sábado, 8 de março de 2014

Mulheres fazem ato público em comemoração ao Dia 8 de março

Atividades  prosseguem durante  todo o mês de março,
com palestras, Roda de Conversa e seminário
(Fotos: Sandro Lima)
Olívia de Cássia – Repórter

 A passagem do dia 8 de maço, Dia Internacional da Mulher, comemorado neste sábado, foi lembrada no Estado com atos públicos, durante todo o dia de ontem, organizados pela Central Única dos Trabalhadores em Alagoas (CUT-AL) e suas entidades filiadas, em conjunto com os movimentos sociais: de mulheres, sem-teto, Movimento por Moradia, entre outros e contou cm a presença do deputado  Judson Cabral (PT), único parlamentar no evento.

Segundo a presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT\AL) e integrante da Marcha Mundial das Mulheres, Amélia Fernandes, as  atividades vão se estender durante todo o mês de março, com uma programação variada, que vai de Roda de Conversa, a palestras e seminários educativos que terão temas variados.

As mulheres ativistas alagoanas se concentraram no Calçadão do Comércio, em frente ao antigo Produban e realizaram um ato público, com batucada, seguindo em caminhada pelas ruas do Centro de Maceió. 

Presidente da CUT\AL Amélia Fernandes
No ato público, lembraram que a campanha deste ano teve como tema: “Liberdade, Igualdade e Autonomia”, direitos que costumam ser violados nos locais de trabalho, no próprio lar e na sociedade e distribuíram cartilhas e panfletos para quem passava no local.

Segundo Amélia Fernandes, o dia 8 de março é um dia histórico, em que as mulheres do mundo inteiro se reúnem para fazer uma reflexão sobre a sua condição na sociedade e sobre quais as políticas necessárias para promoverem a qualidade de vida delas.

“A questão da violência contra a mulher que vem aumentando, políticas públicas da saúde; da educação, igualdade de oportunidades, ocupação dos espaços de poder, para mudar a sociedade na lógica feminina da mulher, que vem sofrendo preconceito só pelo fato de ser mulher, entre outros temas”, observou.

Segundo os dados distribuídos na cartilha para comemorar o 8 de março, a pesquisa Violência contra a mulher: feminicídios no Brasil, coordenada pela técnica de Planejamento e Pesquisa do Instituto Leila Posenato Garcia, apresentada na Comissão de Seguridade Social da Câmara dos Deputados, na última semana de fevereiro, Alagoas está em terceiro lugar no ranking da violência.

Os dados do documento indicam que  o Espírito Santo é o estado brasileiro com a maior taxa de feminicídios, 11,24 a cada cem mil, seguido por Bahia (9, 08) e Alagoas (8,84). A região com as piores taxas é o Nordeste, que apresentou 56,9 casos a cada 100 mil mulheres.  

Depois das falas das lideranças e também do deputado Judson  Cabral (PT) as mulheres saíram pacificamente em caminhada pelas ruas do Comércio,  segundo Amélia Fernandes,  com o objetivo de dialogar com a sociedade  sobre a importância do 8 de maço “e junto com a Secretaria da Mulher da CUT e Marcha das Mulheres,  realizar uma programação até o dia 30 de março, com Roda de Conversa com mulheres, com o tema Combate à Violência, em Maceió e Arapiraca, diversos bairros, participação do Encontro de Trabalhadoras do Sinteal; Seminário de Formação da Marcha das Mulheres, na Barra de São Miguel, entre outras atividades”, explicou.

Maria Justino é do Movimento por Moradia e estava participando do ato público em comemoração ao 8 de março, acompanhada da mãe, dona Luzia Maria, 65 anos, e da filha, Patrícia, uma adolescente de 16 anos. Ela contou à reportagem que está no movimento  com o objetivo de ganhar uma casa.

“Estou aqui com minha mãe e minha filha, participando dessa luta, porque acho importante; a mulher é forte e precisa se dá valor, minha filha. Na minha casa eu trabalho como diarista, minha mãe é aposentada rural e sustento minha filha, que está atrasada no estudo”, disse ela.

Socióloga diz que data significa a continuação da luta pela igualdade de gêneros

A socióloga e professor-doutora  Belmira Magalhães, da Universidade Federal de Alagas (Ufal), disse que o 8 de março significa a continuação da luta pela igualdade de gêneros e por uma sociedade justa. Ela observou que as mulheres têm que continuar lutando e procurando entender as causas da situação que privilegia alguns na sociedade.  

Segundo Belmira Magalhães, os avanços conseguidos pelas mulheres brasileiras, como a ascensão no mercado de trabalho; o direito ao voto, a chegada à universidade e pela primeira vez na história, o cargo mais importante do País, tem o significado de que a luta empreendida sob a liderança das mulheres tem alcançados muitas conquistas.

A professora observa que o extrato feminino da sociedade tem que continuar lutando “contra o patriarcalismo que assola a sociedade e permite a violência contras as mulheres, das mais diferentes formas”, avalia. 

