domingo, 29 de dezembro de 2024

A lavadeira Maria Rosa e a Rua da Ponte

Foto: José Marcelo Pereira


 Olivia de Cássia Cerqueira


Nos anos 1960, na Rua Demócrito Gracindo, conhecida como Rua da Ponte, viviam a lavadeira Maria Rosa e sua família. Nessa época, o Brasil passou a viver os chamados anos de chumbo, com impedimentos das liberdades. Mas Maria Rosa e os seus desconheciam o que se passava no País, assim como a maioria da população.

Eles seguiam sua rotina, sem tomar conhecimento de assuntos complicados, além daqueles do seu dia a dia.. As notícias sobre as ações dos militares como as prisões e tortura não eram divulgadas até então, pelo menos para maioria daqueles moradores, trabalhadores ou desafortunados diversos. O País passou por grandes transformações, como a revolução cultural, a participação popular em questões sociais e políticas e o Aprofundamento do processo de industrialização. No interior, o trabalho rural continuava a ser realizado com engenhos que moviam culturas como o a cana de açúcar, milho e o algodão. A moeda era o Cruzeiro (1942-1967); depois Cruzeiro novo (1967-1970).

A década de 60 foi marcada por acontecimentos políticos e sociais turbulentos, como a renúncia de Jânio Quadros em agosto de 1961, assumindo João Goulart, ou Jango, como era conhecido, empossado na presidência da República, em 7 de setembro do mesmo ano.  Além disso, teve a aprovação pelo Congresso da emenda constitucional que instaurou o regime parlamentarista de governo; fechamento do Congresso; muitas mudanças de governo; subversão armada; luta estudantil; guerrilha e tortura. No cenário cultural, a década foi marcada pelo surgimento do Tropicalismo e da Jovem Guarda; a popularização do Rock and Roll e valorização do estilo individual; os jovens defendendo o seu estilo de vida e de se vestir.

No final da década, em 1969, aconteceu um grande festival que revolucionaria os costumes. O festival de woodstock, que  foi um evento musical que aconteceu entre os dias 15 e 18 de agosto de 1969, na fazenda de Max Yasgur, em Bethel, Nova York, nos Estados Unidos e foi um marco da contracultura e da música da década.  (*).

***

A lavadeira Maria Rosa era religiosa, devota de Santa Maria Madalena; ia todos os domingos à missa, e desconhecia qualquer informação que não fosse do seu dia a dia e se concentrava na família e no seu trabalho, para sustentar a família. Morava próximo à fábrica de doces, no final da Rua da Ponte, alheia ao que se passava no País e no mundo. Sabia apenas o que conversava com as amigas, quando estava lavando roupas ou fazendo outra tarefa do dia, como lavar pratos e tomar banho de rio.

Maria Rossa dava duro para colocar comida na mesa, visto que o marido, José da Rosa, como era conhecido o mancebo, não tinha emprego fixo e vivia de pequenos biscates, quando aparecia. Tinha uma vida de mistérios. A mulher lavava e passava para várias famílias na terra da liberdade. Passava as roupas com ferro de brasa, quando sequer tinha água encanada na Rua da Ponte e os eletrodomésticos eram raros ou não existiam para as populações pouco ou nada assistidas. Àquela época o Mundaú não tinha um alto grau de poluição, como nos dias de hoje. Quando terminava de passar e dobrar cada trouxa de roupa, ela ia fazer entrega com a filha mais velha, Rosa Maria. 

Analfabeta, décima filha de pais pretos, nasceu no povoado quilombola Muquém, cuja população sobrevive até os dias atuais da venda de peças feitas do barro e agora da preservação da cultura negra. Panelas potes, quartinhas, frigideiras, moringas e tudo o que eles produziam e produzem nos dias atuais são vendidos na feira livre de União dos Palmares, aos sábados. A maioria do trabalho feito por mulheres. 

José da Rosa e Maria Rosa se conheceram na festa da Rua da Ponte, que era uma atração para os moradores, com seus barquinhos verdes, puxados por corda, até chegarem às alturas. Na festa, a animação ficava por conta das quermesses, pescarias e iguarias como carne assada, cachorro quente e maçã do amor, que faziam a animação dos moradores. Além disso, músicas românticas, por meio de alto falante corneta e bebidas.

Quando tinha festa, fosse na Rua da Ponte ou na Rua do Jatobá, do outro lado do rio, homens saiam pelas ruas com a imagem da santa, ou do santo padroeiro, durante o dia, jogando um pano branco no ombro, tocando pífano e zabumba, pedindo contribuição aos devotos que quisessem ajudar. assim se dava nas festas do interior mais longínquo do País e em União dos Palmares, em Alagoas, não era diferente e muitos bairros adotavam as festas de rua, com seu santo padroeiro.

Maria Rosa e José da Rosa, começaram a namorar e foi tudo muito rápido, até irem morar junto, mas não casaram no padre ou no cartório. Viviam, popularmente falando, amasiados. E ela não se ligava muito a essas tradições e burocracias da sociedade dominante. Tiveram quatro filhos, todos nasceram de parto normal: Rosa Maria, Maria José, Maria Quitéria e José Joaquim, o Quinzinho, que não cansava de dar preocupação para Maria Rosa, por causa das suas traquinagens.

A mãe lhe dava conselhos e temia pelo seu futuro, e quando José chegava em casa à noite, pedia que o marido conversasse com Quinzinho, mostrando-lhe os perigos do mundo. O marido, por sua vez, achava ser tudo exagero da mulher e não tomava nenhuma atitude.

