segunda-feira, 4 de maio de 2015

Fazenda Anhumas, em União dos Palmares, revive a história

Proprietários transformaram antigo engenho de açúcar em local de visitação

Olívia de Cássia - Repórter 
Primeiro Momento

A fazenda Anhumas a dez quilômetros de União dos Palmares, de propriedade dos herdeiros de Benon Maia Gomes e sua esposa dona Helena Baía, localizada depois do povoado Muquém, ainda preserva histórias dos caminhos do açúcar e da colonização do país e do Estado. Atualmente, quem quiser conhecer o local agenda uma visita com a família, que trabalha com roteiros.
Fazenda Anhumas a dez quilômetros de União dos Palmares - Foto: Paulo Tourinho
A proprietária conta que uma das características do casarão é a arquitetura - Foto: Paulo Tourinho
 Izabel Padilha Maia Gomes, neta dos antigos moradores e uma das herdeiras do patrimônio da família, recepcionou a equipe do Primeiro Momento e falou da história do antigo engenho Anhumas e a respeito do que a fazenda oferece hoje para os visitantes que se interessam um pela história de Alagoas.


A fazenda Anhumas tem como atrativo a história do engenho de cana-de-açúcar - Foto: Paulo Tourinho
Além do belo casarão -, que começou a ser edificado em 1883 e passou seis anos para ser construído -, a fazenda Anhumas tem como atrativo a história do engenho de cana-de-açúcar, uma pequena vila de moradores e verde por todos os lados, inclusive um pedaço de Mata Atlântica preservado até hoje. Pela beleza arquitetônica da casa grande da fazenda Anhumas, que tem uma arquitetura mais refinada, Izabel Maia Gomes avalia que pode ser comparada até com as casas de café do Rio e Sudeste.
 “A curiosidade da casa é que todas as janelas têm encaixes; são 156 portas, todas elas foram transportadas do Rio de Janeiro para o Porto de Maceió e de lá para cá em carros de boi. Imaginem a dificuldade. Foram seis engenheiros; os tijolos e as telhas foram feitos a mão, na olaria que foi feita exclusivamente para fazer os tijolos e as telhas da casa. Todas elas são originais; hoje em dia a olaria não existe mais e foi demolida”, pontua.
"As janelas têm encaixes; são 156 portas, todas elas foram transportadas do Rio de Janeiro para o Porto de Maceió e de lá para cá em carros de boi" - Foto: Carla Regina
Izabel Maia Gomes mostra também o porão construído no alicerce da casa, que servia para o resfriamento do imóvel, já que, apesar da vegetação em abundância, o calor do Nordeste é muito forte.  “Esse porão foi feito para o resfriamento da casa, pois da mesma forma que ela é muito quente, os porões eram feitos para resfriar: só que eram utilizados na época dos escravos, também, para outros fins”, observa.
Izabel Maia Gomes mostra também o porão construído no alicerce da casa, que servia para o resfriamento do imóvel - Foto: Paulo Tourinho

Arquitetura

A proprietária conta que uma das características do casarão é a arquitetura: “Foge aos padrões das casas de engenhos, principalmente do Nordeste. Antes de a casa ser construída no atual local, foi edificada mais embaixo e por uma questão de estratégia dos donos da época, e por quererem uma casa mais imponente, construíram na parte de cima, por conta da visibilidade”, argumenta.
Móveis antigos, a maioria originais, peças que lembram as antigas fazendas da época colonial, tudo preservado. Além de conhecer o acervo da família, Izabel Maia Gomes explica que se a visita desejada for de estudantes, é cobrada uma taxa de cinco reais por aluno: eles visitam e recebem uma explanação histórica. Se for com almoço, a visita custa R$ 30; se for um passeio com trilha (dez quilômetros de trator) custa R$ 60 e vai variando de acordo com o pacote desejado. Tem visitas e pacotes especiais para pessoas da terceira idade também.
Móveis antigos, a maioria originais, peças que lembram as antigas fazendas da época colonial, tudo preservado - Fotos: Paulo Tourinho

 Na década de 1930, vilarejo era vivo e tinha vida própria

Segundo Izabel Maia Gomes, na época da avó, dona Helena Baía, o vilarejo tinha uma faixa de 250 famílias residindo, mais de mil pessoas. “Quando minha avó chegou, em 1934, era um povoado que tinha vida própria: feira, Festa da Padroeira, barracão, comércio, tinha tudo”, observa.
Isabel Maia Gomes ressalta que a culinária oferecida na fazenda é regional  - Foto: Paulo Tourinho
O engenho Anhumas era vivo, mesmo quando não produzia mais açúcar. A turismóloga  conta que, ao término do ciclo do açúcar, os engenhos passaram a fabricar aguardente, continuaram vivendo no campo e fazendo parte do contexto histórico e cultural do desenvolvimento da região.
A aguardente, a popular cachaça, é feita da deterioração da cana e ela conta que o nome foi dado pelos próprios escravos, que quando feridos por conta dos açoites e obrigados a trabalhar, colocavam nos ferimentos a água ardente, ou pinga, como chamavam.
A proprietária conta ainda que o engenho era bem mais antigo do que a época da construção da casa grande.  “A propriedade não é uma grande fazenda, mas quando era do meu avô tinha mais de dez mil hectares, era uma terra extensa; hoje somos pequenos proprietários, desenvolvemos a agricultura familiar e não tem tanta terra como os grandes engenhos”, destaca.
A fazenda Anhumas hoje em dia está aberta à visitação e para ter acesso ao local é preciso agendar. “Fazemos pacotes para trilhas nas matas, com banho de bica; as pessoas escolhem se é só visita simples, com trilha ou sem, com ou sem almoço”, explica.
A fazenda Anhumas hoje em dia está aberta à visitação e para ter acesso ao local é preciso agendar - Foto: Paulo Tourinho
Izabel Maia Gomes ressalta que a culinária oferecida na fazenda é regional e também sobre a civilização do açúcar: “Onde a gente encontra muitas receitas que têm influência portuguesa, com muitas gemas: é uma adaptação; tudo vem da adaptação do senhor de engenho, com o negro e com todas as culturas regionais”, ressalta.

