Bolsonaro resolveu vetar parte do projeto da Lei das estatais, que tanto orgulho trouxe a deputados e senadores em sua aprovação, por achar que se tornaria “rainha da Inglaterra” se seguisse o rito previsto para nomeação de diretores de agências reguladoras.

O fato é que, em nossa jovem democracia, nunca se viu tão alto índice de escaramuças entre poderes por metro quadrado.

Dallagnol continua dando palpites como se nada tivesse acontecido. Por Moisés Mende

Por Diário do Centro do Mundo - DCM


Dallagnol é o procurador que ficou sob as ordens de Sergio Moro na Lava-Jato, como denunciam as mensagens vazadas dos celulares da turma de Curitiba.

Sergio Moro era o juiz que julgava e agia como acusador. E Dallagnol era o acusador que se submetia às ordens do julgador. Aí Dallagnol aceitava numa boa.

Nesse caso não era pegadinha, era submissão mesmo.

sábado, 22 de junho de 2019

O que significa o colapso da ‘Vaza Jato’?

Por Jessé Souza
DCM - Publicado originalmente no blog do autor

Glenn Greenwald, com sua coragem, mudou a vida da sociedade brasileira contemporânea. Aquilo que só iríamos descobrir quando nada mais importasse, como na ação americana no golpe de 1964, sabemos agora, quando os patifes e eles são muitos ainda estão em plena ação. Muito ainda está por vir, mas todos já sabemos o principal: a Lava Jato, a joia da coroa do moralismo postiço brasileiro, foi para o brejo. Houve “armação política” de servidores públicos, procuradores e juízes, que, por dever de função, deveriam manter-se imparciais. Em resumo: traíram seu país e sua função enquanto servidores públicos para enganar a justiça e a sociedade. São, portanto, objetivamente, criminosos e corruptos. A verdadeira “organização criminosa” estava no Ministério Público (MP) e no âmago do Poder Judiciário. Simples assim. FHC e outros cretinos da mesma laia vão tentar tapar o sol com a peneira. Mas não vai colar. Perdeu, playboy!

Isso vale não apenas para Moro e Dallagnol que já morreram em vida, embora ainda não saibam, mas também para boa parte do aparelho judicial-policial brasileiro envolvido na “Vaza Jato”. Para o juiz e o jurista “a ficha ainda não caiu”, mas em breve serão tratados como quem possui uma doença incurável e transmissível. Se não se livrar de Dallagnol, o MP irá ao esgoto com ele. Se não se afastar de Moro, o Judiciário perderá o pouco de legitimidade que ainda lhe resta. Segue pelo mesmo caminho esse pessoal do judicial-policial que quis aproveitar a “boquinha” de ocasião, fazendo o “serviço sujo” para a elite e sua mídia venal de afastar o PT por meios não eleitorais e se apropriando, sem peias, do Estado, das riquezas públicas e do orçamento público. Na outra ponta do “acordo”, os operadores jurídicos ficavam com as sobras do banquete. Tramoias bilionárias, como o fundo da Petrobras, para Dallagnol e sua quadrilha, e cargos políticos, como a vaga no STF, para o “trombadinha da elite do atraso” Sérgio Moro.

Alguns irão dizer que é precipitado afirmar isso, visto que eles ainda são poderosos, têm os interesses dos bancos e a Rede Globo ao lado deles, envolvida até o pescoço no esquema criminoso. Bolsonaro ainda é presidente e ele faz parte dessa armação podre, e a elite quer colher os milhões do esquema, este sim, verdadeiramente criminoso. É verdade, não tenho “bola de cristal” e confesso que não sei quanto tempo a farsa ainda vai durar. O que eu sei, no entanto, é que toda ação humana precisa ser justificada moralmente. Pode-se provocar mudanças na realidade exterior, mas sem legitimação moral essas mudanças têm vida curta. Toda a história humana nos ensina isso.