Tentava uma conversa franca e aberta com seu marido sobre suas preocupações e expectativas em relação ao relacionamento e o com comportamento do filho, mas de nada adiantava. Na realidade, José não queria se envolver com nada que dissesse respeito a sua casa e a mulher estranhava aquele comportamento.

Achava esquisito aquele modo de agir de José, mas ela silenciava, para não comprar brigas maiores.  No entanto, alguma coisa estava fora de ordem, pensava. Maria Rosa, em momentos de aflição, pedia proteção para os filhos:

“Meu Senhor e meu Deus, proteja minha família de todos os males do mundo. Minha santinha, Maria Madalena, intercede junto ao Senhor Jesus Cristo, para que nada de ruim aconteça com meus filhos. Amém”.

Num dia da sua rotina diária e   conversando com as amigas; colocando suas preocupações, uma delas sugeriu que falasse com a esposa do prefeito, dona Constância Madalena, para quem Maria Rosa lavava roupa e engomava, solicitando que a mulher arrumasse um colégio interno para o filho.

O menino era muito sabido, inteligente, mas chegou na adolescência dando muito trabalho para Maria Rosa. Ele via a situação da mãe na labuta, era revoltado com o pai, José da Rosa, que não era de agrados, nem com os filhos, nem com a mulher. Era sisudo e misterioso, além de conservador e um tanto quanto ignorante com todos em casa, e Maria Rosa evitava discutir com ele, se fechando “em copas”, quando devia questioná-lo.

Rosa Maria, a filha mais velha, se atrasara nos estudos e fazia o Mobral, com a professora Josete Maria, com quem aprendeu as primeiras letras, na Escolinha do Bangu, que décadas depois foi levada por uma das enchentes, acontecida em 1989. O Mobral era o antigo programa de alfabetização do governo, que anos depois foi substituído pelo EJA – Educação de Jovens e Adultos, criado para quem se atrasou nos[O1]  estudos.

Rosa Maria estudava à noite, visto que durante o dia, quando não estava ajudando a mãe na lida doméstica e com as roupas das clientes, aproveitava para aprender a trabalhar com o barro, com os fazedores de panelas da Rua da Ponte. Queria sair de casa, casar e constituir família, mas não achava tempo para sair com amigas e conhecer rapazes, já que vivia para ajudar a mãe a criar os irmãos, aprender a lidar com o barro e tentar se adiantar nos estudos. E ela cumpria sua sina, andando pelas ruas e becos da cidade, entregando as roupas lavadas, com muito cuidado.

Era uma tradição no interior de Alagoas, assim como em outros estados do país o exercício de lavar roupa à beira dos rios e nos açudes quando estavam cheios, às primeiras horas do dia ou do fim da tarde.  As mulheres usavam pedras ou tábuas como se fossem a parte do tanque e que serviam para esfregar e bater as peças usadas no dia a dia e também roupas de cama, mesa e banho.

E para muitas dessas mulheres, lavar roupa era também uma profissão, mesmo em condições, muitas vezes precárias. Era dali que saia o dinheiro que ajudava a manter as contas em dia, comprar o alimento e tudo mais que era necessário para educar os filhos. Com a poluição dos rios, açudes e lagoas, a chegada de água nas casas, avanço das tecnologias, essa atividade foi acabando, ficando restrita em alguns povoados longínquos.Parte inferior do formulário

O escritor alagoano Graciliano Ramos, na obra Linhas Tortas (1962) disse que: “O ofício de escrever deveria ser realizado com o mesmo rigor que as lavadeiras de Alagoas fazem o seu trabalho: elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes”.

***

As dificuldades para os moradores da Rua da Ponte, principalmente para as donas de casa, eram enormes. Da mesma forma que não havia água encanada e nem para beber, nos anos 60, a maioria da gente da Demócrito Gracindo e das proximidades se valiam das cacimbas das fazendas, para obterem água limpa para beber. Era comum a romaria de mulheres e crianças com latas d’água na cabeça, até o local da cacimba e vice-versa. Quando chegavam em casa, colocavam um pano limpo na boca do pote ou de outro recipiente, para que aquela água fosse coada e pudesse ser consumida.

A Rua da Ponte chegou a ter uma fábrica de doces, próxima a casa da família de Maria Rosa. Alguns moradores do município, eram empregados da fábrica, que depois veio a falir e fechou, deixando alguns trabalhadores desempregados, pois a opção de emprego na cidade era escassa naquele tempo. O prédio ficou em ruínas, até que a enchente de 2010 levou tudo. Nos fundos da Fábrica de doces, a gente da rua também aproveitava para tirar o barro, para fazer panelas, quando a lagoa, braço do Rio Mundaú, estava seca.

Já os moradores dos sítios e dos povoados, depois que vendiam os produtos, na feira livre, iam fazer as compras semanais e de mês nas mercearias do lado de baixo da cidade. Alguns adolescentes de União tiveram seus primeiros empregos despachando e ajudando nas mercearias, de União dos Palmares.

Maria Rosa também fazia as compras do mês em uma mercearia, no começo da Rua da Ponte; comprava fiado e pagava quando recebia das clientes. Era assim que funcionava esse tipo de comércio: a maioria na confiança de quem vendia, que anotava tudo em um caderno ou caderneta. Na Rua da Ponte também tinha nessa época uma fábrica rústica de colchão de capim, do “seu” Francisco, um armazém de compras e vendas de cereais, de João Jonas (nosso pai, que também tinha bodega, como ele chamava), um hotel do sr. José Otacílio (Zeca), quando a entrada principal de União dos Palmares acontecia naquela região, e os viajantes transitavam pela ponte rústica de madeira, desativada pelas enchentes, no povoado Cabeça de Porco.

