domingo, 14 de outubro de 2018

A democracia ameaçada

Por Olívia de Cássia Cerqueira

Já passa de meio dia; o sol está tinindo, como a gente diz no interior do Nordeste. Descanso do almoço na varanda de casa; livro no colo me aguarda a leitura, que está atrasada e lenta; Com a idade vamos ficando com mais vagareza nas ações.
Malala e Juca, meus pets, se aproximam para me fazerem companhia.

E me ponho a pensar nos dias de Intranquilidade que estamos vivendo no país, às vésperas do segundo turno das eleições para presidente.
Vejo o avanço desse atraso com preocupação para todos nós em que duas propostas estão em jogo. Precisamos livrar o Brasil da incitação ao ódio, à intolerância e do retrocesso, que são as perspectivas do projeto do candidato do atraso, votando em um candidato que defende a educação, economia, de paz e por um país melhor.

A democracia no Brasil está ameaçada, com um candidato da direita que defende o espancamento de pessoas, o militarismo e atraso de ações ao invés de lançar propostas construtivas. Mulheres, negros e homossexuais estão em pânico quando se vêm ameaçados com o aumento dos ataques de violência pelo país.

Os seguidores do tal candidato se vêm incitados a cometerem o barbarismo, espancando pessoas, matando, espalhando notícias falsas atingindo a moral do candidato do PT nas redes sociais.

O inominável é o que tem de pior para os direitos humanos, para quem defende um mundo melhor e mais justo. Estamos numa democracia, que mesmo torta, é sempre melhor que regimes ditatoriais.

A internet se tornou um campo de guerra, em que amizades foram desfeitas ou abaladas; rigas entre famílias, amigos e parentes. Vivemos momentos de tensão e de terror disseminado abertamente nas redes sociais, de segundo em segundo.

A democracia precisa ser preservada; a Constituição de 88, chamada de cidadã precisa ser cuidada, respeitada e preservada. Os programas sociais do Governo Lula que beneficiaram milhares de pessoas estão em perigo e precisam ter continuidade.

Precisamos lutar pelo fortalecimento da frente democrática nesse segundo turno, com partidos e pessoas democratas, capaz de resistirem, para impedir o avanço do nefasto.

Já está mais do que na hora de as pessoas esquecerem o ódio a um partido e pensaram mais no país. Sou defensora dos direitos humanos e sempre me colocarei ao lado de quem os defende, combate as desigualdades e quer o melhor para o futuro do Brasil.

Não podemos ser neutros nesse momento em que o país corre o risco de mergulhar nas trevas e retroceder à colônia. Peço a todos os amigos e conhecidos que estão em dúvida em quem votar, que repensem sua decisão e que não deixem de votar no segundo turno; não fiquem neutros nesse momento, porque só favorece ao outro candidato; o do retrocesso.

Esqueçam o ódio ao PT. Não é mais a eleição de partidos; agora são as ideias e projetos em jogo. Vamos resgatar o Brasil. Peço o seu voto para o candidato Fernando Hadadd e sua vice, a jornalista Manuela D´Avila, para construirmos e resgatarmos o País das garras desse governo que aí está e que representa o candidato do atraso. A democracia está em jogo. Reflitam. Boa tarde.

sábado, 13 de outubro de 2018

Os desentendimentos de sempre

Por Olívia de Cássia Cerqueira

A divergência de opinião existem desde que vamos formando nosso caráter e tendo opiniões próprias. Dizem os estudiosos que o exercício do diálogo abre espaço para divergência de opiniões e leituras de mundo. E é assim que deve ser.

Segundo o site Congresso em Foco, “a grande polarização política nacional que leva pessoas a brigarem em grupos de WhatsApp, a desfazerem amizade no Facebook e que divide o Brasil há dois anos não é uma questão só local. Opinião política diferente é onde há mais tensão em países do mundo todo, segundo pesquisa da Ipsos realizada em 27 países, incluindo o Brasil”.

Ainda segundo o mesmo site, ao todo, foram ouvidas cerca de 20 mil pessoas. Pelo menos 44% dos entrevistados escolheram esse tema como um dos motivos causadores de conflitos entre familiares e amigos.

Em seguida, 36% das pessoas ouvidas no trabalho apontaram as diferenças entre ricos e pobres e outros 30% apontaram questões relativas a conflitos entre imigrantes e a população nativa de cada país.