Desde 1930 a elite brasileira desenvolveu, com seus intelectuais orgânicos que pautavam a direita e a esquerda, uma concepção de moralidade – da qual eu trato em detalhes no meu livro A elite do atraso: Da escravidão a Bolsonaro – que amesquinha a própria moralidade, ao ponto de abarcar apenas a suposta “corrupção política”. Para os brasileiros, moral deixa de significar, por exemplo, tratar todos com dignidade e ajudar os necessitados, como em todos os países europeus que transformaram a herança cristã em social-democracia, para se resumir ao suposto “escândalo com o dinheiro público”, desde que aplicado seletivamente aos inimigos da elite. A elite de proprietários pode roubar à vontade. Seu roubo “legalizado” passa a ser, inclusive, uma virtude, uma esperteza de negociante.

Como a mesma elite possui como aliada a imprensa venal, e, por meio dela, manipula a opinião pública, a “escandalização”, sempre seletiva, é usada como arma de classe apenas contra os candidatos identificados com interesses populares. Assim, a função real dessa pseudomoralidade amesquinhada passa a ser, ao fim e ao cabo, criminalizar a própria soberania popular e tornar palatáveis golpes de Estado sempre que necessários. O esquema pseudomoralista foi utilizado contra Vargas, Jango, Lula e Dilma, ou seja, todos que não entregaram o orçamento do Estado unicamente para o saque da elite via juros extorsivos, isenções fiscais criminosas, perdão de impostos, livre sonegação de impostos, “dívida pública” e outros mecanismos de corrupção ilegal ou legalizada.

Só a sonegação de impostos da elite em paraísos fiscais, uma corrupção abertamente ilegal, chega a mais de 500 bilhões de dólares, segundo os especialistas de universidades britânicas que compõem o Tax Justice Network. Isso é centenas de vezes maior que o dinheiro recuperado pela “Vaza Jato”, mas a imprensa venal da elite nunca divulga essas informações. É como se não existisse, até porque é crime compartilhado pelos barões da mídia. Lógico que a corrupção política dos Palocci e dos Cunha é recriminável e tem de ser punida. No entanto, não é ela quem deixa o país mais pobre nem quem rouba nosso futuro. Mas a estratégia da elite é “desviar” o foco do seu assalto sobre todo o restante da população e criminalizar a política e o Estado, que são, precisamente, quem pode diminuir o crime de uma elite da rapina, que domina o mercado e o Banco Central, sobre uma população indefesa. Indefesa posto que lhes foram retirados os mecanismos para compreender quem provoca sua ruína e sua pobreza.

A “Vaza Jato” é a forma moderna desse esquema criminoso e faz o mesmo que Lacerda fez com Getúlio Vargas em 1954. Com o apoio da mesma Rede Globo, dos mesmos jornais e da mesma mídia. Também não ficara provado que Getúlio tivesse roubado um centavo, assim como não ficou provado que Lula tivesse cometido qualquer ilegalidade. Mas a “Vaza Jato” fez mais que Lacerda. Uma turma de deslumbrados medíocres meteu os pés pelas mãos e comprometeu a dignidade do MP e da Justiça ao fazer justiça com as próprias mãos. Processos sabidamente falsos e manipulados mudaram a vida política brasileira e empresas criadas com o esforço e a luta de várias gerações de brasileiros foram entregues de bandeja aos americanos e seus aliados. A elite nacional fica com as sobras desse roubo. Tudo graças ao “trombadinha da elite do atraso”, Sérgio “Malandro” Moro, e à sua quadrilha no MP.

