quarta-feira, 16 de julho de 2014

Em busca de mim mesmo (*)

Olívia de Cássia - Jornalista

Com o meu afastamento de Franklin (nome fictício), passei a me refugiar na leitura e a escrever com mais freqüência; apesar de amar a minha mãe, eu não entendia  por que ela sempre agia comigo com agressividade, sempre se colocando contrária a tudo o que eu gostava de fazer, e a tudo o que eu pensava. Poucas vezes me procurava calmamente para conversar e quando o fazia, eu já estava tão angustiada e nervosa que terminávamos sempre brigando, tornando a nossa convivência difícil a cada dia. 

Acredito que não fosse por maldade, mas ela se vingava de mim, quando tinha raiva de algo que eu fazia, me tirando o que eu mais gostava, a exemplo de meus animais, ou cortando a minha mesada, porque ela sabia como me atingir, de alguma forma. Era como se tivesse medo de que algo viesse a me acontecer, mas não sabia se expressar, nem explicar, no sentido de que eu compreendesse a sua preocupação. 

Às vezes mamãe agia comigo como se em algum lugar do passado eu a tivesse feito sofrer algum trauma, ou a tivesse magoado muito. Era a maneira que ela falava comigo que me dava revolta. Dessa forma, tentava fazer com que eu compreendesse seus motivos me batendo, me xingando e me dizendo coisas grosseiras e indevidas para o momento, ou me tirando coisas materiais. 

E quando minhas tias chegavam em União dos Palmares ela contava o que tinha feito comigo, rindo e dando gargalhadas; quando eu escutava aquelas palavras, ficava revoltada. Ela sabia que estava me fazendo sofrer e ria de mim para meus familiares. Ria da minha inocência, da minha tolice e dos meus sentimentos, que ela achava bobos, e aquilo me magoava muito. 

Hoje eu entendo que tudo o que minha mãe fez foi tentando me preservar do sofrimento, foi pensando no meu bem-estar, mas ela não sabia como demonstrá-lo e acabava metendo os pés pelas mãos, principalmente quando me agredia. Era como se tivesse se vingando de um inimigo do passado. Coisa que eu tentei entender na terapia, ou conversando com alguns colegas espíritas. Mesmo eu tendo acabado o meu relacionamento com Franklin, que foi apenas um amor quase platônico, meus problemas não acabaram, muito pelo contrário.

Comecei a usar algumas roupas largadas, estilo meio hippie, calças jeans que eu adaptava para ficar um pouco do meu jeito. Reformei uma das minhas calças compridas, retirei o coes de uma delas, deixei como se usa agora, abaixo do umbigo, que eu usava com uma camisa tamanho cinco, do meu pai, bem larga. Gostava de usar aquelas roupas, para esconder a minha gordura, pois sempre fui muito complexada. Era como se eu usando aqueles trajes um pouco masculinizados e sem beleza plástica nenhuma, eu pudesse esconder a minha feiura e os meus defeitos físicos, que eu achava, eram muitos.

Achava-me gorda, mal feita e feia, completamente fora dos padrões que a sociedade exigia para uma mulher. Foi aí quando comecei a tomar remédio para emagrecer, escondido da minha mãe; quando ela os achava, jogava tudo no lixo. Ela acreditava que eu estivesse usando aquelas roupas, influenciada pelo meu ex-namorado e para imitá-lo. E não teve dúvidas: rasgou e queimou quase tudo, me deixando apenas algumas poucas peças no meu guarda-roupa. 

Nos livros que eu lia, eu procurava explicação para toda aquela forma de agir. Lia a Bíblia, o Evangelho segundo o espiritismo, todos os diários que foram publicados à época, inclusive o de Anne Frank, uma menina judia que tinha sido posta no campo de concentração durante o nazismo. Lia livros de psicologia e de comportamento, romances de Jorge Amado, Graciliano Ramos, Machado de Assis, temas políticos e sociais e o que me caísse às mãos. Foi quando, na minha busca interior, tentei enveredar pela pintura, pela poesia, culinária, mas nada dava certo, eu não conseguia me encontrar.

Aqueles complexos e sentimentos negativos me perseguiam. Sentimentos reprimidos que me impediam de crescer, como se eu estivesse presa a uma teia de acontecimentos passados, que impediam que eu fosse adiante, que progredisse a minha criatividade e a minha intelectualidade. E como a “Cinderela” descrita por Colete Dowling, eu ainda esperava por algo externo, que viesse transformar minha vida, como num passe de mágica. (* Outro capítulo do  meu livro Mosaicos do Tempo)
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