quinta-feira, 30 de abril de 2015

Ex-funcionários da Fábrica Carmen falam de tempos áureos e buscam alternativas

Olívia de Cássia - Repórter Primeiro Momento

Fernão Velho vivia em função da indústria e trabalhadores se sentem órfãos e sem capacitação para exercerem outra atividade

O bairro operário de Fernão Velho, um dos mais antigos de Maceió, já viveu tempos áureos, numa época em que tudo no local girava em torno das atividades da Fábrica de Fiação de Tecelagem Carmen, do Grupo Othon Bezerra de Melo. O desenvolvimento do local esteve ligado por mais de um século à fábrica, a primeira de Alagoas, fundada em 7 de março de 1857,por José Antonio de Mendonça,  Barão de Jaraguá.
Fábrica de Fiação de Tecelagem Carmen, do Grupo Othon Bezerra de Melo - Fotos: Paulo Tourinho
Em seguida a fábrica passou para o controle de um comendador e outros industriais ao longo da história até chegar à família de Othon Bezerra de Melo, em 1946, que se desinteressou pelo setor têxtil e a fábrica terminou fechando as portas, em 1996.
A reportagem pesquisou que, ao longo desse tempo,  a fábrica Carmen chegou a uma época na década de 70 em que tinha quatro mil empregados da região, todos com seus direitos em dia. Após 10 meses fechada a fábrica reabriu em 1997, com incentivos do governo estadual de Alagoas, mas não teve muito sucesso e desativou devido altos impostos do governo e a mal gestão empresarial.
Depois do fechamento da indústria, alguns trabalhadores conseguiram a aposentadoria e receberam seus direitos, no primeiro fechamento da empresa, mas cerca de 60 a 70 por cento dos outros trabalhadores ainda estão sem as indenizações e sem capacitação, já que não se prepararam para outras atividades e não se reciclaram em tempos de tecnologia e modernização.
Localizado às margens da Lagoa Mundaú, rodeado de matas e nascentes e com uma paisagem bucólica e deslumbrante, o bairro já foi distrito e deu muitos talentos ao Estado. A fábrica foi montada em um prédio de 25 mil metros de área construída e ocupa um quarteirão inteiro do local, além de duas nascentes dentro da propriedade.
A fábrica fornecia toda a estrutura possível para os operários, que recebiam em troca casa, água e luz, tudo sem pagar nada, além de atividades recreativas como cinema, teatro, dois clubes, atividades esportivas, bailes, entre outras diversões, segundo contam os moradores.

Trabalhadores dizem que é preciso capacitar ex-funcionários e jovens

Fábio Assis de Farias é aposentado, ex-operário da Fábrica de Carmen e ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores têxteis avalia que a criação de uma cooperativa dos funcionários seria uma das alternativas para o local. Na calçada da fábrica, que está abandonada, sucateada, com vidros quebrados, paredes pichadas e o prédio vazio, ele fala da situação dos trabalhadores, dos tempos áureos do bairro e avalia ainda que outra alternativa para acabar com a ociosidade da juventude de Fernão Velho seria a capacitação dos moradores para outras atividades fins.
Fábio Assis de Farias é aposentado, ex-operário da Fábrica de Carmen e ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores têxteis
“Eu não consigo entender que teve uma ação na Justiça que deu ganho aos trabalhadores, para que assegurasse os bens, e a fábrica vendeu as melhores máquinas, o patrimônio e até telha venderam e também a cobertura da estrutura foi comercializada, ninguém sabe por quanto e nem a quem. A informação que tivemos é que o prédio foi leiloado, para fazer dinheiro para pagar o povo”, diz.
Fábio Assis de Farias destaca que existem muitas opções para a capacitação dos trabalhadores e jovens do bairro que ficaram ociosos: “Existem muitas opções, mas depende de gestão, esses 25 mil de metros construídos poderiam ser aproveitados em benefício dos moradores. Fernão Velho nasceu e cresceu em função da tecelagem, poderiam pensar num projeto simples. Fizeram um café da manhã, perto do período eleitoral, prometeram mudar a realidade daqui, mas até agora nada; deram as costas para o bairro”.
O trabalhador aposentado diz que no caso dele foi beneficiado porque já está aposentado. “Essa aposentadoria foi oriunda do trabalho da Fábrica Carmem, pois aqui foi onde eu comecei minhas atividades. Eu não tinha profissão nenhuma, foi meu primeiro emprego. Comecei na empresa em maio de 1972, como servente. Tinha um setor de treinamento da escolinha, uma professora chamada Valdete, que era muito dedicada e a gente aprendia fácil”, explica.
Fábio Assis de Farias destaca que existem muitas opções para a capacitação dos trabalhadores e jovens do bairro que ficaram ociosos
Seu Fábio de Farias conta que pegou gosto pela arte de tecer, pois sempre procurou ser uma pessoa responsável, e por conta disso foi crescendo os degraus na área da profissão. “Daí eu passei a ajudante de contramestre de tecelagem e acharam por bem me colocar na parte de manutenção”, explica.
Em seguida, Fábio de Farias comenta que foi fazer curso em Recife, numa instituição que era como o Senai, para treinar os trabalhadores da área de fiação e tecelagem “e eu passei lá num colégio interno, um período de seis meses, sem nenhuma despesa, recebendo meu salário como se estivesse em atividade na Fábrica e aprendi muito lá”, destaca.

