domingo, 30 de novembro de 2014

Estresse ocupacional final de ano pode gerar problemas de saúde

Estudo indica que 70% dos trabalhadores vivem no limite

Olívia de Cássia – Repórter

 O estresse ocupacional é assunto sério e pode acarretar problemas  de saúde ao trabalhador, como falta de produtividade; custos para as empresas e impactos na sociedade. Dados recentes de um estudo indicam que 70% dos trabalhadores brasileiros tendem a ficar mais estressados no final do ano. 

O motivo desse resultado são as temidas metas e balanços do fim de ano das empresas e esse é o período de avaliar o que está faltando para bater as metas e correr atrás para fechar o ano positivamente.

Pesquisas apontam que pessoas submetidas a longas jornadas estressantes de trabalho tendem a ter problemas comportamentais graves.  No final do ano, devido a essas atividades que têm que cumprir, com ultimatos para balanços e tarefas indispensáveis, esse processo é mais acelerado.

Os bancários são a categoria que mais sofre com jornadas extenuantes de trabalho, principalmente no cumprimento das metas de fim de ano. Segundo José Marconde, diretor de Saúde do Sindicato dos Bancários, os trabalhadores dos bancos necessitam de condições de trabalho que de fato possibilitem a proteção e a promoção à saúde.

“Só para citar um exemplo, em 2013, o INSS registrou 18.671 bancários doentes, afastados do trabalho. Do total de auxílio-doença acidentário, 52.7% são devido a  transtornos mentais e do sistema nervoso. Entende-se que há uma subnotificação, pois muitos bancários trabalham doentes, à base do consumo de medicação tarja preta”, reclama.

Segundo o diretor do Sindbancarios, os trabalhadores nas empresas financeiras, principalmente devido a pressão para o cumprimento de metas inatingíveis, aumento descabido de produtividade e assédios moral, as doenças relacionadas ao sofrimento mental já superam as doenças do sistema musculoesquelético (casos de Lesões por Esforços Repetitivos/Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho - LER/DORT).

“No Brasil, os bancários estão dentre as categorias mais acometidas por doenças e acidentes do trabalho como fruto do modelo de gestão adotado pelos bancos. Esse modelo de gestão está diretamente ligado à selvageria pela busca por lucros cada vez maiores e exorbitantes”, disse.

José Marconde argumenta que com o aumento das demandas de fim de ano, o problema se agrava ainda mais. “O bancário pede socorro. A falta de condições necessárias para o bom desenvolvimento do trabalho nas agências e unidades bancárias gera transtornos e adoecimento e sobra assédio moral, com imposição de metas inatingíveis e ameaças de descomissionamento”, explica.

Segundo o diretor do Sindicato dos Bancários, os problemas enfrentados pela categoria vão desde agência faltando empregados e os trabalhadores lotados sendo sobrecarregados; filas enormes e clientes aviltados e impacientes. “O resultado são empregados estressados e vítimas de doenças físicas e psicológicas”, pontua.

O diretor afirma ainda que a redução dos postos de trabalho; o ritmo intenso, desgastante e penoso da carga de trabalho; a cobrança massacrante por metas inatingíveis; as más condições de trabalho (física, ergonômica, organizacional, outras); a falta de valorização da categoria bancária, inclusive com remuneração que faça jus ao lucro que produz; o assédio moral e demais violências físicas e psíquicas estão  entre os fatores estressantes e de adoecimento na categoria.

José Marconde alerta que é preciso assegurar melhores condições de trabalho e a valorização da categoria. Segundo o diretor, há leis e conceitos de ética e de direitos humanos que devem ser respeitado, como o cumprimento das convenções da Organização Internacional do Trabalho.

“Essas convenções foram homologadas pelo Brasil, as quais determinam a participação dos trabalhadores nos assuntos relacionados às condições de trabalho, à organização livre dos trabalhadores nos locais de trabalho, à autonomia necessária dos serviços de saúde das empresas, dentre vários temas”, observa.

Para José Marconde, é preciso que  acordos e leis sejam cumpridos e não estão. “Por exemplo, o banco discutir as metas, a organização do trabalho, a prevenção de doenças, a reabilitação ocupacional, a promoção de saúde, conjuntamente com os trabalhadores e sua representação sindical”, destaca.

POLICIAIS

Segundo o presidente do Sindicato dos Policiais (Sindipol\AL), Josimar Melo, doenças adquiridas por conta do trabalho como dependência química, alcoolismo, depressão, diabetes, hipertensão e outros problemas psíquicos são comuns na categoria policial.

“Normalmente o policial não consegue relaxar; a adrenalina sobe e ele não consegue chegar logo ao estado normal, depois de uma ocorrência policial, leva tempo e muitas vezes faz uso de calmantes para aguentar a pressão do dia a dia, adquirindo problemas ocupacionais às vezes irreversíveis”, observa.

Segundo o presidente do Sindpol, o Estado não oferece o tratamento adequando quando o profissional da segurança precisa e uma das reivindicações da entidade é que o Estado tenha acompanhamento psicossocial para atender os policiais. “A maioria dos que conseguem se aposentar é por problemas graves de saúde”, destaca.

Psicóloga alerta que empresas precisam estar atentas à saúde dos funcionários

Arquivo particular
“As empresas, hoje, precisam estar atentas à saúde dos seus funcionários e oferecer condições para que o estresse não tome conta da sua vida pessoal e profissional”, comenta a psicóloga Rose Mendonça, com formação em Psicologia e Psicoterapia humanista-Gestalt terapia.

Segundo ela, por meio de programas de antiestresse é possível contemplar o incentivo à prática de atividades físicas, meditativas, exercícios de respiração e de relaxamento que de fato amenizam esse estresse. 

Rose Mendonça ressalta que, quando o trabalhador sentir sintomas de ansiedade, fadiga e cansaço por conta de excesso de trabalho, deve procurar um profissional capacitado, na empresa ou fora dela, para pedir orientação.

 “Para evitar tais problemas deve ser feita uma lista de atividades e o trabalhador deve organizar ao máximo seu ambiente de trabalho. Com essa organização evitará o desperdício de tempo, que gera a temida ansiedade e o desgaste próprio de cada atividade”, destaca.

Ela ressalta que sempre aconselha seus pacientes que digam não, quando necessário, colocando limites em situações difíceis de serem administradas; que mantenham o diálogo com colegas de trabalho promovendo um ambiente agradável; “respeite o horário de intervalo dando um pequeno descanso para sua mente e corpo; faça atividade física, que reduz o nível de tensão, previne a fadiga e o estresse”, ensina.