Segundo Belmira Magalhães, essa mesma sociedade ainda reserva para as mulheres como atividade principal os cuidados domésticos com filhos, maridos, idosos e a casa . “Enfim, as outras atividades são sempre vistas como secundárias e subjugadas ao tempo de trabalho não doméstico”, pontua.

Ela destaca que, para assegurar a igualdade de gênero, ainda falta transformar a sociedade como um todo no espaço de igual em todas as oportunidades, sem divisão de classes e sem preconceitos.

A  socióloga avalia ainda que há um crescente aumento da violência em geral na sociedade brasileira e um aprofundamento das relações conservadoras e moralizantes que permitem violência contra as mulheres em geral, homossexuais, pobres,  entre  outros setores.

RECUO

Com relação ao recuo do movimento de mulheres, diferente de décadas atrás, ela analisa que, da mesma forma que foram alcançadas algumas conquistas “e agora chegamos a um momento de aprofundamento das relações de gênero, a luta se torna mais difícil e alguns movimentos não conseguem acompanhar. É importante ressaltar que todos os movimentos sociais sofrem esses mesmo problema”,  destaca.

Data é um marco histórico para os movimentos sociais

Para a professora-doutora  Elvira Simões Barretto, assistente social e coordenadora do Núcleo Temático da Universidade Federal de Alagoas, o 8 de março é um marco histórico e político para evidenciar publicamente as injustiças vivenciadas pelas mulheres no decorrer da história. Uma dessas injustiças, segundo ela, é o salário desigual para funções semelhantes.

A assistente social observa que a manutenção de salários inferiores das mulheres em relação aos homens no âmbito do trabalho formal, apesar de tantas conquistas, “é a explicitação de uma discriminação histórica vivenciada pelas mulheres, mesmo quando o mundo ocidental atinge a era moderna e proclama que todos são iguais perante a lei”, observa.

Elvira  Barretto analisa que a lógica de desvalorização da mão-de-obra feminina rebate nas pessoas individualmente, mulheres e homens, reproduzindo o não reconhecimento social e o precário  autorreconhecimento pessoal do direito, enquanto mulher, a um salário que tenha equivalência ao lucro gerado pelo seu trabalho.

Lei Maria da Penha foi uma das maiores conquistas

A Lei Maria da Penha foi uma das maiores conquistas das mulheres e foi criada para protegê-las contra a violência doméstica e familiar. Além de punir o agressor, esta lei tipifica a violência doméstica e oferta as medidas protetivas de urgência. Mas apesar da lei, a violência contra a mulher cresce todos os dias, como mostra o noticiário policial.

Elvira Barreto pontua que a sociedade contemporânea é marcada pela complexidade socioeconômica e cultural, com paradoxos até então não existentes. “Essa complexidade e seus paradoxos repercutem nas relações socioafetivas, seja nas relações entre pais e filhos\as, alunos/as e professores/as, entre casais, como fica evidenciado na mídia ao publicizar cotidianamente as mais diversas manifestações de violência”, argumenta.

Segundo a assistente social, podemos afirmar que a violência contra a mulher é uma das expressões desse paradoxo: “As mulheres conquistam direitos, a sociedade passa a reconhecer publicamente que homens e mulheres têm direitos iguais, entre outras conquistas; entretanto, ainda não foi superada a cultura patriarcal --o homem com o poder de mando e sentimento de propriedade sobre a mulher e a mulher com o sentimento de subserviência em relação ao homem -- nas relações afetivas e amorosas. O que ocorre?  Deparamo-nos com uma armadilha que põe em risco muitas vidas”, reforça.

Para mudar esse quadro de violência a professora avalia que é preciso fortalecer o movimento feminista e das mulheres no Estado de Alagoas. “É importante, também, o investimento no sistema de educação pública e privada, no que concerne a educação em direitos humanos na perspectiva da igualdade de gênero, da valorização da diversidade étnico-racial e do respeito à diversidade sexual”, destaca.

HISTÓRIA

O 8  de março foi  adotado para se comemorar o Dia Internacional da Mulher,  para homenagear as trabalhadoras têxteis da fábrica  Coton, de Nova York que foram queimadas vivas por reivindicarem diminuição da jornada de trabalho para dez horas (as fábricas exigiam 16 horas de trabalho diário), equiparação de salários com os homens (as mulheres chegavam a receber até um terço do salário de um homem, para executar o mesmo tipo de trabalho) e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho.

A manifestação foi reprimida com total violência. As mulheres foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada. Aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas, num ato totalmente desumano.

Porém, somente no ano de 1910, durante uma conferência na Dinamarca, ficou decidido que o 8 de março passaria a ser o "Dia Internacional da Mulher", em homenagem as mulheres que morreram na fábrica em 1857. Mas somente no ano de 1975, por meio de um decreto, a data foi oficializada pela ONU (Organização das Nações Unidas).
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