Com início da decadência da empresa, operário diz que entrou no sindicato

“Ingressei na vida de sindicato, porque eu não estava mais vendo um futuro promissor da minha dedicação na fábrica. Eu tinha vindo do interior, com 15 anos de idade e naquela época você poderia começar a trabalhar, principalmente na fábrica; hoje não é permitido por conta da legislação, porque é uma área insalubre, a tecelagem te oferece poeira, calor, fadiga, tudo isso junto, você não pode maios fazer outro trabalho, a não ser numa situação anônima, mas no caso daqui não podia ser feito”, comenta.
Na época em que começou a trabalhar, ele explica que a fábrica tinha cerca de três mil trabalhadores. “A informação dos mais antigos é que a Carmen já chegou a empregar cinco  mil trabalhadores. No horário em que saíam de um turno, parecia mais um bloco carnavalesco de tão animado; tudo aqui em Fernão Velho girava em torno da fábrica, tanto é que nasceu e cresceu por conta da implantação dessa fábrica aqui”, argumenta.
Fabio de Farias explica que a fábrica também empregava trabalhadores operários de outros bairros de Maceió.
Seu Fabio de Farias explica que a fábrica também empregava trabalhadores operários de outros bairros de Maceió.  “Moradores mais distantes, do Tabuleiro do Martins desenvolviam suas atividades aqui. O próprio grupo que administrava a fábrica tinha uma moradia; a Vila ABC e a Goiabeira foram construídas com essa finalidade: em Fernão Velho, todo trabalhador tinha residência fixa, algum ou outro que não morava aqui, mas a finalidade da construção do bairro foi para abrigar os trabalhadores”, explica.
Fábio de Assis pontua que a fábrica oferecia tudo: “Lazer nos finais de semana, em datas festivas como o São João, dava o tecido para que os trabalhadores fizessem uma roupa; também na virada do ano também. Além disso, escola para os filhos dos funcionários; era uma mãe, tanto é que hoje em dia tem gente que diz que era feliz e não sabia”, diz.

