domingo, 23 de março de 2014

Veterinários, protetores e donos querem cemitério para animais

Fotos: Adailson Calheiros
Rinaldo Ferro sugere que em Maceió seja instalado um local,
 onde o proprietário possa velar o seu animal
Olívia de Cássia – Repórter
A relação do homem com os animais de estimação é muito antiga e quem os tem em casa cria laços de afeto e amizade. Atualmente, são tratados como membros da família, recebendo todo carinho e atenção. Só quem tem animal em casa e os ama pode entender essa relação de cumplicidade e afeto.
Mas como fazer quando esses laços são interrompidos intempestivamente pela morte do amigo e companheiro de tantos anos e não se tem um local apropriado para colocar o corpo?  A reportagem da Tribuna Independente foi ouvir proprietários, cuidadores e veterinários sobre a falta de cemitérios para animais na capital alagoana, que já dá mostras de crescimento populacional, mas falta urbanidade em alguns aspectos.
Todos os personagens ouvidos nessa matéria reclamaram a falta desse serviço e o problema que acarreta à saúde pública, quando os animais mortos são jogados e deixados em terrenos baldios, contaminando o meio ambiente. O problema vem se acentuando e é uma questão de saúde pública que precisa ser resolvida urgentemente.
A jornalista Luciana Martins perdeu o seu cão de estimação e da mesma forma que mora em apartamento, se viu em apuros por dois motivos: pela tristeza de ter perdido o amigo e pela preocupação por não ter onde fazer o descarte do corpo.
“Tive um cachorrinho que conviveu comigo e meus familiares ao longo de 17 anos e faleceu por velhice. A doença chegou de forma rápida, o rim deixou de funcionar e em apenas três dias ele não resistiu, apesar de todos os esforços do veterinário e nosso; eu me vi numa situação desesperadora porque moro em apartamento e não sabia onde enterrá-lo”, observa.
Luciana Martins conta que o veterinário orientou que procurasse a casa de um parente ou de um amigo para enterrá-lo, mas ela disse que os seus familiares mais próximos também moram em apartamento.
“Lógico que eu não queria jogar o meu cachorro no lixo, afinal foram 17 anos de convivência e quem tem um animal sabe o apego que se cria; é como se fossem um membro da família. Quem cuida de um parente idoso, quando ele morre quer jogar no lixo? Tenho certeza que não e esse também foi o meu sentimento”, ressalta.
Anestesiada com a perda do animal e sem saber o que fazer, ela conta que a primeira ideia foi procurar um amigo da família: “Prontamente ele me disse que eu poderia enterrar num terreno, em sua casa, o que para mim foi maravilhoso porque sabia que o meu cão não estava largado, jogado por aí. Eu tive esta sorte e quem não tem? O que faz com seus bichinhos?”, indaga.
NECESSIDADE
A jornalista reforça a necessidade de em Maceió ter um cemitério para animais, com urgência, pois acredita que muitas pessoas devem enfrentar este mesmo problema. “Ter um lugar para enterrar um animal de estimação seria o ideal: do ponto de vista sentimental, pois o dono poderia visitar o seu animal quando sentisse saudade e também do ponto de vista da saúde da população”, pontua.
Ela lembra ainda o mau cheiro e as doenças que podem ser transmitidas pelo descarte dos animais em terrenos baldios e acrescenta que esse também é um problema de saúde pública. “As autoridades competentes deveriam pensar nisto”, sugere.
Proprietário diz que desistiu de ter animal em casa 
pelo atropelo que passou
O jornalista Gerônimo Vicente também passou pelo mesmo problema de Luciana Martins e relata o drama da família quando Flipper, o cão da família, teve um problema de saúde e morreu.  A questão agora era o local onde enterrá-lo.
“Ainda meio confuso com a notícia, peguei a lista telefônica e, na secção animais, achei uma clínica, no Benedito Bentes, que anunciava o funcionamento de um cemitério para animais”, explica.  Gerônimo Vicente disse que ligou para a clínica, ainda de madrugada, e foi atendido pelo vigilante do local. “Perguntei o preço e a resposta foi a de que o serviço custava R$ 700 (valor de 2010), quando ocorreu esse caso. Considerei altíssimo o preço, mas fiquei curioso com a novidade”, argumenta.
O jornalista destaca que diante da falta de opção para o enterro de Flipper, a família o levou para Coruripe, onde tem um imóvel com espaço, além de ter sido o local onde ele havia brincado muito nos dois anos de vida.
“Na volta, postei a novidade sobre o cemitério para cachorro em Maceió e, para minha surpresa, a maioria dos colegas desconhecia esse tipo de empreendimento e queria mais informações. Lembro que a jornalista Sílvia Falcão foi a primeira dos colegas a demonstrar interesse em saber sobre esse empreendimento”, relata.
Depois deste triste episódio, por falta de espaço e por apego demasiado ao animal, Gerônimo Vicente disse que prometeu não ter mais cachorro em casa, para evitar o drama que a família passou para enterrá-lo. “Imagino aquelas pessoas que não dispõem de opção e são obrigadas a jogar os animais mortos em lixões!”, exclama.
FARSA
A reportagem da Tribuna Independente apurou a informação sobre o cemitério de animais do Benedito Bentes e constatou que o local foi interditado e fechado, pelos órgãos públicos, porque, apesar de cobrar R$ 700 dos donos dos animais, os proprietários da clínica jogavam os pets em cova rasa ou em lixões. A história se espalhou por toda a cidade e a clínica foi autuada, interditada e fechada.
Na internet, em alguns sites, ainda permanece a informação do cemitério para animais em Maceió e também de outros bairros, mas quando a gente acessa os endereços são em outros estados do País.

