quinta-feira, 21 de maio de 2015

Parque Memorial Quilombo dos Palmares reconstitui cenário da resistência à escravidão

Riqueza do patrimônio imaterial afro-brasileiro tem sido preservada através da oralidade e das práticas religiosas, culturais e artesanais


Olívia de Cássia - Repórter
O Parque Memorial Quilombo dos Palmares, implantado em 2007 pelo Ministério da Cultura, por meio da Fundação Cultural Palmares, na Serra da Barriga, em União dos Palmares, reconstitui o cenário da história de resistência à escravidão: a história do Quilombo dos Palmares, o maior, mais duradouro e mais organizado refúgio de negros escravizados das Américas, índios e brancos degredados da sociedade brasileira.
No Quilombo dos Palmares reinou Zumbi, o herói negro assassinado em 20 de novembro de 1695, data em que se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra - Fotos: Paulo Tourinho
No Quilombo dos Palmares reinou Zumbi, o herói negro assassinado em 20 de novembro de 1695, data em que se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra. O local obrigou todo o povo que foi oprimido pela sociedade escravagista: negros, brancos e índios. A arquitetura do Memorial reconstitui o quilombo e foi construído depois de muitos estudos e muita reivindicação do movimento negro brasileiro.
A Serra da Barriga foi tombada como Patrimônio Histórico, Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, em 1986, imortalizando o local como símbolo de resistência e luta pela liberdade. Em 21 de março de 1997, Zumbi dos Palmares foi reconhecido pelo Governo Federal como herói nacional.
No quilombo o povo oprimido era acolhido e bem recebido. Algumas lideranças do movimento negro e da comunidade da Terra da Liberdade reclamam que os olhos dos gestores só se voltam para a Serra da Barriga quando se aproxima o 20 de novembro e durante o resto do ano o local fica subaproveitado.
A riqueza do patrimônio imaterial afro-brasileiro tem sido preservada através da oralidade e das práticas religiosas, culturais e artesanais
A riqueza do patrimônio imaterial afro-brasileiro tem sido preservada através da oralidade e das práticas religiosas, culturais e artesanais, encontradas nas casas religiosas de matriz africana e nas comunidades remanescentes de quilombo. Estas são as fontes de criação do conteúdo cultural do Parque Memorial Quilombo dos Palmares.
O guia turístico e professor Carlos dos Santos acompanhou a reportagem em nossa incursão cultural e discorreu sobre a história do local.  O parque está preservado, apesar de precisar de alguns reparos em sua estrutura, nos bancos de madeira e na estrutura de sons, e a comunidade reclama que o escritório da representação da Fundação Palmares está fechado e sem comando.
O guia turístico e professor Carlos dos Santos acompanhou a reportagem em nossa incursão cultural e discorreu sobre a história do local.
“A representação não atende apenas União dos Palmares, mas todo o Estado e as demandas estão dependendo diretamente de Brasília até que escolham outra pessoa para responder pelo escritório”, observa o guia turístico.
O local costuma reunir no Dia 20 de novembro, dia da Consciência Negra, mais de 20 mil pessoas, onde são feitas apresentações do povo da religião de matriz africana, com cantos, orações, capoeira e várias exibições de grupos culturais afros de outros municípios,  em homenagem ao herói da liberdade.