A psicóloga argumenta também que desorganização no ambiente ocupacional, falta de clareza nas regras, normas e nas tarefas que devem ser executadas contribuem para isso. A especialista explica que ambientes insalubres e falta de ferramentas adequadas também causam estresse.

 “Sensação de insegurança no emprego; de insuficiência profissional; pressão para comprovação de eficiência ou, até mesmo, a impressão continuada de estar cometendo erros profissionais”, são fatores atribuídos ao cansaço de fim de ano.

Outros fatores que podem causar mais estresse no final do ano para os trabalhadores  também são apontados pela psicóloga clínica Rose Mendonça como determinantes para essa fadiga mental: “Conflitos, frustrações e ou desavenças conjugais, falta de motivação, de projetos, ocupar a mesma função por muitos anos sem perspectivas de crescimento profissional, entre outros motivos”, pontua.

Com a globalização, o mercado cada vez mais competitivo e a era da informação, as empresas tem que produzir mais, dar mais retorno, com mais agilidade, mais inovações. A pressão é automaticamente passada para os trabalhadores. Começa então a espiral ascendente de desgaste, ônus para a saúde, custos humanos, empresariais e sociais.

Rose Mendonça avalia que é preciso que as empresas melhorem as condições físicas do trabalho com a adoção de ferramentas adequadas às pessoas: investir no aperfeiçoamento pessoal e profissional dos funcionários, oportunizando a realização de cursos profissionais e vivências socioeducativas.

Para a psicóloga clínica, é preciso que o trabalhador também adote algumas atitudes, para minimizar ou prevenir o estresse no ambiente de trabalho. Segundo Rose Mendonça, a manutenção de uma política de recursos humanos que valorize o desenvolvimento humano de maneira continuada é um excelente caminho, não apenas em relação ao estresse de final de ano.

Metas abusivas e desumanas são responsáveis pelo desgaste do trabalhador


Foto: Sandro Lima

O psicólogo do comportamento e professor de uma faculdade particular de Maceió Roberto Lopes Sales avalia que as metas voltadas para algumas profissões, muitas vezes são desumanas.  Segundo ele, além do desgaste natural de o trabalhador querer fazer um atendimento contínuo, em determinado horário, ele trabalha para cumprir, forçado, aquelas determinações.

“Eu venho de uma família de bancários e percebo que muitas vezes essas metas podem gerar até uma doença mental, em casos mais graves: problemas como afastamentos do trabalho, por conta de doenças adquiridas; Lesões por Esforços Repetitivos (LER\Dort); além de comportamentos desgastantes e depressão, são alguns dos problemas mais comuns que afetam os trabalhadores”, observa.

Segundo Roberto Sales, essas pessoas vivem no automático; voltadas para atingir aquelas metas e quando terminam, já têm que atingir outra. “Conheço pessoas que trabalham também no ramo imobiliário que vivem assim; às vezes tendo que produzir essas metas, que não são simples, mas abusivas, de ter que vender milhões”, destaca.

Na visão do psicólogo, alguns sérios problemas gerados no estresse adquirido, principalmente no final de ano, dificultam a qualidade de vida desses trabalhadores, principalmente no final do ano.

 “Existe uma exaustão, com relação ao trabalho árduo e contínuo que quando a pessoa chega em casa, só deseja dormir, relaxar e fugir daquele contexto e aí muitas vezes acontece grandes problemas familiares, sociais, o uso abusivo do álcool e das drogas, para que o indivíduo saia da realidade e viva uma condição de fantasia, agindo dessa forma para fugir de uma situação estressante e traumática”, pontua.

São várias as profissões elencadas como estressantes pelo Ministério da Saúde: bancários, médicos, policiais militares, enfermeiros e professores, entre outras profissões. No caso dos policiais, o psicólogo destaca que esses trabalhadores vivem o tempo inteiro com medo de morrer.

“Ele quer viver em favor dos outros, mas quando está sozinho tem que viver em momento de vigília e isso causa uma série de problemas nele, porque nunca está relaxado, em alguns casos gera comportamentos doentios”, pontua. 

sábado, 29 de novembro de 2014

Em clima de final de ano, capital alagoana se enfeita para o Natal


O maior símbolo do Natal é o nascimento do Menino Jesus, representado nas ornamentações pelo presépio


Igreja lembra que símbolo da data é o Menino Jesus e que o Papai Noel é apenas uma representação capitalista (fotos: Adailson Calheiros)