Mas o pior componente dessa história é o fator que explica a colaboração maciça da classe média branca ao seu herói: o racismo covarde contra os mais frágeis, os negros e os pobres. Se a elite quer roubar à vontade, a classe média branca, majoritariamente italiana em São Paulo e no Sul como o próprio Moro e portuguesa no Rio de Janeiro e no Nordeste, quer humilhar, explorar e impedir qualquer ascensão social dos negros e pobres. Nossa classe média branca, importada da Europa, foi criada para servir de bolsão racista entre elite e povo negro e mestiço. Se retirarmos a capa superficial de “moralidade”, mero enfeite para Moro e sua quadrilha, o que sobra unindo e cimentando a solidariedade de toda essa corja é o racismo cruel e covarde contra a população negra e mais humilde, o foco do lulismo.

Em virtude disso, o ódio a Lula é a mera “personalização” do ódio ao negro e ao pobre. Como o racismo entre nós não pode ser explicitado, nem por psicopatas como Bolsonaro e Witzel, devido à nossa tradição de “racismo cordial”, a “corrupção seletiva” sempre apenas dos líderes populares foi criada para ser uma capa de “moralidade” para o racismo real. Assim, todos os canalhas racistas que elegeram Bolsonaro e se identificam com Moro podem, ainda, dormir com a boa consciência de que representam a “fina flor da moralidade”. É com essa canalhice brasileira que a revolução de Glenn Greenwald está ajudando a acabar.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Glenn enquadra Moro: continua mentindo



247 - Um dos fundadores do site Intercep Brasil, o jornalista Glenn Greenwald sinalizou que o minsitro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, mentiu em depoimento no Senado, onde o titular da pasta afirmou que as mensagens trocadas com procuradores da Operação Lava Jato podem ser alteradas.

"Moro continua tentando insinuar que as conversas que estamos publicando podem ser alteradas, mas ele não sabe, porque afirma que não as tem mais. Mas Deltan os tem. LJ tem eles. Se eles foram alterados, eles poderiam facilmente provar isso. Mas eles não fizeram e nunca vão", disse Glenn no Twitter.

"Além disso, já começamos a trabalhar com outros jornais, revistas e jornalistas com esses materiais. Ninguém jamais alegou, e muito menos provou, que qualquer coisa que publicamos foi alterada. Isso porque todos - especialmente Moro e LJ - sabem que são autênticos", continuou.

"Mais uma vez, senadores: não precisam pegar as mensagens de Moro do Telegram (embora Moro tenha se recusado se autorizaria sua divulgação). Deltan os tem. LJ tem. Se alguma coisa fosse 'alterada', eles poderiam facilmente provar. Por que eles não têm? Todos nós sabemos porque", escreveu.

Moro afirmou que um "grupo criminoso" acessou a troca de mensagens dele com procuradores e cometeu uma "baixeza" para "minar os esforços anticorrupção". "Fiquei surpreendido pelo nível de vilania", complementou.

O ex-juiz também criticou o que chamou de "sensacionalismo exarcebado" e também se queixou do site Intercept Brasil, que divulgou a troca de mensagens dele com procuradores. "O veículo não me consultou, violando uma regra básica do jornalismo", disse.

Moro continua tentando insinuar que as conversas que estamos publicando podem ser alteradas, mas ele não sabe, porque afirma que não as tem mais. Mas Deltan os tem. LJ tem eles. Se eles foram alterados, eles poderiam facilmente provar isso. Mas eles não fizeram e nunca vão.
Além disso, já começamos a trabalhar com outros jornais, revistas e jornalistas com esses materiais. Ninguém jamais alegou, e muito menos provou, que qualquer coisa que publicamos foi alterada. Isso porque todos - especialmente Moro e LJ - sabem que são autênticos.

terça-feira, 18 de junho de 2019

Da Lava Jato à derrubada de Dilma, prisão de Lula e destruição da Petrobrás, o nome disso tudo é guerra híbrida

O NOME DISSO É GUERRA HÍBRIDA

por Ângela Carrato, especial para o Viomundo

O que têm em comum o Mensalão Petista, a Operação Lava Jato, o golpe, travestido em impeachment, contra Dilma Rousseff, a prisão do ex-presidente Lula, a perda de direitos dos brasileiros e a privatização de empresas estatais?

