segunda-feira, 2 de março de 2015

Por economia ou comodidade, jovens adultos preferem a casa dos pais



Ysminy Moreira, 25 anos, mora com os pais por  necessidade de continuar seus estudos e fazer concursos. Sandro Lima


Olívia de Cássia - Repórter

Aumentou o número de jovens de todo o país, entre 25 e 34 anos de idade que decidiram permanecer na casa dos pais, segundo uma pesquisa divulgada nacionalmente pelo IBGE, no mês de dezembro passado.  Segundo o estudo, na Síntese de Indicadores Sociais, em 2013, a taxa chegou a 24,6% da população nessa faixa etária - no ano anterior, esse número era de 24% e, em 2004, ainda menor: 21,2%.
O Sudeste é a região do país com maior proporção de indivíduos da "geração canguru",  superior à média nacional. Depois do Sudeste, que registrou, em 2013, 26,8% de "geração canguru" entre a população dessa faixa etária, vem o Nordeste, com 24,7%. O Norte tem a menor proporção, com 19,8%.
Em Alagoas essa também é uma tendência. A reportagem da Tribuna Independente foi ouvir  alguns  jovens universitários e todos afirmaram que moram com a família por comodidade e por questão econômica, principalmente, ou por opção.
Em tempos de relacionamentos abertos entre pais e filhos e de mais liberdade, os jovens preferem hoje em dia o conforto, a comodidade e querem primeiro se estabilizar  para depois procurarem outros rumos.
Segundo o sociólogo, jornalista e professor Jorge Vieira. “O fenômeno tem vários fatores: são fases diferentes num contexto de sociedade; diferenças internacionais e nacionais. Em âmbito internacional, a crise no modelo de sociedade: parecia tudo organizado e não foi isso o que aconteceu”, explica.
No Brasil, segundo Jorge Vieira, em uma década, os jovens mudaram; o poder econômico dos pais cresceu, nos segmentos D e E,  e à medida em que os pais melhoraram de vida, eles foram se preparar para fazer concursos e não são obrigados  a entrarem no mercado de trabalho  para ajudar na economia doméstica, avalia o professor.
Segundo Jorge Vieira, outro fator é que uma parcela desses jovens também se acomodou, devido a essa melhora de vida dos pais. “O desafio agora é dar educação e capacitação para a parcela acomodada dessa geração que melhorou de condição financeira”, observa.
MULHERES
Jorge Vieira também argumenta que outra diferença é que a mulher está procurando mais a capacitação: “36% dos lares são chefiados pelas mulheres, segundo os dados e 51% do sexo feminino estão buscando preparação”, explica.
Segundo o estudo, esse aumento constante de jovens que permanecem na casa dos pais  não se deve necessariamente à falta de trabalho. Há uma escolaridade maior entre as pessoas que se encaixam na "geração canguru", o que, de acordo com o IBGE, pode significar uma maior dedicação aos estudos.
Psicólogo diz que viver em liberdade significa assegurar-se de equilíbrio de renda
O psicólogo do comportamento e professor de uma faculdade particular de Maceió, Roberto Lopes Sales, disse que viver em liberdade significa assegurar-se de um equilíbrio de renda e sinônimo de estabilidade financeira e que, atualmente, a renda para que se atinja tal estabilidade não referenda a faixa etária de jovens adultos.
Segundo Roberto Lopes, os jovens de hoje estão buscando esta estabilidade junto ao convívio dos pais e familiares, para se desenvolverem qualitativamente ainda com o apoio deles. “Acompanhar-se do apoio dos pais neste processo de equilíbrio de renda e estabilidade financeira, facilita mais facilmente a liberdade tão sonhada”, pontua.
A reportagem da Tribuna Independente também ouviu  alguns jovens adultos  sobre o estudo do IBGE e todos que foram ouvidos moram com os pais ou familiares e as  razões  relatadas coincidem com as argumentações do sociólogo Jorge Vieira, do psicólogo Roberto Lopes Sales e o resultado da pesquisa do IBGE.
Yasminy Tássula Moreira de Almeida tem 25 anos, está terminando o curso de Administração, faz estágio na Prefeitura de Maceió e mora com os pais. Ela disse que ainda depende deles para tudo. “Moro com eles também por comodidade, ajuda muito, porque hoje em dia é muito difícil; sou totalmente dependente dos meus pais, não tenho como morar só”, destaca.