O / Tribuna Independente

A pouco menos de um mês para as comemorações do Natal, o clima natalino está nas ruas, nas praças, no comércio, na orla e nos shoppings da capital alagoana. Os maceioenses já estão se antecipando às compras e ornamentações de suas casas e lojas com vistas à festa que comemora o nascimento do Menino Jesus: ruas iluminadas, com ornamentações de Papai Noel, árvores de Natal e outras simbologias do mundo moderno.
ADVENTO
O padre Alex Sandro da Silva, da paróquia de Maragogi, alerta que a igreja entra neste sábado no período do advento: “O advento é o primeiro tempo do Ano litúrgico, que antecede o Natal. Para os cristãos, é um tempo de preparação e alegria, de expectativa, onde os fiéis, esperando o nascimento de Jesus Cristo, vivem o arrependimento e promovem a fraternidade e a Paz”, explica.
No calendário religioso católico, este tempo corresponde às quatro semanas que antecedem o Natal. “O tempo do Advento é tempo de esperança porque Cristo é a nossa esperança; esperança na renovação de todas as coisas, na libertação das nossas misérias, pecados, fraquezas, na vida eterna, esperança que nos forma na paciência diante das dificuldades e tribulações da vida, diante das perseguições”, disse o Padre.
É preciso questionar e aprofundar a vivência da pobreza, diz padre
O padre Alex Sandro observa que no Advento, é preciso que a gente questione e aprofunde a vivência da pobreza. “Não a pobreza econômica, mas principalmente aquela que leva a confiar, se abandonar e depender inteiramente de Deus e não dos bens terrenos”. Segundo o pároco, os cristãos precisam estar atentos à realidade que os cerca.
“A liturgia do Advento nos impulsiona a reviver alguns dos valores essenciais cristãos, como a alegria, a esperança, a pobreza, a conversão. Papai Noel é um símbolo capitalista e uma figura desvirtuada do Natal e a Igreja alerta os católicos para essa confusão”. Padre Alex Sandro Silva diz ainda que muita gente anda esquecendo o principal aniversariante do Natal, que é uma das principais festas litúrgicas da fé católica.
Padre Alex Sandro Silva diz que muita gente anda esquecendo o principal aniversariante do Natal, que é Jesus Cristo (Foto: Arquivo pessoal)
Segundo a Bíblia, o Anjo Gabriel apareceu a Maria numa visão, dizendo que em breve ela daria à luz a um menino, o filho de Deus que viria para trazer luz ao mundo.
‘Este domingo é o dia correto para iniciar ornamentação’, segundo a CNBB
Segundo o padre, não há uma data específica para se começar as ornamentações do Natal, mas a reportagem da Tribuna Independente pesquisou que há quem defenda o dia 30 de novembro. “Depende da solenidade”, explica.
A Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), destaca em site na internet, que muitos adultos se confundem sobre a data certa para montar a árvore de Natal, mas que o dia correto, segundo a instituição, é 30 de novembro.
Informações do site católico Só Notícias indicam que há também quem acredite que a montagem da árvore é um bom momento para ser dedicado à família e para a reflexão sobre o sentido do Natal.
“A dica é convidar as crianças para montar, tanto a árvore quanto o presépio; isso ajuda a fazer com que elas conheçam o sentido e a importância da data”, reforça João Batista Correia, formando em filosofia.
Segundo ele, hoje em dia, a árvore tem um papel mais social do que religioso, mas ao reunir as crianças para montá-la, os pais podem aproveitar para explicar o significado do Natal: o nascimento do menino Jesus.
Clima natalino: várias ruas da capital já estão ornamentadas com árvores de Natal e enfeites que simbolizam a data (Foto: Adailson Calheiros)
“Na minha casa, apesar do pouco tempo que tenho, pois viajo muito, procuro ter um tempo com minha mulher e filhos para esse momento; sei que isso não é muito comum, mas acredito que aproxima mais a gente dos filhos e reforça o espírito do Natal”, destaca.
HISTÓRICO
A árvore como símbolo do Natal nasceu no norte da Europa, quando, no inverno rigoroso da região, só o espruce, ou abeto, (da família do pinheiro e do carvalho) resistia verde.
As pessoas passaram a ligar a árvore que não sucumbia ao frio à esperança cristã e passaram a colocá-la dentro das casas, dando início ao costume.
A árvore de Natal deve ficar montada até o Dia de Reis, 6 de janeiro, porque foi nesse dia que os reis magos encontraram o menino Jesus.
Espírito de Natal é de sabedoria e entendimento, segundo religioso
O padre Inácio José do Vale lembra que o Espírito Santo do Natal é “um espírito de sabedoria e de entendimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de conhecimento e de temor do Senhor”. Segundo ele, é principalmente um espírito de justiça.
“Se nós temos o verdadeiro espírito do Natal, deveremos partilhá-lo com pobres e aflitos, e seremos julgados com justiça (Is 11,4). Se tivermos o espírito do Natal verdadeiro, estamos levando as pessoas a Cristo, que, então, dará a essas pessoas o seu coração para os pobres e sofredores”, argumenta.
Segundo o padre Inácio José, o verdadeiro espírito do Natal é o Espírito Santo, “que nos leva a depender totalmente de Jesus Cristo e a fazer justiça aos pobres e oprimidos. O verdadeiro espírito do Natal é o de Jesus, Maria e José, na manjedoura de Belém e em nossos corações”, ensina.
O religioso acrescenta que: “Viver o espírito do Natal é viver uma vida de avivamento nas chamas ardentes do Espírito Santo. É colocar a vida para virtudes dos dons e frutos do Espírito Santo. É ser cheio do Espírito Santo para proclamar Jesus Cristo como Senhor e o único Salvador da humanidade”, reforça.
“Natal é a festa do maior e mais belo aniversário que existe na face da terra, cujo aniversariante é o Salvador do mundo. Seu nascimento mudou a história da humanidade e continua mudando a vida de muita gente no mundo inteiro. Jesus Cristo é o presente de Deus que continua presente entre nós. Natal é a verdade que nos liberta de tudo que é falso e efêmero”, finaliza.


Em 25 de novembro...

Olívia de Cássia – jornalista

Em 25 de novembro comemorou-se o Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher, instituído no Primeiro Encontro Feminista da América Latina e Caribe realizado na cidade de Bogotá em 1981, para homenagear Minerva, Pátria e Maria Tereza, heroínas da República Dominicana, brutalmente assassinadas em 25 de novembro de 1960.
Em todo o mundo nessa data ocorreram eventos pelo fim da violência contra mulher. No Brasil, foi um momento de reafirmação da Lei Maria da Penha e a reivindicação de todas as políticas públicas que visem o fim da violência.
Foi mais um dia para a gente pensar e refletir em como ainda falta muito para que tenhamos  um mundo melhor e de afetividade, sem preconceitos, sem extremismos em que a mulher ocupe o lugar que lhe é de direito.
A luta feminina pela igualdade de condições vem desde o início dos séculos e precisamos acabar com a violência de gênero, ainda imposta na sociedade. A violência doméstica ainda é um entrave na vida de muitas companheiras que as impede de ser  feliz. É preciso acabar com todas as formas de opressão.
A mulher ocupa hoje espaços de decisão e poder, cargos e profissões diversas, em patamares iguais aos homens, mas infelizmente ainda recebe salários bem abaixo e isso tem que ser reparado.  
O Brasil foi um dos últimos países da América do Sul a ter uma legislação específica para prevenir e combater a violência doméstica e familiar, mas possui uma das três melhores leis do mundo no enfrentamento à violência contra a mulher, segundo avaliação da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2008.
Mesmo com esses avanços conseguido nos últimos anos, ainda falta muito para que se conquiste o bem-estar ideal para todas as mulheres, principalmente porque a opressão, a discriminação e a falta de sensibilidade ainda persistem, apesar de já estarmos no século XXI.
A globalização da violência eleva a problemática ao status de preocupação internacional, refletido em importantes documentos como a Convenção sobre a eliminação de todas as formas de discriminação contra a mulher e a Convenção interamericana para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher.
No Brasil, de acordo com pesquisa realizada pelo DataSenado em 2011, ciúmes e alcoolismo ainda assumem a liderança das maiores causas das agressões em âmbito doméstico, assim como o medo continua sendo a principal razão para a não efetivação do registro da ocorrência, seguido pela preocupação com a criação dos filhos, pela vergonha da violência sofrida, por achar que foi a última vez, e, por ultimo, pela dependência financeira.
Recentemente, os movimentos sociais foram surpreendidos com as denúncias envolvendo a Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) de violação dos direito humanos e que trouxeram à tona questões essenciais para que um número bem mais amplo de mulheres tenha garantido seu direito a uma vida sem violência.
O caso ganhou repercussão nas redes sociais e virou pauta de uma reunião na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), que discutiu a realização de uma audiência pública para tratar das denúncias.