Quilombo atingia um raio de 200 quilômetros entre Alagoas e Pernambuco

Segundo Carlos dos Santos, o Quilombo dos Palmares atingia um raio de 200 quilômetros, entre os estados de Alagoas e Pernambuco, com aproximadamente onze mocambos, onze povoados que o constituíam. Essa estrutura foi diminuída pelo Ipham (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, órgão do Ministério da Cultura que tem a missão de preservar o patrimônio cultural brasileiro).
Carlos dos Santos pontua que a diminuição foi porque tomaria muito mais espaço e já que a área está sendo pesquisada pela arqueologia, eles resolveram deixar o espaço mais restrito, para não tomar uma dimensão maior.
“O local também tinha três cercas, para garantir a segurança dos quilombolas. Uma no sopé, outra no meio e uma em cima. O quilombo também tinha grande abrangência de terras, onde os quilombolas plantam e colhiam e criavam as suas defesas contra o opressor”, ressalta.
 “Aqui nós temos o Muxima de Palmares, que é o coração de Palmares; representa o palácio do chefe, o lugar onde ele ficava, embora não governasse apenas a sede do Quilombo dos Palmares, mas todo um raio de 200 quilômetros”, observa.  
Muxima de Palmares, que é o coração de Palmares; representa o palácio do chefe, o lugar onde ele ficava
O Muxima de Palmares é uma homenagem aos principais líderes do Quilombo dos Palmares: Aqualtune, Ganga-Zumba e Zumbi, aos comandantes-chefes que formavam o Conselho Deliberativo da República: Acaiene, Acaiuba, Acotirene, Amaro, Andalaquituche, Dambrabanga, Ganga-Muiça, Ganga Zona, Osenga, Subupira, Toculo, Tabocas, e a Banga, Camoanga e Mouza, que resistiram depois da morte de Zumbi.
As ocas que forma construídas no local simbolizam a presença no quilombo de povos indígenas, primeiros povos habitantes dos quilombos, segundo Carlos dos Santos.  “De acordo com a arqueologia, os materiais que foram encontrados, representam a tribo Aratu há mais de 800 anos, muito antes da chegada dos europeus ao Brasil”, ensina.
As ocas que forma construídas no local simbolizam a presença no quilombo de povos indígenas, primeiros povos habitantes dos quilombos
Segundo o professor e guia turístico, o Memorial tem todo esse simbolismo representativo de como os povos indígenas moravam no local, com toda uma organização social e cultural, em que se precisassem algum tipo de alimento eles compartilhavam com os outros.
“No palácio do chefe tem dois quartos, um seria para a esposa e o outro para a outra ou das outras esposas.
“A maior quantidade de gênero aqui era de mulheres e para que não houvesse nenhuma disputa entre homens por uma mulher, o chefe na época (Ganga Zumba), pediu que elas escolhessem os seus pretendentes, para não haver confronto entre eles”, ressalta.
Carlos observa que os homens do quilombo também tinham alguns prestígios que era de ter as suas esposas: “No palácio do chefe tem dois quartos, um seria para a esposa e o outro para a outra ou das outras esposas. Para alguns pesquisadores, a entrada de um quarto principal da direita era da rainha e o da outra passariam a entrar pela porta do fundo do palácio e seguia do lado oposto”, observa.

Conselho Deliberativo

Próximo ao palácio do chefe havia um espaço onde se reunia o Conselho Deliberativo, para que pudesse montar suas estratégias de defesa. O guia explana que além do chefe do quilombo também tinha os chefes dos mocambos e no momento das batalhas eles vinham e montavam as estratégias, para que pudessem defender seu povo: negro, indígena e branco.
Muito antes do tombamento do parque, o guia explica que uma parte da Serra da Barriga era de um usineiro e a outra de um grande fazendeiro da região
Muito antes do tombamento do parque, o guia explica que uma parte da Serra da Barriga era de um usineiro e a outra de um grande fazendeiro da região e eles plantaram cana por um bom tempo. Depois que a Serra da Barriga foi tombada pelo governo federal, eles tiraram as plantações do local.

Árvore sagrada é local de orações e peregrinação no dia 20 de novembro

Na Serra da Barriga tem a árvore Jitó (onde são feitas oferendas) e a Iroko (orixá que representa o tempo); é uma árvore africana, sagrada, localizada na Lagoa dos Negros, que recebe no dia 20 de novembro o pessoal do candomblé e das religiões para fazerem as orações.
Na Serra da Barriga tem a árvore Jitó (onde são feitas oferendas) e a Iroko (orixá que representa o tempo); é uma árvore africana, sagrada
A casa de orações ou casa do campo santo compõe o conjunto arquitetônico junto com o Batucajé, espaço construído por trás da estátua do herói Zumbi, onde são feitas apresentações, palestras e atividades sonoras e de danças, onde os sons dos tambores, berimbaus, adufes (pandeiros) e agogôs levam homens e mulheres a sintonizarem seus corpos e espíritos através da ginga da capoeira, da congada, do maracatu, do samba.
Lagoa dos Negros, que recebe no dia 20 de novembro o pessoal do candomblé e das religiões para fazerem as orações
O Memorial Quilombo dos Palmares nos transporta no tempo e no espaço e faz o visitante viajar na história do País. “O Quilombo dos Palmares também tinha ligações com os pequenos vilarejos em seu redor; os povoados da época e era visto como uma ameaça para a Capitania de Pernambuco e outras localidades do País. Se o quilombo crescesse, poderia prejudicar todo o governo que estaria lá fora”, argumenta. 