Fazenda oferece turismo cultural e culinária da região

Quando Benon Maia Gomes e dona Helena Baía adquiriram a propriedade, na década de 30, o engenho ainda produzia açúcar, mas já estavam nascendo as usinas de açúcar no Brasil. Dentro da pauta de turismo cultural e regional, a fazenda Anhumas oferece conhecimento histórico cultural, um ambiente agradável e bucólico, para quem quer fugir do circuito praia e conhecer mais sobre as origens de Alagoas.
“Não desmerecendo a questão do Quilombo dos Palmares, que é importantíssima para o local, maior resistência negra reconhecida historicamente, mas isso aqui caracteriza a história, está intrínseca na história a questão dos engenhos”, observa.  
Atualmente a Anhumas também produz queijo para venda, além de outras receitas no cardápio regional. A proprietária revela que tem um livro de culinária de mais de 200 anos e que os portugueses usavam muitas gemas nas receitas. “Uma quantidade absurda e uma curiosidade é  que as roupas eram engomadas com as claras dos ovos”.
O primeiro doce feito na região foi o doce de coco, segundo pesquisas de Izabel Maia Gomes.  “Era o melaço e o coco, matéria-prima dos engenhos é um entrosamento, aproveitamento das culturas e do que dá hoje”, destaca.
Isabel Maia Gomes avalia ainda que o turismo cultural é a vivência, é o fazer e o saber: “Eles (os moradores) convivem aqui com a gente normalmente: tiram banana, leite, entre outros produtos. Ao redor da casa tem doze tipos diferentes de frutas”.  Ela destaca que pela questão do acesso e da falta de apoio e da logística, as visitas à fazenda ainda são poucas.
Isabel Maia Gomes avalia ainda que o turismo cultural é a vivência, é o fazer e o saber - Foto: Paulo Tourinho
“O turismo cultural é uma coisa viável, principalmente em União dos Palmares, que é riquíssimo, não só pela questão do Zumbi, mas pela civilização do açúcar, Jorge de Lima e outras questões históricas. É um município que tem uma potencialidade enorme de desenvolvimento, onde precisa de alguns estímulos”, ressalta.

Anhumas serviu de cenário para o filme Joana Francesa, de Cacá Diégues

Foi na localidade que, no começo da década de 1970, foram feitas as filmagens de Joana Francesa, filme do alagoano Cacá Diégues, com participação da atriz francesa Jeane Morreau,  que envolveu como figurantes vários moradores de União dos Palmares. O filme teve a participação do estilista francês, Pierri Cardin, entre outros personagens.
“A gente não tinha nem energia elétrica ainda; houve uma consulta à minha avó, Helena, para filmarem; pelo local, pela paisagem, pela identificação do filme Joana Francesa de Cacá Diégues. Quem quiser, pode baixar, tem no You Tube. Adoro as trilhas sonoras com Chico Buarque de Holanda e outros nomes”, observa.
Izabel Maia Gomes conta também que foi um burburinho as filmagens de Joana Francesa terem acontecido na Fazenda Anhumas, à época. “O acesso era mais difícil ainda; hoje só tem dois quilômetros de barro; naquela época era tudo. A mobilização foi grande, as pessoas vinham em peregrinação para verem as gravações das cenas”, conta.
Izabel Maia Gomes conta também que foi um burburinho as filmagens de Joana Francesa terem acontecido na Fazenda Anhumas - Foto: Paulo Tourinho
Segundo ela, para as filmagens, chegavam helicópteros, o pessoal com os atores e até hoje todo mundo fala. “Os adultos da nossa idade, todo mundo participou do filme”, lembra, acrescentando que esse é um fato muito importante da cultura local.
“Não houve grandes preferências de bilheteria, mas foi um dos filmes que ele (Cacá Diégues) diz que gostou muito de fazer, até porque ele é alagoano. Muita gente participou como figurante, ou não. Tivemos também os baloeiros, que fizeram aqui um especial, passaram uma semana aqui na fazenda, fizeram um clipe da banda Palhaço Paranoide, que é o Garoto Invisível”, pontua.
Além disso, na fazenda ainda tem as ruínas do escritório a olaria demolida. “Futuramente queremos fazer um restaurante aqui: a gente vai puxar; deixar de utilizar o estábulo, mas nas realidade ele ainda funciona: tiramos o leite e fazemos o queijo aqui. Tem o piso original, deixando a arquitetura e a gente fazer em cima de um cardápio da civilização do açúcar, que a gente tem muito material”, explica.
Segundo Izabel Maia Gomes, futuramente a família quer fazer um restaurante neste local - Foto: Carla Regina
Na época da colonização, o açúcar não era transportado em grãos, era em blocos. “Por isso aqueles blocos de rapadura, eram colocados em forma, desenformados, ou de madeira ou colocavam a folha da bananeira embaixo e em blocos para poder ser transportado nos navios, pois o refinamento era feito na Europa”, ensina.
Izabel avalia que a escravidão é uma parte vergonhosa da história da humanidade, mas observa que a civilização do açúcar impulsionou o desenvolvimento do País e do Estado e faz parte da história. “Fosse pela colonização holandesa ou portuguesa”, pontua.