A resposta é algo que a maioria dos brasileiros nem desconfia do que seja: guerra híbrida.

Foi e continua sendo através dela que os interesses dos Estados Unidos e de seus aliados, dentro e fora do Brasil, passaram a dar as cartas, primeiro com o governo do ilegítimo Michel Temer e, depois, com o de Jair Bolsonaro, através de eleição fraudada.

Guerra híbrida é um novo modelo de confrontação que se seguiu ao fim da Guerra Fria, após o desmoronamento da União Soviética em 1991.

Ela consiste na utilização de uma enorme variedade de técnicas cujo objetivo é a desestabilização e derrubada de governos considerados hostis aos interesses dos Estados Unidos.

A finalidade última é garantir a condição de superpotência única ao Tio Sam, diante dos avanços no cenário internacional de países como a China, a Índia, a Rússia e, até três anos atrás, do próprio Brasil.

Preocupar-se com a manutenção do poder é tema recorrente entre as potências desde que o mundo é mundo. Teorizações sobre o assunto existem várias.

A Guerra Híbrida é das mais recentes e pode ser creditada a uma série de pesquisadores e militares estadunidenses.

No Brasil, as publicações sobre o assunto são poucas, com destaque para o livro do jornalista e analista político russo, Andrew Korybko (Editora Expressão Popular, 2018) que, além de criar o conceito de guerra híbrida, detalha a tática político-militar dos Estados Unidos para substituir governos não alinhados à sua política no século XXI.

OS ALERTAS DO TIO SAM

Desde a primeira vitória de Luiz Inácio Lula da Silva para a presidência da República, em 2002, que os órgãos de inteligência do Tio Sam (CIA e NSA à frente) alertavam a Casa Branca para “os riscos de um governo de esquerda no maior país da América Latina”.

Mesmo o Brasil sendo “amigo”, a preocupação era evitar que se aproximasse de potenciais rivais aos Estados Unidos, como Rússia e China e, sobretudo, que o Brasil, ele próprio, passasse a desempenhar papel de relevância nas relações internacionais, vindo a ser um competidor em termos dos interesses dos Estados Unidos.

Na época, os alertas não surtiram maiores efeitos, porque George W. Bush estava com a atenção voltada para o combate aos países que ele denominava de Eixo do Mal – Irã, Iraque e Coréia do Norte. Países que acusava de terroristas e de possuírem armas de destruição em massa, após os ataques aos Estados Unidos no 11 de setembro de 2001.

Os alertas, no entanto, começaram a dar resultados em 2009, já na administração de Barak Obama, quando esses mesmos órgãos de inteligência, recomendaram ação contra Lula e o PT.

Coincidentemente, foi durante a reunião de líderes do G20, em 4 de março de 2009, em Londres, aquela em que Obama afirmou que Lula era o cara, que os órgãos de inteligência se inquietaram de vez.

Nesse mesmo dia, Lula teve uma agenda cheia e se encontrou com o dirigente chinês Hu Jintao. A conversa girou sobre a possibilidade da criação de uma moeda internacional sem ligação com qualquer país para substituir o dólar. Algo inaceitável para os Estados Unidos.

Até hoje há dúvidas se o comentário de Obama sobre Lula foi realmente um elogio.

Seja como for, Lula passou a ser considerado inimigo pelos Estados Unidos e os mais diversos esforços e esquemas foram colocados em prática para desmoralizá-lo e ao seu partido, o PT.

Era e continua sendo inaceitável aos olhos da maior potência que o Brasil tenha uma política externa que se paute por interesses próprios.

THINK TANKS E MANIFESTANTES

Ao contrário da guerra convencional, marcada por bombardeiros e tanques, a híbrida se vale de novos padrões de confronto para alcançar seu objetivo. Ela difere também da Guerra Fria, porque a disputa não se dá mais entre agentes secretos e sabotadores ocultos e, sim, através de protagonistas desvinculados do Estado, que se comportam publicamente como manifestantes.