Ainda muito miúda acompanhava meu pai aos comícios da oposição no começo dos anos 1970, em plena ditadura militar, quando existiam apenas dois partidos: a extrema direita representada pela Arena e as forças da oposição concentradas do antigo MDB, partido do saudoso Ulysses Guimarães.

A ditadura militar foi um período que se estendeu no país por 20 anos, quando pessoas foram mortas e torturadas por pensarem diferente e quererem um país melhor. Fico sem norte quando vejo pessoas esclarecidas defendendo o que tem de pior no Brasil e no mundo.

Embora meu pai fosse muito temeroso e não quisesse nos ver na rua, por conta da repressão política, ele era fanático por política e eleitor número 1 do nosso primo Afrânio Vergetti, porque ele acreditava nas suas idéias e tinha admiração pelo primo.

E assim me criei vendo desavenças entre vizinhos, que não eram simples desentendimentos de ideias. Chegou a haver mortes ao longo dos anos em União, por conta de brigas entre os simpatizantes do dois candidatos, assim como acontece nos dias de hoje, sendo que o ódio de hoje é bem maior. A intolerância é uma epidemia.

Qualquer semelhança com o momento atual, que está mais agravado, não é mera coincidência. Política e eleições eram eventos que o meu pai se entusiasmava e quando ainda andava ia de noite para o viaduto, reduto dos homens em União, para saber as novidades da conjuntura, pois naquela época os meios de informação eram escassos e tecnologia nem se sonhava ter.

Eu não entendia tudo aquilo, mas gostava de acompanhar papai aos comícios. O material de propaganda usado naquela época era muito primitivo: eram pequenas bandeirinhas com o nome e uma foto que pareciam xilogravura colados num palito parecido com os de churrasquinho.

Parecidos também com as bandeirolas distribuídas nas procissões do interior ou faixas mal feitas de murim, tecido usado pelas costureiras para forrar peças de roupas das suas freguesas. Além desse material, uma foto no mesmo estilo do candidato, distribuído aos eleitores.

Os candidatos da oposição, que eu e meu pai acompanhávamos, ficavam num palanque improvisado na carroceria de um caminhão, com um microfone que nem sempre funcionava. E ali Francisco Pimentesl, Moura Rocha, Mendonça Neto, José Costa, Marcos Freire, Afrânio Vergetti de Siqueira e correligionários davam o recado. Íamos também na boleia dos caminhões aos comicios no povoado Timbó.

Naquela época as forças de oposição se concentravam numa grande frente no antigo MDB, que aglomerava pessoas de vanguarda daquela época. Faziam discursos inflamados contra aquele momento de vergonha que o país passava.

E eu, com meus dez anos me emocionava, junto ao meu pai, sem entender aquele palavreado que já me tocava de alguma forma, me deixando fascinada. Mas também naquela época como nos dias atuais havia muita br4iga entre vizinhos e familiares tanto da Arena, que representava a extrema direita, quanto do MDB, da oposição.

Presenciei naquela época desavenças até dentro da igreja, quando pessoas desmaiavam e tinham crises estranhas, intrigas de vizinhos e amigos, partidários de Afrânio ou de Mano. Não pensem os leitores que a briga de idéias ou de preferências partidárias seja de agora, mesmo que o contexto fosse diferente.

Quando comecei a votar, sempre o fiz na oposição, aqueles que na minha visão de jovem pensavam no coletivo e nos menos favorecidos. Já na faculdade, nos primeiros dias, fui logo me engajando aos companheiros do movimento estudantil e ainda na época da ditadura, eu e minha amiga Ozana Pinto fazíamos campanha para o candidato José Costa, quando fomos impedidas pelos amigos do seu pai, o empresário Lula Pinto.

Estive nas ruas pelas Diretas-já, em quase todos os momentos. Fui à rua pedir o Fora Collor e sempre me engajei nas lutas sociais e por um mundo melhor e um país mais justo. Tem sido assim desde sempre, mesmo que agora a saúde não me permita mais estar nas ruas.

Continuarei a lutar, até que seja impedida fisicamente e chamada à casa do Pai, sem medo de ser feliz. Minha militância agora se dá nas redes sociais, onde tenho feito minha campanha para meu candidato, sem invadir página de ninguém.

