segunda-feira, 28 de abril de 2014

Apesar de não ser tratada como doença, Síndrome da Pressa afeta 30% dos brasileiros

Olívia de Cássia – Repórter
(Imagens: ilustração internet)

A síndrome da pressa é um problema psicológico e comportamental que acontece com várias pessoas da atualidade. As pessoas costumam dizer que 24 horas é pouco tempo para realizar tantos afazeres.  

As características típicas da síndrome são: tensão, hostilidade, impaciência ao esperar, valorização da quantidade e desvalorização da qualidade, sono agitado, inadmissão a atrasos, busca por substâncias que controlam as emoções, interrupção da fala de terceiros, passos rápidos e outros.

Segundo estudo realizado pelo Internacional Stress Management Association do Brasil (Isma-BR), entidade que estuda os efeitos do estresse, o transtorno já atinge 30-% dos brasileiros. O problema não constitui uma doença, mas uma série de comportamentos que altera significativamente a saúde e a qualidade de vida dos indivíduos.

A síndrome da pressa não é reconhecida e nem classificada na psiquiatria, porém é conhecida e estudada desde 1980.  Alguns especialistas a definem apenas como um processo acelerado de estresse. Desde os primeiros estudos são detectadas alterações na autoestima e na confiança do apressado, pois normalmente busca realizar uma quantidade de tarefas quase impossível.

Dessa forma, os sentimentos de frustração, autocobrança e incapacitação podem acarretar em outros problemas mais graves. Ilana Rodrigues, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de Alagoas, observa que diante do modo de organização social da sociedade moderna, que preza pela competição, a sobrecarga e a rapidez, a pressa é um mal necessário.

“E é a partir dessa realidade que tem aumentado gradativamente o índice de pessoas que sofrem da Síndrome da Pressa que está diretamente ligada ao estresse e apesar de não ser uma doença é um padrão de comportamento que altera significativamente a saúde e a qualidade de vida do indivíduo”, observa.

Segundo Ilana Rodrigues, apesar de a síndrome da pressa estar relacionada ao estresse em estágio avançado, os problemas têm origens diferentes: “Enquanto o estresse avançado é uma reação física e psicológica a uma situação ameaçadora ou angustiante, a síndrome da pressa é desencadeada por um conjunto de comportamentos que o indivíduo traz o estresse para si”, destaca.

Os especialistas avaliam ainda que a pressa constante pode acarretar uma série de doenças, dentre as quais, a depressão, transtornos alimentares, insônia, distúrbios gástricos, hipertensão. “Em algumas situações e profissões a pressa é um elemento importante, mas a partir do momento que ela deixa de ser necessária e se torna exigida, isso passa a ser um problema. Ou seja, quando o indivíduo começa a achar que para ser competente naquilo que faz é preciso fazer com rapidez”, ressalta. 

A psicóloga destaca ainda que muitas pessoas gostariam de diminuir o ritmo, mas não podem. Isso porque a maioria das empresas exige produtividade. “Além da carga de trabalho, ainda há a pressão de cumprir prazos, atingir metas e níveis de qualidade. Nesse contexto, como não ter pressa? A principal dica é tentar buscar um equilíbrio, priorizando momentos em que é realmente necessário acelerar, com outros em que é possível ter um ritmo mais lento”, ensina.

Segundo os especialistas, a mudança da rotina é a única forma de inibir a síndrome da pressa, já que essa ainda não tem tratamento específico, a não ser se estiver ligada à ansiedade ou a altos níveis de estresse. “Para melhorar a qualidade de vida e conseguir dar uma freada na pressa é importante relaxar com músicas leves, observar a natureza, dedicar-se mais à família, realizar tarefas fora do contexto diário, organizar as tarefas diárias priorizando as mais importantes, dormir no mínimo oito horas e alimentar-se de maneira saudável”, observa.

EXEMPLO

A comerciária Josicleia Macário, residente no bairro da Jatiúca, em Maceió, é um exemplo de pessoa que tem a Síndrome da Pressa. Ela conta que já consultou vários especialistas, mas o problema foi sempre tratado como estresse em alto grau, devido às tarefas que tem que desempenhar diariamente, no trabalho e em casa.

Josicleia conta que o último médico, um psiquiatra, receitou remédios controlados que a estava deixando muito pior. “Deixei de tomar os remédios, resolvi adotar outro tipo de vida para mm e meus filhos; corro menos, procuro ser mais flexível com os horários, mas ainda tenho pressa: tenho quatro filhos em idade escolar; preciso acordar cedinho para aprontá-los, deixar tudo em ordem para levá-los à escola e depois sigo para o trabalho, mas conto com a colaboração da minha mãe”, destaca. 

O alagoano Valdei Marinho de Omena disse que é muito apressado: “Acordo já com pressa; e a mulher já está com o café pronto; vou para o trabalho, brinco com todo mundo, mas acho que pressa me atrapalha um pouco a vida; nunca procurei um médico para saber se essa pressa constitui um problema; além disso, eu falo muito”, conta sorrindo.

LAZER

Os psicólogos avaliam que o primeiro passo para lidar com essa situação é admitir e entender o problema. O segundo é querer mudar. “Se a pessoa perceber que a pressa está prejudicando seu desempenho e sua qualidade de vida, então é hora de mudar sua postura”, diz Rossi. 

A mudança da rotina é a única forma de inibir a síndrome da pressa, já que essa ainda não tem tratamento específico. Para tanto vale técnicas de relaxamento, exercícios de respiração, atividades físicas e de lazer, ioga e psicoterapia ou outros meios que ajudem a pessoa a relaxar e desacelerar.

Carl Honoré, criador do movimento Slow (devagar, em inglês), conta que tomou consciência do ritmo que estava vivendo quando se viu comprando um livro infantil chamado Contos de 1 minuto. “Minha pressa estava fora de controle e eu estava desperdiçando momentos preciosos com meus filhos”, diz ele.


“É preciso questionar a pressa e buscar ver a beleza da lentidão. A vagareza se tornou uma palavra feia porque nós criamos uma ‘teologia’ da velocidade", comenta. "A velocidade é inquestionavelmente boa, mas, quando a valorizamos demais, acabamos depreciando sua contraparte, a vagareza, e criando um tabu. Só que isso não é verdade. As melhores coisas na vida são feitas devagar", analisa. 
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