A “munição” contra o adversário passa a ser fornecida por think tanks, as “fábricas de ideias”, conforme as definiu em 1972, o escritor estadunidense, Paul Dickson. Um think tank é uma instituição ou grupo de especialistas cuja função é pensar e propor estratégias intelectuais, que podem ser utilizadas para as mais diversas finalidades.

Desde 2002, existem centenas desses think tanks atuando no Brasil (isolados ou em parceria) com o objetivo de preparar conteúdos de interesse dos Estados Unidos a serem difundidos entre a população como um todo ou entre setores específicos dela.

Em geral, esses conteúdos, praticamente sem variação, abordam a defesa da livre iniciativa, do livre mercado, do empreendedorismo, da responsabilidade individual, da propriedade privada, das liberdades individuais, da meritocracia e da limitação de ação dos governos.

Neles, os Estados Unidos aparecem como o “líder do mundo livre e desenvolvido” e críticas abertas ou veladas são feitas à Rússia e à China. Cuba e Venezuela, considerados “satélites” desses países, também são alvo de duras críticas.

A principal contribuição que os think tanks dão ao processo de desestabilização de um governo consiste em estudar os valores, a cultura e a visão de mundo dos alvos e, a partir daí, abordá-los com uma programação neurolinguística feita sob encomenda para ser introjetada pelas pessoas.

Abordagem que foca exatamente os pontos nevrálgicos para enfraquecer os adversários. Nessa nova modalidade de guerra, a manipulação dos fatos e a mentira (fake news) se transformam em armas letais, potencializadas pela mídia corporativa e pelas redes sociais.

Um dos principais think tanks estadunidenses em atuação no Brasil é o gigante Atlas Network, presente também em 95 países. Além dele, o Instituto de Estudos Empresariais, Instituto Liberal, Instituto Millenium e Estudantes Pela Liberdade são exemplos de instituições mantidas e/ou afinadas com ele na divulgação dos princípios neoliberais e de temas que interessam aos Estados Unidos.

A MÍDIA RECONFIGUROU OS PROTESTOS

De acordo com o Ibope, Lula deixou o governo no final de 2010, com 87% de aprovação popular, um recorde brasileiro e mundial. Sua candidata à sucessão presidencial, Dilma Rousseff, foi eleita e conseguiu, no primeiro mandato, índices ainda maiores em termos de aprovação. Segundo os dados da pesquisa CNI/Ibope, a aprovação de Dilma em março de 2013 chegou a 79%, mais do que as de Lula e de Fernando Henrique Cardoso no mesmo período de seus primeiros mandatos.

Quatro meses depois, em junho de 2013, no entanto, protestos envolvendo o aumento de 0,20 centavos no preço da passagem de ônibus em São Paulo, que diziam respeito exclusivamente ao plano municipal, acabam extrapolando para diversas capitais e atingindo o governo federal.

Turbinados por críticas contra os “gastos exorbitantes” e a “corrupção” envolvendo a realização da Copa do Mundo no Brasil, milhares de manifestantes saíram às ruas exigindo mudanças e acabaram tendo sua atuação canalizada para o “Fora Dilma”.

Uma virada tão rápida assim só foi possível, porque houve ação articulada entre os think tanks e a mídia, que reconfigurou esses protestos, numa articulação que teve início em 2005, no chamado Mensalão Petista. Mensalão que, diga-se, envolvia tanto o PT quanto o PSDB, mas foi servido ao grande público como sendo coisa exclusiva do PT.

O mensalão do PSDB, aliás, aconteceu antes do petista, em 1998, durante a tentativa de reeleição do governador de Minas, Eduardo Azeredo.

O articulador do Mensalão Tucano, Marcos Valério, foi o mesmo do Mensalão Petista. Mesmo assim, só o PT e os petistas foram criminalizados e tiveram seus julgamentos transformados em espetáculo midiático.