Além disso, mulheres idosas que benziam a pessoa, ou algum animal doméstico de algum mal. O bar do sr. Antônio Timóteo e do Lourão; o alambique do sr Orlando Baia, que fabricava vinagre, Cajuvita e cachaça; a oficina mecânica do sr. Abdon Copertino e também paragem de ônibus para Garanhuns, local de espera para Mundaú Mirim, como era denominada a hoje cidade Santana do Mundaú.

Todo esse aparato movimentava a economia local. A Rua da Ponte sempre foi uma das mais importantes e queridas ruas da região, pela sua importância, para o desenvolvimento do município, pois o movimento de ônibus e carros que abasteciam o mercado interno era sempre por ali.



quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Palavras da autora



Olivia de Cássia Cerqueira

 

Pela primeira vez me arrisco na “ficção”. É este “Antes que seja tarde” o meu quinto livro, que espero não ser rejeitado. Pensei que encerraria meu ciclo de pequena (quase ínfima) escritora independente, com Ainda Ontem, meu livro de crônicas recém lançado, que está tendo grande aceitação.

Antes da seção de autógrafos do pequeno livro de crônicas e no dia do trágico acidente acontecido na Serra da Barriga, na tarde de domingo, 24 de novembro, que vitimou 20 pessoas, em que um ônibus desceu uma ribanceira, fiquei sem acreditar naquela tragédia e resolvi que não ia parar de escrever, pois a vida é muito breve e tanto a leitura quanto a escrita me ajudam a estimular meu cérebro.

E lá estava eu escrevendo a história de uma lavadeira, passada na saudosa Rua da Ponte, lugar onde nasci e de onde tenho memórias afetivas da infância. Trata-se da história de Maria Rosa e sua família, com seus problemas, mas com muita fé e otimismo.




sábado, 26 de outubro de 2024

Aqui dentro tudo é igual

 


Olívia de Cássia Cerqueira

 

Aqui dentro está tudo igual. Lá fora os bem-te-vis e outros pássaros que não sei identificar, fazem a festa. É primavera, mas no Nordeste do Brasil, já é verão. Acordo às 4h de vez. Antes, levanto para ir ao banheiro e beber água.

Ligo a TV e vou cumprir minha rotina diária, enquanto posso. Avalio que se não me movimentasse para cumpri-las, já teria parado de vez.

Coloco água para ferver, para preparar o café, com muito cuidado, para não me queimar. Preparo a proteína, a fruta e agradeço a Deus por mais um dia.

A Rinite alérgica me incomoda. Muito vento e poeira no horário da tarde; é a natureza se revelando. Faço chá de limão com alho, pelo motivo de que os remédios de farmácia já não resolvem satisfatoriamente.

Ouço as noticias da TV e me incomodo com tanta violência diária, guerras insanas, brigas pelo poder e muito mau-caratismo. As informações políticas daqui e dali nos entristece. Por outro lado, é preciso ter esperança, apesar de tudo.

Ouço o barulho do mar lá longe e as ondas se quebrando, na praia da Avenida que pede cuidados. Faz muitos anos que já não a frequento, por conta da poluição.

Nos meados das décadas de 70 e 80, era frequente a nossa presença ali. Éramos adolescentes e a moda da vez, era ficarmos bem bronzeadas, com a marca do biquini.

 Vinha de União dos Palmares, para encontrar parentes e era uma festa diária esse costume.  Com a Avenida poluída, o banho de mar, quando tinha equilíbrio e força nas pernas, e já recentemente, pegava meu material de praia, pegava a van no posto de gasolina e ia à praia do Francês, pertinho de Maceió.

Hoje isso não mais acontece, mas é bom a gente ter lembranças para compartilhar e eu tenho muitas, basta colocá-las pra fora.. Bom dia.

 

 

 

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Herança ou ignorância?


Olívia de Cassia Cerqueira

 (foto de arquivo)

Minha mãe contava (talvez faça parte da minha imaginação) que para contrair matrimônio com meu pai, eles enviaram sangue papa daquela época benzer.  Não sei se já na imaginação daquela época, evitaria doenças dos filhos, já que eram primos consanguíneos.

Numa pesquisa rápida na internet, observei que alguns casais católicos solicitam a bênção. De acordo com o site oficial (da Igreja Católica) apenas recém-casados podem receber a benção do Papa, em Roma”.

Hoje em dia, segundo o site oficial, o pedido pode ser solicitado via internet. Além disso, o casal precisa enviar uma certidão de casamento e documentos pessoais.

Meu irmão mais velho, Petrúcio, que foi coroinha aos doze anos em Jaboatão dos Guararapes e Carpina, em Pernambuco, me contou que no caso de parentes até o quarto grau, a Igreja pede autorização ao bispo, que por sua vez encaminha ao Papa o pedido.

E por essa exigência meus pais esperaram para casar, por causa da consanguinidade, mas que no caso do envio do sangue, ele não tem conhecimento.

Eu fico me perguntando se todos esses familiares nossos que tiveram ou têm Ataxia, fizeram esse pedido e os que casaram apenas no cartório ou passaram a morar junto, não têm conhecimento ou não tiveram sobre essa informação.

O site da Sociedade Brasileira de Genética Médica informa o que já temos conhecimento empírico: “Quando os pais compartilham um antepassado comum, há uma maior chance de ambos terem os mesmos genes defeituosos”, pontua.

