quinta-feira, 19 de junho de 2014

Meus avós Manoel Correia Paes e Olívia Maria Siqueira Paes

Olívia de Cássia - jornalista

Pelas informações da Certidão de Casamento dos pais da minha mãe, Manoel Correia Paes e Olívia Maria, expedida na República dos Estados Unidos do Brasil (como se chamava o País naquela época), meu avô Manoel Correia Paes e minha avó Olívia Maria de Cerqueira ou Olívia Vieira de Siqueira casaram-se em 31 de outubro de 1908, época da criação do extinto Jornal de Alagoas, criado pelo jornalista Luiz Silveira. 

Os nome e sobrenome de minha avó teriam sido modificados pelo cartório, pois constatei várias alterações nos sobrenomes dos nossos familiares. Vovô teria nascido em 1883, era agricultor, natural de Branquinha. Filho de Tibúrcio Correia de Araújo (ou Tibúrcio Vieira Correia) e Maria Paes de Oliveira (sobrenome que acredito também tenha sido modificado).

Minha avó Olívia, segundo o documento, nasceu em 1889, quando o Brasil iniciou o período conhecido como República Velha; tempo marcado pelo domínio político das elites agrárias mineiras, paulistas e cariocas. Nessa época o País firmou-se como exportador de café e a indústria brasileira deu um significativo salto. Na área social, várias revoltas e problemas sociais aconteceram nos quatro cantos do território brasileiro.

Olívia Maria, de quem herdei meu primeiro nome, era natural de Branquinha, filha de Francisco Rosa de Cerqueira (ou Francisco Vieira de Siqueira) e Luzia Maria de Serqueira (ou Maria Francisca Vieira Correia) nomes e sobrenomes que também foram embaralhados e alterados no cartório, segundo as minhas pesquisas. 

Pelas informações desse documento que tenho em mãos, a certidão de casamento dos meus avós só foi expedida no dia 29 de julho de 1966, muitos anos depois da cerimônia, em Branquinha, à época distrito de Murici, tendo como escrivão o senhor Humberto de Lucena Sarmento. Assinaram como testemunhas José de Almeida e Francisco Correia de Araújo.

Talvez porque as pessoas não tivessem documentos naquela época tenha havido tantos erros nos nomes e sobrenomes dos meus parentes. A maioria só veio a ter registro de nascimento ou outro documento depois que casava e os cartórios colocavam as informações de qualquer jeito, sem ter o cuidado de verificar nomes e datas, como aconteceu com vovô e vovó e alguns dos meus tios.

Vovó Olívia fugiu de casa para casar com vovô Manoel, seu primo legítimo, segundo me contou uma das minhas tias, porque vovó era muito espancada pelo pai, Francisco Vieira de Siqueira, senhor de engenho. Com autoridade absoluta, os senhores de engenho da República Velha submetiam todos ao seu poder: mulher, filhos, agregados e qualquer um que habitasse seus domínios. 

Ela saiu de casa com apenas um pequeno baú na mão, levando o mínimo necessário de seus pertences pessoais. Ela contava para os filhos que ajudava seu pai na lida do campo e do gado e sabia ordenhar vacas, mas era uma mulher muito doente. Na infância contraiu meningite, além de vários tumores nas unhas chamados de panarícios, dores ciáticas e reumatismo.

Eu convivi muito de perto com meus avós por parte de mãe, pois os pais do meu pai morreram quando ele ainda era muito pequeno. Minha avó Rosa Correia Paes, faleceu quando meu pai estava ainda com dois anos de idade e meu avô Jonas Vieira de Siqueira, registrado como Jonas Correia de Cerqueira, quando papai tinha quinze anos. Desse meu avô herdamos o sobrenome com erro no cartório.

Meu pai foi criado pela madrasta Maria José (Nenen), devota e beata do Frei Damião e do padre Cícero do Juazeiro do Norte, no Ceará, onde ela foi morar mais tarde, na cidade do Crato. Minha avó-madrasta era muito conservadora e transmissora de toda a ideologia daquela cultura das beatas e costumava fazer viagens para o Ceará, com os romeiros, em cima de um caminhão pau-de-arara. Ela foi encontrada morta, no Juazeiro, na casa onde estava morando sozinha, depois de alguns dias do seu falecimento.

Mas as lembranças da minha infância me remetem ao meu avô Manoel Paes, seu Né Tibúrcio, ou “Papai Né”, como meus primos o chamavam, pois ele me fazia quase todos os gostos. Vovô herdou o apelido de Tibúrcio devido ao nome de seu pai, Tibúrcio Correia. Já vovó Olívia Maria era mais apegada aos meus irmãos Paulo e Petrônio e não encobria meus defeitos e traquinagens da forma como o meu avô Manoel o fazia; se alguém me fizesse alguma desfeita ou mamãe quisesse me bater, bastava um olhar do meu avô para desarmar qualquer um. Seu olhar era implacável. 

Eu fui muito apegada ao meu avô e só fui ter mais convivência com meu pai bem mais tarde, depois que vovô morreu e eu já estava com 15 anos, porque papai passava o dia todo na mercearia e só estava em casa na hora das refeições ou na hora de dormir. Com meu avô era diferente: ele tinha todo o tempo do mundo para mim, para me dar atenção. Eu chegava da escola e já buscava a sua companhia, se não estivesse de brincadeira com os amigos da rua, pois eu não parava em casa.

