sábado, 21 de novembro de 2015

Zumbi é celebrado em União dos Palmares com discursos contra o ódio e a intolerância racial

Escrito por Olívia de Cássia – Repórter 


O Dia da Consciência Negra, sexta-feira, 20, foi pautado de discursos das autoridades contra o racismo e a intolerância. Debaixo de um sol escaldante, militantes, simpatizantes, população local e visitantes foram reverenciar Zumbi dos Palmares, durante todo o de ontem, na Serra da Barriga, onde o herói liderou, viveu e morreu há 320 anos.

Segundo Cida Abreu, o conselho tem um papel fundamental de colaborar, contribuir e fiscalizar ações de políticas públicas para a cultura Afro-brasileira no país. Fotos: Olívia de Cássia

 No espaço do Parque Memorial onde Zumbi se reunia com seus conselheiros, a presidente da Fundação Palmares, Maria Aparecida da Silva Abreu (Cida Abreu) deu posse ao Conselho Curador, que faz parte da constituição da diretoria da Fundação Palmares. São dez membros: seis da sociedade civil e quatro do governo.
Segundo Cida Abreu, o conselho tem um papel fundamental de colaborar, contribuir e fiscalizar ações de políticas públicas para a cultura Afro-brasileira no país.
A secretária de Cultura, Melina Freitas, disse o momento simbólico é importante  não só para Alagoas, mas para todo o mundo. “A Serra da Barriga é um símbolo de liberdade, terra de Zumbi, um herói universal, e nós entendemos ser esse um momento para reflexão, da importância que povo negro tem para a cultura de todo o povo brasileiro. Trabalhamos  para que não seja apenas um dia”, disse ela.
O prefeito de União dos Palmares, Eduardo Pedroza, disse que estava emocionado com a solenidade. “Estou muito alegre com as autoridades que estão vindo aqui hoje em União, para nossa terra querida, terra essa que amo, onde eu nasci e também pelo 20 de novembro, que é muito importante para a cidade”, ressaltou.


O prefeito de União dos Palmares, Eduardo Pedroza, disse que fez uma parceria e se for uma vírgula para a Serra da Barriga ele vai colocar. 
O prefeito disse ainda que fez  uma parceria com a secretária de Cultura [Melina Freitas] e com a presidente da Fundação Palmares [Cida Abeu], “para que a gente não deixe que as atividades fiquem apenas no dia 20. Já entremos em contato e assumi um compromisso de que se vier uma vírgula para a Serra da Barriga, eu vou vir colocar”, observou.
Ainda na solenidade de posse dos conselheiros, a representante do escritório da Fundação Palmares em Alagoas e região, jornalista Élida Miranda, disse que o 20 de novembro é a data máxima da simbologia, na luta pela valorização da cultura afro-brasileira no combate ao racismo e todas as formas de intolerância.

“Estamos fazendo um debate, nesse Mês da Consciência Negra: seminário sobre o turismo étnico, na perspectiva da economia, como transformar a Serra da Barriga num grande roteiro turístico, cultural e histórico e possa contribuir com a economia da cidade de União dos Palmares e do Estado de Alagoas, trazendo o diferencial histórico, aquecendo a economia e reafirmando a nossa identidade negra”, destacou.
A representante do escritório da FCP em Alagoas disse ainda que o turismo ético vem dar uma resposta à reclamação da subutilização da Serra da Barriga durante o ano todo. É preciso melhorar o acesso; fazer com que o turismo desse espaço sagrado seja viável  no cotidiano. Outra prioridade, segundo Élida Miranda,  é  a questão dos capoeiristas, como fortalecer e valorizar essa questão, que os capoeiristas vêm defendendo. Sobre a questão da juventude, ela disse que foi feito um seminário para dar um não, um basta ao genocídio da juventude negra. “A gente não pode permitir que esse tipo de coisa aconteça e Alagoas é um dos estados com maior índice de violência contra jovens negros pobres e esse debate precisa ser feito e será uma bandeira encampada por nós ao longo dos anos”, pontuou.
No palanque oficial governador Renan Filho repudia violência na Marcha das Mulheres Negras
Depois da posse dos conselheiros, aconteceu a atividade oficial, no palanque central das atividades comemorativas ao 20 de novembro. Com presenças de personalidades como: o ministro da Cultura, Juca Fereira; deputados; secretários de Estado e artistas como Arlindo Cruz, Henri Castelli, ambos da Globo, o governador Renan Filho fez uma fala repudiando a violência cometida no dia 18, durante a Marcha Nacional das Mulheres, em Brasília.
 O governador pediu autorização do ministro Juca Ferreira para dispensar a nominata por conta do calor escaldante que estava fazendo na serra, próximo ao meio dia e para dispensar o discurso preparado. “Vou publicá-lo nas minhas redes sociais para que as pessoas possam ter acesso depois”, disse o governador.
Renan Filho disse que o que aconteceu na Marcha Nacional das Mulheres Negras, em Brasília, foi uma atitude arbitrária, “de simpatizantes de uma coisa ultrapassada que chama-se ditadura militar, sem tolerância; sem reconhecimento do direito da raça negra, eles entraram na Marcha, sacaram armas e atiraram para cima para intimidar. Não vão nos intimidar, como lá atrás não intimidaram”, destacou.
O governador disse ainda que na Serra da Barriga e em todo o Brasil ecoa esse voto de pesar contra a intolerância. Outro destaque à fala do governador foi sobre um apelo que disse que fará pessoalmente à presidente Dilma Roussef: a vinda da Fundação Palmares para União, observando  que alguns lugares do mundo têm muita legitimidade, segundo ele.
“O Rio de Janeiro tem o cristo Redentor; São Paulo, legitimidade de ser um dos grandes produtores econômicos do Brasil; Alagoas, a legitimidade de ser o Estado da resistência, da luta pela liberdade, onde ecoaram os primeiros sintomas de que quando o ser humano resiste,  a coisa verdadeiramente acontece”, disse ele.
Renan Filho também observou que nesse grito que começou a ecoar no Quilombo dos Palmares,  se conseguiu criar, muitos anos depois,  muitas coisas que organizam a nossa sociedade: “Democracia e a cidadania e é por isso que em nome dos alagoanos: ministro Juca Ferreira,  leve à presidente da República, para estar aqui em Alagoas, a Fundação Palmares, na terra de Zumbi dos Palmares. EE quando a Fundação vier para cá, tudo será facilitado, para que a gente recupere o sítio histórico, faça valer a cidade de União dos Palmares”, pontuou.
DIFICULDADE
O governador disse ainda que o Estado vive um momento de dificuldade, com a questão da violência. “Espero que ao final desse ano, podemos ver o Alagoas como não mais o mais violento do Brasil: talvez incluído entre os cinco, nem entre os cinco”.
Segundo o governador, é preciso para com a matança de jovens negros, ou que tenham preferência sexual diferente, orientação religiosa, para que, em homenagem à história de Zumbi dos Palmares, podemos acabar com a intolerância e colher a paz.
Consulesa da França disse que é preciso ter mais brancos ao lado dos negros
A consulesa da França, Alexandra Loras, disse que acha importante historicamente celebrar o Dia da Consciência Negra “e emponderar  o povo negro ao lado dos brancos, porque hoje o racismo precisa mais ser debatido no ativismo negro”, ressaltou.

