sábado, 9 de maio de 2015

Moradores do platô da Serra da Barriga foram ‘convidados’ a sair do local

Determinação foi por causa de uma denúncia de 2003, mas realidade do local não se adéqua àquela época

Olívia de Cássia - Repórter
As 16 famílias que residem no platô da Serra da Barriga e que sobrevivem da agricultura familiar foram informadas, por telefone,  que terão que sair do local. Segundo o professor Carlos dos Santos, que é natural da região e está lutando pela capacitação desses trabalhadores, em 2003, foi feita uma denúncia alegando que a área estava sendo desmatada e destruída. 
Segundo o professor Carlos dos Santos, foi feita uma denúncia alegando que a área estava sendo desmatada e destruída. Foto: Paulo Tourinho
“Pessoas que foram ao Ministério Público fazer a denúncia já estavam com segundas intenções  de realmente tirar os moradores porque,  pra eles, esses moradores daqui não representam o Quilombo dos Palmares, que é um pensamento equivocado”, avalia.
Carlos dos Santos comenta que quando a gente volta à história, o local era constituído de negros, brancos e índios. “E por que brancos não podem ser quilombolas?”, indaga. O professor destaca que à época da denúncia, a região não estava tão bem preservada quanto atualmente e o MP acatou a informação.
“De lá para cá o Ministério não se pronunciou, não foi direto julgar, por que eles sabem que além dessa história, os moradores são analfabetos em sua maioria, vivem do que plantam, porque não têm emprego – no parque tem uma empresa terceirizada mas não tem como empregar a todos -, e aí até pouco tempo o processo ficou parado e mais uma vez bateram na tecla e foi determinado que o pessoal se retire do local”, comenta.
A justificativa que é dada, de acordo com as explicações, é que a área em que as 16 famílias residem é área de preservação. “É verdade, é uma área de preservação ambiental, mas como é que se comprova o contrário, que a Serra não está sendo preservada? Quais são os dados que eles têm que contradizem a nova realidade?,  porque 2003 não é 2015; muitos anos se passaram e a realidade atual é outra”, argumenta.
Carlos dos Santos comenta que quando a gente volta à história, o local era constituído de negros, brancos e índios - Foto: Carla Regina
O professor explica que os moradores procuraram um advogado para fazer a contestação e um contato direto com um procurador público federal, que foi o mesmo que defendeu os moradores, em outra oportunidade. Segundo ele, porque à época esses agricultores familiares estavam sendo processados individualmente.
“Houve uma ação cível, individual e outra coletiva e esse defensor público esteve aqui e percebeu que a informação estava distorcida; dessa forma ele pediu o arquivamento dessa ação individual”, destaca.
Carlos dos Santos relata que foi orientado a ir ao MP com moradores, pegar a cópia do processo e fazer um relatório. “Nesse relatório, vamos  falar desde o tombamento até a atualidade, para provar realmente o que aconteceu e o que não durante todo esse tempo. Se prejudicou ou não,  vai ser tudo relatado nesse documento, para poder contestar e dizer que pelo fato de ser uma área de preservação não dá o direito de dizer que está sendo desmatada”, pontua.
Moradia não impede aplicação de projetos, avalia professor
O mestrando em línguas observa ainda que quanto à informação de que há projetos federais que estão parados por conta da presença dos moradores, ele diz que o fato de os moradores estarem no local não impede em momento algum que os projetos sejam executados.
“Na verdade eles (os projetos) deveriam ser executados, até porque o parque foi criado para ser não apenas um símbolo de resistência contra a escravidão no Brasil, mas também como ponto turístico que gerasse renda para os moradores que ainda estão no local. Até hoje ainda não se concretizou essa ação que deveria acontecer por parte do governo federal que ainda não agiu como deveria”, avalia Carlos.
Segundo ele, recursos chegam e não são poucos, são milhões muitas vezes e gastos em simples atividades, como no Dia da Consciência Negra: “Eles vêm, realizam aquela atividade; mais ou menos cinco dias de ações culturais na cidade, fazem festinhas e acabou-se  o dinheiro. A reflexão também acaba, o negro só é lembrado nessa época e não existe até hoje uma continuidade daquilo que deveria ser permanente”, reclama.
O professor avalia que essa atitude da Fundação Cultural Palmares é uma forma de ocultar a falta de algumas ações em benefício da comunidade. “Se existem moradores e possibilidade de sobrevivência, sem destruir a região, por que não querem agir? Por que não implantam o projeto?”, indaga.
Carlos dos Santos diz ainda que fez um projeto que está sob sua responsabilidade, que foi premiado pelo banco Santander, sorteado e só lhe restaria apenas  o orçamento e ele estaria concorrendo a um prêmio de cem mil reais.
O professor ressalta que toda a área do platô era de plantação de alimento de subsistência , mas que hoje está arborizada. - Foto: Olivia de Cássia
 “A contrapartida é ligada ao governo federal, porque na época eu estava estudando e estavam pedindo um projeto de subsistência, de empreendedorismo, e esse projeto não teve  continuidade; teria que ter um tutor para assinar”.
Segundo ele, a proposta é aproveitar a matéria prima do local, a fibra da bananeira, para o artesanato e o restante para a culinária, fazendo doces de todos os tipos e os moradores iriam vender, ter uma renda familiar melhor, sem prejudicar a localidade. “A Palmares (fundação) sabe disso, que existe meios de fazer com que os moradores permaneçam, sem prejudicar a área, com coisas tão simples”, explica.
Carlos dos Santos indaga ainda: “Cadê os projetos sociais que a FCP deveria implantar nesta localidade, para que este parque gerasse renda, não só para os moradores daqui, mas para o comércio da cidade interia, porque quanto mais gente capacitado, melhor ? Qual é a verdadeira proposta da fundação? Qual o verdadeiro objetivo?, não está claro”, pontua.
 O professor ressalta que toda a área do platô era de plantação de alimento de subsistência , mas que hoje está arborizada. “Tudo isso aqui era plantação e você observa atualmente a localidade repleta de árvore: isso não é preservação? A nossa briga vai ser exatamente contestar que a FCP na está tendo argumentos convincentes, está sendo contraditória”, reforça.