Vovô era alto, magro, branco, tinha os olhos claros, entre o azul e o verde e já o conheci calvo. É engraçada a semelhança que encontro no ator Castro Gonzaga, da Rede Globo, com o meu avô Manoel Paes. Toda vez que o vejo no vídeo, me reporta à imagem que tenho dele, principalmente quando Gonzaga representou o papel do Formiguento, na novela Saramandaia, na primeira exibição da novela, em que as formigas brotavam do seu nariz.  Seu Né Tibúrcio tinha aquele jeito carrancudo e áspero, mas comigo era sempre menos autoritário e se rendia às minhas brincadeiras.    
      
Na casa de vovô, na saudosa Rua da Ponte, tinha uma cadeira tipo espreguiçadeira onde eu me sentava junto com seu Manoel, para ouvi-lo contar as suas aventuras nas matas. Meu avô contava-me histórias da Serra da Barriga, das caçadas que empreendia mata adentro, pois, segundo ele, era bom caçador, e acredito que comecei a me interessar pela história de Zumbi dos Palmares e pela questão dos negros com ele, mesmo que as histórias que me contasse fossem carregadas de preconceitos, porque vovô era racista e, tal  qual seu pai, seu avô, e seu bisavô não gostava de negros.

Talvez tenha sido o seu preconceito racial que tenha me despertado para esta causa. Comigo as coisas sempre funcionaram assim. Mamãe também era racista, puxou ao pai, mas esta é outra parte da história, que contarei lá mais na frente.  Vovô também gostava muito de literatura de cordel e comprava vários livretos na feira livre para que eu ou alguma visita fizesse a leitura daquelas histórias, já que ele não sabia ler. Aos sábados, eu costumava ir com seu Manoel Tibúrcio à feira de União e ao Mercado Público.

Eu tinha uma pequena cesta de palha que voltava sempre cheia das minhas pequenas compras: pitomba, goiaba e outra fruta qualquer que fosse quase verde, por que não gostava e não gosto de frutas maduras. Meu avô fazia questão de comprar tudo o que eu gostava e as pessoas admiravam a afeição que ele tinha por mim, já que era um pouco temido pelos outros netos e sobrinhos, pelo seu jeito durão de ser. 

Seu Manoel chegou a ser senhor de engenho (o Mucuri), assim como o meu bisavô Tibúrcio, mas vendeu as terras a preço módico para cuidar de uns sobrinhos, filho de um irmão dele que ficaram órfãos. No entanto, vovô Manoel e vovó Olívia terminaram seus dias de vida morando em casa alugada; e quando já estavam bem velhinhos e doentes foram morar lá em casa, na Tavares Bastos, em União, numa dependência que tinha nos fundos do imóvel e ali faleceram. 

Minha avó Olívia era uma mulher bondosa e angariava a simpatia de quem a conhecia, mas às vezes ela se colocava com raiva. Era apaixonada pelo meu avô, não chamava palavrão e o único xingamento que fazia, quando se aborrecia com ele, era chamá-lo de “cu da injura”, assim mesmo. Já o meu avô gostava de chamar por outros nomes: “peste-bubônica”, que ele aliviava chamando “péia” e “bixiga” ou “bixiguento”, deixando a minha avó revoltada. 

Meu avô guardava o dinheiro que meus tios mandavam para as despesas diárias dentro de uma meia e debaixo do colchão ou dentro de um dos baús da minha avó. Acredito que foi desse costume dos antepassados de guardarem dinheiro dentro de meias que se gerou o dito popular “fazer um pezinho de meia”, quando se diz que se vai juntar algum trocado em poupança ou em algum investimento.

Além de ter tido oito filhos vovó Olívia cuidou de outros, por adoção. Ela era baixinha e gordinha, ao contrário do meu avô. Gostava de usar roupas floridas e de passar carmim. Dona Olívia usava um pequeno coque no cabelo e tinha aversão aos seus logos e escassos cabelos grisalhos. Minha avó vivia dizendo que queria encontrar uma pasta que os escurecessem, pois naquela época ainda não era costume usar tintura no cabelo; se já existia, minha avó não conhecia.

Dona Olívia e seu Manoel Paes tinham o hábito de ficar na porta da casa onde moravam, na Rua Demócrito Gracindo, a Rua da Ponte, toda tarde, observando o movimento. A vizinhança tinha uma afeição enorme por ela e os mais moços a chamavam de vovó. Sempre tinha alguém que passava por lá para tirar um dedinho de prosa com ela, que ficava toda animada pela atenção que lhe era dispensada. Minha avó não gostava de barulho, mas ensaiava cantigas e batucava na mesa, quando sentava para comer ou conversar.

O lanche predileto de vovó era a bolacha canela ou o biscoito palito que papai revendia na mercearia e meu irmão Paulinho levava para ela, com refrigerante. Dona Olívia ficava esperando a hora do lanche, mas se meu irmão não levava o biscoito ela ficava aborrecida e reclamava o tempo inteiro. Quando vovó já estava bem esquecidinha, certa vez eu mostrei uma foto minha, com três anos, e disse para ela que aquela era uma namorada do meu avô. Vovó ficou com tanta raiva, pegou a foto, pisou, cuspiu e só não a rasgou porque eu interferi a tempo e trabalho deu para convencê-la de que aquela pessoa da foto era eu. 
Postar um comentário

E agora, o que fazer?

Por Olívia de Cássia E agora, o que fazer? Essa pergunta me veio à baila, antes e depois da aposentadoria por invalidez e em alguns dias q...