Mais fotos da Parque Memorial Quilombo dos Palmares - Serra da Barriga

terça-feira, 19 de maio de 2015

CPI da Câmara faz diagnóstico da violência contra jovens negros e pobres

Audiência pública realizada na ALE ouve familiares de vítimas de homicídios e discute problema no Estado

 / Tribuna Independente 19 Mai de 2015 - 11:01

Foto: Adailson Calheiros
Desafio lançado ao Estado requer que ALE também possa constituir uma Comissão Especial para acompanhar o tema
Desafio lançado ao Estado requer que ALE também possa constituir uma Comissão Especial para acompanhar o tema
Dar visibilidade ao tema, fazer um diagnóstico e oferecer soluções legislativas, por meio de um projeto compartilhado, com planos de metas para estados, municípios e União é o que propõe a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Câmara dos Deputados, que investiga a violência contra jovens negros e pobres no Brasil.
Segundo o presidente da comissão e autor da criação da CPI, deputado Reginaldo Lopes (PT/MG), na audiência pública realizada na Assembleia Legislativa, na tarde de ontem,  é inaceitável o silêncio da sociedade brasileira a respeito dos homicídios contra jovens pobres e negros. “Nós precisamos mudar a realidade do nosso país em relação ao número de homicídios”, observa
Segundo ele, Alagoas é o Estado onde tem o maior índice de homicídios para cada cem mil. De acordo com o Mapa da Violência,  são 193 assassinatos para cada cem mil habitantes e  na cidade de Maceió mais de 300 para cada cem mil. “Os dados são estarrecedores”, pontua.
Reginaldo Lopes, observa que é fundamental a presença da CPI em Maceió. “O desafio que está colocado, para o Estado de Alagoas, requer que a Assembleia Legislativa do Estado pudesse também constituir uma Comissão Especial para acompanhar e dar visibilidade a esse tema, acompanhar os trabalhos nossos em Brasília”, sugeriu.  
O deputado avalia que é preciso desnaturalizar a questão dos assassinatos no Brasil: “A sociedade não pode aceitar. Os indicadores da Organização das Nações Unidas (ONU) consideram guerra civil país que mata mais de dez a cada cem mil habitantes”, destaca.
Reginaldo Lopes diz ainda que é preciso transformar o tema de domínio popular: “Segurança pública não pode ficar reservado, elitizado o debate. Esse tema é do cidadão, quem recebe segurança pública é ele, cabe a cada um participar da concepção sobre a segurança pública no Brasil”, pontua.
O deputado do Partido dos Trabalhadores de Minas Gerais disse que a proposta da CPI é que o País tenha que fazer um novo sistema federativo em que município e união passem a ter um papel nesse debate e estabelecer um plano de metas feito pelo estado brasileiro, com obrigação dos municípios e dos estados também.
Novo sistema federativo de segurança deve ser partilhado, segundo comissão
Quando for finalizado o trabalho da comissão, o presidente Reginaldo Lopes observa que será feito um projeto criando esse novo sistema federativo de segurança pública partilhado, integrando as ações, unificando as polícias, e ao mesmo tempo e mais importante, um plano de metas englobando município, estados e união, que terão que elaborar um plano de metas com controle da sociedade.
“A sociedade fará o monitoramento para ver se esse plano será realmente implementado; com meta  de redução das taxas de violência, mas acima de tudo políticas sociais preventivas para evitar a violência e os homicídios no Brasil”, destaca.
(Foto: Adailson Calheiros)
Presidente da CPI, Reginaldo Lopes diz que projeto terá políticas sociais preventivas
O deputado Paulão, autor do requerimento propondo a sessão no Estado e titular da comissão, fez um resumo do trabalho da comissão e disse que o tema foi despertado a partir do Mapa da Violência, a partir de um estudo do professor Júlio Jacobo.
Segundo o estudo, as oito cidades mais violentas do País estão no Estado de Alagoas e que essa violência tem localização na periferia de Maceió e nas cidades consideradas mais violentas.
“Essa pesquisa define também o sexo, o masculino, com idade de 14 a 29 anos e define o corte étnico racial que é a população negra e as comunidades pobres. Diante disso a CPI começou fazendo audiências com oitivas ouvindo os estudiosos, começando pelo autor do Mapa da Violência, Júlio Jacobo e várias entidades, visitas in loco, como no Morro do Alemão, onde a situação é muito complexa”, destaca. Paulão observa que é preciso discutir o modelo de segurança no Brasil. “Esse modelo tem que ser modificado”.
Depois do diagnóstico e do relatório, da deputada Rosângela (Gomes) a CPI vai buscar soluções e entregar o relatório ao Ministério  Público, à Câmara Federal, Executivo, presidente da República, e as autoridades que vão melhorar esse índice de mortes”, observou.
Rosângela Gomes (PRB/RJ), que está no primeiro mandato, disse que  o passado triste do povo negro é a escravidão e que infelizmente a sociedade ainda vê a pele negra como secundária na sociedade.
