segunda-feira, 6 de julho de 2015

Sem enquadramentos, por favor

Meus pais

Olívia de Cássia – jornalista

Não gosto de enquadramentos; sempre fui assim desde menina: sei que para algumas pessoas é difícil me entender, mas não tem problema, eu só peço respeito. Às vezes eu me policio e tento ser mais amena, ninguém é obrigado a me entender, mas o respeito é fundamental nos relacionamentos sociais.

Quando adolescente eu tive muitos problemas familiares com meu jeito de ser, pois eles não entendiam a minha rebeldia e o que eu queria com aquelas atitudes, mas eu só queria minha autoafirmação e um mundo melhor para todos.

Hoje eu sou uma mulher madura, cheia de imperfeições e avalio agora que era muito complicado para minha mãe entender aquela adolescente e depois a jovem, cheia de pensamentos ‘revolucionários’ diferentes dos dela que nasceu em 1924.

Imaginem o nó que eu devo ter dado na cabeça dela, nas décadas de 1970 a 1980 (quando da minha fase mais rebelde). Criada aos moldes dos filhos dos senhores de engenho, que queriam todos aos seus pés e fazendo tudo o que eles mandassem, minha mãe, definitivamente não me entendia.

Talvez tenha sido por isso, avalio eu agora, que tenhamos tido tantas desavenças e estranhamentos. Eu não queria para mim aquela vida de obediências militares e de balançar a cabeça afirmativamente para tudo o que me apontassem como dever e obrigação e o certo.

Hoje em dia, apesar de continuar com meus pensamentos libertários, sinto falta daqueles cuidados. Sinto falta daquela ‘proteção’ e do medo que ela tinha que eu me envolvesse com situações ‘perigosas’,  porque foi por causa daquela precaução que eu me tornei uma cidadã consciente dos meus deveres e com afirmação de que o mundo que eu queria e quero não é um mundo de desiguais.

Minha cabeça sempre funcionou assim. Mas eu sinto falta do olhar caridoso e bondoso do meu pai, que toda sexta-feira organizava filas na porta da ‘bodega’ para dar esmolas aos mais necessitados da Rua da Ponte; não que ele não fizesse caridade diariamente, mas às sextas-feiras esse ato era obrigatório e ele colocava pequenas porções de itens da cesta básica para deficientes visuais e físicos e moradores das ruas.

Além de ter sido fiador de imóveis de várias pessoas, meu pai tinha casinhas de aluguel que muitas vezes deixava passar o mês e não cobrava, quando os inquilinos estavam começando a vida e passando por perrengues maiores e dificuldades diversas.

Em toda União dos Palmares meu pai era conhecido como um homem de caráter, honesto,  religioso, bondoso e amigo. Seu fanatismo político e religioso sempre foi sobressalente: ele era devoto de Santa Maria Madalena, a quem rendia graças por ter sido curado de uma tuberculose nos ossos quando eu tinha quatro anos e ele foi desenganado dos médicos em Maceió e Recife.

Para muita gente cética talvez isso seja lenda, mas meu pai era um herói. Baixinho, gordinho, moreno e maravilhoso; um homem que conheceu as dificuldades da vida na mais tenra idade; órfão de pai e mãe muito cedo, mas que não se deixou abater lá na roça, na Baixa Seca, onde meu avô paterno lhe deixou algumas poucas terras e ele vendeu, depois da insistência da minha mãe, a preço miúdo, para tentar a vida na cidade.


Postar um comentário

E agora, o que fazer?

Por Olívia de Cássia E agora, o que fazer? Essa pergunta me veio à baila, antes e depois da aposentadoria por invalidez e em alguns dias q...