quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Lembranças do tempo...

Olívia de Cássia – jornalista

Naquela época, décadas de 1970 e 80, o rock in roll era a principal influência musical da minha geração, além de mitos da MPB como Chico Buarque, Caetano, Raul Seixas, Gil, Gal, Bethânia, Elis e outros.

 Aquela menina ingênua e sem maldade nenhuma no coração não tinha noção de perigo que por acaso pudesse estar correndo em alguma situação ou preconceito com suas amizades ou quem quer que fosse.

A preocupação dos pais, acentuadamente da mãe, era muito mais com a questão sexual: tinha medo que a filha se envolvesse em relacionamentos considerados perigosos, com homens comprometidos ou outros que tais.

 Àquela época teve início a liberação sexual, 'uma perspectiva social que desafiava os códigos tradicionais de comportamento relacionados à sexualidade humana e aos relacionamentos interpessoais'.

Não era como nos dias de hoje em que a iniciação sexual das meninas se dá muito cedo; quando uma moça ‘fugia’ com o namorado, tinha que casar. Eram feitos casamentos na base da obrigação. O fenômeno ocorreu em todo o mundo ocidental dos anos 1960 até os anos 1970, segundo relatos dos historiadores.

E  muitas das mudanças no panorama desenvolveram novos códigos de comportamento sexual, muitos dos quais tornaram-se a regra geral, não era o meu caso, eu ainda brincava de bonecas até os 17 anos, quando me apaixonei, tive meu primeiro namorado e doei os brinquedos, com vergonha das amigas que pudessem rir de mim.

Os jovens daquela época estavam despertando para essas questões e naquele tempo o consumo de maconha, embora acanhado, com relação aos dias de hoje, por alguns amigos daquela menina-moça, deixava a mãe em pé de guerra, com medo das influências que pudessem colá-la naquele caminho ‘do mal’.

Embora aquela menina tivesse desejos e sonhos à frente do seu tempo, eram sonhos profissionais, utópicos, platônicos, sonhos de viajar e conhecer mundos e se tornar uma jornalista e escritora algum dia, feito Euclides da Cunha, influenciada pelos livros que lia.

Era muita pretensão juvenil e apesar disso tudo, ela tinha uma relação fraterna, de confidências e irmandade com aqueles amigos e não se importava com aquelas preocupações de mãe. E quando entravam em desacordo de opiniões, os conflitos de gerações se davam e a guerra estava estabelecida.

Lá em casa tinha um chicote atrás da porta e sempre que eu quebrava aquelas regras, sentia o peso daquele açoite, revelado nas manchas escuras que ficavam em meu corpo; mas nenhuma atitude daquilo que eu achava ser o sistema, abalou meus sonhos. Continuei a perseguir o meu caminho, embora muitas vezes descontroladamente e de forma atabalhoada, ingenuamente, achando que seria ‘capaz de sacudir o mundo’, como disse o Raul.

Não passava pela minha cabeça que meus pais não alcançavam meus sonhos, projetos de vida. Eu queria viver em liberdade, morar sozinha (e vivia de certa forma), não era impedida de ir e vir, mas era uma liberdade vigiada e controlada que às vezes sufocava de certa maneira.

Não era permitido muita coisa naquele tempo: havia muitas regras na casa; amigos, só as meninas podiam frequentar o quarto e a sala, mas como eu gostava de quebrar regras, um dia permiti que o amigo Everaldo 'Mala Veia' entrasse em meu quarto, de portas abertas e sentasse em um banco para conversar e eu desabafar meus 'problemas' com ele.

Essa atitude ‘desafiadora’ foi suficiente para me render uma bela sova e um castigo e assim acontecia sempre que eu quebrava as ditas regras rígidas da minha mãe, que acontecia com frequência. Dona Antônia, por sua vez, com medo do que os outros pensassem e que a filha tivesse indo para o ‘mau caminho’, ouvia tudo o que os outros falavam e não queria saber se os boatos se confirmavam e, por conta dessas preocupações, terminava metendo os pés pelas mãos, agindo com rigor e sem dó nem piedade.

Acredito que não fosse por maldade, mas do medo que ela tinha, associado à criação rigorosa que teve de um pai ex-senhor de engenho e de uma mãe submissa; e assim queria que eu agisse da maneira que ela avaliava que fosse o ‘certo para uma mocinha’.   
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