quarta-feira, 26 de março de 2014

Minha mãe Antônia

Olívia de Cássia - jornalista

Minha mãe era uma pessoa obstinada e cética em alguns casos. Quando queria uma coisa ia à luta e ai de quem se atravessasse no caminho dela, principalmente se o objetivo fosse com relação aos filhos.  Se algum menino se aproximasse de mim, ela não contava história: ia na casa dele e falava com os pais, para pedir que se afastassem de mim. Ela era assim, possessiva.  

Quando terminei o ginásio, no Colégio Cenecista Santa Maria Madalena, em União dos Palmares, da mesma forma que ela tinha feito com relação aos meus irmãos, conseguiu uma bolsa de estudos para mim, com a esposa de seu Ezíquio Correia, então prefeito de União, para que eu estudasse em Maceió e pudesse ter um trocado para pagar a passagem do ônibus e o lanche.

Vim estudar na Escola Moreira e Silva, no Cepa, para fazer o Científico, pois queria fazer vestibular e m União, naquela época, só tinha o curso normal, o pedagógico. Terminei a oitava série ginasial em 1975 e em 76 já estava na escola, em Maceió. Naquela época, escola pública era valorizada e lá estudavam muitas lideranças que hoje assumiram cargos importantes no Estado e na política.

Fui morar numa casinha velha, de poucos recursos, de propriedade de seu Marinho, um senhor que possuía várias casinhas de aluguel em Maceió, no Centro e redondezas. A casa  já era na Vieira Perdigão, coincidentemente a rua que moro hoje.

Meus irmãos tinham transformado numa pequena república, onde abrigava vários estudantes de União, mas quando eu cheguei lá eles saíram e ficamos eu e meu querido irmão Petrônio, que já cursava o terceiro ano no Moreira.

Dona Antônia queria ter uma filha médica, custasse o que custasse, mas essa não era a minha seara e creio que para ela foi a maior decepção da vida, quando fui reprovada no meu primeiro vestibular, que fiz para Medicina para agradá-la;  anos depois quando fiz para Comunicação Social e fui aprovada, depois de várias tentativas, ela não aguentou e desabafou: “O curso é tão ruim que foi o último que anunciaram na televisão”.

Em 1982, naquela época, o saudoso Luiz Tojal anunciava os aprovados na Ufal, pela TV Alagoas e falava todos os cursos: Comunicação foi o último e quando meu nome foi anunciado eu nem acreditei e na casa da minha tia Ozória caí em prantos.

Fomos para a antiga Reitoria comprar o kit do fera, eu e minha prima Rejane, que também tinha sido aprovada em Educação Física e no outro dia, de madrugada, viajamos de trem, devidamente vestidas nas nossas camisas de fera, para União dos Palmares, cantarolando músicas da MPB.

Lembrar toda aquela fase  traz um misto de saudade e contentamento, por ter realizado meu sonho de ter sido aprovada no curso que eu queria, pois fazer jornalismo, escrever ou ser escritora era meu sonho da infância, mesmo com as opiniões contrárias de mamãe.

Os perrengues que passamos na profissão são imensos, mas quando fazemos aquilo que gostamos, com amor e dedicação, a vida fica mais leve e podemos dizer que somos felizes, apensar de tudo.

Mas a obstinação da minha mãe não parou e ela continuou a lutar por aquilo que queria, até quando ficou mais debilitada e colocou uma ideia na cabeça: pedir de presente a família, o túmulo da prima Luiza que ela tanto gostava.


Ela queria ser sepultada no local e assim, toda semana ela ia varrer e cuidar do local, até que veio a falecer e foi sepultada, junto da prima que tanto admirava.  Estranhamente não quis ficar junto do meu pai e dos meus avós. Assim era minha mãe: forte, destemida e cética e quem quisesse atravessar na sua frente ela passava por cima. 
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