sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Doces lembranças da infância

Olívia de Cássia - jornalista

Faltava água potável na Rua da Ponte nos anos 1960 e sendo assim, os moradores se valiam de favores e iam buscam água em uma cacimba na Fazenda Jurema, de propriedade de dr. Antônio Gomes de Barros ou no Rio Mundaú; mas para beber era a da cacimba da Jurema, que de tão transparente era azulada e ficava no pé da serra.

Era uma verdadeira romaria de mulheres e meninos com latas d’água na cabeça e a gente aproveitava para pegar manga e observar o gado da fazenda. Para nossa visão de criança era tudo encantado e eu ficava entre curiosa e deslumbrada ao mesmo tempo com aquilo tudo.

Na outra casa nossa, vizinha ao armazém de compras e cereais, tinha um poço muito fundo, mas a água era salobra e só prestava para tomar banho e lavar roupa. Quando nos mudamos de lá e papai vendeu o imóvel, os novos proprietários mandaram aterrar.

Papai chegou a ter umas seis ou sete casas na Rua da Ponte, que ele alugava para ajudar no orçamento doméstico, além da mercearia e do armazém, de onde tirava o nosso sustento.

Na mercearia meu pai vendia de tudo um pouco: alimentos, produtos de limpeza e higiene e outros objetos de consumo, pois naquela época não havia supermercado e nem loja de conveniência em União dos Palmares.

E logo cedinho meu pai levantava para ir vender o pão para que os moradores pudessem tomar o café. Meu Pai tinha muitos fregueses, mas a maior parte da freguesia comprava fiado, e ele anotava tudo em uma pequena caderneta, para ter controle das finanças.

Quando meu pai se aposentou não teve coragem de fazer todas as cobranças para os devedores, delegou isso para o meu irmão Paulinho, mas muita conta ficou por isso mesmo. Assim era o meu pai. Um homem honesto, religioso e trabalhador.

Seu João Jonas não parava de trabalhar: era o dia todo na lida; fosse na mercearia ou  descarregando mercadoria que os matutos traziam dos sítios para vender no armazém. Meu pai só parou de trabalhar quando precisou se aposentar por conta da Doença de Machado Joseph, que fazia com que levasse muitas quedas na rua e ele não pôde mais caminhar.

Quando a noite chegava, ele ainda ficava ali, até que não tivesse mais freguês, ouvindo aquelas conversas dos bêbados, mas com toda  paciência do mundo. Muitas vezes eu ficava na cadeira de balanço com meu avô, na porta da mercearia, contando carneirinhos nas nuvens, tomando guaraná e ouvindo as muitas histórias do meu avô, que era um herói para mim.

Quando eu ia para a Barriguda passar as férias escolares, era com meu tio Antônio Paes que eu mais dividia os momentos mágicos, quando não estava brincando com minhas primas. Quando meu tio apontava lá em baixo no lombo do burro, eu corria com a boneca na mão para encontrá-lo e vir na garupa do burro com ele.

Tio Antônio ele me colocava no colo e me contava as histórias da nossa família. E como ele tinha histórias engraçadas para dividir com aquela criança que eu era; curiosa e aflita de informações!

Em tempo de moagem no velho engenho, nós cutucávamos os bois da almanjarra, com um ferro pontiagudo e em cima de uma espécie de banquinho colocado em uma linha, tudo puxado por bois; um deles se chamava Laranjeira e tinha um touro nelore chamado Presidente.

Além do engenho tinha a casa de farinha, que produzia também beiju, um iguaria parecida  com a tapioca e deliciosa que os trabalhadores e trabalhadoras, moradores  do engenho do meu tio faziam. Na casa dos meus tios Antônio e Marieta, na Barriguda, eu vivi muitas aventuras de criança, aventuras que ficaram para sempre na minha memória e que me fazem muito feliz lembrar.
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