Superstição

Na fazenda Anhumas também tem uma história de superstição. Isabel Maia Gomes comenta que a avó Helena era uma pessoa firma, determinada, que criou os filhos sozinha, pois ficou viúva muito cedo. Ela começou a construir a igreja  do local e quando já estava adiantada a construção, recebeu um aviso de uma moradora de 90 anos, que era sua amiga e era neta de escravos. Por conta disso, ela interrompeu a construção do imóvel.
Dona Helena Baía começou a construção da Igreja de São Sebastião, mas uma senhora da comunidade disse a ela que teve um sonho que dizia que ela não continuasse, senão ia morrer
“Minha avó comprou todo o material para fazer a igreja de São Sebastião, padroeiro do vilarejo: piso, janelas, tudo estava pronto e tínhamos uma senhoria que tinha mais de 90 anos, era muito amiga da minha avó e contava que a avó dela era escrava e muitas histórias que a gente tem, veio dela, dona Eudócia. Um dia ela acordou e disse que sonhou que se ela terminasse de construir a igreja ela ia morrer e ela parou a construção, deu todo o material para a antiga igreja de União e de algumas casas de lá e nenhum filho teve coragem de prosseguir a construção e ficou daquela forma”, destaca.
A fazenda é um patrimônio particular e o objetivo dos atuais proprietários é preservar a história, não deixar demolir mais, não mexer na parte original da casa. “Tem alguns órgãos que  perguntam por que não tomba, mas o tombamento vai restringir a moradia da minha família”, observa.

A fazenda é um patrimônio particular e o objetivo dos atuais proprietários é preservar a história, não deixar demolir mais, não mexer na parte original da casa - Foto: Carla Regina
 Izabel Maia Gomes acrescenta ainda que a propriedade tem atualmente nove famílias morando, cada um com uma atividade de cultivo: banana, laranja, leite e tem uma rotatividade grande.
“Eles trabalham seis meses, alguns pouco tempo depois, e param; em seguida vêm outros. Como tinha o período dos retirantes do Sertão antigamente, minha avó já preparava o galpão, porque eles vinham da seca atrás de trabalho e guarita, eram trabalhadores periódicos”, explica.
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quinta-feira, 30 de abril de 2015

Geraldo Cardoso vai entrar na Justiça por perdas e danos morais



 Foto: Olívia de Cássia 

Cantor e compositor está em Sergipe divulgando seu novo trabalho e ficou indignado com ação da SMCCU

Olívia de Cássia – Repórter

O cantor e compositor Geraldo Cardoso, por telefone,  lamentou a demolição de dez casas de sua propriedade; oito prontas duas só com as paredes suspensas,  localizadas entre o Ouro Preto e a Gruta de Lourdes, denominado loteamento Gruta de Lourdes. O fato aconteceu na manhã desta quarta-feira (29).

A ação aconteceu porque a Superintendência Municipal de Controle do Convívio Urbano (SMCCU) e a Secretaria Municipal de Proteção ao Meio Ambiente (Sempma) avaliou que a duas casas inacabadas em construção seriam irregulares e foi erguida em uma Área de Proteção Permanente (APP). A Guarda Municipal e o Batalhão de Polícia Ambiental (BPA) deram apoio à ação.

O engenheiro da SMCCU, Galvaci de Assis, disse na oportunidade à imprensa, que Geraldo Cardoso não respeitou as notificações nem o embargo dado pelo município, até chegar a esse ponto. O cantor, que está em Sergipe fazendo divulgação de seu novo DVD e só volta para Maceió na sexta-feira, 1º de maio, disse que está indignado com o ato dos agentes públicos da Prefeitura, que ele chama de covardia.

 “Meu filho foi lá no local e viu tudo destruído e me disse por telefone: ‘painho, isso foi uma covardia que fizeram com você’. É mentira que eu tenha construído casas em terreno irregular e de preservação. Tenho toda a documentação que comprova o contrário”, disse ele. 

O proprietário alega que está sendo acusado, julgado e condenado injustamente e que todas as taxas: IPTU, CREA e SMCCU foram pagas no momento em que deu entrada no alvará antes de começar a obra e que esperava que a SMCCU levasse o topógrafo, mas depois de dois meses ele não compareceu.

“Contratei então um topógrafo que presta serviços para o órgão e ele fez topografia do local e constatou que tudo estava regular. Por isso de início às obras. Depois da obra começada recebi a notificação alegando que tinha uma denuncia anônima que as duas das casas estariam fora das medições”, disse o proprietário.

