Piloto surdo luta por reconhecimento no país


João Paulo é o primeiro portador de deficiência apto a voar e sonha mudar a legislação brasileira
Olívia de Cássia - Repórter

Apaixonado por aviação, João Paulo Marinho dos Santos, 29 anos, tem problemas de audição e é o primeiro piloto com deficiência auditiva apto a voar no Brasil, mas esbarra na legislação brasileira. Ele luta por reconhecimento junto à Anac [Agência Nacional de Aviação Civil] pelo direito de pilotar aeronaves e exercer a função de piloto privado no país.
Graduado em Ciências da Computação, João Paulo trabalha na Casa da Indústria, já trabalhou em Recife em empresas na área de tecnologia e colocou vários vídeos no You Tube, objetivando chamar a atenção das autoridades brasileiras. Fotos: Paulo Tourinho
 O jovem comenta que levou sua demanda para o governador Renan Filho (PMDB), que ficou sensibilizado com sua reivindicação e se propôs a verificar os meios possíveis para ajudar João Paulo. Graduado em Ciências da Computação, João Paulo trabalha na Casa da Indústria, já trabalhou em Recife em empresas na área de tecnologia e colocou vários vídeos no You Tube, objetivando chamar a atenção das autoridades brasileiras.
João Paulo é credenciado desde 2013 como o primeiro piloto surdo do Brasil, segundo a Escola de Aviação Civil NAV Treinamentos, no Recife. Confiram os vídeos provando suas habilidades na pilotagem: http://www.youtube.com/watch?v=sd1zXr87f18 ehttp://www.youtube.com/watch?v=1q3GC1IIg-I.
O Primeiro Momento foi conversar com João Paulo, por intermédio do pai, Paulo Marinho, e da intérprete de Libras Kelly Oliveira, para contar a história do jovem aos nossos leitores. João Paulo nasceu com perda da audição devido a problemas durante a gestação e vem tentando inserir à lei brasileira um dispositivo que lhe permita voar, a exemplo do que já existe nos Estados Unidos.
“Lá, já é possível para surdos conseguirem a certificação de piloto de avião, mas com restrições. Surdos podem ser pilotos em modalidades que não requerem comunicação via rádio – por exemplo, pilotando aviões usados na agricultura, ou aqueles com propagandas”, explica.
Nos EUA É permitido ser piloto “privado” ou “recreacional”, mas não em outras modalidades (A regulamentação pode ser encontrada, em inglês, no site da FAA, autoridade aeronáutica dos EUA: http://www.faa.gov/pilots/become/deaf_pilot/).
Segundo ele, isto é possível porque, em certas condições, em aeroportos menores onde não há torre de comando, o piloto confere visualmente se há outros aviões na rota antes de decolar ou pousar. “Nestes casos, a surdez não atrapalha. A presença de um instrutor ouvinte pode ajudar. Mas há limitações com relação aos modelos de aviões e condições de voo”, destaca.
PERSISTÊNCIA
A questão é muito complicada, mas  seu Paulo Marinho comenta que à época da graduação do filho, toda vez que chegava em casa, reclamava dessas dificuldades, “mas eu já disse para ele que não pode pular as etapas, tem que ir devagar, tudo é uma caminhada. Se fosse desse jeito não seria bom, porque aí você não valoriza e do jeito que ele fala, pensa que vai conseguir logo”, comenta Paulo Marinho, pai do jovem.
Segundo seu Paulo, João quer transformar o hobby de voar em uma profissão e vem tentando articular com a Anac a mudança na legislação e a inclusão do sistema Padrão Surdo da Aviação. Foto: Paulo Tourinho
Segundo seu Paulo, João quer transformar o hobby de voar em uma profissão e vem tentando articular com a Anac a mudança na legislação e a inclusão do sistema Padrão Surdo da Aviação. “Caso este novo modelo seja adotado no Brasil, aeronaves terão equipamentos com tecnologia adequada para converter informações em textos, garantindo acessibilidade durante os voos para pilotos com deficiência auditiva total”, explica.
“Já estive algumas vezes com diretores da Anac conversando exatamente sobre essa mudança na legislação para contemplar os portadores de deficiência. Mostrei a eles que vem crescendo no país o número de surdos interessados em pilotar aeronaves e que, apesar da limitação auditiva, todos nós somos capazes de guiar aeronaves com segurança”, pontua.

Regulamento diz que candidato deve ser capaz de ouvir com intensidade normal

O Regulamento Brasileiro da Aviação Civil n° 67, que trata dos requisitos para a concessão de Certificado Médico Aeronáutico (CMA), no item 67.221, dispõe que o candidato deve ser capaz de ouvir uma voz em intensidade normal em pelo menos um dos ouvidos. Segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), esse regulamento já foi entregue por diretores da agência a representantes de surdos interessados na carreira de piloto.
Entretanto, aprovado nos testes teóricos da Escola de Aviação Civil de Piloto Privado, no Recife, e reprovado no CMA devido à deficiência auditiva, João Paulo vem tentando que o Brasil incorpore, assim como há em outros países, princípios para inclusão de pessoas com perda total da audição na aviação brasileira.
“A mudança da legislação com a inclusão de princípios que beneficiem portadores de necessidades especiais é necessária para que pessoas surdas possam exercer a função de piloto de aeronaves no país. Em outros lugares, a exemplo dos Estados Unidos, pilotos surdos operam até mesmo aviões comerciais de grande porte, a exemplo de Airbus e Boeing”, pontua João Paulo.
Seu Paulo é administrador de empresas e gerencia um condomínio em Maceió e conta que João Paulo é o mais velho e que tem mais duas filhas. “Eu diria que João Paulo é um desafio; eu e minha esposa demos  para ele tudo o que tínhamos de melhor”, observa.
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