Estava montado o cenário para as atuações que viriam contra Dilma.

PT COMO SINÔNIMO PARA CORRUPÇÃO

A palavra de ordem na mídia brasileira e nos protestos passou a ser corrupção. E o PT passou a ser apresentado por essa mídia como uma espécie de sinônimo de corrupção, ao mesmo tempo em que não se falava nada sobre a corrupção, existente desde sempre, em todo o sistema político brasileiro.

Apesar dos protestos, Dilma foi reeleita no ano seguinte. Fato que encheu de cólera seus opositores, com o candidato derrotado, o tucano Aécio Neves, anunciando não reconhecer o resultado.

Como, naquele momento, o TSE não se prontificou a entrar no jogo, a armação contra a presidente se deslocou para o Congresso Nacional, onde centenas de parlamentares foram eleitos com o apoio – inclusive financeiro – do que há de mais conservador no país (evangélicos, ruralistas, policiais, empresários devedores do INSS e ligados ao capital internacional).

O impeachment contra Dilma, sem que fosse comprovado crime de responsabilidade, constituiu-se em golpe. Mesmo diante das evidências da falta de provas contra ela, o STF não julgou, até hoje, o pedido de seus advogados e não há data prevista para isso ocorrer.

Em outras palavras, Dilma foi alvo de uma atuação típica da guerra híbrida, onde a manipulação da opinião pública combinada com acerto entre os conservadores pró-Estados Unidos nas três esferas do poder no Brasil deram o tom.

Não por acaso, a oposição acusa os golpistas de agirem “com o Supremo e com tudo”, em referência a uma declaração tristemente célebre do então senador Romero Jucá.

Lula e Dilma incomodavam os Estados Unidos em vários aspectos. O principal era a política externa independente (Unasul e Brics) através da qual o país se projetava como um ator de peso no cenário internacional.

Como assinala o linguista, filósofo e ativista politico estadunidense, Noam Chomsky, Lula, com sua atuação, “mudou o equilíbrio do mundo”.

Outros aspectos que igualmente incomodavam aos Estados Unidos foram a insistência de Lula e Dilma em fortalecer a Petrobras para a estatal comandar a exploração do então recém descoberto pré-sal e o apoio financeiro a empresas brasileiras (empreiteiras, frigoríficos e agronegócio) para que ampliassem sua atuação no exterior.

Como os governos Lula e Dilma, sobretudo o primeiro, haviam se notabilizado também pela ênfase no combate à pobreza e às desigualdades (Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida, reajuste do salário mínimo acima da inflação), fazendo com que o Brasil vivesse, de 2003 a 2013, sua “década de ouro”, segundo relatório do próprio Banco Mundial, aos interesses contrariados dos Estados Unidos se somaram os da “elite do atraso” nativa.

Como alerta o sociólogo Jessé Souza, essa elite nunca admitiu direitos trabalhistas para as empregadas domésticas e jamais aceitou ver o filho da empregada na universidade pública. Daí ter engrossado o coro do “Fora PT”.

LAVA JATO E FAKE NEWS

Para essa elite, qualquer um, desde que não fosse do PT, podia estar no poder. Daí, num grande acordão, “com o Supremo” e referendado pela mídia, o vice-presidente Temer foi alçado à condição de presidente. E o que fez Temer? Deu início à colocação em prática do programa de governo neoliberal do candidato tucano derrotado, Aécio Neves.

Só que Temer, em meados de 2017, como meros 3% de aprovação, já despontava como o presidente pior avaliado em toda a história da República. O golpe híbrido fazia água e era preciso que Washington e seus parceiros agissem rapidamente.

É aí que ganha protagonismo uma operação da Polícia Federal, que teve início em 17 de março de 2014, cujo objetivo era o combate à lavagem de dinheiro. A operação não tinha um foco definido, mas com o passar dos meses, tornou-se possível verificar que seu alvo era a Petrobras, maior estatal brasileira e a responsável pela descoberta do pré-sal e que se buscava, através dela, atingir Lula e Dilma.