Ele contesta a alegação do Sr. Galvaci e explica que compareceu ao órgão as duas vezes que foi citado e foi acompanhado de sua arquiteta e que falou pessoalmente com o Sr. Galvaci. Na ocasião foi informado da possível irregularidade e por isso seria feito outro levantamento topográfico para tirar as dúvidas e seguir com o processo. “Porém a secretaria em questão que se comprometeu em reunião mandar o topógrafo, jamais o fez.  A obra então ficou parada durante esses dois meses à espera. E hoje foi surpreendido com essa decisão arbitrária”, pontuou.

Segundo Geraldo Cardoso, “isso que fizeram comigo parece perseguição política, parece que estamos numa terra sem lei; eu não tenho inimizades com ninguém. Foi arbitrariedade, sem aviso prévio; eles derrubaram tudo. Isso não vai ficar assim, eu vou entrar na Justiça e quero que a Prefeitura de Maceió se responsabilize, porque, inclusive, criaram pânico aos filhos menores dos trabalhadores da obra, que moram no local”, destacou.

O cantor e compositor de forró alega ainda que pediu dinheiro emprestado no banco para a compra do terreno “O terreno é meu há mais de 13 anos como consta na escritura e procuração anexo. Fiz a contabilidade do meu prejuízo e foi em torno de R$ 315 mil”, argumenta.

Geraldo Cardoso ressaltou que aquelas casas são fruto do seu suor: “Eu fiz para garantir o futuro dos meus filhos. Contratei uma arquiteta para fazer o projeto e um engenheiro, juntei a documentação e dei entrada, as casas são do tipo quitinete; eu tenho um nome a zelar e não gosto das minhas coisas irregulares”. O compositor reforça que está se sentindo injustiçado, penalizado.

“Vou entrar com uma ação de danos materiais e morais contra a Prefeitura de Maceió, e contra as secretarias que irresponsavelmente fizeram a demolição das minhas casas. Não tenho esse perfil que estão divulgando, estou transtornado, não só pelo dano material, e sim pelo dano moral: isso é grave, a gente luta 26 anos para ter um bom nome e vem pessoas com má intenção tentar denegrir minha imagem perante a sociedade”, protesta.


Ex-funcionários da Fábrica Carmen falam de tempos áureos e buscam alternativas

Olívia de Cássia - Repórter Primeiro Momento

Fernão Velho vivia em função da indústria e trabalhadores se sentem órfãos e sem capacitação para exercerem outra atividade

O bairro operário de Fernão Velho, um dos mais antigos de Maceió, já viveu tempos áureos, numa época em que tudo no local girava em torno das atividades da Fábrica de Fiação de Tecelagem Carmen, do Grupo Othon Bezerra de Melo. O desenvolvimento do local esteve ligado por mais de um século à fábrica, a primeira de Alagoas, fundada em 7 de março de 1857,por José Antonio de Mendonça,  Barão de Jaraguá.
Fábrica de Fiação de Tecelagem Carmen, do Grupo Othon Bezerra de Melo - Fotos: Paulo Tourinho
Em seguida a fábrica passou para o controle de um comendador e outros industriais ao longo da história até chegar à família de Othon Bezerra de Melo, em 1946, que se desinteressou pelo setor têxtil e a fábrica terminou fechando as portas, em 1996.
A reportagem pesquisou que, ao longo desse tempo,  a fábrica Carmen chegou a uma época na década de 70 em que tinha quatro mil empregados da região, todos com seus direitos em dia. Após 10 meses fechada a fábrica reabriu em 1997, com incentivos do governo estadual de Alagoas, mas não teve muito sucesso e desativou devido altos impostos do governo e a mal gestão empresarial.
Depois do fechamento da indústria, alguns trabalhadores conseguiram a aposentadoria e receberam seus direitos, no primeiro fechamento da empresa, mas cerca de 60 a 70 por cento dos outros trabalhadores ainda estão sem as indenizações e sem capacitação, já que não se prepararam para outras atividades e não se reciclaram em tempos de tecnologia e modernização.
Localizado às margens da Lagoa Mundaú, rodeado de matas e nascentes e com uma paisagem bucólica e deslumbrante, o bairro já foi distrito e deu muitos talentos ao Estado. A fábrica foi montada em um prédio de 25 mil metros de área construída e ocupa um quarteirão inteiro do local, além de duas nascentes dentro da propriedade.
A fábrica fornecia toda a estrutura possível para os operários, que recebiam em troca casa, água e luz, tudo sem pagar nada, além de atividades recreativas como cinema, teatro, dois clubes, atividades esportivas, bailes, entre outras diversões, segundo contam os moradores.