Independente de qualquer resultado que tenha essa eleição, continuarei a lutar pelos meus ideais. Vejo nos dias de hoje um total retrocesso total de ideias, político e social, depois termos tido grandes conquistas no governo Lula.

As perspectivas do momento não são as melhores, se esse candidato da direita vier a assumir a presidência. Precisamos ficar atentos e continuar a nossa militância nesse segundo turno. Bom dia.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Sentindo-me agradecida...

Olívia de Cássia Cerqueira

Sento-me diante da tela do computador, abrindo a página em branco do editor de texto e pensando nas possibilidades do que eu possa expressar agora, depois da expectativa de ter publicado Mosaicos do Tempo.

Dessa forma, resolvo fazer uma compilação de textos que escrevi e publiquei no blog, sem nenhuma pretensão maior, a não ser a possibilidade de um dia, talvez, voltar a publicar esses escritos, para colocar o cérebro em atividade e não perder as minhas esperanças diante das minhas já acentuadas limitações, por conta do Doença de Machado Joseph.

Finalizei Mosaicos, em 2004, com a morte de mamãe e a minha separação, que aconteceu em setembro de 2003 e me deixou sem norte, me levando a uma terapia com psiquiatra e a partir daí surge a idéia de escrever o livro.

Parece que a iniciativa de escrever com mais frequência sempre se dá quando algo me impulsiona e me afeta de alguma forma. Posso dizer que quase cheguei ao fundo do poço, embora a pessoa em questão não merecesse o meu sofrimento e a minha dor. Mas tudo bem, me serviu de lição e amadurecimento.

Embora à época eu tivesse cheia de conceitos feministas e filosóficos, me deixei levar àquele tempo, por um sentimento de baixa autoestima e desamor a mim, que me perseguia desde a infância. Felizmente, passados todos esses anos, sobrevivi a tudo aquilo e posso dizer que hoje eu sou uma vencedora, que sou feliz, apesar do meu problema de saúde que já me limita de realizar algumas tarefas, às vezes as mais banais.

Atualmente envolvida nas questões políticas, na conjuntura que o Brasil vive, com minhas leituras, meus pets, fotografia e agora com a divulgação e venda de Mosaicos do Tempo, posso dizer que só me falta ter condições de viajar com mais frequência , para ser uma pessoa realizada.

Reafirmo todos os dias a minha gratidão às pessoas, amigos, conhecidos e anônimos, que se dispuseram a contribuir com esse momento que estou vivendo. Agradecer a Deus por ainda me dá discernimento e coragem para lutar por um mundo melhor, por uma país mais justo e contra todo tipo de preconceito, contra quem quer que seja. Viva a liberdade, viva a democracia.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Nunca deixe de sonhar...

Por Olívia de Cássia



As explicações desse texto vêm a público devido a uma necessidade que surgiu depois publicação de Mosaicos do Tempo, escrito em 2004, mas lançado pela primeira vez em 3 de agosto de 2818, no Museu da Imagem e do Som (Misa), no bairro de Jaraguá, em Maceió.

Algumas pessoas sentiram falta e me pediram para que eu escrevesse outro livro, em outra oportunidade, mais impressões pessoais a respeito do que é conviver com a Doença de Machado Joseph. Pois bem, aí vão alguns tópicos que descreverei aqui novamente, embora já o tenha dito aqui no blog, logo quando fui percebendo os sintomas da doença:

Convivendo com ataxia

Volto a interagir com o leitor para falar de mim, do que se passa na minha cabecinha inquieta e de como estou vivendo. Queria dizer que não estou passando um momento maravilhoso na vida, mas que estou tentando dar um novo significado a ela. Conviver com ataxia não é fácil e só quem está passando por isso sabe o que digo. Ataxia é uma doença rara e hereditária, de fundo neurológico, causada por genes defeituosos que são transmitidos, pelo pai ou mãe portador da doença, para seus descendentes, de geração à geração.

Dizer que os primeiros sintomas são dificuldades com equilíbrio e coordenação, depois com a fala e deglutição, e, finalmente, problemas respiratórios, já são do conhecimento de algumas pessoas. Já fui aconselhada a procurar um fonoaudiólogo, pois minha fala começa a ficar atrapalhada.