“Se ambos os pais tiverem o mesmo gene defeituoso, há uma maior chance de ter um filho com uma condição genética. A forma mais comum de relacionamento consanguíneo é entre primos e em algumas sociedades e culturas pode representar uma proporção significativa dos casamentos”.

E as informações apontam para mim o que se vem dizendo há anos a respeito das heranças. Ou seja: para não dividirem bens com pessoas que não fossem da família esses casamentos aconteceram no passado. E hoje em dia, será ignorância? O costume dos antepassados até se entende, mas o de agora?

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Onde os sonhos acontecem


Olívia de Cássia Cerqueira

 

Parecia que tudo era um caos, parodiando o filósofo grego Anaxágoras, filósofo e matemático grego, até eu conhecer o mundo adulto.

Achávamos que quando chegássemos lá, teríamos o “poder” das grandes decisões sobre nós e nossas vidas e não contávamos com as adversidades que viriam.

As brincadeiras de criança e os encontros e conversas com amigas não nos faziam parar para pensar no quanto éramos felizes. Ou não tínhamos dimensão disso.

Os encontros para estudar matemática, disciplina que nunca entendi, e fazer comidinhas enquanto nós conversávamos com as amigas eram muito bons e proveitosos, embora não tenha feito melhor nessa disciplina.

“Tanto o jogo quanto a brincadeira, tem um papel muito importante, é preciso deixar a criança em total liberdade seja sozinha ou em grupo, para assim, desenvolver um momento de explorar a imaginação, o prazer, a alegria, raciocínio e habilidade”, pontua a Cartilha Feliz, do Governo Federal, disponibilizadas na internet.

No nosso tempo de antigamente, como dizemos nós mais velhos, não se tinha a riqueza de recursos que se tem agora na educação, tanto a infantil quanto a educação fundamental  de hoje e do ensino médio e nem sei se há um aproveitamento no que diz respeito a isso, pois o que tenho acompanhado é superficial.

Mas voltando ao tema do texto,  como diz o dito popular, “de tanto remar contra a maré um dia a gente chega lá”. Ou não, como diria nosso ídolo Caetano.

O tempo passou. Estou velha, cheia de manias, “rabugenta” que muitas vezes nem eu me entendo. “Deus sabe o que faz”, é um mantra que se repete quando não se tem resposta para tudo ou quase tudo.

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Festa da democracia



 Olívia de Cássia Cerqueira – Jornalista  aposentada (foto Inteligência artificial)

 

Este texto eu escrevi em 1º de setembro de 2009 para meu antigo blog, quando das eleições municipais; atualizei, mas verifiquei e v que não precisou muito; vejamos. Está chegando o dia da grande festa da democracia. Em 6 de outubro, brasileiros de todos os municípios vão escolher seus prefeitos e vereadores.

Será  uma eleição rápida, pois escolhermos apenas dois cargos: vereador e prefeito, em todos os municípios brasileiros. Cabe a cada um de nós escolher o que acharmos melhor e tiver mais trabalhos na comunidade, sem ofensas e sem xingamentos, livrando-nos dos aproveitadores dos menos favorecidos.

No período de campanha, os candidatos tiveram a oportunidade de mostrar seus planos de atuação, propostas de trabalho, programas de governo e a chance de conhecerem melhor os locais em que vivem, nas visitas que fizeram aos bairros e comunidades rurais de cada lugar. Vale lembrar que o eleitorado, de dez anos para cá, mudou e tem outro perfil.

No entanto, na prática, o que acontece é o mesmo de sempre: a população mais carente reclama que a maioria dos políticos só aparece na comunidade quando precisam de voto; depois da eleição, vencendo ou perdendo, abandonam o eleitorado.

Outra característica de uma política mal trabalhada são as fofocas, fuxicos, embates, disputas irregulares de espaço e muita puxada de tapete. Muitos  desses pretendentes a legisladores e chefes de executivos não estão desenvolvendo seu trabalho político com dignidade.

Acostumaram-se ao vício da compra de votos e à corrupção eleitoral para atingirem seus objetivos. Os eleitores, por sua vez, também, ainda, se acostumaram à velha política oligárquica dos coronéis e se submetem ao que eles ainda ditam em suas fazendas e currais, auxiliados por algumas ‘autoridades’ corruptas e sem escrúpulos.

A Justiça Eleitoral vem alertando, desde o começo, para que o eleitor não venda seu voto e que fiscalize se em sua cidade se está havendo irregularidades praticadas por algum candidato. 

Está mais do que comprovado que apesar da lei eleitoral mais rígida e da fiscalização por parte de alguns juízes sérios, a prática dos currais eleitorais, da compra de voto, da distribuição de dentaduras e óculos ainda está sendo adotada por grande parte dos candidatos, principalmente no interior do Estado onde as dificuldades são maiores e a fiscalização deixa muito a desejar.

Outro ponto a ser avaliado pelas autoridades é a questão da violência e da intolerância que aumenta também nesse período, bem como os assaltos a bancos. Inconformados com seus desafetos, muitos políticos cometem loucuras para conseguir se eleger e é bom que as autoridades fiquem de olho.

Meu pai era fanático por essa época do ano e gostava de circular pela cidade, quando ainda podia andar, para observar o desempenho dos candidatos, principalmente um deles fosse seu primo Afrânio Vergetti de Siqueira.