Trabalhadores dizem que é preciso capacitar ex-funcionários e jovens

Fábio Assis de Farias é aposentado, ex-operário da Fábrica de Carmen e ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores têxteis avalia que a criação de uma cooperativa dos funcionários seria uma das alternativas para o local. Na calçada da fábrica, que está abandonada, sucateada, com vidros quebrados, paredes pichadas e o prédio vazio, ele fala da situação dos trabalhadores, dos tempos áureos do bairro e avalia ainda que outra alternativa para acabar com a ociosidade da juventude de Fernão Velho seria a capacitação dos moradores para outras atividades fins.
Fábio Assis de Farias é aposentado, ex-operário da Fábrica de Carmen e ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores têxteis
“Eu não consigo entender que teve uma ação na Justiça que deu ganho aos trabalhadores, para que assegurasse os bens, e a fábrica vendeu as melhores máquinas, o patrimônio e até telha venderam e também a cobertura da estrutura foi comercializada, ninguém sabe por quanto e nem a quem. A informação que tivemos é que o prédio foi leiloado, para fazer dinheiro para pagar o povo”, diz.
Fábio Assis de Farias destaca que existem muitas opções para a capacitação dos trabalhadores e jovens do bairro que ficaram ociosos: “Existem muitas opções, mas depende de gestão, esses 25 mil de metros construídos poderiam ser aproveitados em benefício dos moradores. Fernão Velho nasceu e cresceu em função da tecelagem, poderiam pensar num projeto simples. Fizeram um café da manhã, perto do período eleitoral, prometeram mudar a realidade daqui, mas até agora nada; deram as costas para o bairro”.
O trabalhador aposentado diz que no caso dele foi beneficiado porque já está aposentado. “Essa aposentadoria foi oriunda do trabalho da Fábrica Carmem, pois aqui foi onde eu comecei minhas atividades. Eu não tinha profissão nenhuma, foi meu primeiro emprego. Comecei na empresa em maio de 1972, como servente. Tinha um setor de treinamento da escolinha, uma professora chamada Valdete, que era muito dedicada e a gente aprendia fácil”, explica.
Fábio Assis de Farias destaca que existem muitas opções para a capacitação dos trabalhadores e jovens do bairro que ficaram ociosos
Seu Fábio de Farias conta que pegou gosto pela arte de tecer, pois sempre procurou ser uma pessoa responsável, e por conta disso foi crescendo os degraus na área da profissão. “Daí eu passei a ajudante de contramestre de tecelagem e acharam por bem me colocar na parte de manutenção”, explica.
Em seguida, Fábio de Farias comenta que foi fazer curso em Recife, numa instituição que era como o Senai, para treinar os trabalhadores da área de fiação e tecelagem “e eu passei lá num colégio interno, um período de seis meses, sem nenhuma despesa, recebendo meu salário como se estivesse em atividade na Fábrica e aprendi muito lá”, destaca.

Com início da decadência da empresa, operário diz que entrou no sindicato

“Ingressei na vida de sindicato, porque eu não estava mais vendo um futuro promissor da minha dedicação na fábrica. Eu tinha vindo do interior, com 15 anos de idade e naquela época você poderia começar a trabalhar, principalmente na fábrica; hoje não é permitido por conta da legislação, porque é uma área insalubre, a tecelagem te oferece poeira, calor, fadiga, tudo isso junto, você não pode maios fazer outro trabalho, a não ser numa situação anônima, mas no caso daqui não podia ser feito”, comenta.
Na época em que começou a trabalhar, ele explica que a fábrica tinha cerca de três mil trabalhadores. “A informação dos mais antigos é que a Carmen já chegou a empregar cinco  mil trabalhadores. No horário em que saíam de um turno, parecia mais um bloco carnavalesco de tão animado; tudo aqui em Fernão Velho girava em torno da fábrica, tanto é que nasceu e cresceu por conta da implantação dessa fábrica aqui”, argumenta.
Fabio de Farias explica que a fábrica também empregava trabalhadores operários de outros bairros de Maceió.
Seu Fabio de Farias explica que a fábrica também empregava trabalhadores operários de outros bairros de Maceió.  “Moradores mais distantes, do Tabuleiro do Martins desenvolviam suas atividades aqui. O próprio grupo que administrava a fábrica tinha uma moradia; a Vila ABC e a Goiabeira foram construídas com essa finalidade: em Fernão Velho, todo trabalhador tinha residência fixa, algum ou outro que não morava aqui, mas a finalidade da construção do bairro foi para abrigar os trabalhadores”, explica.
Fábio de Assis pontua que a fábrica oferecia tudo: “Lazer nos finais de semana, em datas festivas como o São João, dava o tecido para que os trabalhadores fizessem uma roupa; também na virada do ano também. Além disso, escola para os filhos dos funcionários; era uma mãe, tanto é que hoje em dia tem gente que diz que era feliz e não sabia”, diz.