“Nós não podemos admitir mais isso, esse quadro tem que mudar”, observou. A deputada disse ainda que     já começou o seu mandato com uma responsabilidade importante que é ser relatora dessa CPI, que para ela é uma das mais importantes.
“Nós sempre fomos invisíveis nessa sociedade e agora de uma forma brilhante a CPI se coloca para investigar os assassinatos de jovens, pobres e negros”.
CONSULTOR
O consultor da comissão, advogado Pedro Montenegro, que é ligado à questão dos direitos humanos no Estado, disse que a CPI é fundamental porque ela traz luz sobre o assunto.
“É um tema gravíssimo no País, estamos muito acima e em Alagoas mais ainda. Temos taxas altíssimas no Estado e estamos tratando de uma epidemia. A CPI vai fazer o diagnóstico e vai oferecer soluções legislativas”, destacou.
Próxima cidade a ser visitada pela comissão é São Paulo
O deputado Paulão destacou que depois do Morro do Alemão, a CPI visitou a cidade de Salvador e agora Maceió: a próxima cidade a ser feita sessão será em São Paulo. “Não dá para suportar um final de semana, de sexta a segunda-feira e você ter 36 mortes, em alguns bairros tipificados como os mais violentos e jovens, negros, meninos e da periferia”, ressalta.
(Foto: Adailson Calheiros)
Para o deputado alagoano Paulão, é preciso defender a vida
Segundo o deputado do PT, existe um corte com o novo fenômeno chamado crack, onde tem a violência do jovem contra o jovem, mas existe também a violência do agente público. “Temos que defender a vida, estamos remando contra a maré, a luta dos direitos humanos não dá voto, mas temos que discutir esse processo, infelizmente a maioria da população defende a pena de morte, mas precisamos realizar esse debate”, pontua. 
CASO BRUNO
O deputado-delegado Edson Moreira (PTN/MG), que ficou conhecido no País por ter atuado e desvendado o caso do goleiro de Bruno, do Flamengo, disse que a comissão fez visita ao diretor-geral da Polícia Civil (Paulo Cerqueira) e procurou saber qual o motivo de os jovens serem assassinados no Estado, “qual o motivador, sendo Maceió o primeiro no Brasil e o 44º no mundo e ele explicou que a maioria dos homicídios (80%) está ligado às drogas ou ao redor delas”, ressalta.
O trabalho da CPI, segundo Edson Moreira, foi muito proveitoso em Alagoas:  “Fizemos oitivas, vamos ficar até tarde da noite e na madrugada vamos embora”, observa.
Mãe de jovem desaparecido diz que deseja que o filho seja encontrado
Dona Maria José da Silva, mãe do jovem Davi da Silva, do bairro do Benedito Bentes, desaparecido desde agosto do ano passado estava lá. Uma senhora pequena, frágil, sensível e que mal conteve a emoção ao falar do filho e da falta que ele faz. “Espero que meu filho seja encontrado; eu queria meu filho vivo”, observou dona Maria.
Ela comentou que começou a investigar o desaparecimento do filho, procurou em todos os lugares, mas até agora, nada. “Começamos investigando, mas até hoje não me deram uma resposta de nada. Já bati em todas as portas, para ver se encontram meu filho. Foi a polícia quem pegou meu filho, porque teve gente que viu, quando eles botaram meu menino dentro do carro”, disse ela.
Dona Maria José ressaltou que o filho Davi  estava na companhia de um amigo. “Aí o outro disse que revistaram os dois; abordaram e mandaram o outro abaixar a cabeça e ficar virado para a parede e colocaram meu filho dentro do carro. Disseram que iam dar uma volta com ele no ‘Aprígio’ um local que tem pra lá, aí o menino foi dizer muito tempo depois e acho que meu filho já estava muito longe”, observou.
A mãe de Davi disse que quando soube da notícia do desaparecimento do filho, estava no quintal lavando roupa. “Soltei tudo e saí atrás, bati todo canto, procurei e nada. Fui ao quinto Batalhão, no Aprígio, levei a foto dele, me mandaram ir  para Central de Polícia, eu fui e não encontrei”, reforça.
OUTRO CASO
Dona Lucielma é funcionária pública, estava na sessão de ontem acompanhada pelo líder comunitário Israel, do Benedito Bentes, e falou que o filho dela foi assassinado em Massagueira;  estava na casa dele quando foi assassinado.
“Os amigos o chamaram para beber e nessa bebida quando eu estava trabalhando recebi um telefonema de uma pessoa dizendo que tinham assassinado ele. Eu e meu marido estávamos no trabalho. Eu acho o seguinte: ninguém tem o direito de tirar a vida de ninguém, até se você fizer alguma coisa  contra aquela pessoa,  tem a Justiça para você procurar”, avalia.
Segundo ela, a família não procurou a Justiça para tentar solucionar o caso. “A gente deixou pra lá, somos uma família religiosa , a esposa dele mora lá em Massagueria, ele tem um filho que vai fazer cinco anos e a gente fica até com medo de uma ação e deixou pra lá: entregamos na mão de Jesus”, ressaltou.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Luar do Sertão se prepara para fazer bonito no São João