Há uma necessidade urgente de se trabalhar o tema dos direitos humanos na educação para desconstruir a discriminação de gênero, por um lado; e o peso da omissão institucional na naturalização e reprodução da violência, por outro. É preciso acabar com isso; que sejamos mensageiros da paz e da harmonia. Fiquem com Deus.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Depende de quem?

Olívia de Cássia Correia de Cerqueira

Por entre fatos,
ideias e coisas
Vou seguindo
o meu caminho.
Ora pensativa,
ora indignada
E por vezes perplexa.
A gente tenta
fazer o melhor,
Mas, muitas vezes,
não depende
só da gente.
Depende
de pessoas,
situações,
depende
 de quem?

domingo, 23 de novembro de 2014

De efeito avassalador, o crack é sete vezes mais potente que a cocaína


Foto: Adailson Calheiros

De efeito devastador, crack é considerado a droga mais cruel e mortífera porque vicia logo no início de seu consumo
De efeito devastador, crack é considerado a droga mais
 cruel e mortífera porque vicia logo no início de seu consumo

Sintomas vão de dores de cabeça a alucinações e euforia, entre outras sensações

Olívia de Cássia - Repórter
Tribuna Independente

O crack surgiu no Brasil na década de 1990 e é uma das drogas mais avassaladoras da atualidade. Para vencê-lo é preciso que o dependente químico tenha coragem, força de vontade, determinação e, sobretudo, o apoio da família. De cinco a sete vezes mais potente do que a cocaína, essa droga é também mais cruel e mortífera, porque vicia logo no início de seu consumo.
Sintomas como dores de cabeça, tonturas e desmaios, tremores, magreza, transpiração, palidez e nervosismo atormentam o usuário de crack. Outros sinais como euforia, desinibição, agitação psicomotora, taquicardia, aumento de pressão arterial e transpiração intensa, além de queimaduras nos lábios, na língua e no rosto pela proximidade da chama do isqueiro no cachimbo, no qual a pedra é fumada são percebidos de imediato.
Marcos José Morais tem 29 anos, é casado, tem dois filhos e dois enteados e começou a fazer uso do crack aos 18. Ele disse à reportagem que está há mais de um mês sem usar, mas o vício causou afastamento da família, falta de convívio social e problemas bucais, além de ter abalado a sua moral. “Mudei de comportamento; o crack modifica quem faz o uso e me transformei em outra pessoa, a partir do momento que comecei a pegar o que era dos outros, já cheguei a vender muita coisa de casa para sustentar o vício”, observa.
Segundo Marcos José, o uso do crack fez com que ele passasse nove dias sem voltar para casa, sem tomar banho e isso afetou muito a sua vida. “Hoje eu tenho o apoio da minha família e da minha mulher, mas já nos afastamos por conta do vício, agora estamos nos reaproximando. Estou trabalhando e cada dia é um dia a se vencer”, avalia.
Marcos José não está fazendo tratamento psicológico, mas conta que já ficou internado involuntariamente por três vezes e voluntariamente por cinco. “Já fiz muita  coisa errada por conta do crack, já gastei muito dinheiro, a saúde e fiz coisas ilícitas para sustentar o vício”, pontua.
O dependente químico conta ainda que começou a usar o crack por curiosidade, não tinha informação sobre os problemas que causava à saúde e á vida pessoal e foi na ilusão. Para se acabar com o crack ele diz que é preciso fechar as fronteiras, “para impedir o tráfico da droga; o dependente químico não assiste televisão e campanha não adianta muito”, avalia.