Morador chegou ao local antes da construção do memorial

Seu Louro mora há 20 anos na Serra da Barriga, é dono de uma casa que oferece refeições aos visitantes. “Eu apanhei isso aqui há mais de 30 anos e quando eu comprei não tinha parque. Tombaram a terra com os moradores dentro. Por que não indenizaram e colocaram logo para fora, antes?”, questiona.
Seu Louro mora há 20 anos na Serra da Barriga, é dono de uma casa que oferece refeições aos visitantes - Foto: Olívia de Cássia
Ele disse que até agora não está entendendo a proposta da Palmares. “Ofereceram uma região arenosa, que nem cana-de-açúcar dá direito,não tem água, só areia e pedra, montanhosa, depois da Várzea Grande. Fomos lá olhar e o local não tem condições de sobrevivência”, destaca.
Seu Louro reclama que a FCP quer dar uma casa a cada morador, mas a proposta é de 120 metro s de terra para cada morador. Ele diz que tem muito mais na Serra da Barriga. “Tenho 20 tarefas de terras e perdi, praticamente. Ajudei a construir o parque, antes eu plantava laranja, banana, mandioca; de tudo nós plantávamos, mas como veio a ordem para a gente não desmatar, não plantar mias, nós paramos e hoje a Serra da Barriga está florestada, para todo mundo ver. Quando eu cheguei aqui, não tinha nada:  parecia um campo de avião”, observa.
Seu Louro reclama que a FCP quer dar uma casa a cada morador, mas a proposta é de 120 metro s de terra para cada morador. Foto: Paulo Tourinho
O morador diz que a maioria na serra vive da agricultura e indaga como vão morar em um lugar arenoso, que não dá nada, na Várzea Grande.  “Agora querem tirar a gente daqui; a gente sai, mas paguem os nossos direitos. União está falido, a usina fechou, tem muita gente passando fome, uma crise difícil que já vem de algum tempo, mas que agora está pior”, avalia.   

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Musa dos sinais de trânsito, cantora de forró já vendeu nove mil CDs nas ruas

