domingo, 1 de fevereiro de 2015

Carlito Lima diz que o setor turístico é 'coveiro do Carnaval'

Maceió lá fora como cidade que não tem a festa

 / Tribuna Independente

Foto: Adailson Calheiros
Carlito Lima avalia que o Carnaval deve ser resgatado, mas acredita que da forma como era antigamente não é mais possível
Carlito Lima avalia que o Carnaval deve ser resgatado, mas acredita que da forma como era antigamente não é mais possível
O secretário de Cultura de Marechal Deodoro e incentivador da cultura alagoana, Carlito Lima, em entrevista à reportagem da Tribuna Independente sobre o resgate dos antigos carnavais em Maceió disse que o setor turístico do Estado é ‘coveiro do Carnaval’.
Segundo ele, o trade começou a vender Maceió lá fora como a cidade que não tem Carnaval e o prefeito da época gostou porque não gastaria dinheiro; “Aí o Carnaval de Maceió foi esfriando. Hoje, os hotéis estão lotados e eles (setor) acham ótimo; são os “coveiros do Carnaval”, observa.
Carlito Lima avalia ainda que o Carnaval deve ser resgatado, mas que da forma como era antigamente não é mais possível. “É preciso que haja uma adaptação aos tempos atuais, pois fica muito caro, por exemplo, o desfile pelas ruas. Participei de algumas reuniões e coloquei isso: não se pode vender Maceió como uma terra sem Carnaval, é preciso resgatar a nossa cultura”, avalia.
Segundo ele, o Carnaval é a cultura mais espontânea do mundo e o de Maceió estava praticamente acabado, mas acredita que está havendo alguns esforços de grupos culturais para fazer um resgate da nossa cultura.
“O projeto que a prefeitura está fazendo é muito bom, mas só vai ter visibilidade daqui há três anos. Eu participei de algumas reuniões e discuti com secretários; disse que não se pode pensar assim, que Maceió seja um balneário e nem um sanatório”, observa.
O Velho Capita pontua que no ano passado, a Prefeitura de Maceió já fez um projeto de Carnaval. “Acho que vai continuar, não com a mesma verba, mas vai dar assistência aos grupos carnavalescos nos bairros. Eu creio que a prefeitura está querendo resgatar o Carnaval, mas não será como antigamente, é muito caro: não adianta a gente querer fazer como antigamente, tem que ser adaptado aos novos tempos”, avalia.
Carlito observa que um economista disse que Maceió tem um milhão de habitantes. “Durante o Carnaval, saem 200 mil pessoas da capital não só para Recife, Olinda, Salvador, mas para Paripueira e Barra de São Miguel. Se cada um desses turistas gasta 100 reais, vai deixar de circular R$ 20 milhões em Maceió. Esse argumento eu usei na prefeitura o ano passado; é muito dinheiro”, explica.
A reportagem tentou contato com o setor de turismo do Estado, para ouvir sua opinião a respeito desta questão de Maceió ser vendida em outros estados como o local que não tem Carnaval, mas até o fechamento da matéria não conseguiu o contato.
Programação incluía maratonas carnavalescas na Rua do Comércio
O Carnaval antigo de Maceió faz parte do imaginário de quem era jovem em décadas passadas e era extraordinário.
A festa de Momo começava 15 dias antes do Carnaval e havia maratonas carnavalescas todos os dias na Rua do Comércio. Quem conta essa história é o secretário de Cultura de Marechal Deodoro, Carlito Lima.
Ele rememora aquele tempo e descreve que nos antigos carnavais de Maceió tinha o corso e duas ou três orquestras, nas esquinas.
“Para a gente fazer o passo, brincar, cantar música de Carnaval, misturar pobre com o rico, a empregada com o soldado, o capitão. Eu ia todas as noites na maratona carnavalesca”, lembra.
Segundo ele, o Carnaval popular de Maceió acontecia durante todo o dia e à noite e uma semana antes tinha o banho de mar à fantasia e as troças (que se assemelhavam aos Clubes de Frevo, apresentando-se nas ruas do centro ou do subúrbio).
TROÇAS
Nas comunidades em que se originavam, as troças arrebatavam homens, mulheres, crianças e idosos. O improviso, a descontração e a irreverência eram a tônica no desfile dessas agremiações.
“Tinha banho de mar à fantasia, na Praia da Avenida, e o pessoal ia fantasiado. Eram várias categorias como as troças do Bráulio Leite, do Santa Rita, o Rubens Camelo”, lembra.
Segundo Carlito, os carnavalescos saiam pelas ruas falando mal do governo, fazendo muito humor e havia concurso da fantasia mais bonita.
“Era bem organizado: antes do Natal, a prefeitura organizava a Comissão Organizadora do Carnaval (COC), essa comissão fazia esses concursos; era na Praia da Avenida, com muito frevo e muita alegria e só terminava no final da tarde ou começo da noite”, descreve.
ORQUESTRAS