Acomodação e dependência

Por outro lado, seu Fábio avalia que havia uma acomodação por parte dos trabalhadores, já que as pessoas recebiam tudo. “Muitos pensavam: ‘já tenho meu emprego, salário garantido semanalmente, não tinha atraso. Com o passar do tempo, a terceira geração da família Othon Bezerra de Melo começou a perder o interesse e começou a investir em outras áreas: na rede hoteleira, destilaria, usina de açúcar, começaram a diversificar as atividades”, relata.
Na década de 1970 seu Fábio conta que a fábrica começou apresentando sintomas de dificuldades. “Quando a gente menos esperava era deflagrada uma crise, a crise nacional afetava diretamente a fábrica. Era necessário que todos os fabricantes do seguimento fizessem a introdução de máquinas modernas no setor e a Fábrica Carmen não acompanhou essa evolução, começou a perder seu espaço no mercado, por conta dos concorrentes, por causa dos investimentos que eles não faziam”, pontua.
Conhecedor a fundo da história operária de Fernão Velho, seu Fábio fala com nostalgia e diz que quando a fábrica fechou pela primeira vez, em 1996, o sindicato dos trabalhadores, entidade que ele presidia, começou a fazer um trabalho no bairro, acreditando que ia ter a retomada. “Foi uma situação de calamidade a que foi implantada aqui. Os profissionais não sabiam fazer outra coisa, um mecânico de tecelagem não sabe mexer com mecânica de automóveis; o tecelão não sabia operar uma máquina fora, pois lá já exigia conhecimento em um tear moderno”, pontua.
Segundo ele, a fábrica voltou a funcionar em agosto de 1997, até janeiro de 2010, quando fechou as portas de vez. Por conta desse período foi que muita gente conseguiu a aposentadoria e conseguiu se profissionalizar. Fábio conta ainda que a fábrica fez um processo de modernização, mas não dava para competir com as concorrentes. “A nova direção resolveu entrar numa linha intermediária, mas o grupo que adquiriu o patrimônio não se entendia e a pessoa que ficou na direção não dominava o setor”, avalia.

Expectativa de fundação de uma cooperativa como opção vem de longe

Seu Fábio de Farias explica que os operários acreditaram que a Carmen poderia ser trabalhada como cooperativa, pelo fortalecimento do setor: “Apostamos todas as fichas, foi feito um trabalho para transformar a fábrica numa cooperativa, falamos com o Governo do Estado, foi  feito um trabalho com o pessoa da Oceal, hoje OCB (Organização das Cooperativas do Brasil), só que o governo deu um prazo ao grupo Othon Bezerra de Melo para dizer o que queria. “Aí eu era presidente do sindicato e o governo liga dizendo que ia apresentar os novos donos da fábrica”, destaca.
Fábio avalia que havia uma acomodação por parte dos trabalhadores, já que as pessoas recebiam tudo
Fábio Farias conta que o governo apresentou o grupo, que formou uma sociedade para tocar a fábrica. “Tanto é que houve essa retomada, Fernão Velho foi palco de festa, celebração de missa, fogos, todo mundo contente, feliz da vida, acreditando que ia dar certo”. O operário aposentado alega que os administradores que assumiram a empresa compraram teares que já eram consideradas obsoletas nos Estados Unidos ultrapassadas para a realidade de lá e o tear só era de 240 rotações por minuto (RPM), enquanto que lá era muito maior. 
O ex-operário  avalia que deve ter acontecido também um erro de planejamento para que a fábrica fechasse. Ele também cita a arrogância da última direção que se achava toda poderosa. “Chegou com a pose de rei, ficou sozinho, não dominava a parte de produção, começou a mergulhar num a profunda crise, sem pagar os salários dos trabalhadores, atrasando os compromissos com o governo e o município, fornecedores e a fábrica fechou depois de uma manifestação dos trabalhadores, indignados com a falta de salários  e por não acreditar mais no que o diretor falava”, discorre.

Trabalhadores propõem capacitação e investimentos no bairro  

A esperança dos trabalhadores é que o município de Maceió, que recebeu algum dinheiro por conta da venda do maquinário da fábrica, resolva alguma coisa. “Já tentamos marcar várias reuniões, mas sempre tem uma desculpa. Isso só aumenta a descrença na Justiça e nos gestores. Estamos num beco sem saída.”
Seu Manoel Dantas também é operário aposentado e fala que a sua situação é igual à de todos os trabalhadores. “Trabalhei 26 anos, teve a aposentadoria que o governo lançou e eu aproveitei, se não ia morrer de trabalhar”, disse ele.
Manoel Dantas também é operário aposentado e fala que a sua situação é igual à de todos os trabalhadores
Seu Manoel disse que com dificuldade conseguiu formar dois filhos, que hoje lhe dão muitas alegrias, mas a realidade de muitos jovens no local é outra. “Tenho um filho que é professor de música e ensina nas escolas e minha filha é muito estudiosa. Tenho que agradecer a Deus, pois com esforço a gente consegue, tem gente que não luta e não consegue, mas se eu pagasse aluguel estava em situação pior”, avalia.
Carlos de Freitas é ex-gerente da fábrica e hoje tem um pequeno negócio de confecções na Praça São José Operário, no bairro. “Fui gerente de produção durante 18 anos e quando a fábrica fechou a gente tinha a expectativa de modernizar. Quem modernizou como a Fábrica da Pedra, em Delmiro Gouveia, conseguiu sobreviver”, observa.