O juiz federal de primeira instância, Sérgio Moro, da 13.ª Vara Criminal Federal de Curitiba, acabou sendo o responsável pela autorização de várias das operações da Lava Jato e, de forma no mínimo estranha, acabou avocando para si o julgamento do processo do tríplex atribuído ao ex-presidente Lula.

Mesmo sem quaisquer provas que ligassem Lula ao tríplex, ele foi condenado por Moro e teve sua pena aumentada em segunda instância, pelo TRF-4.

Apesar de manter seus direitos políticos, Lula, que liderava todas as pesquisas de intenção de voto, foi impedido de disputar a eleição presidencial de 2018.

ome-se a isso que o candidato do PT e de Lula nessas eleições, Fernando Haddad, foi alvo de intensa campanha de fake news, e não só terminou derrotado, como as mentiras divulgadas derrotaram candidatos para o Senado em Minas, São Paulo e Paraná.

As fake news elegeram também nomes desconhecidos e alinhados aos golpistas para os governos desses estados. Em São Paulo, por exemplo, João Dória deve muito do seu sucesso eleitoral ao Grupo Lide, uma espécie de think tank que reúne dirigentes empresariais em defesa do estado mínimo, das privatizações e do alinhamento aos Estados Unidos.

Não houve qualquer investigação sobre as graves denúncias de fake news nas eleições de 2018. Denúncias que envolviam mais de uma centena de empresários brasileiros, que teriam bancado, de forma criminosa, através de caixa 2, os disparos de mensagens pelo whatsapp contra Haddad e o PT.

O “HERÓI” E A CRISE

A mídia corporativa brasileira, Rede Globo à frente, cuidou de caracterizar Moro como “herói em luta, sem trégua, contra a corrupção”, não lhe poupando elogios e fazendo a defesa veemente da operação Lava Jato, sempre equiparada à italiana Mãos Limpas (Mani Puliti).

Coube à Globo a exclusividade na divulgação das operações da Lava Jato, sempre anunciadas com estardalhaço.

Em alguns casos, a equipe da emissora chegou antes da própria polícia -, sem falar nos vazamentos seletivos, que privilegiavam os veículos da família Marinho.

Um desses vazamentos envolveu um grampo ilegal em conversa entre a presidente Dilma e o ex-presidente Lula.

Em qualquer país democrático do mundo, Moro, que autorizou a divulgação, iria para a cadeia. Aqui, continuou seu trabalho sob aplausos e sem que as críticas à sua atuação ilegal tivessem quaisquer consequências.

Moro parecia ter se transformado no próprio Judiciário brasileiro.

O clímax de sua atuação aconteceu quando do julgamento e da condenação de Lula, sem provas, num processo que, desde o início, se mostrou uma farsa.

Para essa condenação, ele se valeu de dezenas de delações premiadas e destruiu ou quase destruiu algumas das principais empresas brasileiras. A Petrobras perdeu bilhões e ainda foi alvo de estranhos processos nos Estados Unidos, a partir de informações confidenciais fornecidas pela própria Operação Lava Jato, um crime de lesa pátria.

Sob o argumento do combate à corrupção, o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, o físico que colocou o Brasil entre os poucos países que dominam a tecnologia nuclear, foi condenado pelo juiz Sérgio Moro a 43 anos de prisão.

Sob o argumento da corrupção, Moro destruiu também a indústria naval brasileira e as principais empreiteiras nacionais, a exemplo da Odebrecht, que já atuava em vários países da África, Ásia e América do Sul. Como consequência, o Brasil entrou em profunda crise econômica, com 14 milhões de desempregados e sem luz no final do túnel.