Animais mortos são descartados nas clínicas como lixo hospitalar

Médica-veterinária Patrícia Magalhães
A veterinária Patrícia Karla de Luna Magalhães, proprietária de um centro veterinário no bairro do Poço, disse que soube desse caso e que na época os veterinários ficaram até animados quando souberam da existência de um cemitério, mas depois do acontecido, tudo ficou na mesma. “Outra informação é de uma pesquisa que foi feita em um evento no Centro de Convenções sobre um crematório para animais, mas depois não soubemos mais de nada”, disse.
Patrícia Magalhães explica como é feito o descarte dos animais mortos nas clínicas, na ausência de um cemitério apropriado: “As clínicas têm um frízer e esses animais quando vêm a óbito são colocados ali. A maioria tem convênio com uma empresa e quando tem cadáver eles passam para pegar. No nosso caso só fazemos o diagnóstico (Raio X, exames de fezes, de urina, de sangue) e a empresa faz o recolhimento do material de análise clínica como lixo hospitalar.
O veterinário Rinaldo Ferro, com especialidade em cardiopatia canina, observa que o cachorro deixou de ser aquele animal que vivia no quintal das casas e comia restos de comida. “Hoje ele está dentro de casa e é um filho de quatro patas para seus donos e quando chega aquele momento de se despedir, de ir embora, é aquele desespero”, observa.
Rinaldo Ferro observa que em sua especialidade muitos cães vêm a óbito e é aquela dificuldade na hora do descarte. “Trabalhei em São Paulo dois anos e lá a prefeitura recolhia os cadáveres dos animais que morriam nas clínicas e hospitais veterinários, bastava ter na clínica uma câmara fria, tipo frízer e eles recolhiam”, destaca.
Segundo o médico-veterinário, aqui em Maceió o recolhimento é feito, mas é um serviço privado, que o faz como lixo hospitalar. “A gente tem vários encargos na clínica, os normais: Corpo de Bombeiros, Instituto do Meio Ambiente (IMA), porque somos considerados uma empresa poluente, mesmo tendo o destino correto dos resíduos hospitalares, e Vigilância Sanitária, nenhum desses órgãos faz esse serviço e mesmo que fizesse não trataria o animal como se fosse um membro da família”, considera.
Rinaldo Ferro sugere que em Maceió seja instalado um local, onde o proprietário possa velar o seu animal; fazer até uma pequena cerimônia, colocar uma lápide, ter um local onde velar o animal. Segundo ele, em São Paulo foi aprovada uma lei que dispõe sobre o animal poder ser enterrado no mesmo local que o seu dono. “Eu imagino que tem que ser a iniciativa privada realmente, para fazer isso daí”, pontua.