Quadrilha estilizada compete há 28 anos,
já ganhou vários prêmios e passa 
a tradição de pai para filhos

Olívia de Cássia - Repórter
A quadrilha junina Luar do Sertão, do bairro do Prado, em Maceió, está se preparando para fazer bonito no próximo São João: os componentes recebem treinamento rígido nos ensaios, do coreógrafo, produtor e noivo Davi Perdigão, para que faça bonito e novamente seja vencedora nas competições que participa.

A quadrilha  Luar do Sertão não para; os componentes descansam um mês e em seguida já retomam às atividades - Fotos: Paulo Tourinho

A quadrilha não para; os componentes descansam um mês e em seguida já retomam às atividades. Davi está há onze anos como coreógrafo e explica que  a Luar foi a única de fora de Pernambuco escolhida para o Festival Pré-junino, para representar Alagoas e encerrar o evento, patrocinado pela Liga de Quadrilhas de Pernambuco, que aconteceu neste domingo, 17. (Veja o vídeo)  https://www.facebook.com/209350839219590/videos/vb.209350839219590/474633546024650/?type=2&theater&notif_t=comment_mention

Davi Perdigão, coreógrafo, produtor e noivo da quadrilha Luar do Sertão

Além de coreógrafo, Davi Perdigão também produz o kit bolsa-figurino que os componentes vão utilizar, como assessórios, sapatos, meias, entre outros objetos. O dançarino paga um valor X, dividido em três vezes, para todo o material que vai precisar nas apresentações. “Isso tudo sem apoio financeiro de ninguém, nós bancamos tudo”, ressalta o presidente da quadrilha Cláudio Menezes.

Cláudio Menezes, Presidente da quadrilha Luar do Sertão,

As quadrilhas estilizadas foram substituindo com o tempo as antigas quadrilhas tradicionais de São João, trazidas para o Brasil colonial pelos Europeus. No início, estavam associadas às formações militares existentes à época. Tinham passos mais lentos e uniformes e a música não era o forró.
No Nordeste, a dança ganhou traços regionais e marcação de triângulo, zabumba e sanfona, mas hoje essa tradição quase que se perdeu no tempo. As quadrilhas estilizadas mostram para o público a dança junina com passos coreografados, roupas com bastante brilho e até mesmo cenários.
Com a necessidade de cativar os jovens para a perpetuação da essência dessa tradição, muitas das quadrilhas existentes ganharam nova roupagem. As mais tradicionais permanecem e têm público cativo, mas ao longo dos anos as do tipo estilizadas vêm conquistando seu lugar nos arraiais do Brasil.

A quadrilha ainda não tem sede própria, mas o grupo está se organizando para isso

A reportagem do portal Primeiro Momento acompanhou uma tarde de ensaio da Luar do Sertão, que tem 32 anos de existência, mas compete há 28 e já ganhou vários prêmios durante esse tempo nos concursos de quadrilha pelo Brasil a fora. A Luar do Sertão tem uma particularidade: componentes que dançam desde a sua formação e foram passando a tradição para os filhos, que também participam da comunidade.
A quadrilha ainda não tem sede própria, mas o grupo está se organizando para isso. O presidente diz que em 1987 começou competindo e já ganhou no Campeonato Alagoano de Quadrilhas 15 vezes; três brasileiros; a mesma quantidade no Novo Nordeste, além de prêmios no Nordestão. A entidade tem uma vida própria e está em evidência durante todo o ano, realizando também trabalhos comunitários.