E nesse ponto herdei dele essa paixão e antigamente, quando a saúde ainda permitia,  eu me deslocava para União para participar das campanhas  e caminhadas dos meus candidatos e para votar no dia da festa da democracia.

domingo, 29 de setembro de 2024

Quarto livro

Foto Inteligência artificial


Olívia de Cássia Cerqueira

(29-09-2024)


Quando meus pais morreram, vi meu mundo cair: papai três antes que ela. Mamãe dizia que se ficasse viúva ia aproveitar a vida e viajar, o que não aconteceu.

Infelizmente não teve muito tempo:  virou estrelinha com a mesma idade que tinha meu quando faleceu, aos 76 anos, que mais pareciam 80 ou mais.

Passou sua infância e adolescência na roça plantando lavoura e capinando mato e quando veio para a cidade, já casada e com meu irmão mais velho com oito meses, fazendo trabalhos domésticos que não acabava nunca.

Pedi perdão a eles pelas mágoas que possa ter proporcionado. Nessa época ainda não morava sozinha, se é que eu possa considerar aquilo uma vida a dois, pois aquele que eu considerava companheiro de uma vida passava mais tempo em União dos Palmares do que comigo, em Maceió, onde fiz faculdade e me formei e onde tive meus empregos.

Apesentei ele a todos os amigos da faculdade e nenhum o discriminava pela sua condição social ou pelos seus poucos conhecimentos. E eu enfrentei “moinhos de vento” para ficar com ele.

Eu vivia cheia de angústias com as histórias que mamãe contava, daquele que eu, ingenuamente, achava que pudesse me acompanhar até ficarmos com os cabelos brancos e andarmos de mãos dadas, como ele dizia.

Hoje, passados mais de 30 anos e com a saúde comprometida, termino de organizar meu quarto livro (crônicas), encerrando um ciclo em minha vida.

O livro está na gráfica para os ajustes finais, antes de ser impresso. É a realização de mais um sonho que se torna realidade, não importa o que digam ou pensem.

Não sei se o “leitores” entenderão o título que escolhi, ou o tema dos meus escritos, que versam, em sua maioria sobre relatos da minha vida e suas debilidades sendo eu portadora de Ataxia spinocerebelar, uma doença neurodegenerativa. 

Nem sei se ainda tenho tempo para publicar outro livro.  São tantas limitações diárias que aumentam a cada dia, que prevejo a minha “feiúra” daqui para frente. Fico longe de espelhos para não me assustar com o que estou vendo.

Não ter com quem falar em casa sobre esse problema me dificulta um pouco, mas quem me garante que se eu tiver algum ou alguma auxiliar vai me facilitar a vida? Muitas vezes o que se arruma é mais confusão.

É isso que eu quero me fazer entender.  Tem dias que acordo e penso que não vou dar conta do recado. Sinto algumas dores no corpo todo. E seja lá como for, só colocarei uma pessoa estranha para me auxiliar, quando eu não tiver mais movimentos, da mesma forma que minha mãe não queria, mesmo não tendo essa herança miserável, embora fosse prima-irmã do meu pai.

Hoje a entendo perfeitamente, infelizmente um pouco tardiamente, mas restaram grandes ensinamento dela e de papai. Bom domingo Para todos.

domingo, 8 de setembro de 2024

O domingo chega, de novo

 Foto: Inteligência artificial

Olivia de Cerqueira


Minha rotina não muda. É domingo de novo. A rua está silenciosa. Hoje levantei um pouco mais tarde, fui varrer o jardim, cheio de folhas secas do pé de manga dos Fundos da Estação Ferroviária.

 Levei duas quedas num intervalo pequeno entre uma e outra. Faz parte do meu dia a dia. Sinto que meu tempo encurta cada vez que isso acontece.

As quedas fazem parte da vida, mas no meu caso se tornam mais frequentes, literalmente. Sei o que aguarda a um “herdeiro(a)” desse mal miserável.

Feliz ou infelizmente não deixarei herdeiros diretos, que possam ter 50% de chance de ser portador. E como disse Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”.

Grito em silêncio, para que ninguém me escute. Choro sozinha minhas dores, ao lado dos meus pets. E eles pedem atenção e carinho, que às vezes finjo que não vejo, para ver como reagem. Fiona e Pipico (gatos) sobem no teclado, borrando o que já consegui digitar. Brigo com eles e se aquietam.

Mas é tempo de rock, bebê. Como eu amo esse ritmo, que faz parte da minha juventude, embora o mesmo sentimento tenho para com meus ídolos da MPB.

Para reafirmar isso, comprei duas camisas que adorei: uma do Quem (último show do Fred Mercury) e outra do Pink Floyd. Fiquei de passar depois para comprar novamente. Uma do Guns e outra do AC/DC (amo).

E apesar de tudo e contudo, tentarei conseguir companhia para seguir com a vida, ir no artesanato, nas exposições, Bienal, até quando o Criador permitir. Bom dia!

terça-feira, 23 de julho de 2024

Não era para ser assim

Olívia de Cássia Cerqueira

 

Não era para ser assim, não foi dessa forma que aquela adolescente que fui desejou. Queria mudar o mundo, como muitos adolescentes sonhadores daquele tempo.

Eu queria ter sido uma excelente profissional, uma pessoa melhor e uma escritora de bons textos: simples assim. Mas as limitações foram chegando no corpo e na mente. Fui ficando mais atrapalhada, descoordenada.

Tem dias que não consigo escrever uma linha sequer, nem manualmente, como fazia antigamente, antes de passar para o computador e achava que as palavras fluíram com mais facilidade. Isso me deixa em uma desarmonia comigo.