Há três anos sem usar o crack, adicto em tratamento diz que é possível vencer a droga
Aos 39 anos e trabalhando no setor administrativo em uma clínica para dependentes químicos em uma pequena cidade do interior do Estado, José Anderson Oliveira dos Santos está em recuperação e conta que iniciou o uso de drogas aos 15 anos de idade, com álcool e maconha e perambulou pelas ruas durante cinco anos.
Anderson Oliveira conta que durante todo o período da sua juventude foi usando álcool e maconha. “Depois conheci o crack, fiz uso por cinco anos e nesse tempo minha vida foi totalmente destruída: perambulei pelas ruas; passava dois, três dias sem voltar para casa. O crack veio para destruir, mas o que vejo hoje é que é possível vencê-lo”, avalia.
José Anderson disse que quando estava em tratamento temia voltar à sociedade (Foto: Sandro Lima)
Anderson destaca que por conta do uso dessa droga perdeu o emprego, dormiu na rua e foi submetido a tratamento buscado pela esposa. Em 21 de março de 2011 ele conta que foi internado e passou por seis meses de tratamento na própria clínica involuntária onde hoje trabalha, recebeu alta no dia 21 de setembro do mesmo ano e conseguiu trabalho na instituição em funções mais laborais.
“Fiquei em tratamento por seis meses e temia voltar à sociedade. Eu me perguntava: como ser empregado mais uma vez?, mas na própria instituição que fui tratado eu vi a possibilidade de emprego; hoje eu ocupo cargo na parte administrativa da clínica e isso para mim foi uma vitória; estou limpo há três anos, sete meses e  25 dias. O dia mais importante é o dia de hoje,  que nem usei e nem pretendo usar”, argumenta.
Na clínica onde Anderson Oliveira foi tratado e trabalha tem 75 internos; todos do sexo masculino e a maioria tem internamento involuntário. Ele conta que o interno passa no local por tratamento psicológico e psiquiátrico; terapia individual e em grupo, além da terapia ocupacional. “Tem pacientes que é necessário o uso da medicação; no meu caso, não foi preciso, não fiz uso de medicação psicotrópica”, ressalta.
Apesar de dizer que o Estado está amadurecendo com relação à questão das drogas, ele  observa que ainda está muito longe de ser o ideal. “Hoje temos grupos de autoajuda que auxiliam na prevenção e na manutenção do tratamento e no apoio. Eu tive o apoio da minha esposa, porque o restante da minha família, mãe e irmãos já tinham perdido a esperança, já tinham desistido de mim”, diz.
Da mesma forma que a maioria dos dependentes químicos do crack, Anderson dos Santos conta que também se desfez de  vários objetos de casa: vendeu panelas, ferro elétrico, batedeira, até a moto que tinha.  “Enquanto eu usava a maconha e o álcool, não me prejudicava, mas eu não acreditava que teria algo pior para me prejudicar, como o crack o fez. Quando eu usava maconha e álcool conseguia trabalhar; o crack não, ele tirou tudo de mim”, explica.
“O crack tem a capacidade de produzir mil vezes mais do que a sensação normal, é uma sensação assoberbada, por um período muito curto, por isso que o dependente químico o procura. Usar drogas é ótimo; é muito bom, mas o que ela proporciona posteriormente é algo na mesma escala; é destruidor e a questão das consequências é o que deve pesar no indivíduo. Avalio que a prevenção é a maior ferramenta que nós temos hoje”, destaca.
O  dependente químico em tratamento conta que na clínica tem um projeto de responsabilidade social: “Vamos às escolas, às empresas; outras já vêm nos solicitando, pedindo para falar um pouco sobre a questão das drogas, para que haja prevenção. Se eu tivesse tido, quando pequeno, uma palestra sobre isso,  as causas, os efeitos e as consequências, talvez eu não tivesse entrado nas drogas, assim como muitos jovens hoje”, avalia.
Muitas vezes o dependente volta para casa e encontra o ambiente do mesmo jeito, insalubre. Anderson explica que orienta de alguma forma o familiar para que participe do tratamento do dependente, pois, segundo avalia,  a cura começa com a participação da família, se não tiver isso o tratamento não funciona.   
Anderson acrescenta que todos os setores da sociedade têm que se unir no combate às drogas, com grupos de autoajuda, igrejas, grupos de jovens, ONGs e outras entidades.  “Tem que ter uma matéria sobre dependência química na escola e mostrar as consequências, principalmente, o assunto é vasto, isso tem que ter”, pontua.
Desagregação familiar, preconceito social e desleixo com a aparência são efeitos do crack
Para o psicólogo comportamental e professor universitário alagoano Roberto Lopes Sales, o uso do crack causa uma desagregação total na família e o perfil do usuário ou adicto é de pessoas solteiras, de 30 anos a menos; classe social relativamente baixa e que têm isolamento social. Ele lembra que essa droga provoca sérios danos neurológicos e observa que o tratamento é muito difícil porque há uma resistência muito grande.
Segundo Roberto Lopes Sales, o apoio da família é muito importante. “Muitas pessoas entram no crack e dificilmente saem, mas com ajuda psicoterápica, farmacológica, principalmente apoio familiar e social e a questão do trabalho, é possível vencer, pois o tratamento não se volta apenas para a questão médica com ingestão de alguns remédios”, observa.
Roberto Lopes Sales diz que usuário é excluído da sociedade (Foto: Sandro Lima)
O psicólogo ressalta que toda pessoa que adere à utilização de drogas e se torna um adicto (termo mais correto) é visto excluído da sociedade e as pessoas o veem como irresponsável, que não assume compromisso com outrem, naturalmente egoísta, só pensa nela, ao invés de lembrar na verdade dos fatores que levaram essa pessoa a consumir indiscriminadamente a droga.
O psicólogo observa que o efeito maléfico da droga não é só para o indivíduo. O crack provoca uma desagregação familiar total, isolamento social, porque causa descompromisso com relação à situação de responsabilidade no trabalho e na família, consigo próprio, no que diz respeito à higiene, alimentação, vestuário, entre outras questões.  
DESAJUSTES
“As famílias às vezes se esquecem de perceber que existem alguns desajustes familiares para que se eleja uma determinada pessoa para se colocar como bode expiatório como o desajustado e aí naturalmente esta pessoa começa a desenvolver a aderir a uma droga. Quando acontece esse desequilíbrio ao próprio indivíduo, naturalmente vem à tona o próprio desequilíbrio familiar”, pontua.
Segundo Roberto Lopes Sales, muitas vezes as pessoas começam a usar por curiosidade e diante de uma primeira, segunda ou terceira experimentada, já está viciada. “O efeito não é o mesmo da cocaína, que é cara e dura em média até 45 minutos, o ‘barato’ do crack dura cinco minutos e as pessoas que querem ‘ficar legais’ e terem um efeito de ficar mais leve ou eufórico e ter uma falsa sensação de bem-estar, essas pessoas sentem a necessidade de uso constante”, explica.
Além de trazer miserabilidade, droga também traz preconceito contra o dependente químico, um efeito ainda mais devastador na visão de alguns estudiosos (Foto: Werther Santana / Futura Press)
Segundo o especialista, algumas mães chegam a amarrar o filho ou colocá-lo em uma clínica à força, mas se o dependente não quiser se trabalhar, logo vai voltar à utilização das drogas. Roberto Sales avalia ainda que para minimizar a questão das drogas no país é necessário que haja programas de governo, nas três instâncias e o apoio social e familiar à pessoa que tenta sair das drogas. “Essas pessoas precisam de apoio, para se sentirem fortalecidas e saírem do vício”, analisa.
O psicólogo comportamental explica também que com o passar do tempo os adictos deixam de ter delírios simples e chegam a situações mais graves como comportamentos violentos podendo chegar à morte. Ele orienta que quando as pessoas começarem a perceber que seus filhos têm comportamentos isolados, não conversam e o ideal é chegar até eles, para que não façam uso de drogas. 
Além de matar, droga traz miserabilidade
Segundo a presidente do Fórum Permanente de Combate às Drogas em Alagoas (FPCD), Noelia Costa Amaral, o crack, além de matar, traz muita miserabilidade e tem um poder de mercado muito grande; é um vício que não tem cura. “O crack está em todas as classes e da mesma forma que está na favela Sururu de Capote está no Aldebaran”, avalia.
Noelia Costa destaca que o consumo do crack criou uma mendicância nas ruas, também em Alagoas. Ela disse que as pessoas ficam como zumbis e até hoje não houve um plano eficaz em relação a isso e que não tem programas governamentais e nem políticas públicas para combater o vício.
Noelia Costa diz que é preciso alertar a sociedade e fazer trabalho de prevenção (Foto: Sandro Lima)
Alguns estudiosos avaliam que o preconceito contra o dependente químico do crack tem efeito mais devastador do que a própria droga. A presidente do FPCD diz que existe, sim, um preconceito velado na sociedade contra o dependente químico ou adicto: seja do álcool, da maconha, do crack ou de qualquer outra droga.
“A família fica com medo de falar, porque sabe que pode ser estigmatizada e isso prejudica tanto a família quanto o usuário”. Segundo Noelia Costa, as pessoas têm uma visão errônea, achando que o dependente químico é um vagabundo; e não é. “O vício vem de várias situações, você pode ter uma pré-disposição; ou por conta de uma ansiedade ou outro problema adquirido”.
Ela pontua que para combater o vício, é preciso que as campanhas tenham um alcance maior. “É preciso alcançar a todos: usuário, pai, mãe e toda a família; da criança ao adulto. Estamos carentes de campanhas educativas, de prevenção que não existe, no sentido maior, de você prevenir hoje, como a questão da Aids e do tabaco, por meio de campanha educativas na televisão, nas carteiras de cigarro, mas nós não temos isso no crack”, pontua.
Sociedade precisa estar alerta e fazer trabalho de prevenção
Para Noelia Costa, é preciso alertar a sociedade, fazer um trabalho de prevenção, por meio dos governos. “O Fórum Permanente de Combate às Drogas existe desde 2007 e desde essa época nós alertamos sobre o crack e já conseguimos salvar algumas vidas que hoje estão resgatadas, porque conseguiram a informação de saber onde se tratar, mas ainda é muito pouco”, avalia.
A presidente da entidade explica que existem várias ferramentas que podem ser usadas para minimizar os efeitos do crack na sociedade, como os centros de apoio, a exemplo dos Caps (Centros de Atenção Psicossocial), Casa do Acolhimento, entre outras.  Segundo Noelia Costa, poucas pessoas sabem disso.
“Também existe a lei. Se uma mãe tem um filho correndo risco de morte, ela pode ir a uma Defensoria Pública e relatar o fato, dizer que precisa interná-lo, involuntariamente, e a Defensoria pode dar um aporte para isso, provocar o Estado e acontece a internação”, explica.
Segundo Noelia Costa, é necessário que haja muito mais informação a respeito da droga, para que as pessoas saibam que podem ter apoio, se decidirem por isso. Ela observa ainda que a sociedade está adoecida e é preciso que não haja medo e preconceito para com o dependente químico.  
A presidente  do Fórum observa que toda dependência química é grave e quem é dependente nunca vai ficar curado: “Vai ficar só por hoje; é uma doença mental, porque quando se usa a substância termina gerando comportamentos diversos; talvez seja por isso que existe tanto preconceito; mas avalio que existe uma luz no fim do túnel, existem saídas, tratamento e a pessoa continua sempre em recuperação”, explica.
Noelia Costa lembra que existe uma questão muito forte na sociedade: o tráfico é organizado e é difícil combatê-lo, mas ela chama a atenção com relação ao álcool, uma droga que está matando muito mais e não existe fiscalização da venda para menores no Brasil. Ela destaca que  é  preciso mais investimentos com relação à prevenção. “Vejo muitas desgraças, por causa das drogas, mães que ligam desesperadas, com filhos viciados e tento ajudar, ligo de volta, consigo tratamento, mas não é sempre”, destaca.
Segundo pesquisa, em Alagoas, 30 mil pessoas usam crack
Pesquisas nacionais, realizadas pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) indicam que cerca de 1% da população esteja no uso ativo do crack, o que em Alagoas corresponde a cerca de 30 mil pessoas. Atualmente, nas comunidades acolhedoras, existem 945 pessoas, entre adolescentes, homens e mulheres. Todos eles passam por um tratamento gratuito e voluntário.
Segundo a assessoria de imprensa Secretaria de Estado da Paz (SepazAL), a permanência dos dependentes químicos nesses locais é custeada pelo Estado (cerca de 80% das vagas) e pelo governo federal (cerca de 20% das vagas). Existem ao todo 1.356 vagas, sendo que 411 ainda estão disponíveis.  Há 30 comunidades acolhedoras credenciadas dentro do Projeto Acolhe Alagoas.
“Elas recebem as pessoas encaminhadas pela Secretaria, após a triagem feita nos dois Centros de Acolhimento, que são a porta de entrada para esse serviço. As comunidades são credenciadas pela Sepaz, por meio de um edital público, no qual elas devem atender a uma série de requisitos, e também devem ser aprovadas pelo Conselho Estadual de Políticas sobre Drogas (Coned). Só depois disso, portanto, elas podem participar do Projeto Acolhe Alagoas e receber as pessoas encaminhadas pela instituição”, explica a assessoria da Sepaz.
Centro de Acolhimento é a porta de entrada para tratamento gratuito e voluntário (Foto: Agência Alagoas)
A triagem dos dependentes químicos é feita assim que a pessoa chega a um dos dois Centros de Acolhimento da Sepaz (em Maceió ou Delmiro), segundo a informação. Em Maceió, o atendimento consiste numa consulta com psicólogo, psiquiatra, assistente social e enfermeiro, onde o dependente faz exames clínicos para constatar se tem algumas doenças transmissíveis - inclusive DSTs, ou mesmo para averiguar se ele tem algum distúrbio mental.  
Após toda essa triagem, a pessoa é encaminhada para a comunidade que mais se adequa ao seu perfil. O acolhimento dura entre três e seis meses, mas a pessoa pode desistir a qualquer momento, já que é voluntário. Os casos involuntários são tratados pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesau).
Vale ressaltar que não existe lista de espera para o acolhimento nessas comunidades. A pessoa é atendida imediatamente nos Centros de Acolhimento e logo encaminhada para uma das comunidades. Quando não vai ao Centro de Acolhimento, a pessoa ou sua família pode solicitar a visita domiciliar dos Anjos da Paz, no telefone 0800 280 9390. Os Anjos atendem em qualquer município do Estado.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Grupos culturais, movimento negro e ativistas celebram a consciência negra