Quando terminam os festejos juninos o trabalho recomeça

O presidente Cláudio Menezes explica que assim que termina o São João, o trabalho recomeça, da mesma forma que as escolas de samba do Rio de Janeiro. “A gente faz eventos, bingos, festas em boates, feijoadas para arrecadar fundos o colocar o espetáculo em prática”, comenta.

O presidente Cláudio Menezes explica que assim que termina o São João, o trabalho recomeça, da mesma forma que as escolas de samba do Rio de Janeiro

O investimento das quadrilhas estilizadas é pesado, desde a maquiagem, cabeleireiro, vestimentas e todo o aparato que é utilizado nas apresentações. Tem roupas para os ensaios e específicas para as apresentações que é guardado segredo até a última hora. Segundo os organizadores, tem apresentação que é de mais de um traje e isso requer muito esforço.

Tradição vai sendo passada para novas gerações

karlleane e o marido Leandro se conheceram na quadrilha em 2011, casaram o ano passado, mas há quatro anos estão juntos. Ela diz que ano passado dançou grávida e esse ano vai dançar de novo e deixar o bebê com a sua mãe e conta que está na Luar do Sertão há cinco anos.

Karlleane e o marido Leandro se conheceram na quadrilha em 2011, casaram o ano passado, mas há quatro anos estão juntos

O esposo Leandro observa que é uma satisfação participar desse meio junino. “Desde que eu vim, em 2007, me apaixonei; conheci minha esposa aqui: ela já vinha de outra quadrilha e começamos a namorar. Ano passado a gente noivou, ela já estava grávida, eu não sabia, ela dançou grávida de quatro meses e em setembro no chá bebê eu fiz uma surpresa e a gente casou no chá de bebê; o fruto desse amor pela quadrilha e pelo São João está aqui”, diz ele mostrando o filho.

O fruto desse amor pela quadrilha e pelo São João está aqui”, diz ele mostrando o filho.

“Nossas roupas, nossos calçados, tudo a gente paga nesses eventos que faz para arrecadar dinheiro para as competições. Estamos associados como se fosse uma ONG que faz vários trabalhos sociais: começamos essa prática do ano passado para cá, arrecadando alimentos, material de limpeza, roupa, para ajudar o pessoal dos asilos, inclusive ano passado fizemos uma ação solidária no Natal, ajudando aqueles que nunca tiveram nada”, observa Leandro.
Suelene e Guilherme é outro casal que também começou a namorar na Luar do Sertão e estão na quadrilha desde o começo. Antes eram apenas amigos, cada um namorava pessoas diferentes e depois iniciaram o relacionamento, casaram e estão desde o início. Ele conta que já tem 50 anos e mesmo assim ainda vai dançar por muitos anos.

Suelene e Guilherme é outro casal que também começou a namorar na Luar do Sertão e estão na quadrilha desde o começo

Bruna e Stefani, 22 e 18 anos, são filhas de José Costa Lima Júnior, que dança com sua esposa desde o início. Bruna conta que dança desde os 12 anos; o pai há 30 anos: “Estou desde a fundação da quadrilha, já dançava em outras. Eu e minha esposa fazemos parte da fundação e achávamos que quando as meninas começassem a dançar a gente parava, mas estamos aqui até agora, minhas filhas já dançam há anos também”, explica Júnior.

Bruna e Stefani, 22 e 18 anos, são filhas de José Costa Lima Júnior, que dança com sua esposa desde o início

Noiva e Rainha da Quadrilha

Darianny é noiva da quadrilha há nove anos, mas disse que está na Luar do Sertão há 12. “Já dancei grávida, com barrigão; isso aqui é uma confraternização maravilhosa, faz parte da minha vida, é minha segunda família, me sinto em casa, mas todo ano é uma emoção diferente”, pontua.

Darianny é noiva da quadrilha há nove anos, mas disse que está na Luar do Sertão há 12 anos

Jane Lima é a rainha da quadrilha pela primeira vez, mas destacou que já dança há oito anos na quadrilha. “Eu sempre gostei de dançar e da cultura junina e já faz 20 anos que danço quadrilha, antes estava em outra, já participei de várias quadrilhas do bairro que acabaram e resolvi participar da Luar”, enfatiza.