Olívia de Cássia - Repórter

A cantora e compositora alagoana de forró Crystal tem 29 anos e um jeito diferente de divulgar o seu trabalho: ela vende seus CDs, de segunda a sábado, em vários pontos de sinais de trânsito de Maceió e conta que com essa forma de divulgação já vendeu cerca de nove mil unidades.
A música de trabalho do CD Forrozão Aliança é Ciúmes e Crystal conta que já agendou entrevistas em várias rádios de Maceió para essa semana e a próxima - Fotos: Paulo Tourinho
A garota simples e simpática recebeu a reportagem do Primeiro Momento, na quarta-feira, 6, e falou da sua carreira. Depois de oito meses parada, Crystal está com o mais novo CD, o Forrozão Aliança, que tem 15 músicas e é uma parceria com o cantor e compositor Elvis. “São 14 regravadas ao vivo e uma inédita: são algumas músicas minhas e outras são parcerias e foram prensados cinco mil unidades”, ressalta.
A música de trabalho do CD Forrozão Aliança é Ciúmes e Crystal conta que já agendou entrevistas em várias rádios de Maceió para essa semana e a próxima. “Já gravei oito músicas minhas, mas eu tenho 15”, destaca. A cantora e compositora conta que tudo começou em 2010 quando se viu sem apoio e sem patrocínios: ia passando no sinal e tinha um rapaz que estava vendendo o CD no local.
“Aí ele me pediu para comprar o CD dele, disse que era artista da terra, então eu falei para ele que também era cantora e ele propôs a troca: ele pegaria o meu CD e eu o dele e o rapaz me convidou a vender também no sinal”, destaca. A cantora diz que conversou com os componentes da banda, mas eles, com vergonha, se recusaram a ir. “O rapaz vendia o dele a R$ 5 e eu vendi a R$ 10 e foi sucesso e passei cinco anos divulgando e vendendo nos sinais”, explica.
Crystal destaca que são muitas as histórias que tem para contar, nas experiências que adquiriu nos sinais de trânsito de Maceió, junto aos demais vendedores: “Uma delas é você trabalhar num local com pessoas que a sociedade avalia que não são legais; têm mal impressão e quando param o carro, já acham que aquela pessoa que vai se aproximar, vai querer roubar ou fazer alguma coisa. Mas não é assim. Eles ficam ali perto de mim, são meus amigos, nunca aconteceu nada, é uma família”, observa.
Ela também ressalta que incentivou alguns amigos a fazerem o mesmo que ela para divulgar o seu trabalho e conta que ia os dois horários. “Quando eu vendia muito pela manhã, só ia um horário, mas quando a venda era pouca eu ia à tarde também. Conheci muitos empresários e consegui patrocínios com as vendas em sinais”, disse ela.
Apesar de dizer que ainda não foi revelada, ela diz que as vendas nos sinais lhe ajudou muito na carreira. “O artista alagoano precisa ser revelado; estou retornando às rádios e tenho entrevista marcada para quinta-feira, na 103 FM, Rádio Gazeta Web e os programas locais de televisão. Todo o projeto que eu tinha antes, estou voltando com tudo”, reforça.

CD acústico deu início à carreira, seguido de forró romântico

Crystal comenta ainda que começou a carreira gravando CD acústico: “Gravei forró romântico, em carreira solo; canto desde os dezesseis anos”, explica. Crystal é o nome artístico de Cláudia e ela disse que foi um nome que lhe deu sorte. “Esse nome me deu muita sorte, meu objetivo agora é fazer um clipe, com a música der trabalho para explorar a mídia”, explica.
Crystal comenta ainda que começou a carreira gravando CD acústico
No começo da carreira, ela conta que teve a oportunidade de cantar em uma banda de axé, só que depois foi vendo que tinha jeito para compor. “Tenho alguns amigos que me incentivaram e convidaram a fazer forró e fui me identificando com esse tipo de música; cheguei à conclusão que essa é a lei que eu quero”, explica.
A artista alagoana destaca que a partir daí resolveu fazer um projeto de forró e começou com um CD para barzinho. “Eu sentia que tinha que cantar algo meu, não dos outros. Foi quando eu tive a ideia de fazer um trabalho autoral e depois dele abriu as portas: fui tendo oportunidade em prefeituras e outros locais”, argumenta.

Parceria

Crystal conta ainda que Elvis cedeu uma música para ela. “Saí do estúdio ontem (terça-feira, 5) e estou me preparando para o São João. Antes eu tocava muito: no Tanque Cheio, no QG, Maria, Coco Nut; cantava em ritmo de forró, mas com repertório variado. Eu canto também alguns xotes, gosto de Elba Ramalho, está no meu repertório esse ano também e Dominguinhos, mas o foco mesmo são as minhas músicas”, ressalta.
Crystal destaca que tem seis anos de banda, é de uma família humilde e que um tio tocava forró-pé-de-serra
A artista conta que está aguardando o edital da Prefeitura de Maceió para o São João, para fazer a inscrição. “Fui lá na segunda, mas me falaram que o edital não saiu porque ia ser feita uma correção e que em breve ia sair, Também estou aguardando o contato de outras prefeituras e estou na expectativa de que o São João seja muito bom”, destaca.
Crystal destaca que tem seis anos de banda, é de uma família humilde e que um tio tocava forró-pé-de-serra: “Sou de uma família humilde, Moraes Caetano, toda de União dos Palmares, tenho um tio que já morreu que tocava forró-pé-de-serra e acho que veio daí minha herança. Na família sempre tem alguém que toca, meu irmão toca violão, um primo que toca bateria”, comenta.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Guerreiros do barro sobrevivem às intempéries do tempo