Fotos Olívia de Cássia

Olívia de Cássia – Repórter
Festa aconteceu desde as primeiras horas da manhã, de quinta-feira, 20
, na Serra da Barriga, em União dos Palmares.

Uma festa que contou com a participação de artistas, grupos culturais, de capoeira, autoridades e religiosos, cortejo de pessoas da religião de matriz africana, políticos, entre outras tribos participaram da festa do 20 de novembro, Dia Nacional da  Consciência Negra, celebrado desde as primeiras horas da manhã na Serra da Barriga, em União dos Palmares.  

O dia foi de celebração e comemoração em homenagem ao líder da resistência negra, Zumbi dos Palmares e também lembrou o centenário de Abdias Nascimento, teatrólogo, escritor e defensor da causa dos povos negros. A programação contou com várias atividades religiosas e culturais.

Na madrugada os grupos religiosos fizeram uma cerimônia em homenagem aos orixás; um cortejo vindo da jaqueira onde os povos de matriz africana cantam e celebram com flores, canto e dança e depois coloraram flores aos pés da estátua do homenageado rei dos Palmares, Zumbi.

Iyalorixá Mãe Neide Oyá D'Oxum, do Grupo Espírita Santa Bárbara (Guesb)
A   Iyalorixá Mãe Neide Oyá D'Oxum, do Grupo Espírita Santa Bárbara (Guesb), disse que o dia 20 de novembro é um momento de celebração, de reflexão,  resistência e  busca da liberdade tão sonhada pelo povo negro.

“O  ritual também significa o senso de união, de força. O negro quando está triste ele canta, quando está alegre ele também canta e também quando está  doente. No cortejo, a gente vai saudando os orixás, a ancestralidade e cantando essa troca, essa permuta de energia da raça negra”, observa.