Jane Lima é a rainha da quadrilha pela primeira vez, mas destacou que já dança há oito anos na quadrilha

Ela conta que procurou o pessoal da organização, “fui atrás, falei com o presidente e estou aqui até hoje. Jane explica que as apresentações requerem muito ensaio, porque tem ano que tem várias trocas de roupa: “Enquanto um grupo está dançando o outro vai trocar de traje”, destaca.

 De outras localidades 

Os 140 componentes que dançam na quadrilha não vêm só do bairro do Prado, mas também de outros bairros e do interior do Estado como Arapiraca e Porto Calvo; mais vinte pessoas no apoio e uma banda com 14 músicos. “Os ensaios da Luar são ‘overdose’, às vezes duram o dia inteiro e a comunidade se organiza levando comida, para que os componentes possam se alimentar”, destaca.
Joyce Prado é moradora do bairro operário de Fernão Velho e está na quadrilha Luar do Sertão há oito anos e participa junto com o noivo da agremiação. “É um mundo mágico, a gente se diverte, apesar de gastar, é uma família e tem um pessoal que quando não posso ir para casa durmo na casa deles, virou uma família, na verdade”, avalia.

Joyce Prado é moradora do bairro operário de Fernão Velho e está na quadrilha Luar do Sertão há oito anos

Aldiran só tem um ano na Luar do Sertão e disse que está gostando muito. “Estou amando participar, o pessoal é ótimo, acolhedor e encontrei aqui uma nova família”, destaca.

Aldiran só tem um ano na Luar do Sertão e disse que está gostando muito

Costureira fala do seu trabalho na confecção das roupas das quadrilhas estilizadas

A costureira Marisa Cabral confecciona roupas das quadrilhas estilizadas de Maceió há anos e diz que se abrir mão, trabalha o ano todo. “Começo a trabalhar para o São João depois do carnaval; depois que a quadrilha deixou de ser tradicional e foi para o formato estilizada, é realmente uma escola de samba”, pontua.

A costureira Marisa Cabral confecciona roupas das quadrilhas estilizadas de Maceió há anos e diz que se abrir mão, trabalha o ano todo

Dona Marisa Cabral conta que tem oito pessoas trabalhando com ela e que terceiriza o trabalho, para poder dar conta. “Antigamente o trabalho era todo em casa; agora não. Eu tenho pessoas que fazem o babado para mim, outra peça e só faço montar”, destaca.
Ela conta que existe quadrilha estilizada que tenha só uma roupa: “Hoje, por mais simples que seja, tem mais de um traje. Outra quadrilha aqui do Prado só tem cinco anos, 40 casais e já vem cada dama com duas roupas. Ninguém usa mais uma roupa só para dançar; nem pensam”, observa.

A estilista pontua que para participar de uma quadrilha estilizada o participante tem que desembolsar muito dinheiro: cerca de três mil reais para um casa

Ela explica que antigamente as roupas eram confeccionadas com tecidos barateados como chita e bico: “Hoje não se usa nem bico mais, é lantejoula, estrais e outros detalhes caros. Uma componente de uma dessas quadrilhas do bairro gastou quase R$ 300 reais só com pedras para colocar na roupa; extrapolou mesmo”, ressalta.
A costureira pontua que para participar de uma quadrilha estilizada o participante tem que desembolsar muito dinheiro: cerca de três mil reais para um casal. “Tem que ter condições para entrar num balanço desse e a costureira para dar conta, tem que trabalhar muito. Antigamente eu costurava só para a Luar; eu fazia as roupas de todos os componentes, mas quando começou a crescer, em matéria de temas e de roupas, não deu mais, teve que colocar mais costureiras”, pontua.
Marisa Cabral explica ainda que cada casal representa de quatro a cinco estados do Nordeste. “Um homem que vai representar quatro estados ele vem com quatro camisas, quatro coletes; um monte de roupa, a mulher do mesmo jeito”, explica.

Segundo ela, as quadrilhas grandes como a Luar do Sertão, cada componente tem que se manter para adquirir os trajes, além dos custeios para as viagens

Marisa explica que esse glamour nas quadrilhas estilizadas está em todo o País e as de Alagoas têm que acompanhar, porque quando chegam lá fora é do mesmo jeito ou mais. “É um espetáculo e as escolas de samba perdem; cada componente se manter. Boi e quadrilha são muito mais ricos do que escolas de samba”, avalia.
Segundo ela, as quadrilhas grandes como a Luar do Sertão, cada componente tem que se manter para adquirir os trajes, além dos custeios para as viagens. “Os patrocinadores são os próprios componentes, que arcam com todas as despesas”, complementa.

