sexta-feira, 15 de junho de 2018

De uns tempos para cá...

Por Olívia de Cássia Correia de Cerqueira

De uns tempos para cá estou introspectiva, pensando na vida e no tudo que ela me trouxe, ao longo dos meus dias, até o presente momento. Não posso dizer que eu seja uma mulher “normal”, mas ninguém é obrigado a ser cópia dos outros. A maturidade me trouxe algumas certezas, dúvidas e ceticismo.

Procuro não ser arrogante e extirpar de mim os ranços dos meus antepassados, a maioria cheia de preconceitos. Procuro me adequar às lutas sociais, a um mundo diferente daquele que viveram meus pais, em se tratando de atrasos e ideias preconcebidas e de desamor. Nessa seara, eu não me dobro e não me curvo às imposições sociais, ou a opiniões de terceiros, que imaginam mundos diferentes de nós.

Talvez isso seja motivo para me acharem meio louca mesmo. Confesso que a rebeldia sempre foi a minha marca principal, destacadamente na adolescência e juventude, quando eu discordava e discordo de conceitos e ideias do senso comum e de não me conformar com a opressão vivida pelas mulheres, o desamor e as injustiças sociais, coisas que fui assimilando com leituras de clássicos da literatura e de feministas que tiveram desta que nas revoluções mundiais, embora em alguns instantes da minha vida eu tenha parecido ter me acomodado e conformado com determinada situação, como se tivesse ficado anestesiada e distante do mundo real.

Sempre tive esse direcionamento em minha vida, desde que fui assimilando as primeiras concepções de vida e desde a infância fui percebendo as injustiças do mundo. A luta pelos direitos das mulheres foi uma questão que sempre acompanhei de perto; nunca me conformei com o conceito atrasado e retrógrado de que a mulher teria que ser subserviente, servindo apenas de objeto sexual para reproduzir e ser escrava do lar, ou que o casamento seria um destino selado e lacrado para o sexo feminino. Talvez tenha sido por isso que minha vida teve um rumo diferente da maioria das mulheres da família.

Depois da aposentadoria, tenho tido mais tempo de refletir sobre algumas questões um tanto quanto confusas do país, mas não vou aqui me aprofundar nesse tema, já desgastado, pois não é essa a proposta desses escritos e sim discutirum pouco sobre algumas situações vivenciadas por nós.

Chegar aos 58 anos não é fácil para ninguém, principalmente quando a gente é diagnosticada com uma doença neurodegenerativa, e se ver diante da possibilidade de ficar dependente de terceiros para as mínimas tarefas pessoais; tudo.

Mesmo que eu já soubesse dessa possibilidade, por conta do meu histórico familiar, mesmo que eu já tivesse essa certeza, foi constrangedor ter a certeza concreta, por meio de exame genético específico e de só ter sido diagnosticada oficialmente recentemente, o que me proporcionou a aposentadoria por invalidez e me afastar definitivamente do batente diário do jornalismo. O meu sonho desde menina, sonho que me levou a ter tanto desentendimento com minha saudosa mãe.

Mas a gente vai levando pelo caminho as nossas bagagens, que não são poucas, como diria um amigo meu. O bom é que tenho muita história para contar para os sobrinhos e sobrinhos-netos, se quiserem me ouvir ou ler o que escrevo, enquanto me é permitido. Costumo dizer, para quem me pergunta como é conviver com a Ataxia, que hoje em dia procuro encarar a vida com mais suavidade e sem aquele peso que eu tinha antes, na juventude, sem aquela angustia, que parece já me anunciava o futuro.
Postar um comentário

A democracia ameaçada

Por Olívia de Cássia Cerqueira Já passa de meio dia; o sol está tinindo, como a gente diz no interior do Nordeste. Descanso do almoço na v...