Dona de casa recolhe e cuida de animais de rua 
e dá exemplo de amor incondicional
Lívia Maia é protetora e cuidadora de animais de rua
Em Maceió, no bairro da Jatiúca, uma dona de casa, protetora de animais de rua, dá exemplo de amor e solidariedade, sem pedir nada em troca. Lívia Maia, 39 anos, recolhe e cuida de animais de rua há mais de 20 anos e atualmente tem em casa nove animais contando com os seus. Os inquilinos, como ela chama os que estão prontos para adoção, são quatro gatinhos  da cor laranja encontrados na rua e um cachorro da raça Dachshund, de três meses, apelidado no Brasil de Cofape.
Lívia Maia conta que já chegou a ter dez animais em casa e os gatinhos foram encontrados ainda com as placentas e os cordões umbilicais à mostra. “Eles foram jogados e deixados no local; as pessoas ainda têm muito preconceito, principalmente com gatos e só querem adotar os de raça. Eu pensava que não fossem sobreviver sem a mãe, mas hoje em dia, quando eu vejo os quatro vivos, recompensa. Eu nasci pra isso; alguns dizem que é carma”, argumenta.
A cuidadora  é dona de casa, não trabalha fora e diz que faz bazar com doações de objetos que recebe. A renda do que vende no bazar ela reverte para pagar as despesas com castração, vacinas, ração, remédios e o que precisar. Lívia Maia explica que quando está em apuros e precisa, tem a parceira de uma veterinária, que sempre está disposta a ajudá-la, mesmo que não tenha dinheiro para pagar a consulta ou outro serviço veterinário.
Além desses animais, ela explica que recolheu uma cadela da raça Dálmata que foi atropelada na Polícia Rodoviária Federal. “Eu ia passando com 14 gatos castrados e pensei: ‘Meu Deus, onde vou colocar essa cachorra e eu olhava e dizia, não posso deixar aqui. Coloquei dentro do carro e trouxe e estou com ela até hoje’”.  Segundo Lívia, a cadela fica num hotelzinho (a dez reais a diária) porque não tem espaço em casa para acomodá-la. “Eu não tinha como deixar ela lá, atropelada e na chuva, com a perna quebrada;  ela é um doce, já tem de quatro a cinco anos, mas moro em cima da casa da minha mãe e não tenho espaço”, pontua.
A protetora explicou à reportagem que quando morre algum dos animais cuidados por ela, procura um terreno baldio, já que a casa onde mora atualmente não tem quintal. Ela explica que quando soube que tinha um cemitério apropriado para os animais saiu procurando, mas não encontrou. “Morreu uma gatinha aqui, eu embalei e fui procurar um terreno onde pudesse enterrar”.
SONHO
O amor e a dedicação da dona de casa é tão grade
 que ela revela não comer carne de nenhum animal
Lívia Maia relata que seu sonho era fazer um cemitério para os animais, porque em Maceió não tem o serviço “e você está destinado a enterrar o seu animal de estimação em terreno baldio. Poderia existir também um crematório, como existe em Recife; é mais higiênico, mais prático. Se você não enterra direito o urubu come”, descreve.
O amor e a dedicação da dona de casa é tão grade que ela revela não comer carne de nenhum animal. Sem emprego e renda definida, ela conta que o que tem de renda é o aluguel de uma casa:  “Tem horas que o marido olha para mim e diz: parou aqui”, conta sorrindo, mas diz que não consegue deixar os animais abandonados. “Eu acho assim, se eu não for buscar,  ninguém vai e então eles vão morrer ali”, explica.
Conhecedora do mundo animal como poucos, Livia Maia diz que são muitos abandonados nas ruas. “Eu entro no meu Facebook e tem um monte de mensagem (sugerindo adoção), mas eu não posso cuidar de todos, por mais que eu ganhe ajuda de um e de outro, não dá; hoje em dia as pessoas jogam não só vira-latas, mas animais de raça também”, conta.
Ela ressalta que o gasto com os gatinhos recém-nascidos cuidados por ela era de R$ 90 por semana, “porque eles eram muito novinhos e eu tinha que comprar o leite Nam, primeiro semestre e um suplemento vitamínico, porque eles não tinham mãe”, ressalta.  Ela diz que pegou um gato persa com sérios problemas de saúde, porque a dona não o quis mais por conta de o bichano soltar muito pelo.
“O gato chegou cheio de problemas, porque passou muito tempo sem comer e agora está internado numa clínica, mas eu não tenho condições de pagar”, ressalta. Outro gato socorrido por Lívia Maia e que agora faz parte da família é um persa branco que ela encontrou num esgoto, todo sujo de lama.
“Ele parecia um monstro, cheio de carrapatos, os olhos inchados de infecção, eu nunca tinha visto um gato com carrapato, parecia uma jaca, todo sujo”, conta. Ela destaca que o pet shop não o aceitou lá de tão horrível que estava. “Fui ao Centro, comprei uma máquina de contar o cabelo e tosei”, explica.
A dona de casa ressalta ainda que faz o que for preciso em benefício dos animais.  “Eu organizo bazar e o que eu puder arrecadar a renda é revertida para eles. Hoje eu ganhei uma cama de solteiro, uma tábua de passar ferro, uma espreguiçadeira; a gente leva para o bazar, vende por um preço bem em conta e o dinheiro é revertido em castrações, medicamentos e ração”, pontua.
A reportagem entrou em contato com a Superintendência de Limpeza Urbana (Slum), mas foi informada pela assessoria que quando é comunicada de alguma animal morto na rua, recolhe e encaminha para o aterro sanitário. Ligamos cinco vezes para a SMCCU (Superintendência Municipal de Convívio Urbano), para saber se existe alguma intenção de se instalar em Maceió um cemitério para animais, mas o celular estava temporariamente desligado.  
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