Veja mais fotos do ensaio da Quadrilha Luar do Sertão

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Igbonan Rocha adotou Alagoas há cerca de 30 anos

Artista diz que não se vê mais morando em Salvador, onde começou sua carreira musical


Olívia de Cássia - Repórter 
Igbonan Rocha é uma voz conhecida de quem frequenta o meio artístico e musical alagoano. Ele é baiano e adotou Maceió como sua cidade há 30 anos e conta que não se vê mais morando em Salvador, sua terra natal, onde começou a carreira musical, no início da década de 1980, cantando em barzinho.

Igbonan Rocha é uma voz conhecida de quem frequenta o meio artístico e musical alagoano - Fotos: Paulo Tourinho

Esse baiano arretado tem o riso fácil, voz que encanta e muita gente comenta que se assemelha à tonalidade de Milton Nascimento. Ele comenta que a primeira vez que subiu ao palco foi na Barra e quem convidou foi o Netinho, da Banda Beijo.    
Igbonan Rocha, ou Rochinha, como o chamam carinhosamente os amigos, destaca que às sextas-feiras à noite costumava ir ao Croques e Crepes, uma creperia de Salvador. “A dona era minha amiga e botou o Netinho para cantar lá; ele era bem novinho para cantar MPB”, destaca.
Segundo o artista a turma de jovens que não tinha o que fazer,ia  às sextas nesse local. “Um dia Netinho me chamou para cantar e eu cantei Corcovado, foi a primeira vez que eu cantei e a dona do local pediu para eu me apresentar lá: ele cantava na sexta e eu no sábado; a partir daí cantei em vários locais”, explica.
Igbonan conta que terminou o curso de história, foi fazer pós-graduação nos Estados Unidos, ganhou uma bolsa de estudos de uma fundação americana e quando voltou, em 1985, a irmã que tinha uma escola de Inglês em Maceió o convidou para passar três meses para tomar conta da empresa.  
Ele conta que a princípio recusou o convite, mas depois aceitou: veio para Maceió e não quis mais voltar. “Tinha uma barraca perto da escola onde cantavam Zelia Santi e Eraldo França; as barracas de praia começavam a funcionar naquela época à tarde e escutávamos da escola os meninos passando o som”, relata.
 Depois do expediente, Igbonan Rocha comenta que saía com uma amiga para tomar cerveja nessa barraca e uma das noites pediu uma música do Milton Nascimento e o amigo disse que não sabia a música: só sabia tocar,  “e eu disse que sabia, cantei a música e a partir daí comecei em muitos lugares: no Marina Morena, Ipaneminha, Astrolábio, entre outros locais”, destaca.
Passados os três meses que tinha combinado com a irmã, ele conta que ela liga e informa que já tinha encontrado a pessoa para tomar conta da escola e que ele poderia volta para Salvador. “Aí eu disse: ‘não vou mais voltar’ e nessa história vou fazer 30 anos em dezembro que estou em Maceió”.

 Atualmente o cantor está fazendo festas particulares e com alguns projetos - Fotos: Paulo Tourinho

Igbonan Rocha disse que também trabalhou em hotel, mas sobrevive atualmente apenas da música. Ele ressalta que há cinco anos entrou pro samba: “Foi outra guinada em minha vida, porque sempre cantei MPB. Montei um show ‘Samba eu canto assim’, chamei o Marcão para dirigir o show e fizemos um show muito legal lá no Cantoria”.
A partir desse show ele destaca que veio a ideia de se montar um grupo de samba: “Primeiro veio o Clube do Samba, depois veio o Nosso Samba, começamos no Jaraguá Tenis Clube e depois montei o Samba de Nego”.

Igbonan Rocha disse que também trabalhou em hotel, mas sobrevive atualmente apenas da música

 Atualmente o cantor está fazendo festas particulares e com alguns projetos: “No próximo dia 30 estou fazendo aniversário de 55 anos e pretendendo fazer um show legal para comemorar;  recebi uma proposta legal de um cantor de renome para fazer o show comigo; estou correndo atrás para ver se acontece”, pontua.

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