quinta-feira, 10 de abril de 2014

Tolerância zero para a violência

Olivia de Cássia – jornalista

Todo e qualquer tipo de violência deve ser contestado: desde a violência física, psicológica, à política, mas eu não poderia deixar de falar essa semana, novamente, sobre a violência contra a mulher, que voltou à pauta dia, desde a divulgação da pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), referente a 2013, que  reflete o conservadorismo da sociedade brasileira,  muito mais com relação à questão.

A violência é algo que se deve combater todos os dias, sem trégua, bem como toda a forma de opressão, avalio eu, no meu aprendizado diário.  Ao longo dos séculos estudiosos divulgaram textos relatando a questão de gênero, desigualdade social e o quanto as mulheres lutaram e ainda perseguem viver num mundo melhor e mais justo.

Muito já se falou e já se debateu sobre a violência contra a mulher no país (crianças, jovens e adolescentes), mas ao invés de os números reduzirem, têm se multiplicado consideravelmente e a gente não pode ‘baixar a guarda’. Temos que denunciar isso todos os dias, em cada minuto de nossa existência, para extirpar esse câncer da sociedade, não podemos nos conformar com esse estado de coisa.

Já escrevi nesse espaço vários textos sobre o mesmo tema, mas a minha indignação só aumenta à medida que vejo tantos casos se reproduzirem no país e principalmente em nosso Estado. Voltando à pesquisa "Tolerância social à violência contra mulheres" divulgada pelo Ipea, o instituto concluiu que 65,1% dos entrevistados acreditam que a vestimenta curta de uma mulher é motivo para a violência sexual.

O levantamento também apontou que 68,5% das pessoas consideram o comportamento feminino influência nas taxas de estupros.  Esse resultado causa-me espécie e me deixou embasbacada. Segundo os autores do estudo, muitos entrevistados veem o estupro como medida corretiva.

“As respostas dão a ideia de que a mulher merece e deve ser estuprada para aprender a se comportar”, diz um trecho do estudo. Meu estômago revirou diante de tais resultados. Depois de muitas críticas, o Ipea fez uma retratação quanto ao levantamento e reduziu de 65% para 26% o percentual de entrevistados que culpa a mulher pelos casos de estupro.

Mas apesar da redução, muitas lideranças ficaram ‘de orelhas em pé’  duvidando da credibilidade da pesquisa. Maurício Tuffani,  editor do blog Universidade, Ciencia e Ambiente, disse que a errata do documento  por meio de nota oficial do Ipea não pode ser considerada uma correção da questão à qual ela se refere.

“Na verdade, não há o que fazer para dar credibilidade a essa tentativa de estudo sobre o problema grave da sociedade brasileira da tolerância de agressões contra mulheres”. Segundo Tuffani, no estudo houve expressões de duplo sentido também em pelo menos outras três das 27 sentenças apresentadas a 3.801 pessoas entrevistadas na pesquisa.

“A presença de expressões ambíguas nessas quatro questões que figuram entre as mais cruciais para o objetivo do estudo impossibilita qualquer possibilidade de "salvar" o trabalho realizado pelo instituto”, observa.

Segundo o blogueiro, não há como obter nenhuma conclusão cientificamente válida do uso da afirmação "Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas". “As palavras "merecem" e "atacadas" induzem a interpretações diferentes dessa sentença”, diz. 

O que se sabe é que o número ainda é alarmante e muito ainda deve ser feito para tentar erradicar os casos de violência contra a mulher no Brasil. As mulheres devem ter seus direitos respeitados, e é importante discutir o assunto em escolas públicas para fazer o debate entre a juventude.

Que adultos iremos ter no país nas próximas décadas, com esse tipo de pensamento? O que é possível ser feito se não houver debate sobre essa temática nas escolas e nas comunidades, no sentido de conscientizar principalmente os mais jovens? Vamos pensar sobre o tema hoje?
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