Segundo Alexandra Loras, ainda tem muito para fazer, para resgatar a autoestima do negro. João Paulo Farias.

Segundo Alexandra Lora, é preciso “ter mais brancos ao nosso lado, para entender como é difícil se desenvolver numa sociedade que só incentiva acusações ou estimativas ao redor do negro. Já chega a estigmatização na televisão,  em que os personagens nas novelas de mulheres em cargos serviçais como faxineiras, babás ou como pessoas que destroem os casamentos dos brancos ricos”, pontua.
A autoridade francesa disse ainda que é preciso ver mulheres negras sendo juízas, advogadas, médicas. “Precisamos ver homens  professores e governadores negros; mudar e deixar o homem e a mulher negra entrarem em todos os setores da sociedade. Hoje é importante, porque temos ainda 85% das crianças negras que escolhem a boneca branca como a bonita e a boazinha e a negra como a feia e a má”, explicou.
Segundo Alexandra Loras, ainda tem muito para fazer, para resgatar a autoestima do negro. “Ainda sobrevive uma mancha da escravidão; precisamos deixar entrar nos livros didáticos grande figuras negras como: Teodora Sampaio; Machado de Assis. É muito importante saber que a geladeira foi inventada por negros; que o marca passo;  a antena parabólica também. Incentivar coisas positivas sobre o povo negro”, avalia.
A consulesa da frança disse ainda que é preciso também “tirar das costas do branco a mochila do passado; marchar todos juntos para deixar esse país, que tem mais negros no mundo, depois da Nigéria, ter uma representatividade nas empresas brasileiras”, ressalta.
FUNDO DE COMBATE AO RACISMO
 Mário Teodoro, de Brasília, da Campanha Nacional pelo Fundo Nacional de Combate ao Racismo, Fundo semelhante ao que foi criado no Estado. Ele disse que sua vinda a Alagoas no dia 20 foi para homenagear a iniciativa do governador, “uma iniciativa pioneira e que vai ajudar muito a construção do Fundo Nacional. Agora vamos correr todo o Brasil, noticiando que alguns estados tem e a primazia de Alagoas na elaboração de um fundo que vai dar recurso para a questão da igualdade racial no Brasil, que é fundamental”, observou.
Preço cobrado por condutores, assustou quem quis ir à serra
 Todos os anos, para se subir a serra, o visitante e o nativo passam por alguma dificuldade e sempre há muita reclamação. Ontem o impedimento maior era a cobrança exorbitante de taxistas e mototaxistas, que cobraram preços salgados para que quem quisesse participar do evento no platô da serra.
Da rodoviária de União até o pé da serra, estava sendo cobrado R$ 4; de lá até o local dos eventos, R$ 20, fato que causou muita reclamação de quem foi até o Parque Memorial Quilombo dos Palmares.

Seu Linaldo Genésio da Silva, mais conhecido como Dinho, é artesão, comercializa artesanatos com a temática de Zumbi. Olívia de Cássia

Seu Linaldo Genésio da Silva, mais conhecido como Dinho, é artesão, comercializa artesanatos com a temática de Zumbi e a Serra da Barriga no espaço cultural da antiga Estação Ferroviária de União e estava expondo e vendendo seus produtos na Serra.
Ele disse que trabalha com artesanato desde os dez anos e faz material de pintura de quadros, argila, bancos, Os preços variam dependendo do tamanho da peça e do trabalho empregado para fazê-lo. “Tem Preto Velho, tem Zumbi, o pescador e espero vender muito hoje”, disse ele.
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