sábado, 30 de agosto de 2014

Marcas do tempo

Olívia de Cássia – jornalista

Olho-me no espelho e vejo as marcas do tempo no meu rosto: mais uma ruga me apareceu, olhar modificado por conta da questão de saúde: estou diferente. A Doença de Machado Joseph (DMJ) vai modificando o olhar da gente, o semblante.

Eu me policio frequentemente, com medo de ficar com aquele jeito espantado, meio alienado, como meu irmão e meu pai. Já não tenho a meiguice da meninice e nem olhar matreiro da juventude e da adolescência.

Não posso dizer que não vivi aventuras na minha vida, mas olhando agora, bem de longe do meu passado, no alto dos meus 54 anos, e percebo que queria ter vivido mais, com mais intensidade.

Minhas experiências daquela fase foram  inocentes e desprovidas de malícia e às vezes fico comparando com o que vivem os  jovens de agora. Tive minhas vivências próprias de cada fase da idade, mas sinto ainda como se faltasse muito para viver.

Quero viajar, conhecer mundos, pessoas, viver outros momentos da idade de agora. Acho que se eu tiver que ir agora não iria completa, sem ter vivido tudo o que eu queria e aproveitado a vida muito mais. Se pudesse ter uma chance de fazer essa reivindicação, eu pediria. Se pudesse voltar, queria voltar para dar continuidade aos projetos idealizados, sonhados, desejados.

Fui almoçar no shopping hoje e encontrei uma colega da pré-adolescência, com a filha. Na década de 1970 ela ia passar as férias na casa da família, em União e se pôs a perguntar por todo mundo, queria saber das pessoas, dos nossos amigos e conhecidos, sobre o que fizeram da vida.  

Engraçado esses momentos. Saí dali pensando em como a vida vai distanciando  a gente e nos separando das pessoas e muitas vezes de tudo. Cada um vai procurando seu caminho: alguns se perderam, outros foram muito felizes em suas escolhas.

Eu não posso dizer que seja infeliz nas minhas e se me coloco às vezes pensativa e interrogativa é porque eu penso que eu poderia estar em situação melhor.

Dizem que a gente colhe o que planta e que nossa vida é fruto de nossas escolhas, mas eu não escolhi ser herdeira de um problema hereditário que vai nos limitando a cada dia e nos impossibilitando os movimentos, ninguém escolhe isso para sua vida.

É um problema que vai limitando você com um tempo, às vezes rapidamente, em outras situações mais lentamente.  Tem gente que o problema chega com mais intensidade e a pessoa se entrega com mais facilidade, mas eu não quero me entregar, apesar das limitações.

Eu quero e preciso  viver ainda bons momentos na vida, ter o que compartilhar com outros, escrever muito e falar dos meus sentimentos; ter boas atitudes, continuar amando meus animais e procurar ser melhor a cada dia. Boa tarde!
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Alguns instantes. Vivendo por aí...