Os portadores desse problema tornam-se incapacitados, aos poucos, e vão precisar da ajuda de outras pessoas. Enquanto o cérebro trabalha na velocidade normal, o corpo responde em câmara lenta. Ninguém conhece ainda a causa básica da doença, que não tem cura. Por isso mesmo sabemos que vamos precisar de apoio e solidariedade, sem pieguice, de todos. E confesso que tenho encontrado muita gente solidária e muitos amigos que têm me ajudado a seguir na minha luta, para que eu não desande de vez. Estou procurando viver o que me resta de maneira leve, embora muitos portadores da doença se tornem revoltados e chegam a cometer suicídio.

Nasci e me criei na cidade de União dos Palmares ouvindo histórias de uma doença que afetava a família e da qual ninguém sabia o nome e só se referia à tal como a doença da família ou a maldição dela. Cresci tendo informações de tios e primos e depois meu pai que foram acometidos pela Ataxia; comecei a perceber que eu tinha alguns jeitos e sintomas dos portadores da doença.

No caso do meu pai, seus irmãos de pai e mãe tiveram a doença e já conheci alguns andando de bengala ou inválidos. Meu pai viveu 14 anos inválido também. Bem no começo dessa história fui dando como certa a possibilidade de alguma pessoa lá de casa vir a ter a ataxia. Nesse ínterim, meu irmão do meio, Petrônio José, já falecido, foi apresentando acentuadamente os sintomas, até que deixou de trabalhar, se aposentou, se tornou cadeirante e veio a falecer, depois de uma convulsão provocada pelo engasgo agudo (um dos sintomas da ataxia) e depois do internamento por um mês e os sintomas se agravarem, faleceu.

Alguns parentes próximos tiveram fins trágicos e outros tiveram a sorte de ser acompanhados pelos familiares até o fim, como no caso do meu pai e meu irmão. Comecei a sentir os sintomas nem sei mais dizer quando foi e fui associando ao que meu pai viveu. Tive uma crise muito forte na minha separação e os sintomas se agravara, mas de acordo com a medicina, não foi o motivo, apenas a gota d’água, nesse oceano de mágoas.

Sei e tenho consciência das limitações mais acentuadas que terei daqui por diante. Não é fácil sair de casa sem companhia, não ando mais de ônibus. Cada dia o transporte tem que ser o táxi e isso tudo encarece. O tratamento é paliativo, mas continuo na fisioterapia. Muitos médicos ainda não conhecem essa doença até às vezes nos descontrolamos quando começamos a fazer relatos e os médicos não conhecem ou dão outro diagnóstico. Mas só vim ter a comprovação médica, por meio do mapeamento genético, em 2017, que com ajuda dos amigos consegui fazer, depois que promoveram algumas ações solidárias.

Quando comecei a apresentar marcha cambaleante, desejava que as pessoas soubessem que não estava bêbada, nem drogada (mesmo eu gostando de beber socialmente). Eu quero comandar os membros superiores ou inferiores, mas as pernas, principalmente, já não obedecem à mensagem. Ando atrapalhada e toda tropa, como a gente diz na família.

Estou procurando seguir os exemplos que seu João me deu e não vou decepcioná-lo. Eu não me furto a falar do meu problema, não tem motivo. Eu não tenho culpa de ter herdado esse problema. Por qual motivo eu vou ter vergonha disso? Herdei e tenho que conviver com as limitações que vão surgindo e tentar sobreviver até quando Deus permitir.

Dá para perceber que já não dá para acompanhar os amigos para alguns programas, mas hoje em dia já não sofro mais com isso e procuro me adaptar a outro tipo de diversão e possibilidades. Estou tentando ser positiva e encaminhar sempre uma mensagem de amor e paz, embora possa parecer pieguice. Não é fácil e não posso dizer que estou vivendo meus melhores dias, mas que ainda é possível acreditar em um mundo melhor, embora cada dia fique mais difícil.

Nova fase da vida...

Inaugurei uma nova fase da minha vida que não esperava chegar, mas a gente tem que agradecer a Deus por tudo, mesmo se sentindo um pouco triste. A partir de abril de 2016 entrei de benefício e me afastei do batente. Ser portadora de Ataxia do tipo SCA3, Doença de Machado Joseph, não é fácil. Muita gente dizia que era impressão minha, que eu não tinha nada, mas pelos meus sintomas e acompanhamento do quadro do meu irmão, dava para notar que eu teria a mesma coisa, pelo meu desequilíbrio, quedas, engasgos, visão dupla e outros sintomas.