Segundo Yasminy Moreira de Almeida, seu foco é fazer concurso e quando tiver bem estabilizada na vida ela vai procurar sua independência e morar sozinha. “Antes as pessoas não tinham liberdade, era todo mundo preso; a conjuntura atual é outra, os jovens saem mais e têm mais liberdade”, observa.
Dona Tânia Moreira é a mãe de Yasminy e disse que por ela a filha não saía de casa nunca. O esposo, seu Wilson Almeida, disse que hoje tudo é liberal e não quer que a filha vá morar em outro lugar. “A gente tem confiança e dá liberdade e por mim ela não saía de casa nunca”, reforça.
(Foto: Adailson Calheiros)
Tássio Duda é bolsista de mestrado e pretende se estabilizar na carreira para então pensar em sair de casa
Na Universidade Federal de Alagoas a reportagem encontrou o jovem Tássio Duda, 25 anos, que  é bolsista do programa de mestrado e solteiro. Ele é formado em Agronomia e disse que acabou de concluir o curso. “Ainda não tenho uma vida econômica estável e equilibrada, então fica difícil com pouco recurso financeiro que eu tenho, ir me aventurar e morar sozinho. Primeiro vou esperar me estabilizar para procurar o meu caminho”, explica.
Tássio Duda pontua que não depende dos pais, pois paga as contas com o que recebe da bolsa de mestrado. “Tenho minha independência, não dependo dos meus pais,;  avalio que  o jovem deveria sair de casa mais cedo, para ter mais responsabilidades”, destaca.
Mesmo com essa avaliação, o agrônomo ressalta que é preciso ter um planejamento, estar preparado para ter uma família estável. “Quando você sai de casa e forma uma família sem se organizar é errado; tem que se estruturar e não ficar em casa até 40 anos pedindo ajuda do pai”, argumenta.
Jovem saiu da casa dos pais e depois voltou para estudar para concurso
Priscila Dias Pereira conta que saiu de casa quando tinha 20 anos e foi fazer faculdade em Campina Grande. “Quando eu terminei o curso na Universidade Federal eu quis me dedicar e estudar para concurso e resolvi voltar para casa e ficar só me preparando. Passo o dia todo aqui, na biblioteca (da Ufal) estudando. Nossos pais apoiam a gente porque sabem que queremos uma coisa maior”, explica.
Da mesma forma que Priscila, Maria Clara está se preparando para concursos, tem 25 anos e já se formou. “Eu acho que os jovens ficam em casa até mais tarde hoje em dia, para se prepararem mesmo, antes de sair de casa, também por uma questão de educação:  nossos pais não nos direcionaram para que saíssemos de casa cedo e nos dão a liberdade de ficar um pouco mais até alcançar esta estabilidade. Para uns é uma questão de comodidade, mas para outros, não, é uma questão de procurar uma coisa maior”, avalia. 
(Foto: Adailson Calheiros)
Maria Clara e Priscila moram com os pais e estão se dedicando aos estudos
Segundo os jovens entrevistados,  hoje em dia não há os conflitos de geração, como em décadas passadas, quando jovens saiam de casa em busca de outros mundos. “Minha mãe saiu de casa muito cedo para casar e a nossa geração está casando mais tarde, porque quer primeiro se qualificar”, finaliza Maria Clara.
Marcelo da Silva Oliveira tem 33 anos e mora com avó, em União dos Palmares. Ele disse que é  no seu caso é por questão financeira. “Eu morava em São Miguel dos Campos com minha tia no ano de 2007 e trabalhava na feira com ela. À época, outra tia estava procurando alguém para ficar com minha avó, só que queria alguém de confiança. Eu tinha vontade de ingressar em um curso no ensino superior fazendo algum cursinho pré-vestibular, mas não tinha condições de pagar; daí minha tia me convidou para morar com minha avó”, conta.
O universitário palmarino disse que resolveu reunir “o útil ao agradável” e destaca que estudou em um cursinho pré-vestibular e passou no vestibular da Universidade Federal de Alagoas ( Ufal) para o Curso de Ciências Sociais.
“Até o momento ainda moro com minha avó: não por comodidade ou opção de vida, mas, sim, por questão financeira, visto que em nosso município (União dos Palmares) não temos nenhuma oportunidade de emprego, pois o que vale aqui não é o "Q" de Qualidade, mas o "I" de Indicação”, ironiza.
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