Olívia de Cássia - Repórter - Site Primeiro Momento

Artesãos reclamam da falta de interesse de continuidade do ofício

Seu Antônio Nunes e dona Irinéia Rosa Nunes da Silva são dois dos vários artesãos do barro do povoado quilombola Muquém, em União dos Palmares, que sobrevivem da sua arte há muitos anos na comunidade. A arte desses artistas populares de Alagoas é encontrada em diversos estados do País, espalhada em hotéis, centro de convenções e exposições até no exterior pelo reconhecimento desse trabalho simples, que retrata o cotidiano da comunidade e sua religiosidade.
Seu Antônio Nunes e dona Irinéia Rosa Nunes da Silva são dois dos vários artesãos do barro do povoado quilombola Muquém, em União dos Palmares - Fotos: Paulo Tourinho
A artesã, aposentada, 68 anos, é admirada em toda parte do País e foi reconhecida pelo Governo do Estado como patrimônio imaterial do Estado
Dona Irinéia Nunes é Patrimônio Imaterial do Estado e apesar de ter pouca leitura, tem o reconhecimento dos intelectuais do Estado. A cultura popular, apesar de não ser oficialmente vendida como roteiro turístico no Estado, é um caminho já trilhado por alagoanos e turistas.
A artesã, aposentada, 68 anos, é admirada em toda parte do País e foi reconhecida pelo Governo do Estado como patrimônio imaterial, que é uma concepção que abrange as expressões culturais e as tradições que um grupo de indivíduos preserva em homenagem à sua ancestralidade, para as gerações futuras.
Dona Irinéia conta que os filhos e netos não querem dar continuidade à arte do barro e a tradição está ameaçada
Por ter recebido essa honraria, os artesãos do Muquém recebem uma bolsa-incentivo, mas há bem pouco tempo esse benefício estava em atraso. A artesã de vida simples vive com a família, descentes dos quilombos, desde que nasceu e segue a tradição de seus avós, mas reclama que seus filhos e netos não querem dar continuidade à arte do barro e a tradição está ameaçada em União dos Palmares, caso não seja criado um incentivo para que haja continuação dessa arte.
“Eles não querem aprender; só querem estudar e eu não posso pegar ninguém para fazer nada a pulso. Vou fazendo aos poucos mais meu velho e agora tenho uma cunhada trabalhando mais eu, porque eu sozinha não aguento trabalhar o dia todo, sentindo uma dor no osso dos quartos e quando eu passo muito tempo sentada me prejudica. Pago 50 reais por semana a ela e já estou devendo 400”, explica.
Com problemas de audição, vida simples e problemas familiares, Dona Irinéia Rosa Nunes da Silva destaca que recentemente ganhou mais três netos e um dos gêmeos está com problema de pele. “A mãe não quer dizer quem é o pai, confessa seu Antônio Nunes.
A artesã palmarina conta que tem recebido muitas encomendas de sua arte
Balançando um dos netos na rede e trabalhando em seu ofício, a artesã e seu marido vão dando acabamento nas últimas peças que estão confeccionando e vão falando do cotidiano à reportagem e explicando o significado e a utilidade de cada uma.
“Aquela dali vai ter menino”, diz seu Antônio apontando para uma peça que simboliza uma parturiente e que está prestes para ir para o forno, para ser queimada. “Estou fazendo aqui umas encomendas de uns estudantes. Tivemos encomendas de 400 cabeças que foram para um hotel de São Paulo”, explica.
A artesã palmarina conta que tem recebido muitas encomendas de sua arte. As peças da têm preços módicos se comparado à importância da arte de dona Irinéia Nunes: “Tem peça que é vendida por R$ 20, tem outras de R$ 25, depende do tamamnho”, pontua.