Cada dia vou encontrando um obstáculo a ser superado a nos moldar a ele. Estou tentando viver com suavidade, desde que percebi o agravamento de meus sintomas. Não adianta ficar reclamando, reclamando, se não vou melhorar com isso; muito pelo contrário: o psicológico nesses casos ajuda muito ou pode atrapalhar, se não tiver disposta a ter tolerância diante das limitações que vão surgindo.

Aos amigos que me ajudaram a conseguir fazer o exame de mapeamento genético, que comprovou o problema, eu só tenho a agradecer, pois se não fosse por eles, eu não teria conseguido; muito menos teria iniciado o tratamento. Não vou citar nomes para não correr o risco de esquecer alguém, mas sou eternamente agradecida pela ajuda e solidariedade de todos. Muito grata mesmo; não me canso de agradecer; minha gratidão será eterna e todos os dias peço a Deus proteção para todos. Passei por vários médicos: psiquiatras e neurologistas, mas durante um tempo me recusei a procurar outros, ao longo do caminho pelo desestímulo que eu encontrava; pelos exames muito caros que eram solicitados e eu não tinha condições de arcar.

Um dos médicos que eu fui me pediu um eletroencefalograma e com o resultado diagnosticou que eu tivesse Esclerose Múltipla e eu discordei do diagnóstico dele informando os casos de ataxia hereditária na minha família. Mesmo assim, chegando em casa neste dia chamei os amigos, as sobrinhas para comemorar a notícia. Avaliei e acredito que não teria que chorar diante de uma notícia dessa.

Outra profissional, que também não citarei o nome, quando eu pedi um remédio ou uma vitamina para os sintomas que tenho ela foi bastante indelicada e jogou na minha cara que a minha doença não tem cura que não adiantava passar nenhum remédio e que eu sabia disso.

Sim, eu sei, é verdade, que a ataxia não tem cura porque o problema é uma mutação genética, afeta o cerebelo, que é responsável pelo tônus muscular e por isso vai afetando nossos membros superiores e inferiores. É muito complicado tudo isso. A gente sabe que ainda não foi encontrada a cura para a ataxia, mas existem tratamentos paliativos como a fisioterapia e medicações para alguns sintomas que vão surgindo e afetando algum movimento do corpo.

Li outro dia que cientistas estão testando um gene mutante da ataxia em peixes zebra e que a cura pode ser descoberta daqui a 15 anos. Há 15 anos, também, um cientista português estava estudando um gene da mosca, na esperança de encontrar a cura para DMJ. Os estudos ainda são muito raros, devido à doença também ser rara e ter 50% de chance de acometer um filho de um atáxico.

O psiquiatra que me diagnosticou com Esclerose Múltipla me fez um alerta: ‘dona Olívia, vá vier a sua vida; seu problema é muito sério e desista de adotar essa criança que a senhora está querendo. E lá se vão mais de dez anos, desde aquele dia. Se eu tivesse adotado Maria Clara, talvez ela tivesse aqui correndo solta na rua, sendo obediente ou rebelde, como eu sempre fui, estudando, se dedicando às artes, ou não.

São pensamentos que vão aflorando agora. Detalhes dessa minha nova vida que eu quis compartilhar com os meus leitores, em tempos de tanto desamor, desafeto, intolerância e falta de carinho. Dizer que vocês aproveitem a vida muito mais, porque eu gostaria de ter muito mais saúde para me dedicar à arte, à cultura e à vida.

Sem explicação

A gente já sabe o que vai ouvir do médico, tem a certeza e consciência do problema, mas quando escuta a informação, dá uma tristeza danada, pode acreditar, não é auto-piedade. Fui atendida por uma neurologista e ela, além de lembrar e destacar todos os inconvenientes da ataxia, me confirmou que ainda não tem remédio, depois de eu fazer um relato do que é conviver com o problema e dizer que tenho pesquisado sobre a doença.

Em 2005 eu escrevi meu primeiro texto sobre a ataxia e o que é conviver com ela. O texto foi uma solicitação de Priscila Fonseca, presidente da Associação Brasileira dos Portadores das Ataxias Hereditárias e Adquiridas, para fazer parte de um livro sobre os portadores do problema e seus familiares.

