sexta-feira, 13 de junho de 2014

As festas na casa do seu Zé Laurindo

 Olívia de Cássia - jornalista
 Em época de festa na casa de seu Zé Laurindo (conhecido como festeiro lá na roça) íamos todos nós. À noite, saíamos em fila indiana pelas estradas da capoeira. Meus primos maiores iam à frente da turma entremeando com os mais novos, e os outros atrás, para nossa segurança. O que nos iluminava eram candeeiros acesos, movidos a querosene, que levávamos na cabeça. A estrada era só mato e poeira.
Mas o que dava medo era quando meus primos começavam a contar histórias de fantasmas e “malassombros” pelo caminho. Na estrada tinha uma cancela e eles contavam que ali tinha morrido um homem esfaqueado que à noite aparecia para quem passasse no local. Afirmavam também que o tal fantasma assustava os cavalos. Eu me arrepiava toda e só sossegava quando chegávamos ao sítio de seu Zé Laurindo ou de volta à casa do meu tio Antônio Paes.
O local da festa era muito rústico: uma casinha coberta de palha, feita de taipa e barro vermelho, com piso batido, também de barro. Nas paredes e em alguns locais da casa ficavam expostas várias imagens de santos, inclusive a homenageada, que se não me engano e não me falha a memória era Santa Luzia, a protetora dos olhos. Os zabumbeiros não paravam de tocar forró e comia-se de tudo: carne assada, arroz doce, mungunzá, quentão e outras iguarias próprias das festas da roça. A bebida era quente, pois não tinha como refrigerar.
Os jovens e adultos dançavam forró pé-de-serra até quase o amanhecer, ao ritmo da zabumba e à luz do candeeiro até cansarem. Eu ficava sentada num banquinho, só observando, achando tudo muito novo, diferente. As moças não podiam recusar uma dança; tinham que dançar com os rapazes que as convidasse para dar “uma voltinha”, mesmo que elas não simpatizassem muito com os cavalheiros, segundo me contaram meus primos. Quando terminava a festa, vínhamos pelo mesmo caminho escuro e eu me punha morrendo de medo dos mortos que nós poderíamos encontrar pelo caminho.
Numa das nossas idas ao engenho da Barriguda, eu e minha prima Rita ficamos acuadas pelo touro Presidente, um lindo exemplar de cor bege. Esse touro deu uma carreira na minha prima Rita, obrigando-a a se meter debaixo dos arames farpados, o que lhe rendeu uma cicatriz em uma das mamas. Mas gostávamos dos desafios e continuamos a ir ao engenho, passando no meio da boiada, para continuar tangendo os bois na almanjarra.
A almanjarra era composta por duas linhas de madeira comprida, com uma espécie de banquinho na parte superior e outra tábua na parte inferior. Os bois nós “cutucávamos” com uma vara que tinha um ferro em forma de triângulo na ponta. Com aquele instrumento nas mãos eu e minha prima estimulávamos os dois bois dando pequenas “espetadas”, no sentido de que se movessem e a cana fosse moída. E ali ficávamos na companhia dos trabalhadores do engenho, até que a nossa tia nos chamasse para comer, tomar banho, ou viesse ralhar conosco quando estávamos brigando.
Além do açúcar preto, o mascavo, o engenho produzia rapadura, mel, caldo de cana e as famosas batidas, uma iguaria mais clara do que a rapadura, comprida e um pouco retorcida, feito uma escultura, em que se acrescenta o cravo e a canela. Tanto a batida quanto a rapadura ainda hoje são vendidas nas feiras do interior.
Tio Antônio possuía um velho jipe Willys que transportava a família nos dias de feira para União dos Palmares e para as viagens que precisava fazer. O jipe despertava o interesse dos meus irmãos, quando começaram a aprender a dirigir e era a menina dos olhos de todos. Queriam sempre dar uma voltinha no carro.
Na Barriguda não havia muitas fruteiras, pois meu tio plantava cana e tinha muito gado, o que o obrigava a cultivar bastante capim, para alimentar os animais. Mas a região era cercada de matas, inclusive por trás da casa-sede e nos fundos da casa onde meu primo José foi morar depois de casado. As matas eram os locais onde meu avô Manoel Paes fazia muitas caçadas.
Depois que meu tio Antônio de Siqueira  Paes parou com a moenda no engenho, passou a fornecer cana para a Usina Laginha. Quando ele casou novamente, continuamos a ir à Barriguda ainda por alguns anos. Mas à medida que fomos crescendo, nossos passeios foram diminuindo e os encantos da meninice começaram a se voltar para outras cenas, para outras atrações. Deixamos de fazer aquela belíssima viagem da infância, que ainda me traz doces recordações dos velhos e bons tempos da minha infância distante.
O engenho foi destruído pela ação da chuva e do tempo e depois meu tio mandou derrubar o resto da construção. A casa de farinha também ruiu.  Eu lamentei muito isso, pois ambos faziam parte da história de nossas vidas e podia servir de visitação e atração turística para o local.
Meu tio Antônio Paes morreu no dia 5 de julho de 2002, às vésperas de completar 90 anos, e as terras da Barriguda foram vendidas, depois de sua morte, para José Simplício Filho, irmão da minha cunhada Catarina Medeiros, filho do senhor José Simplício, conhecido em União dos Palmares como “Zé Piloto” que era um comerciante de porte médio no município. 
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