segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A viagem de volta...

Olívia de Cássia – jornalista
Incitada a escrever sobre a minha União dos Palmares de antigamente, coisa que sempre faço quando me vêm as lembranças, pelo menos o antigamente de quando eu era menina e do pouco que ainda me resta de lembranças, lá vou eu na minha viagem de volta ao começo.

Do pouco que já li, o desenvolvimento do local começou com a instalação da ferrovia pelos ingleses, para o transporte do açúcar fabricado pelos engenhos; com o tempo, além de ser o trajeto de trens com cargas pesadas o lugar passou a ser muito usado também pelas pessoas.

“A estação de União dos Palmares foi inaugurada em 1884 pela E. F. Sul de Pernambuco. Foi ali que, em 1894, dez anos depois da chegada da linha alagoana, ocorreu a junção das linhas da E. F. Sul de Pernambuco (arrendada à Great Western em 1901) e da E. F. Central de Alagoas, também incorporada pela GWB”, conta a história.

O trem, no tempo da minha meninice, era uma das principais atrações da Terra da Liberdade. A história da antiga ferrovia do município faz parte da rotina dos moradores e lembro que vindo de Pernambuco, embarcávamos pela manhã, ainda com a madrugada escura, para Maceió.

A volta para União acontecia às 15h e chegávamos às 20h: a viagem era longa, a paisagem deslumbrante e atrativa, digna de poesias e romances. Não é à toa que Jorge de Lima citou tanto esse fato em suas obras.

Já comentei em outro texto que da varanda de casa, em Maceió,  miro o pátio da Estação Ferroviária. O trem, da maneira como ainda vem sendo usado, muito raramente, já não desperta tanto o interesse da população para o deslocamento, apesar de ser um transporte barato.

Para quem alcançou o auge desse tipo de transporte, até a década de 70 e início dos anos 80 do século XX, em Alagoas, era o principal meio de locomoção da maior parte da população. Para a gente viajar de União dos Palmares até Maceió, a principal via de acesso de carro ou ônibus era pela Rua da Ponte, passando em frente da entrada da Fazenda Jurema e seguia adiante.

As estradas eram esburacadas e de barro, as pontes de madeira e muito perigosas. Dessa forma, andar de trem era mais seguro e vantajoso, além da alegria e do encanto. Da capital até a Terra da Liberdade, o trem passava por várias estações: Bebedouro, Satuba, Fernão Velho, Lourenço, Murici, Branquinha e União. De lá seguia em frente até o Estado de Pernambuco e vice-versa.

Andar de trem era uma saborosa aventura. Revíamos paisagens, pessoas de classes diversas e vendedores aproveitavam para vender seus produtos. Nessas aventuras das viagens de trem era quando a gente saboreava as guloseimas mais gostosas: picolé da Gut Gut, uvas passas e maças (que naquela época só vendia na festa da padroeira), tareco, pirulito em forma de cone e biscoito Weifer.

O sururu era comprado nas estações por onde o trem passava, principalmente em Fernão Velho, onde rapazes, senhoras e homens passavam com o molusco no prato, oferecendo aos passageiros. Era um verdadeiro comércio.

Só quem vivenciou essa época entende o sabor que as viagens de trem possuíam. Saindo de Maceió avistava-se a Lagoa Mundaú, passava-se na estação de Bebedouro, onde muitas mocinhas da época estudavam internas no Colégio Bom Conselho.

O trem seguia adiante percorrendo canaviais, passando por povoados e os passageiros aproveitavam o longo percurso para conversar ou dormir, só acordando quando passava o ‘homem das passagens’ que pegava os bilhetes e perfurava em vários locais, com uma espécie de grampeador.

No trem também tinha restaurante para os grandes percursos, além dos ambulantes que embarcavam para vender de tudo. Com a construção das estradas, acentuada no meio da década de 70 do século passado, as viagens de trem foram minguando, decaindo e tornando-se sem muita segurança, pela falta de manutenção de sua estrutura.


Lembrando daquele tempo também lamentamos a falta de cuidados com quem passou pelas administrações de União e foi demolindo casarões e armazéns que contavam  a história do surgimento da cidade, que de vila passou a cidade.
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