Em maio de 2013, pouco antes de eclodirem as manifestações no Brasil, o ex-administrador de sistemas da CIA e ex-contratado da NSA, Eduard Snowden, tornou públicos detalhes de vários programas que constituem o sistema de vigilância global dos Estados Unidos.

Programas que, sob o argumento de estarem monitorando o terrorismo, possibilitavam aos Estados Unidos vigiar ilegalmente governos de países como o Brasil, a França, a Alemanha e o Japão.

Na época, as revelações de Snowden, divulgadas pelos jornais The Guardian e The Washington Post, provocaram um terremoto político no mundo. Barak Obama, então presidente dos Estados Unidos, fingiu de morto.

No Brasil, essas revelações tiveram impacto reduzido, mesmo que entre elas constasse a denúncia, com provas, de que os Estados Unidos monitoraram a presidente Dilma e a elaboração dos editais para os leilões do pré-sal.

Um indício, não devidamente levado em conta pelo PT e pela centro-esquerda, de que setores nacionais, inclusive a mídia, já se articulavam com os Estados Unidos contra Dilma.

LAWFARE CONTRA LULA

Quem divulgou as denúncias de Snowden para o mundo foi o jornalista estadunidense Glenn Greenwald, que, já naquela época, passou a assombrar os adeptos da guerra híbrida.

Esse assombro voltou à cena outra vez, agora com a divulgação, pelo mesmo Greenwald através do portal The Intercept Brasil, de um amplo material (mensagens eletrônicas trocadas através do aplicativo Telegram) que mostram como Moro agiu para condenar Lula.

O material já divulgado, que segundo Greenwald não representa nem um milésimo do total de que dispõe, é explosivo. Apresenta Moro combinando ações com a acusação de Lula e orientando a acusação.

Põe a nu o que a defesa de Lula denunciava: o ex-presidente foi alvo de lawfare, ou seja, o emprego de manobras jurídico-legais como substituto de força armada, visando tirá-lo da cena política.

É importante destacar que, na guerra híbrida, o Judiciário assume o papel antes conferido aos militares e às armas no combate aos adversários. Não por acaso os integrantes da Lava Jato visitavam com frequência os Estados Unidos e fizeram tantos cursos por lá.

Greenwald escancarou para o mundo que por trás da condenação e prisão de Lula estão ações da guerra híbrida.

Em qualquer país democrático, Moro seria obrigado a deixar o cargo de ministro da Justiça e responderia a processo que, certamente, o levaria à prisão. Lula seria solto e teria novo julgamento e as eleições de 2018, anuladas.

Só que no Brasil da guerra híbrida, os golpistas, com o apoio dos chefes militares encastelados no governo Bolsonaro, e dos Estados Unidos, insistem em se manter no poder e tentam fingir que tudo segue na normalidade.

Para tanto, dão murro na mesa, como fez o general Augusto Heleno, ministro do gabinete de Segurança Institucional, ao defender prisão perpétua para Lula, ou como o próprio Bolsonaro ao afirmar que Moro tem “100% de chances” de permanecer no cargo.

Em um mês, no entanto, a oposição realizou três grandes manifestações – 15 de maio, 30 de maio e a greve geral de 14 de junho – com os cidadãos voltando a ocupar praças e vias públicas no Brasil, agora, contra o governo Bolsonaro.

Essas manifestações, que devem se intensificar em função das denúncias do The Intercept Brasil e do ataque aos direitos e à soberania nacional promovidos pelo governo Bolsonaro, não constavam do script da guerra híbrida.

Os próximos meses prometem muitas emoções. Afinal, como diria Snowden e o próprio Greenwald, aqui se trava uma disputa vital para a nossa sobrevivência enquanto país e nação soberana.

Gaspari diz que agressão de Bolsonaro aos argentinos foi assombrosa

247 – O jornalista Elio Gaspari ficou indignado com a agressão de Jair Bolsonaro ao povo argentino, dois dias atrás. "A declaração de J...