Quando chegava o período carnavalesco, a prefeitura aproveitava a maratona e aumentava o número de orquestras, que iam desde a Praia da Avenida até a Praça dos Martírios.
“Era um carro atrás do outro, o corso, a gente paquerando; as meninas eram alegres e a gente caia no passo. Era uma coisa bem bacana o Carnaval de rua”, pontua.
Pontal da Barra terá dez blocos desfilando nas ruas do bairro
Os moradores do Pontal da Barra vão repetir a tradição este ano e voltarão às ruas do bairro para brincar o Carnaval. Conhecido internacionalmente pela produção de artesanato como o filé, o Pontal está se preparando para colocar nas ruas 10 blocos carnavalescos.
Segundo o presidente da Associação de Moradores, Davi Carvalho, no dia 8 de fevereiro, um domingo, sairá o Bloco Meladinho, numa prévia carnavalesca, percorrendo as principais ruas do bairro e os foliões saem à vontade.
“Uns vão fantasiados e outros saem como preferirem”. Davi assumiu a presidência da entidade há pouco tempo, mas declara que já está finalizando os contatos com os poderes competentes para a realização do evento.
Durante os quatro dias, animação da população do bairro ficará por conta dos blocos e apresentações na praça (Foto: Adailson Calheiros)
“Serão quatro noites de festa, até o dia 17. A folia vai ser na Praça Caio Porto e durante os quatro dias terá blocos carnavalescos de todos os setores do bairro desfilando pelas ruas: rendeiras, pescadores e outros”, observa.
No Pontal, segundo Davi Carvalho, tem blocos engraçados como o Bloco das Virgens, no qual os homens saem de mulher e as mulheres trajadas de homens. “Tem também Os Traíras, Rosa Chiclete”, descreve.
Algumas moradoras falaram à reportagem. Dona Lena disse que não é chegada a Carnaval, nem gosta de ver, mas a moradora Paula da Silva, de uma das lojas que vende filé, disse que adora.
“Para mim é a melhor festa, se eu pudesse brincaria todos os dias. Antes eu saía na rua, mas agora tenho uma filhinha de um ano, mas sempre aproveito. Carnaval para mim tem que ser frevo, não gosto de pagode e nem de suingueira”, disse Paula.
Ela disse que não podemos deixar que o Carnaval de rua acabe. “Tem que ser firme e não deixar acabar”, observa.
Carnavalesco diz que ninguém pode trazer de volta o que passou
O carnavalesco Ronaldo de Andrade, diretor do bloco Filhinhos da Mamãe, disse que não concorda com o termo resgate do Carnaval, pois, segundo ele, ninguém pode resgatar o que já passou.
“Na verdade, é exigir o direito de brincar o Carnaval, apresentando sua demanda, na direção de ter o direito da festa e exigir dos órgãos responsáveis um investimento maior”, observou.
Segundo ele, o bloco Filhinhos da Mamãe foi criado porque, em 1983, o Carnaval de rua de Maceió estava quase inexistente. “O investimento era na Praça Moleque Namorador e em Bebedouro, os clubes já estavam perdendo o glamour”, destaca.
TEATRO
Foi daí, segundo Ronaldo de Andrade, que os artistas de teatro de Maceió e da Companhia Alagoense de Teatro criaram o bloco, no sentido exatamente de brincar o Carnaval na capital, “porque a gente ia para a Bahia e brincava frevo, ainda não era o axé, aí nos sentimos na obrigação de brincar o Carnaval em Maceió, mas não queríamos perder o Carnaval da Bahia também”, explica.
Segundo Andrade, cabe ao povo de cada cidade organizar seus blocos (Foto: Sandro Lima)
Ronaldo destaca que não adianta dizer que as pessoas não gostam de Carnaval, “porque nas prévias carnavalescas, o Filhinhos da Mamãe recebe muitos turistas que vêm brincar, participar e verem como a gente brinca”, destaca.
Ele avalia que a população é quem deve exigir o Carnaval nas ruas de Maceió. “Não é o poder público que planta os desejos da população, mas a população que deve fazer e os responsáveis se sentirem coagidos e obrigados a fazerem jus à demanda e acontecimento público”.
Ronaldo de Andrade avalia ainda que onde não existe os artistas trabalhando, não existe o poder público para inventar nada, é preciso que a população se manifeste durante o Carnaval.
“Só muda quando a população faz um clamor grande, num caso grave, obviamente; e se é grave a população de Maceió não ter Carnaval, ela tem que se manifestar”, entende ele.
Segundo Ronaldo de Andrade, não podemos ficar dependendo do poder público, pois Carnaval não é uma brincadeira do poder público, é do povo de uma cidade, e cabe à população se organizar nos seus blocos. “E aí eu tenho certeza que o poder público vai ver um foco interessante que precisa do apoio. Depende da demanda”, destaca.
“O Carnaval que é uma manifestação do ser humano tem que encontrar esse espaço para se manifestar carnavalescamente. Eu acho que é isso”, finaliza.
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