Potencial humano do bairro foi desprezado

Seu Carlos de Freitas comenta que os donos da fábrica não acreditaram no potencial humano que tinha o bairro: a mão de obra barata. “O resultado é um entulho de ferro velho. Eu tive a indenização; enquanto era de Othon Bezerra de Mello todo mundo recebeu, aí pegaram as melhores casas. Sobrou esse casarão, ninguém queria, porque o preço era elevado, o direito que o empregado tinha não dava para pagar. Eu ainda botei do meu dinheiro; venderam barato, num preço que eu ainda coloquei 15 mil reais das minhas economias e da minha esposa, funcionária do Estado, compramos a casa e montamos a loja”, explica.
Carlos de Freitas comenta que os donos da fábrica não acreditaram no potencial humano que tinha o bairro: a mão de obra barata
Seu Carlos ressalta que quando a fábrica voltou, em 1997, ele já estava com a loja e trabalhava na confecção com o tecido da empresa; fabricava no local e tingia em Caruaru e voltava para vender em Fernão Velho.  “Era um tecido que dava para fazer alguma coisa que agradava as pessoas. No seguimento algodão a gente conseguiu fazer as peças e ia se ganhar dinheiro com isso. Criou-se uma cooperativa que não teve êxito porque o governo desprezou”, reclama.
Seu Carlos ressalta ainda que o governo poderia ter aberto uma concessão até para o Estado comprar. “Nunca houve um interesse nenhum. No caso das mulheres (trabalhadoras da fábrica) elas não tiveram chance nenhuma de se prepararem para novas atividades, mesmo para a área doméstica tem que saber de alguma coisa. Essa parte não foi feita”, afirma.

Nova Realidade

O ex-gerente também destaca que os gestores precisam preparar mão de obra para a nova realidade. “Hoje não tem mais emprego, quem pensar em fábrica de dez mil, vinte mil empregados, não existe mais isso. A própria Fábrica da Pedra eu acredito que não tenha mais de 600 trabalhadores e ela tem uma produção em relação a essa, cinco vezes maior”, calcula.
Ninguém espere, na opinião de seu Carlos, aquele mundo de emprego. “Se a fábrica daqui tivesse funcionando a gente só teria uns 250 empregados. Isso ia jogar em torno de 350 a 400 mil reais na economia do bairro, ia gerar muita oportunidade para os pequenos comerciantes e outras pessoas mais. A fábrica controlava a vida da gente, não precisava de relógio. O trem também era outro relógio. Tínhamos creche, maternidade, escola, dois clubes, a limpeza pública funcionava, os jardins eram cultivados e ninguém pagava nada, era um aluguel simbólico; era uma maravilha”, avalia.
Seu Carlos diz que a indústria que mais absorve mão de obra hoje em dia é a de confecção. “Com 800 reais compra uma máquina e emprega uma pessoa. Enquanto que só um tear custa em torno de 50 mil dólares, quase 150 mil reais. O governo deveria criar confecção, apoio à cooperativa, dar incentivo, investimento do poder público no bairro e treinamento de pessoal”, finaliza.


terça-feira, 28 de abril de 2015

De Quebrangulo, para o Brasil, Geraldo Cardoso vai trilhando o caminho do sucesso

Artista participará da gravação do São João do Nordeste, que terá entrevista feita por Wesley Safadão

O Matuto de Luxo Geraldo Cardoso, natural de Quebrangulo, em Alagoas, vai trilhando seu caminho de sucesso, com simplicidade e determinação e uma carreira já consolidada nos palcos do Brasil. O artista compartilha essa alegria com o público, pela qualidade do seu trabalho e empreendimento na sua carreira.
Para divulgar esse novo trabalho Geraldo Cardoso disse que está vendo pauta para lançar o DVD no Teatro Deodoro, antes do São João - Fotos Paulo Tourinho
Geraldo também foi convidado pela Rede Globo, para gravar para o São João do Nordeste e a gravação acontecerá em sua casa, com Wesley Safadão, que fará a entrevista, apresentando o programa. “Estou muito feliz de ter sido escolhido aqui de Alagoas para representar o São João do Nordeste”, comenta.
O artista tem shows previstos para o São João em Serra Talhada, Recife, Caruaru, Paulo Afonso, Canindé do São Francisco, Piranhas (na Festa do Cangaço), Belém de Maria e Maceió, que segundo ele está de parabéns com a nova administração cultural, no que se refere à valorização dos talentos locais, “dando oportunidade a quem faz o autêntico forró”, destaca.
Ele concedeu entrevista à reportagem do Primeiro Momento, em sua residência, na capital alagoana, um local aconchegante, onde a natureza está presente em todas as suas vibrações. Ensaiando canções que ainda não foram gravadas em disco, ele deu uma cancha à equipe de reportagem e mostrou seu mais novo trabalho que será incluído no próximo disco que promete estourar nas rádios do Brasil inteiro.
Para divulgar esse novo trabalho, Geraldo Cardoso disse que está vendo pauta para lançar o DVD no Teatro Deodoro, antes do São João.  “Estou prestes a lançar o Roda de Forró, meu novo DVD, terceiro da carreira. Esse trabalho foi concebido aqui em casa, nos encontros com os músicos, Pardal (zabumbeiro) e Geraldo Araújo (baixista). A gente se encontra aqui, depois dos shows, para dar uma descansada e virou um show, por intermédio do jornalista Keyler Simões”, observa.
Show no Teatro Deodoro - Arquivo pessoal
O músico conta também que fez o show no Teatro Deodoro e para sua surpresa estava lotado: “Todo mundo sentado no teatro para ver o show, cantando junto comigo. O repertório foi de clássicos como Zé matuto foi à praia, de Luiz Gonzaga; Nessa estrada da vida, de Aparecido José, que foi sucesso na voz de Luiz Gonzaga, e vários parceiros”, destaca.
Além dos parceiros ele destaca o sexteto, formado por Eré na sanfona; Milla do acordeom; no Pardal zabumba; Geraldo Araújo, baixo, Eduardo, violão; triângulo e back vocal do Jairo Marques e Jucélia Santos no back. Participações especiais de Almir Medeiros, Chau do Pife e Ari Perciano, que é parceiro de vários tempos.
O Roda de Forró, segundo Geraldo Cardoso,  já tem de início quatro mil cópias (CD e DVD) prontas e está sendo distribuído em vários locais e com boa aceitação. “O público participa muito, nesse lançamento agora vamos colocar muita animação”, explica.