O prefeito Beto Baía disse que é motivo de orgulho para o povo palmarino comemorar mais um dia da Consciência Negra, no local que foi o centro de resistência em favor da liberdade e que é preciso a cidade acabar com a desigualdade racial; disse que é necessário que a população e toda a humanidade se relacione sem preconceito.

“O 20 de novembro significa para o povo palmarino, uma data que é comemorada internacionalmente e que ficamos felizes por ter no nosso solo, União dos Palmares, um pedaço de terra onde foi a maior resistência negra do mundo, por meio do Quilombo dos Palmares e de seu líder, Zumbi dos Palmares”, disse o  secretário de Comunicação de União dos Palmares, Kleber Marques, acrescentando: “Estamos felizes em poder compartilhar esse momento e poder dar um viva à liberdade aqui na Serra da Barriga”, pontuou.

Deputado Paulão disse que Zumbi é o símbolo da resistência de um povo que foi espoliado

O deputado federal Paulo Fernando dos Santos, o Paulão do PT, disse que o 20 de novembro é uma data de caráter nacional que simboliza o massacre de um povo que foi espoliado do seu continente para a América servindo como escravo, principalmente América do Sul.

Paulão falou da dívida política que o país tem com o povo negro de matriz africana e disse que a Serra da Barriga, local onde se instalou o Quilombo dos Palmares, foi a Meca da resistência, capitaneada pelo líder Zumbi.

“Infelizmente nesse período a gente continua tendo contradições em pleno ano de 2014: o processo de exclusão social, violência, onde as grandes vítimas são os jovens, a maioria de cor negra e preferencialmente da Periferia ou da zona rural”, destaca.

O deputado federal disse também que o governo federal e estadual têm que fazer políticas enfocado a educação e saúde, mas voltadas para a questão do empreendedorismo, resgatando a cultura.

Segundo ele, o dia de hoje é uma marca cultural, “mas a gente ainda percebe que não tem esse pertencimento por parte do gestor. Lamento que a Prefeitura de União, que poderia ser a grande beneficiária desse dia, ela ainda não faz a parceria devida”.

Paulão citou outros países e locais que valorizam sua cultura e reclama que no caso palmarino não há isso por parte do prefeito Beto Baía, no que diz respeito ao fortalecimento do turismo cultural. “Infelizmente há grande dificuldade: eu apresentei uma emenda, que já está no orçamento e ainda não foi colocada em prática. É necessário ter uma parceria e não sei o motivo de até agora não ter sido implantada”, reclama.

O parlamentar, que morou por um tempo quando criança em União,  observa que é necessário ter uma integração, no que diz respeito à educação, desde a escola fundamental, junto com a questão da luta étnico-racial, onde as crianças já aprendam desde o início o que foi a saga de Zumbi e sejam os fomentadores de cultura.

Paulão também reclamou que a maioria que estava na caminhada da Serra da Barriga é de pessoas de fora. “No Estado de Alagoas um feriado foi definido e parte do segmento empresarial não obedece e não tem sanção nenhuma por parte do Estado. A gente ainda tem muitas lacunas para conquistar”, disse Paulão.

Os festejos a Zumbi dos Palmares encerram agora à noite com shows na Praça Basiliano Sarmento, no Centro da cidade.


terça-feira, 18 de novembro de 2014

Mais um 20 de novembro para refletir

Olívia de Cássia - jornalista

E chegamos a mais um ano comemorativo à consciência negra no Brasil, quando se festeja o líder da revolução do Quilombo dos Palmares, ícone da luta pelos direitos dos negros no país, o herói da liberdade Zumbi dos Palmares, lembrado na quinta-feira, 20 de novembro.  

O Dia da Consciência Negra é de festa para o povo negro, para quem defende os direitos humanos, a democracia, a liberdade e a cultura, mas também é de reflexão e este ano tem que ser um pensar mais profundo diante de tantos acontecimentos racistas, intransigentes, reacionários e retrógrados que se deram no processo eleitoral brasileiro deste ano  e que ainda persiste por esses dias.  

Depois de muitos séculos desse grito de liberdade dado por nosso herói Zumbi, em defesa da liberdade e contra a escravidão, parece que uma parte da sociedade brasileira está embrutecida e retrocede em algumas questões do pensamento e de ações. Lamentavelmente não só adultos, mas jovens também.  

Por muito tempo, os meios de comunicação – refletindo a postura de boa parte da sociedade ocidental – fizeram o possível para desvalorizar qualquer estética ou aspecto de herança da cultura negra e ignorou a nossa mistura de raças.

Muitos brasileiros residentes no Sul e Sudeste demostraram o preconceito e o atraso político, blasfemando injúria, frases difamatórias e sua ignorância cultural nas redes sociais contra nordestinos.

Bem se vê que há falta informação a esse povo anestesiado por uma filosofia elitista, burguesa  que só percebe o próprio umbigo e suas vidas medíocres, desprovidas de afeto, conhecimento, de respeito, de fraternidade e de solidariedade. Não percebem o quanto são burros na sua ignorância.

Mesmo depois de tantos avanços como resultado das reivindicações dos movimentos sócias  e que foram implantados pelo governo federal, nesses doze anos, como a questão das cotas raciais nas universidades, políticas públicas para os menos favorecidos  e outros benefícios para um povo que foi escravizado e discriminado durante tanto tempo, ainda tem gente no país que defende o pior.

Essa gente ignora a dívida que o país tem com o povo negro, que foi tratado como burro de carga durante tantos séculos, para enriquecer o país e elite cafeeira e sucroalcooleira.

O 20 de novembro nos serve para reavivar a nossa história, os nossos conceitos, a nossa cultura e para que a gente pense que pode lutar ainda mais para conseguir a igualdade dentro da diversidade de cores, de ritmos e de pensamentos; esse caldo de cultura que é o nosso país. 

Precisamos fazer um resgate da nossa bela  herança cultural e resistir sempre, contra  a tentativa de que o país volte a um regime ditatorial, onde não se podia se quer falar mal do governo ou de quem quer que seja que estivesse no poder.

Precisamos garantir a nossa Constituição e enterrar de vez esse tipo de pensamento que só atrapalha o desenvolvimento e o crescimento do país. Nosso grito de liberdade, iniciado por Zumbi, tem que ser permanente e não se dispersar.

É  preciso reagir a cada gesto de tentativa de impedimento das nossas liberdades e execrar com veemência aqueles que tentam a todo custo desqualificar essa luta e o poder da democracia. Zumbi vive em cada um de nós; salve o povo negro, salve o herói da liberdade. Viva Zumbi!