As peças da têm preços módicos se comparado à importância da arte de dona Irinéia Nunes
São Paulo, Recife, Rio de Janeiro, Maceió, são locais do País onde as peças de dona Irinéia Nunes, seu Antônio e também dona Marinalva estão expostas. “Até fora do Brasil já tem meu trabalho”, conta ela orgulhosa. Como lembrança da tragédia da enchente de 2010, ela mostra uma peça que representa a jaqueira que abrigou mais de 30 moradores que ficaram abrigados durante a enchente do Rio Mundaú.
Dona Irinéia Nunes virou personagem do livro A menina de barro, que conta a história de uma família que morava às margens do rio Mundaú, no interior de Alagoas, e vivia a partir da criação de objetos feitos de barro colhido na beira do rio. Num dia chuvoso de inverno, as águas fizeram o rio transbordar, carregando o que havia pela frente.
O livro é da escritora Gianinna Bernardes, ilustração de Pablo Perez Sanches, foi impresso na Gráfica Graciliano Ramos, Imprensa Oficial do Estado e é comercializado a R$ 20, incluindo a internet.
Dona Irinéia Nunes pontua que começou a fazer peças de barro há cera de 40 anos e destaca que sua mãe confeccionava panelas; disse que depois de adulta começou a fazer peças de barro para pessoas que iam pagar promessas.
“As pessoas me procuravam para que eu fizesse imagens de partes do corpo para pagarem promessas: cabeças, mãos, braços, pernas, pé, coração; qualquer parte do corpo; aí comecei fazendo e graças a Deus, hoje meu trabalho é um sucesso”, explica.
Morando atualmente em uma casa doada pelo Programa da Reconstrução, dona Irinéia Nunes destaca que o artesanato de barro sustenta toda a família. Ela conta que só não está passando dificuldade por conta das encomendas que recebe, por meio do SebraeAL. “Quando eles recebem botam um dinheirinho em minha conta. Já recebi um prêmio de R$ 10 mil, foi dividido com outros artesãos daqui e fiz uma reforma na casa”, observa.

A PARCEIRA

Dona Irinéia Nunes conta com a parceria de seu esposo, seu Antônio Nunes, para fazer seu trabalho. No dia da nossa visita ele estava concluindo e fazendo o acabamento de recipientes para se colocar frutas em cima da mesa. Ele conta que começou fazendo os primeiros passos das peças e o acabamento ficava por conta dela. “Hoje ele dá pisa em mim e me chama a atenção quando faço alguma coisa errada. Ele ajeita a peça quando eu erro alguma e eu ajeito as dele e assim nós vamos”, declara.
Seu Antônio Nunes reclama que não querem o nome dele nas peças
Seu Antônio Nunes, 75 anos, um senhor simples de riso fácil diz que a esposa foi sua professora. “Eu trabalhava com cana, parei, trabalhei com tijolo e telha e ela começou me ensinando; aprendi. Tiro o barro carrego, corto a lenha e também faço as peças”, observa.
Seu Antônio Nunes reclama que não querem o nome dele nas peças: “O povo só quer as peças que têm o nome dela e eu fico lá em baixo e ela subindo”, diz o artesão sorrindo. Dona Irinéia e seu Antônio criaram juntos dez filhos. Três dela (que era separada) e sete dele, que era viúvo e diz que estão nessa união até o fim.
“Recebemos encomenda de um lugar chamado Milão; estou concluindo essas peças, que só falta passar o ferro. Ainda estou usando o forno de lá, antigo, esse daí (construído junto com as casas da reconstrução), não aguenta fogo; ele rachou, mas eu ainda amarrei de arame e ainda vou botar fogo nele, que foi feito para isso”, explica seu Antônio Nunes.
O barro  é tirado de um local mais longe, próximo à antiga residência
Seu Antônio e dona Irinéia estavam confeccionando outras peças que não são de encomenda, miniaturas, para venderem avulsas. Eles explicaram que algumas moças de União se prontificaram a ir ao Muquém para participarem de uma oficina com ele e dona Irinéia.
O barro para produzir as panelas é tirado de um local mais longe, próximo à antiga residência deles. “A gente cava, molha o barro, no barreiro mesmo, de manhã a gente vai buscar que já está fofinho, coloca ele na tuia e torna a aguar, no outro dia eu boto ele na pedra para pisar nele todinho de foice. A massa tem que apanhar muito para ficar no ponto”, explica.
Ex-prefeita Kátia Born encomendou 30 cabeças pequenas
Na casa de dona Irinéia e no galpão algumas peças já estão prontas para a venda. Ela disse que a ex-prefeita Kátia Born encomendou 30 cabeças pequenas e quatro maiores; além de algumas encomendas do Sebrae. “Sempre temos encomendas. Foram pedidos 50 copinhos com pires, para um evento para se colocar camarão e caldo, para negócio de hotel”, destaca a artesã.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Fazenda Anhumas, em União dos Palmares, revive a história