Acomodação e dependência

Por outro lado, seu Fábio avalia que havia uma acomodação por parte dos trabalhadores, já que as pessoas recebiam tudo. “Muitos pensavam: ‘já tenho meu emprego, salário garantido semanalmente, não tinha atraso. Com o passar do tempo, a terceira geração da família Othon Bezerra de Melo começou a perder o interesse e começou a investir em outras áreas: na rede hoteleira, destilaria, usina de açúcar, começaram a diversificar as atividades”, relata.
Na década de 1970 seu Fábio conta que a fábrica começou apresentando sintomas de dificuldades. “Quando a gente menos esperava era deflagrada uma crise, a crise nacional afetava diretamente a fábrica. Era necessário que todos os fabricantes do seguimento fizessem a introdução de máquinas modernas no setor e a Fábrica Carmen não acompanhou essa evolução, começou a perder seu espaço no mercado, por conta dos concorrentes, por causa dos investimentos que eles não faziam”, pontua.
Conhecedor a fundo da história operária de Fernão Velho, seu Fábio fala com nostalgia e diz que quando a fábrica fechou pela primeira vez, em 1996, o sindicato dos trabalhadores, entidade que ele presidia, começou a fazer um trabalho no bairro, acreditando que ia ter a retomada. “Foi uma situação de calamidade a que foi implantada aqui. Os profissionais não sabiam fazer outra coisa, um mecânico de tecelagem não sabe mexer com mecânica de automóveis; o tecelão não sabia operar uma máquina fora, pois lá já exigia conhecimento em um tear moderno”, pontua.
Segundo ele, a fábrica voltou a funcionar em agosto de 1997, até janeiro de 2010, quando fechou as portas de vez. Por conta desse período foi que muita gente conseguiu a aposentadoria e conseguiu se profissionalizar. Fábio conta ainda que a fábrica fez um processo de modernização, mas não dava para competir com as concorrentes. “A nova direção resolveu entrar numa linha intermediária, mas o grupo que adquiriu o patrimônio não se entendia e a pessoa que ficou na direção não dominava o setor”, avalia.

Expectativa de fundação de uma cooperativa como opção vem de longe

Seu Fábio de Farias explica que os operários acreditaram que a Carmen poderia ser trabalhada como cooperativa, pelo fortalecimento do setor: “Apostamos todas as fichas, foi feito um trabalho para transformar a fábrica numa cooperativa, falamos com o Governo do Estado, foi  feito um trabalho com o pessoa da Oceal, hoje OCB (Organização das Cooperativas do Brasil), só que o governo deu um prazo ao grupo Othon Bezerra de Melo para dizer o que queria. “Aí eu era presidente do sindicato e o governo liga dizendo que ia apresentar os novos donos da fábrica”, destaca.
Fábio avalia que havia uma acomodação por parte dos trabalhadores, já que as pessoas recebiam tudo
Fábio Farias conta que o governo apresentou o grupo, que formou uma sociedade para tocar a fábrica. “Tanto é que houve essa retomada, Fernão Velho foi palco de festa, celebração de missa, fogos, todo mundo contente, feliz da vida, acreditando que ia dar certo”. O operário aposentado alega que os administradores que assumiram a empresa compraram teares que já eram consideradas obsoletas nos Estados Unidos ultrapassadas para a realidade de lá e o tear só era de 240 rotações por minuto (RPM), enquanto que lá era muito maior. 
O ex-operário  avalia que deve ter acontecido também um erro de planejamento para que a fábrica fechasse. Ele também cita a arrogância da última direção que se achava toda poderosa. “Chegou com a pose de rei, ficou sozinho, não dominava a parte de produção, começou a mergulhar num a profunda crise, sem pagar os salários dos trabalhadores, atrasando os compromissos com o governo e o município, fornecedores e a fábrica fechou depois de uma manifestação dos trabalhadores, indignados com a falta de salários  e por não acreditar mais no que o diretor falava”, discorre.