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A arte de colecionar dinheiro

Foto: Olívia de Cássia

Olívia de Cássia – Repórter

O bancário Petrúcio Manoel Correia de Cerqueira é alagoano de União dos Palmares e atualmente mora em Maceió. Ele tem um hobby interessante e ainda raro em Alagoas:  é colecionador de cédulas, antigas e atuais há 28 anos, desde 1986,  época do Governo Sarney, quando o Brasil vivia uma situação delicada no início da Nova República e houve a substituição da moeda corrente do país, do cruzeiro para o cruzado.

“Comecei a colecionar em 1986, no governo Sarney, quando começou a mudança do padrão monetário do Brasil; eu era caixa do Banco do Brasil e começaram a aparecer cédulas estranhas; fiquei curioso e resolvi começar a colecionar. Aí fui ampliando a coleção,  pegando gosto pelo negócio  e hoje tenho cédulas de 120 países, de todos os continentes; são mais de mil”, observa.

A numismática é uma área extremamente interessante para quem quer ampliar seus conhecimentos. Colecionar cédulas e moedas é uma verdadeira arte. E se pode aprender muito com isso: aprender sobre a cultura de uma nação, ou então aprender um pouco sobre os homenageados de cada país em suas cédulas.

A coleção de Petrúcio Cerqueira é ampla: ele diz que a cédula mais valiosa que existe é a de um conto de reis, do Brasil colônia, que vale 40 mil reais, mas desta cédula ele só tem uma réplica, por conta do preço alto.

Petrúco Manoel conta que conserva sua coleção em pastas com páginas em plástico, onde separa as unidades  por  continente e país. As do Brasil estão em uma pasta separada, com as 15 mudanças de padrão monetário do país.

O bancário conta que não fez estudos para iniciar a coleção, mas procura obter o máximo de informações a respeito do assunto e quando tem dúvida consulta dois livros que tem, com tudo sobre a arte da numismática.

Perguntado se não deseja mostrar para os alagoanos, em uma exposição a sua rica coleção, Petrúcio Cerqueira pontua que já fez uma na agência do Banco do Brasil, quando trabalhava lá, mas ressalta que ‘bagunçaram toda a coleção’.

Atualmente trabalhando na Caixa Econômica, da mesma forma das moedas de outros países e locais, ele conta que sempre está buscando novidades, mas revela que o hobby é muito caro. “Cada folha de plástico de uma pasta da coleção custa R$ 3, fora a compra das cédulas que agora faço também pela internet”, explica.

Segundo o  bancário colecionador, a numismática é muito diversificada e tem várias vertentes usadas para se organizar as cédulas: “Eu coloco uma em cada padrão”. Outra particularidade da numismática colocada por Petrúcio é que nos países de regime totalitário, as homenagens impressas nas cédulas foram feitas aos ditadores, em sua maioria.

“No Brasil, por conta de tanta mudança que teve no padrão monetário, não tinha mais personalidade histórica para se homenagear e ultimamente as cédulas têm a esfinge da República. O padrão monetário brasileiro tem cédulas antigas com autógrafos, carimbadas e têm valores diferentes”, destaca.

Antes da Casa da Moeda Brasileira, o dinheiro do Brasil era fabricado no exterior: Estados Unidos e Londres, com dois padrões diferentes. Petrúcio Manoel explica ainda que em Alagoas existem poucos colecionadores.

 A numismática é uma arte que também tem suas particularidades; uma delas, segundo Petrúcio Cerqueira, é que tem colecionadores que seguem pelo asterisco, que é a reposição da cédula, outros pela data. No Brasil, ele conta que a emissão de cédulas começou em 1833 e que em 1857 começou a chegar banco privado no país. “Aí passaram a dividir a tarefa de emitir cédula”, observa.

Petrúcio destaca que muita gente tem dez cédulas do mesmo valor, mas elas tem o número de série diferente;  a assinatura; o valor legal; o leiaute e por conta disso o valor para a compra é diferente. “Tem gente que coleciona aquelas que vêm com defeito de fábrica que são caras também”, relata.  
O colecionador alagoano diz que da mesma forma que em alguns países como o Afeganistão o padrão monetário já mudou, ele está em busca de novas cédulas para sua coleção que já é bem ampliada.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Davi da Silva

Mirabel Alves
Secretário da Comissão de Direitos Humanos da OAB/AL

Faz mais de setenta dias que o adolescente Davi da Silva desapareceu, após uma abordagem feita por uma guarnição da Polícia Militar de Alagoas, fato ocorrido em 25 de agosto do corrente. Esse fato choca e preocupa exatamente porque envolve membros da segurança pública que deveriam agir no mais estrito cumprimento da lei, mas, infelizmente nem sempre é o que ocorre.

Afirmamos isso porque se a guarnição tivesse agido da forma legal, o adolescente Davi estaria hoje são e salvo e, caso tivesse cometido qualquer ato infracional estaria respondendo por ele nos termos do Estatuto da Criança e do Adolescente. Infelizmente criou-se um fosso entre os fatos ocorridos e a verdade real que necessita vir à tona.

A legislação brasileira, aliás, muito extensa, garante a todos nós o direito de sermos acusados e julgados nos termos da lei com o exercício da ampla defesa e do contraditório, o que garante ao Davi e demais adolescentes e a todos nós cidadãos brasileiros, o direito de nos defender e provar a nossa inocência, se inocente formos e, se culpados, temos o direito de responder às penas previstas em lei, nada mais que isso.

No caso do Davi da Silva, há uma responsabilidade do poder público envolvendo o caso, isso porque o próprio Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu Art. 4º, garante que a responsabilidade pelo saudável desenvolvimento da criança e do adolescente é missão da família, da comunidade, da sociedade e do poder público.

No caso Davi, estando ele sob a custódia do poder público, por meio da apreensão realizada pela Polícia Militar de Alagoas, é o Estado  o responsável pelo seu misterioso sumiço, uma vez que ele se encontrava sob custódia da segurança pública alagoana ao ser abordado pela guarnição militar da Radiopatrulha.

As entidades da sociedade civil, juntamente com os familiares, têm insistentemente cobrado uma posição acerca do caso e isso tem feito a diferença, já que se a família tivesse permanecido inerte, certamente o caso já estaria esquecido e os responsáveis pelo desaparecimento de Davi estariam certos de suas impunidades.


Não importa quem é a pessoa a ser abordada pelos policiais; ela merece respeito por parte dos agentes da segurança pública. É dever da autoridade policial tratar com dignidade humana o cidadão que tem boa posição social, bem como as pessoas simples da periferia, o que nos diferencia é somente a posição social, não havendo qualquer amparo para os policiais que abordam os meninos das periferias com brutalidade evidente, dando chutes nas pernas, empurrões, puxões nos braços e, muitas vezes até fazendo eles desaparecerem como se fossem feitos de fumaça.