Início da carreira foi no grêmio estudantil, com muita timidez

O artista comenta que tudo começou nos idos da década de 1980, no grêmio da escola. “Eu não era muito bom, em artes e faltava muito a essa aula e quando chegava ao grêmio, para ganhar ponto, ia lá na frente, tremendo, com medo danado  do povo,  ainda tímido, conseguia cantar alguma coisa e ganhar pontos para poder passar”, relata.
Geraldo Cardoso explica que desde aquela época adorava a sanfona: “Quando vi um sanfoneiro tocando de perto, eu fiquei encantado, me perguntando como é que um cara toca desse jeito: abre o fole naquela velocidade e faz as notas e os acordes. O som do triângulo, da zabumba, me deu uma vontade de cantar e eu disse: ‘um dia eu canto com esses caras’”, observa.
Influenciado por artistas como Luiz Gonzaga, Trio Nordestino, Alceu Valença, Nando Cordel e Jorge de Altinho, Geraldo Cardoso explica que essas foram referências muito boas para a sua carreira. “No final dos anos 80 eu juntei uma banda com os meninos que tocavam ali; uma banda não, um pedaço de banda”, comenta rindo.

O COMEÇO

Geraldo Cardoso explica que começou a banda com formação simples: uma sanfona, zabumba e um baixo; depois viu a necessidade de se colocar uma bateria, uma guitarra, e em seguida  entraram os metais e ele gravou o primeiro disco chamado ‘Baião Aceso’.
“Gravei com 36 horas de estúdio, sem nunca ter entrado em um, eu não sabia o que era. Matuto das ribeiras do Paraíba, em Quebrangulo, eu entrei num estúdio, em Recife, onde gravava as grandes estrelas do forró, na época: Alcimar Monteiro, Jorge de Altoinho e outros gravavam tudo nesse local”, comenta.

 Sem recursos, ele conta que só tinha dinheiro para pagar 36 horas de gravação

Geraldo Cardoso conta que, nessa época, só tinha dinheiro para pagar as 36 horas e gravar um disco que tinha metais, “já é complicado gravar porque naquele tempo, não tinha o recurso que tem hoje, era tudo em fita K-7. Se a gravação não prestasse, voltava as fitas todas, agora, não. Você grava ali e emenda um pedaço: o computador e a tecnologia ajudaram bastante”, pontua.
O artista explica que nesse primeiro disco ficaram quatro músicas com voz guia (voz que o cantor usa só para guiar os músicos para gravar a base do disco). “É uma voz imprestável, grava-se com um microfone simples e na ora de botar a voz, não sobrou tempo para colocar a voz suficiente; a imaturidade também (atrapalhou) e quatro músicas ficaram com mixagem de voz guia”, destaca.
O trabalho ele conta que foi produzido pela gravadora Polidisc, por intermédio de Antônio Jacinto, produtor executivo. “Vendeu aqui em Alagoas mais de cinco mil cópias. Na época foi bom para um artista iniciante. O repertório foi todo de composições minhas e de composições com outros parceiros como os alagoanos Geo D’ Almeida, Beto Barbosa, Cinho, de Palmeira dos Índios, e músicas minhas. Foi muito bom para minha carreira, meu cartão de visita”, avalia.

NA ESTRADA

De lá para cá Geraldo Cardoso não parou mais e já gravou três vinis; na era do CD e DVD já gravou 14 trabalhos: onze CDS  e três CDS e DVDs.  “Me orgulho de ter começado em uma época que se gravava vinil, tempo muito rico para a música. Fiz bastante shows, em muitas capitais, pelo Nordeste principalmente, muita coisa no interior, o interior consome muito o nosso trabalho”, argumenta.
Geraldo Cardoso também já teve música incluída na trilha sonora da novela América, da Rede Globo, com a música ‘Um matuto em Nova Iorque, época em que ganhou o título de Matuto de Luxo.
O artista também já fez apresentações em aniversários de cidades, festa de padroeiro, vaquejadas, festa junina. O mais estranho, segundo pesquisamos em sua biografia, foi num Circo Tourada, sem palco e com som de corneta, no início da carreira, e cantou em um restaurante do hotel Fenícia em Brasília, para vários prefeitos, no evento chamado Marcha de Prefeitos, em 2005, quando estavam presente prefeitos do Brasil inteiro.
Geraldo observa que recebeu da gravadora a informação de que já tinham sido vendidos, nos primeiros três trabalhos, mais de 200 mil cópias, “até onde fechei a conta, mas depois vieram os pingados, porque a gravadora está sempre relançando os trabalhos e acredito que já tenha passado disso”, ressalta.  

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