quarta-feira, 18 de maio de 2016

Que Deus nos livre da intolerância

Por Olívia de Cássia

Querido Diário, bom dia. Mais um tempo em que me foi permitido acordar e levantar, apesar da dificuldade. Acordei me sentindo mais disposta; hoje foi dia de fisioterapia e tenho me empenhado muito a não faltar um dia sequer, para continuar a minha luta.

Agora há pouco, quando voltada no táxi, vim observando a paisagem e o movimento dos transeuntes. Adiante uma mãe empurrava o filho adolescente na cadeira de rodas, também vindos de lá da fisio e fiquei pensando que aquela criança talvez não tenha tido nunca a oportunidade de caminhar como tive e ainda tenho.

E tal qual a Pollyana dos livros da adolescência,  me pus a procurar desculpas para minha situação e agradecer por ainda estar no atual estágio da ataxia. Não é pieguice; são formas que a gente vai encontrando na nossa mente, para contornar a situação e não se deixar levar pelo desespero.

Freud, citado pelo jornalista e escritor Roberto Drummond, em seu livro Hilda Furacão, leitura que só agora estou fazendo, disse que nos momentos difíceis da vida, nós nos infantilizamos. Isso tudo talvez como uma forma de suavizar cada situação, avalio eu.

No livro, o escritor fala de jornalismo, literatura, realidade e ficção. Fala de um tempo em que o repórter ia para a rua caminhando ou de ônibus, porque as empresas não concediam transporte para tal.

Em algumas passagens fala de um jornalismo romântico e saudoso que não existe mais e do desejo que ele tinha de cobrir conflitos, tal qual eu, quando pensei em ser jornalista. Achava que ia cobrir guerras, da mesma forma que Euclides da Cunha, em Os Sertões.

Nessas horas um sentimento de saudade evoca as minhas lembranças de adolescente e jovem sonhadora, que era criticada naquela época pela família e alguns amigos da terrinha, pelas minhas pretensões de ser jornalista, poeta, ou escritora. Fui a primeira da minha época a ter tal atrevimento na União dos Palmares da década de 1980.

Eu era muito romântica e me comovia facilmente com histórias dramáticas, feito Romeu e Julieta, um clássico de Shakspeare. E quanto mais eu lia, mais alimentava meu sonho, escrevia alguns versos e textos, mostrava para uma vizinha próxima, que me achava infantil,  ingênua e romântica.

Sem contar a oposição ferrenha da minha mãe, dona Antônia, às minhas expectativas de ser jornalista. "Faça medicina, direito ou outro curso, mas esse é de doido e maconheiro", dizia ela. Eu era uma menina sonhadora, naquela época e ainda acreditava no amor leal, sem traições.

No amor que era capaz de enfrentar todas as barreiras que aparecessem para ser vivido. E lutei muito para que meus sonhos se tornassem realidade; mas nem tudo o que a gente sonha é capaz de realizar; aprendi mais tarde com a vida e os impedimentos que tanto lutei para superar.

Mas voltemos ao dia de hoje, que amanheceu ensolarado e me trazendo um pouquinho de esperança: tanto na vida pessoal quanto na atual conjuntura do país. Apesar desse golpe desmoralizado, proporcionado pelos partidos que fazem oposição aos governos Lula e Dilma, me vejo esperançosa com as mobilizações dos movimentos sociais e estudantes.

Era preciso sacudir a moçada. Os estudantes e as mulheres, principalmente,  pelo país afora, vêm mostrando que não foram feitas para ser recatadas e do lar e sim para lutar pelos seus direitos e os dos menos favorecidos.

Por que lugar de mulher é onde ela quiser estar. Em todos os lugares, independente de credos e ideologias. É preciso que a gente mostre o descontentamento, a insatisfação e o inconformismo com toda essa palhaçada política que o país está vivendo.

Movimentos fascistas, conservadores e de direita forçaram a volta ao poder a qualquer preço e esqueceram que não estamos mais vivendo a época do coronelismo, embora com o golpe o Brasil está voltando ao século IX.

Li no portal Vermelho, que a atriz Letícia Sabatella, ativista na defesa da democracia, assim como outros cidadãos, desde que assumiu o seu posicionamento contra o impeachment  nas redes sociais é alvo constante de ataques ofensivos de internautas.

Não só em sua página no Facebook, mas agora pela própria imprensa conservadora que manipula seus dizeres na tentativa de caracterizar a atriz como uma incitadora de intolerância e ódio.

E me reporto a um texto conceitual que li no Facebook do colega Cassio Araújo, da Ufal, militante daquela época. O texto disserta sobre o fascismo. "O fascismo é o regime político da intolerância, da truculência, da tirania e do ódio ao que é diferente, por isso é inimigo figadal da democracia", diz o texto.

Segundo ele, o fascista tem desprezo pela vontade da maioria e dos mais necessitados em detrimento da minoria e dos mais aquinhoados. "Ser fascista é não saber discutir e nem dialogar, arvorando-se o dono da verdade", observa.

Além disso, segundo esse pensamento, o fascismo é utilizar-se da violência verbal, e até física, para mostrar que tem razão, interditando qualquer discussão e é o que estamos vendo todos os dias nas redes sociais. A intolerância com quem pensa diferente.

 "O fascista faz uso da intimidação para não ser contestado. Usa, ou defende o uso, de todos os meios possíveis e imagináveis para a tomada do poder, inclusive por meios aparentemente legais, ou por meios violentos e cruéis, para instalar um governo para os poderosos", diz o texto.

É o que está acontecendo com o dito governo interino, que me recuso a chamar de presidente, já que golpistas para mim não me representam. Bom dia.
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