Proprietários transformaram antigo engenho de açúcar em local de visitação

Olívia de Cássia - Repórter 
Primeiro Momento

A fazenda Anhumas a dez quilômetros de União dos Palmares, de propriedade dos herdeiros de Benon Maia Gomes e sua esposa dona Helena Baía, localizada depois do povoado Muquém, ainda preserva histórias dos caminhos do açúcar e da colonização do país e do Estado. Atualmente, quem quiser conhecer o local agenda uma visita com a família, que trabalha com roteiros.
Fazenda Anhumas a dez quilômetros de União dos Palmares - Foto: Paulo Tourinho
A proprietária conta que uma das características do casarão é a arquitetura - Foto: Paulo Tourinho
 Izabel Padilha Maia Gomes, neta dos antigos moradores e uma das herdeiras do patrimônio da família, recepcionou a equipe do Primeiro Momento e falou da história do antigo engenho Anhumas e a respeito do que a fazenda oferece hoje para os visitantes que se interessam um pela história de Alagoas.


A fazenda Anhumas tem como atrativo a história do engenho de cana-de-açúcar - Foto: Paulo Tourinho
Além do belo casarão -, que começou a ser edificado em 1883 e passou seis anos para ser construído -, a fazenda Anhumas tem como atrativo a história do engenho de cana-de-açúcar, uma pequena vila de moradores e verde por todos os lados, inclusive um pedaço de Mata Atlântica preservado até hoje. Pela beleza arquitetônica da casa grande da fazenda Anhumas, que tem uma arquitetura mais refinada, Izabel Maia Gomes avalia que pode ser comparada até com as casas de café do Rio e Sudeste.
 “A curiosidade da casa é que todas as janelas têm encaixes; são 156 portas, todas elas foram transportadas do Rio de Janeiro para o Porto de Maceió e de lá para cá em carros de boi. Imaginem a dificuldade. Foram seis engenheiros; os tijolos e as telhas foram feitos a mão, na olaria que foi feita exclusivamente para fazer os tijolos e as telhas da casa. Todas elas são originais; hoje em dia a olaria não existe mais e foi demolida”, pontua.
"As janelas têm encaixes; são 156 portas, todas elas foram transportadas do Rio de Janeiro para o Porto de Maceió e de lá para cá em carros de boi" - Foto: Carla Regina
Izabel Maia Gomes mostra também o porão construído no alicerce da casa, que servia para o resfriamento do imóvel, já que, apesar da vegetação em abundância, o calor do Nordeste é muito forte.  “Esse porão foi feito para o resfriamento da casa, pois da mesma forma que ela é muito quente, os porões eram feitos para resfriar: só que eram utilizados na época dos escravos, também, para outros fins”, observa.
Izabel Maia Gomes mostra também o porão construído no alicerce da casa, que servia para o resfriamento do imóvel - Foto: Paulo Tourinho

Arquitetura

A proprietária conta que uma das características do casarão é a arquitetura: “Foge aos padrões das casas de engenhos, principalmente do Nordeste. Antes de a casa ser construída no atual local, foi edificada mais embaixo e por uma questão de estratégia dos donos da época, e por quererem uma casa mais imponente, construíram na parte de cima, por conta da visibilidade”, argumenta.
Móveis antigos, a maioria originais, peças que lembram as antigas fazendas da época colonial, tudo preservado. Além de conhecer o acervo da família, Izabel Maia Gomes explica que se a visita desejada for de estudantes, é cobrada uma taxa de cinco reais por aluno: eles visitam e recebem uma explanação histórica. Se for com almoço, a visita custa R$ 30; se for um passeio com trilha (dez quilômetros de trator) custa R$ 60 e vai variando de acordo com o pacote desejado. Tem visitas e pacotes especiais para pessoas da terceira idade também.
Móveis antigos, a maioria originais, peças que lembram as antigas fazendas da época colonial, tudo preservado - Fotos: Paulo Tourinho