Naquela época, meu problema ainda não tinha se agravado e os sintomas eram leves: foi logo após eu ter uma crise emocional, provocada pela minha separação, que me levou à depressão. Muita gente na minha idade, inclusive vários parentes meus, já não consegue se locomover sem a ajuda de um andador ou de uma cadeira de rodas, devido aos tombos e quedas que são frequentes.

Ultimamente já sinto os sintomas se agravarem, mas não faço mais disso um cavalo de batalha. Logo que me certifiquei ser portadora de DMJ (Doença de Machado Joseph) eu fiquei entristecida, embora já desconfiasse por ter acompanhado meu pai e meu irmão e muitos dos meus parentes.

Não sou hipócrita ao ponto de dizer que esse problema não me afeta, porque não estaria sendo verdadeira, pois as limitações que se apresentam em meu corpo já não me permitem alguns movimentos mais ousados. Mas hoje em dia encaro a vida de forma diferente e sigo aquela máxima de tentar aproveitar, na medida do possível, ainda, o que eu puder, pois não sei por quanto tempo ainda vou poder fazê-lo.

Se esse momento fosse em outras épocas eu estaria agora em prantos, desdizendo do mundo e da minha sorte, mas tenho que agradecer a Deus por ainda poder caminhar, embora que de forma cambaleante e poder ver o sol.

Nunca deixe de sonhar


Peço a Deus em pensamentos que me dê fé e forças, qualidade de vida e retardamento dos efeitos da ataxia. Sou muito cética diante da vida e já não acredito em ilusões. Hoje em dia perdi um pouco a capacidade de sonhar aqueles sonhos que sonhava na juventude.

Não sou muito de rezar como meu pai fazia sempre e depois também a minha mãe, mas tem dias que parece ser mais difícil a labuta. De repente a gente se vê de pés e mãos atadas diante de uma situação mais prática. "Sem lenço de sem documento", como disse Caetano.

A Doença de Machado Joseph é uma ataxia hereditária dominante e degenerativa, transmitida em 50% dos casos dos portadores, e que conduz o paciente por uma crescente incapacidade motora, sem alterar o intelecto, culminando com sua morte. Tento não pensar que esse dia está chegando mais rápido.

A característica genética de cada um faz com que os tratamentos sejam praticamente individualizados. Segundo os especialistas, para garantir a qualidade de vida, sempre se trabalha a funcionalidade e continuidade do movimento, de preferência com uma equipe multidisciplinar liderada pelo neurologista, que, no fim das contas, é quem dita a linha do tratamento.

Não é só o pessoal, é tudo junto e misturado que nos faz introspectivos a cada dia. Procuro me acercar de tudo o que tem de melhor, ser positiva, conviver com pessoas do bem e fazer boas leituras, participar de programações interessantes, mas até isso fica limitado, pela dificuldade da locomoção.

Queria ter mais recurso, já que agora tenho todo o tempo para ir às atividades culturais que sempre me ressenti de não poder participar antigamente. Ainda estou tentando me acostumar com a nova rotina. Mas de repente percebo que não é só uma questão de tempo. É muito mais que isso. Não quero ficar apática diante de tudo.

Quero continuar a ser uma pessoa pensante e consciente do que se passa à minha frente. As questões de saúde não podem me tornar uma pessoa isolada e sem questionamentos. Pelo contrário: quero não ter medo de ter medo e não ter medo mesmo.

Quanto mais eu tenho tempo, mas eu penso nas injustiças e na violência que se comete todos os dias contra os mais vulneráveis. O mundo está mais feio; as pessoas estão mais preconceituosas, intolerantes, estão regredindo e esquecendo de sonhar: só pensem no poder e no dinheiro.

Isso não quer dizer que eu seja tão pura ao ponto de querer viver franciscanamente, pois o dinheiro serve para suprir as necessidades básicas, para a diversão e para a cultura e isso para mim é o bastante, se eu pudesse ter. Mas não quero viver na neurose de querer ter tudo.

Vejo gente jovem que não sonha mais, não tem aquele brilho nos olhos que nos tornava exóticos e interessantes na mocidade e isso me deixa um tanto quanto pensativa. O que será dessas pessoas que não têm sonhos e ideais? Para refletirmos hoje. Boa tarde.

A democracia ameaçada

Por Olívia de Cássia Cerqueira Já passa de meio dia; o sol está tinindo, como a gente diz no interior do Nordeste. Descanso do almoço na v...