E chegaram as limitações: digito “catando milho”, coisa que antigamente fazia com as duas mãos e com rapidez: fui digitadora em uma gráfica, além de jornalista.

Andava com um caderno e uma caneta. Achava que o que colocava ali era poesia. O tempo passou, fui para a faculdade e percebi que tudo era diferente. Aprendi que o mundo era diferente e que nada seria da maneira que pensei.

A aposentadoria chegou: não da forma que eu queria. Para fazer viagens, conhecer o mundo, escrever por prazer. Literatura requer tempo e paciência para se pensar, solidão e boas leituras. Mas o que escrevo não é isso. Bem sei.

Tem gente que não entende minhas angústias e minha forma de refletir sobre o mundo e suas especificidades. Da vontade de responder à  altura, mas não  vale a pena. ‘’Questões que já passaram pela minha mente, prestes a embarcar em uma jornada de reflexões profundas e intrigantes sobre a angústia existencial.  Então continuo lendo e procurando descobrir respostas que talvez nem saiba o que procuro.  Bom dia.

sexta-feira, 12 de julho de 2024

Diário de bordo


Olivia de Cássia Cerqueira

 

Bom dia, amigos.  Começo o dia, dizendo que ando com preguiça de escrever. Já não tenho a mesma agilidade de antes, para digitar e discorrer sobre os assuntos em pauta nas mídias sociais e o telefone celular nos vicia. E ocupa parte do nosso tempo.

Além do exposto acima, resolvi reler alguns livros que tenho. Os novos lançamentos estão com preços exorbitantes e por aqui  não tem com quem trocar leituras.

Estou relendo a biografia de Getúlio Vargas. Não é uma leitura para se devorar em poucos dias. Apesar de já ter folheado em outro momento, é uma leitura para se ler pausadamente. São três volumes robustos e estou chegando na metade do primeiro.

Lira Neto e outros autores pesquisaram sobre ele. Particularmente tenho algumas críticas a fazer, ao político e ao homem Getúlio, mas sem sombra de dúvida, ele trouxe alguns avanços à sua época, à sociedade brasileira.

O projeto desenvolvimentista do governo de Vargas, “sobretudo no seu segundo mandato, a partir de 1951, levou em consideração a necessidade de impulsionar a economia nacional pela via da industrialização”, afirma Marcelo Marcelino, membro da Auditoria Cidadã da Dívida Pública (ACD) nacional  e sociólogo.

Ainda segundo ele, que acumula ainda ser: economista e cientista político, pesquisador do Núcleo de Estudos Paranaenses – análise sociológica das famílias históricas da classe dominante do Brasil e membro do Partido da Causa Operária – Curitiba, “essa industrialização tardia, de maneira concreta, passa a ser desenhada na década de 1930 com o mesmo Vargas”.

Para o autor, “a crise política nacional da década de 1920 e a turbulência econômica mundial culminou na falência da denominada política “Café com Leite” e da quebra das ações nas bolsas de Nova Iorque e Londres, respectivamente”, respectivamente”, pontua.

Mas eu vou ficando por aqui sobre Vargas, pois há milhares de autores, a exemplo de Lira Neto e Marcelo Marcelino que estudam e estudaram sobre o homem e o político e não tenho conhecimento acadêmico para explorar o assunto.

Como falei no início, além das minhas leituras para colocar em pauta, tenho outras ferramentas para ocupar meu tempo, para que ele não fique no ócio e pense muita besteira. Fiquem com Deus.

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Dor de cotovelo

 


Olivia de Cassia Cerqueira

Literalmente passei uma semana com “dor de cotovelo”, caí e machuquei o danado dessa parte do corpo, do lado esquerdo. Felizmente foi leve a avaria e já sarou.

Caí da cadeira de rodas, levantei e caí de novo, machucando o lado direito, acima da perna direita, resultando em hematoma apenas. Costumo sentar ali para assistir.

Bato sempre com a cabeça no chão, perdi um “pouquinho” da audição esquerda, devido às quedas, mas nada grave. Digo sempre que os parafusos estão todos soltos e agradeço todos os dias não me machucar seriamente.

E parafraseando aquela música, um cotovelo ralado, dói “bem menos que um coração partido”.

O relógio do quarto de cima, que não durmo mais lá, parou às quinze para as três, o da cozinha também parou às seis e meia, ficando na parede sem serventia, mas aqui a realidade é bem outra.

O tempo não estaciona, me alertando todos os dias para o que poderá acontecer. Faço exercícios quase sempre, com receio de atrofiar de vez. Fisioterapia, fonoterapia, psicóloga, neurologista.

Além disso, leio muito, faço Palavras Cruzadas, vejo séries e novelas, procuro preencher meu tempo e não me sinto só. Já não escrevo com firmeza, a digitação está ficando lenta e cheia de problema. A Ataxia não perdoa, mas vou lutado.

 Meus pets são meus filhos de quatro patas e quando dá vou ao shopping, mas para qualquer canto só posso ir acompanhada. Sigo em frente lutando e pedindo proteção aos anjos de luz para não depender dos outros para as pequenas tarefas diárias. Fé e saúde para todos. Bom dia.

terça-feira, 26 de março de 2024

Semana Santa



Olívia de Cássia Cerqueira

(Republicado do  Blog,  com algumas modificações)

 

Sexta-feira, 29 de abril, é Dia da Paixão de Cristo. Para a nossa família, quando éramos crianças, essa era uma data muito triste, mas em compensação tínhamos como recompensa a toda aquela tristeza, as comidas que a minha mãe fazia nessa época do ano.