 Na década de 1930, vilarejo era vivo e tinha vida própria

Segundo Izabel Maia Gomes, na época da avó, dona Helena Baía, o vilarejo tinha uma faixa de 250 famílias residindo, mais de mil pessoas. “Quando minha avó chegou, em 1934, era um povoado que tinha vida própria: feira, Festa da Padroeira, barracão, comércio, tinha tudo”, observa.
Isabel Maia Gomes ressalta que a culinária oferecida na fazenda é regional  - Foto: Paulo Tourinho
O engenho Anhumas era vivo, mesmo quando não produzia mais açúcar. A turismóloga  conta que, ao término do ciclo do açúcar, os engenhos passaram a fabricar aguardente, continuaram vivendo no campo e fazendo parte do contexto histórico e cultural do desenvolvimento da região.
A aguardente, a popular cachaça, é feita da deterioração da cana e ela conta que o nome foi dado pelos próprios escravos, que quando feridos por conta dos açoites e obrigados a trabalhar, colocavam nos ferimentos a água ardente, ou pinga, como chamavam.
A proprietária conta ainda que o engenho era bem mais antigo do que a época da construção da casa grande.  “A propriedade não é uma grande fazenda, mas quando era do meu avô tinha mais de dez mil hectares, era uma terra extensa; hoje somos pequenos proprietários, desenvolvemos a agricultura familiar e não tem tanta terra como os grandes engenhos”, destaca.
A fazenda Anhumas hoje em dia está aberta à visitação e para ter acesso ao local é preciso agendar. “Fazemos pacotes para trilhas nas matas, com banho de bica; as pessoas escolhem se é só visita simples, com trilha ou sem, com ou sem almoço”, explica.
A fazenda Anhumas hoje em dia está aberta à visitação e para ter acesso ao local é preciso agendar - Foto: Paulo Tourinho
Izabel Maia Gomes ressalta que a culinária oferecida na fazenda é regional e também sobre a civilização do açúcar: “Onde a gente encontra muitas receitas que têm influência portuguesa, com muitas gemas: é uma adaptação; tudo vem da adaptação do senhor de engenho, com o negro e com todas as culturas regionais”, ressalta.

Fazenda oferece turismo cultural e culinária da região

Quando Benon Maia Gomes e dona Helena Baía adquiriram a propriedade, na década de 30, o engenho ainda produzia açúcar, mas já estavam nascendo as usinas de açúcar no Brasil. Dentro da pauta de turismo cultural e regional, a fazenda Anhumas oferece conhecimento histórico cultural, um ambiente agradável e bucólico, para quem quer fugir do circuito praia e conhecer mais sobre as origens de Alagoas.
“Não desmerecendo a questão do Quilombo dos Palmares, que é importantíssima para o local, maior resistência negra reconhecida historicamente, mas isso aqui caracteriza a história, está intrínseca na história a questão dos engenhos”, observa.  
Atualmente a Anhumas também produz queijo para venda, além de outras receitas no cardápio regional. A proprietária revela que tem um livro de culinária de mais de 200 anos e que os portugueses usavam muitas gemas nas receitas. “Uma quantidade absurda e uma curiosidade é  que as roupas eram engomadas com as claras dos ovos”.
O primeiro doce feito na região foi o doce de coco, segundo pesquisas de Izabel Maia Gomes.  “Era o melaço e o coco, matéria-prima dos engenhos é um entrosamento, aproveitamento das culturas e do que dá hoje”, destaca.
Isabel Maia Gomes avalia ainda que o turismo cultural é a vivência, é o fazer e o saber: “Eles (os moradores) convivem aqui com a gente normalmente: tiram banana, leite, entre outros produtos. Ao redor da casa tem doze tipos diferentes de frutas”.  Ela destaca que pela questão do acesso e da falta de apoio e da logística, as visitas à fazenda ainda são poucas.
Isabel Maia Gomes avalia ainda que o turismo cultural é a vivência, é o fazer e o saber - Foto: Paulo Tourinho
“O turismo cultural é uma coisa viável, principalmente em União dos Palmares, que é riquíssimo, não só pela questão do Zumbi, mas pela civilização do açúcar, Jorge de Lima e outras questões históricas. É um município que tem uma potencialidade enorme de desenvolvimento, onde precisa de alguns estímulos”, ressalta.