Trabalhadores propõem capacitação e investimentos no bairro  

A esperança dos trabalhadores é que o município de Maceió, que recebeu algum dinheiro por conta da venda do maquinário da fábrica, resolva alguma coisa. “Já tentamos marcar várias reuniões, mas sempre tem uma desculpa. Isso só aumenta a descrença na Justiça e nos gestores. Estamos num beco sem saída.”
Seu Manoel Dantas também é operário aposentado e fala que a sua situação é igual à de todos os trabalhadores. “Trabalhei 26 anos, teve a aposentadoria que o governo lançou e eu aproveitei, se não ia morrer de trabalhar”, disse ele.
Manoel Dantas também é operário aposentado e fala que a sua situação é igual à de todos os trabalhadores
Seu Manoel disse que com dificuldade conseguiu formar dois filhos, que hoje lhe dão muitas alegrias, mas a realidade de muitos jovens no local é outra. “Tenho um filho que é professor de música e ensina nas escolas e minha filha é muito estudiosa. Tenho que agradecer a Deus, pois com esforço a gente consegue, tem gente que não luta e não consegue, mas se eu pagasse aluguel estava em situação pior”, avalia.
Carlos de Freitas é ex-gerente da fábrica e hoje tem um pequeno negócio de confecções na Praça São José Operário, no bairro. “Fui gerente de produção durante 18 anos e quando a fábrica fechou a gente tinha a expectativa de modernizar. Quem modernizou como a Fábrica da Pedra, em Delmiro Gouveia, conseguiu sobreviver”, observa.

Potencial humano do bairro foi desprezado

Seu Carlos de Freitas comenta que os donos da fábrica não acreditaram no potencial humano que tinha o bairro: a mão de obra barata. “O resultado é um entulho de ferro velho. Eu tive a indenização; enquanto era de Othon Bezerra de Mello todo mundo recebeu, aí pegaram as melhores casas. Sobrou esse casarão, ninguém queria, porque o preço era elevado, o direito que o empregado tinha não dava para pagar. Eu ainda botei do meu dinheiro; venderam barato, num preço que eu ainda coloquei 15 mil reais das minhas economias e da minha esposa, funcionária do Estado, compramos a casa e montamos a loja”, explica.
Carlos de Freitas comenta que os donos da fábrica não acreditaram no potencial humano que tinha o bairro: a mão de obra barata
Seu Carlos ressalta que quando a fábrica voltou, em 1997, ele já estava com a loja e trabalhava na confecção com o tecido da empresa; fabricava no local e tingia em Caruaru e voltava para vender em Fernão Velho.  “Era um tecido que dava para fazer alguma coisa que agradava as pessoas. No seguimento algodão a gente conseguiu fazer as peças e ia se ganhar dinheiro com isso. Criou-se uma cooperativa que não teve êxito porque o governo desprezou”, reclama.
Seu Carlos ressalta ainda que o governo poderia ter aberto uma concessão até para o Estado comprar. “Nunca houve um interesse nenhum. No caso das mulheres (trabalhadoras da fábrica) elas não tiveram chance nenhuma de se prepararem para novas atividades, mesmo para a área doméstica tem que saber de alguma coisa. Essa parte não foi feita”, afirma.

Nova Realidade

O ex-gerente também destaca que os gestores precisam preparar mão de obra para a nova realidade. “Hoje não tem mais emprego, quem pensar em fábrica de dez mil, vinte mil empregados, não existe mais isso. A própria Fábrica da Pedra eu acredito que não tenha mais de 600 trabalhadores e ela tem uma produção em relação a essa, cinco vezes maior”, calcula.
Ninguém espere, na opinião de seu Carlos, aquele mundo de emprego. “Se a fábrica daqui tivesse funcionando a gente só teria uns 250 empregados. Isso ia jogar em torno de 350 a 400 mil reais na economia do bairro, ia gerar muita oportunidade para os pequenos comerciantes e outras pessoas mais. A fábrica controlava a vida da gente, não precisava de relógio. O trem também era outro relógio. Tínhamos creche, maternidade, escola, dois clubes, a limpeza pública funcionava, os jardins eram cultivados e ninguém pagava nada, era um aluguel simbólico; era uma maravilha”, avalia.
Seu Carlos diz que a indústria que mais absorve mão de obra hoje em dia é a de confecção. “Com 800 reais compra uma máquina e emprega uma pessoa. Enquanto que só um tear custa em torno de 50 mil dólares, quase 150 mil reais. O governo deveria criar confecção, apoio à cooperativa, dar incentivo, investimento do poder público no bairro e treinamento de pessoal”, finaliza.


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