Meus pais e meus avós jejuavam na Semana Santa e de quarta-feira a sexta não comiam carne e voltavam a comer no sábado.

 Era tradição e ainda hoje muitas pessoas católicas ainda seguem esse ritual. Pra falar a verdade, depois que vim morar em Maceió, não sigo esses costumes.


Nessa época, da quarta até a sexta-feira, os nossos almoços lá em casa eram regados a muita comida no coco, peixe, bacalhau, sururu e outras delícias; de sobremesa e para o café mamãe fazia bolos diversos, pés-de-moleque., cocada e tanta coisa gostosa que a gente se fartava.

Os rituais da Igreja eram sempre seguidos pela minha família e na Sexta-feira da Paixão nós acompanhávamos nossos pais na procissão do Senhor Morto, numa tristeza contrita e profunda, depois íamos à igreja beijar o Cristo.

Quando morávamos na Rua da Ponte, seu Antônio Timóteo passava a manhã inteira reproduzindo na vitrola antiga, em disco de vinil, a via crucis da Paixão de Cristo, em volume bem alto e quase toda a rua escutava.

Era a história triste do filho de Deus que veio ao mundo para salvar a humanidade. E, na minha ingenuidade de menina, já me revoltava com a maldade do mundo. Me perguntava como era que aquelas pessoas tinham feito o Cristo sofrer tanto e ele tinha sido tão bom e tão fraterno.

Aquela história era tão triste que sempre me levava às lágrimas e quando fiquei mocinha e fomos morar na Tavares Bastos ia ver a Paixão de Cristo no cinema de seu Armando, mas era filme mudo em preto-e-branco e as cenas eram apenas fotografias estáticas, com legendas.

Também lembro que tinha o filme ‘Marcelino Pão e Vinho’; que eu me lembre foi o único que o meu pai foi e levou toda a família, eu era muito criança, mas lembro que a história era um enredo religioso.

Na Sexta-feira Santa, era dia de ir pedir a bênção aos nossos padrinhos de batismo; no meu caso, padrinho Durval Vieira e madrinha Nenzinha. Ele ia me buscar todo fim de semana para andar de jipe e eu ficava feliz com aquela atitude do meu querido padrinho. Nessa época do ano o ritual se repetia.

Meu padrinho mandava represar o açude da sua fazenda Sete Léguas e eu e Luciana (sobrinha de madrinha Nenzinha) nos metíamos naquela água, para observar de perto a pescaria. Era uma festa para mim tudo aquilo, além das muitas frutas que comíamos no sítio.

Segundo a crença da época, não era dia de bater nem de maltratar ninguém, como se bater fosse a punição indicada em dias comuns, nem gente nem animal (e era e em alguns casos, ainda hoje é assim) em respeito ao Cristo morto e crucificado.

Essa regra lá em casa só foi quebrada quando fiquei adolescente e adulta, quando eu já estava de namoro com meu ex-companheiro e minha mãe foi até a Avenida Monsenhor Clóvis à minha procura, com a finalidade de me pegar no flagra e me bater, inconformada com aquele relacionamento. E apanhei muito nesse dia quando cheguei em casa.

Feliz Páscoa para todos e que o domingo seja um dia de reflexão e não só de comer chocolate. Bom dia.

quarta-feira, 20 de março de 2024

Gratidão


Olívia de Cássia Cerqueira

 

Acertei o ponto do café: nem muito quente, nem frio. Bastaram duas colheres de pó, para meia garrafa de água. Ficou delicioso, amo café, embora tenha diminuído bastante, depois da aposentadoria.

Penso que nem sempre acerto o ponto. É como a nossa vida, nem sempre chegamos ao ideal. Mas até que ponto somos controlados por nosso inconsciente?

Li em algum lugar, que “às vezes, quando me pergunto por que fiz determinada escolha, percebo que, na verdade, eu não sei”. Nos alegramos por termos feito o certo, o que era para fazer.

 “Quando começamos a analisar a base de nossas escolhas de vida, sejam elas importantes ou bastante triviais, podemos chegar à conclusão de que não fazemos muita ideia”, escreve Magda Osman da BBC Future (The Conversation)*

Do contrário, nos arrependemos e ficamos martelando aquilo e nos perturbamos com isso. Não vale a pena quando isso acontece, porque só traz aborrecimentos.

E quando temos uma situação que não podemos intervir de vez,: apenas com paliativos? Mesmo assim o faço. Uso o que é oferecido aqui no Brasil, como paliativo.

Faço fisioterapia, fonoaudiologia, vou a neurologista, psicóloga, quando é possível e alguns poucos exercícios físicos que ainda são possíveis para evitar tentar retardar a evolução que me colocará em uma cadeira de rodas até que paralise todo meu corpo e eu venha a óbito.

Espero não chegar ate esse final degradante. Tomo alguns remédios para os sintomas de outros males, como ansiedade, muitas cãibras, dores e outros.

Tem horas que me interrogo se vale a pena tudo isso, mas procuro ser um pouco otimista e levar o resto dos meus dias com humor e rindo das minha própria sorte, quando levo quedas. Chamo um monte de palavrão e depois peço perdão a Deus e agradeço pelo livramento de não ter quebrado nem um osso até agora. Bom dia.

terça-feira, 19 de março de 2024

Mesmo assim

 


Olivia de Cássia Cerqueira

 

Do alto da varanda da minha casa, observo as construções lá na frente. Não fossem elas, dava pra ver o mar. Mesmo assim, quando anoitece e tudo silencia, ouço o barulho das ondas, quando a maré está cheia, além de escutar o apito dos navios chegando.