Anhumas serviu de cenário para o filme Joana Francesa, de Cacá Diégues

Foi na localidade que, no começo da década de 1970, foram feitas as filmagens de Joana Francesa, filme do alagoano Cacá Diégues, com participação da atriz francesa Jeane Morreau,  que envolveu como figurantes vários moradores de União dos Palmares. O filme teve a participação do estilista francês, Pierri Cardin, entre outros personagens.
“A gente não tinha nem energia elétrica ainda; houve uma consulta à minha avó, Helena, para filmarem; pelo local, pela paisagem, pela identificação do filme Joana Francesa de Cacá Diégues. Quem quiser, pode baixar, tem no You Tube. Adoro as trilhas sonoras com Chico Buarque de Holanda e outros nomes”, observa.
Izabel Maia Gomes conta também que foi um burburinho as filmagens de Joana Francesa terem acontecido na Fazenda Anhumas, à época. “O acesso era mais difícil ainda; hoje só tem dois quilômetros de barro; naquela época era tudo. A mobilização foi grande, as pessoas vinham em peregrinação para verem as gravações das cenas”, conta.
Izabel Maia Gomes conta também que foi um burburinho as filmagens de Joana Francesa terem acontecido na Fazenda Anhumas - Foto: Paulo Tourinho
Segundo ela, para as filmagens, chegavam helicópteros, o pessoal com os atores e até hoje todo mundo fala. “Os adultos da nossa idade, todo mundo participou do filme”, lembra, acrescentando que esse é um fato muito importante da cultura local.
“Não houve grandes preferências de bilheteria, mas foi um dos filmes que ele (Cacá Diégues) diz que gostou muito de fazer, até porque ele é alagoano. Muita gente participou como figurante, ou não. Tivemos também os baloeiros, que fizeram aqui um especial, passaram uma semana aqui na fazenda, fizeram um clipe da banda Palhaço Paranoide, que é o Garoto Invisível”, pontua.
Além disso, na fazenda ainda tem as ruínas do escritório a olaria demolida. “Futuramente queremos fazer um restaurante aqui: a gente vai puxar; deixar de utilizar o estábulo, mas nas realidade ele ainda funciona: tiramos o leite e fazemos o queijo aqui. Tem o piso original, deixando a arquitetura e a gente fazer em cima de um cardápio da civilização do açúcar, que a gente tem muito material”, explica.
Segundo Izabel Maia Gomes, futuramente a família quer fazer um restaurante neste local - Foto: Carla Regina
Na época da colonização, o açúcar não era transportado em grãos, era em blocos. “Por isso aqueles blocos de rapadura, eram colocados em forma, desenformados, ou de madeira ou colocavam a folha da bananeira embaixo e em blocos para poder ser transportado nos navios, pois o refinamento era feito na Europa”, ensina.
Izabel avalia que a escravidão é uma parte vergonhosa da história da humanidade, mas observa que a civilização do açúcar impulsionou o desenvolvimento do País e do Estado e faz parte da história. “Fosse pela colonização holandesa ou portuguesa”, pontua.

Superstição

Na fazenda Anhumas também tem uma história de superstição. Isabel Maia Gomes comenta que a avó Helena era uma pessoa firma, determinada, que criou os filhos sozinha, pois ficou viúva muito cedo. Ela começou a construir a igreja  do local e quando já estava adiantada a construção, recebeu um aviso de uma moradora de 90 anos, que era sua amiga e era neta de escravos. Por conta disso, ela interrompeu a construção do imóvel.
Dona Helena Baía começou a construção da Igreja de São Sebastião, mas uma senhora da comunidade disse a ela que teve um sonho que dizia que ela não continuasse, senão ia morrer
“Minha avó comprou todo o material para fazer a igreja de São Sebastião, padroeiro do vilarejo: piso, janelas, tudo estava pronto e tínhamos uma senhoria que tinha mais de 90 anos, era muito amiga da minha avó e contava que a avó dela era escrava e muitas histórias que a gente tem, veio dela, dona Eudócia. Um dia ela acordou e disse que sonhou que se ela terminasse de construir a igreja ela ia morrer e ela parou a construção, deu todo o material para a antiga igreja de União e de algumas casas de lá e nenhum filho teve coragem de prosseguir a construção e ficou daquela forma”, destaca.
A fazenda é um patrimônio particular e o objetivo dos atuais proprietários é preservar a história, não deixar demolir mais, não mexer na parte original da casa. “Tem alguns órgãos que  perguntam por que não tomba, mas o tombamento vai restringir a moradia da minha família”, observa.

A fazenda é um patrimônio particular e o objetivo dos atuais proprietários é preservar a história, não deixar demolir mais, não mexer na parte original da casa - Foto: Carla Regina
 Izabel Maia Gomes acrescenta ainda que a propriedade tem atualmente nove famílias morando, cada um com uma atividade de cultivo: banana, laranja, leite e tem uma rotatividade grande.
“Eles trabalham seis meses, alguns pouco tempo depois, e param; em seguida vêm outros. Como tinha o período dos retirantes do Sertão antigamente, minha avó já preparava o galpão, porque eles vinham da seca atrás de trabalho e guarita, eram trabalhadores periódicos”, explica.
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