Acordo antes que o sol apareça e arrisco, depois do café, fazer pequenos exercícios, com receio de atrofiar de vez. Além da fisioterapia, nos dias intercalados.

Passo os dias, além disso, fazendo palavras cruzadas e lendo. Não posso deixar de ler.  Lamento não ter tempo mais de ler todos os livros que eu gostaria.

Os fragmentos que compõem a minha rotina, dão a medida do que procuro ser: uma pessoa melhor.  Peço a Deus, aos anjos e santos de luz, que me iluminem e me protejam de um mal maior.

Tento não me impressionar com o que pode ser mais complicado. Tudo isso representa a minha inquietude diante de mim. Penso nos antepassados que já se foram comprometidos por esse mal. Herança, que sem terem culpa, nos deixaram.

Os sentimentos, as dúvidas e incertezas me veem e nessas horas, tomo remédios e procuro não pensar no pior. O dia já começa abafado, faz muito calor. Já não digito um texto com a agilidade de antes, mas preciso colocar pra fora os sentimentos que me acometem. Parece que vai chover.

Seguirei em frente, mesmo que seja com a rotina diária. Preciso voltar a perder peso. Não posso carregar um corpo pesado, porque as forças diminuem.

Depois de uma certa idade, temos que os vigiar muito mais do que antes. Costumo fazer um balanço do que vivi e do que vivo agora. Preciso viver de acordo, com a idade e as limitações. Viva São José, padroeiro dos agricultores. Bom dia.

segunda-feira, 18 de março de 2024

Vai melhorar


Olívia de Cássia Cerqueira

 

Todos os dias, procuro repetir esse mantra. “Vai melhorar, tem que ter fé”. Sei que pode ser clichê para muita gente, mas na minha condição, sabendo que meu problema é genético e não tem cura, tenho que procurar alguma coisa que me faça sonhar.

Hoje acordei com as energias em baixa. Fui na fisioterapia, mostrei que não estava muito ativa, mas fiz os exercícios que tinha que fazer. Faz parte do pacote da Ataxia.

“A Ataxia descreve a coordenação anormal de movimentos, sendo caracterizada por deficiência na velocidade, amplitude de deslocamento, precisão direcional, e força de movimento.”

 É uma doença que na minha família nos acomete ao longo de muitos anos: homens, mulheres e até criança. Nós não entendíamos isso e era chamada “a doença da família”.

Os estudos sobre são muitos recentes: “ é uma doença degenerativa do sistema nervoso, também chamada de Ataxia espinocerebelar tipo 3, popularmente conhecida por “doença do tropeção”, ou marcha de bêbado.

Os  estudiosos afirmam que os atáxicos: ”perdem os movimentos espontâneos do rosto e se tornam mais lentos e tremem", detalham. A progressão da Machado-Joseph leva o paciente para a cadeira de rodas, em 10 ou 15 anos.

Segundo pesquisa feita por Dr. Laura, no Rio Grande do Sul, onde a expectativa de vida é de 78 anos, passa para 65 anos”. Em pensar que já estou com 64.

Rogo todos os dias para não chegar nessa dependência total de terceiros e atrofia dos músculos e membros. Prefiro que o Altíssimo tenha piedade de mim. Mas continuo com minha fé: vai melhorar. 

sexta-feira, 8 de março de 2024

Salve 8 de março


Olívia de Cássia Cerqueira

 

Hoje, 8 de março, especialmente, é dia de reverenciar todas as mulheres guerreiras, aquelas que têm jornada tripla e dupla, que trabalham e dão conta da família muitas vezes sozinhas.

Um dia de luta pelos Direitos da Mulher, contra o feminicídio e todas formas de violências de gênero. Um dia de muita reflexão.   Apesar da Lei Maria da Penha, o número de assassinatos e violência contra as mulheres, tem aumentado, mas as mulheres agora também têm se encorajado a denunciar mais.

Mas nãos basta só isso, é preciso punir com mais rigor os algozes, fazer campanhas de conscientização o ano todo, procurar educa-los, para que o ranço machista, possessivo, sejam observados e dizimados.

Chega de tanta exploração, violência e possessividade contra algumas mulheres. Que haja muito mais pioneirismos, e formas para que as mulheres lutem muito mais pelos seus direitos. Que haja muito mais atitudes.

"Durante vários séculos, as mulheres estiveram relegadas ao ambiente doméstico e subalternas ao poder das figuras do pai e do marido. Quando chegavam a expor-se ao público, elas deveriam estar acompanhadas e, geralmente, dirigiam-se para o interior das igrejas. A limitação do ir e vir era a mais clara manifestação do lugar ocupado pelo feminino nessa época.

Esse papel recluso da mulher passou a experimentar suas primeiras transformações no século XIX, quando o governo imperial reconheceu a necessidade de educação da população feminina. No final desse mesmo período, algumas publicações abordavam essa relação entre a mulher e a educação, mas sem pensar em um projeto amplo a todas as mulheres. O conhecimento não passava de instrumento de reconhecimento das mulheres provenientes das classes mais abastadas.

Além disso, no século XIX, surgiram os primeiros núcleos em defesa dos ideais feministas, tanto no Brasil quanto na América Latina em geral. Aqui no Brasil, o surgimento do movimento estava muito relacionado com a chegada dos ideais anarquistas e socialistas que haviam sido trazidos da Europa pelos imigrantes. Com isso, as mulheres passaram a estar presentes nas lutas por melhores salários e por melhores condições de trabalho."(Revista Nova Escola)

Veja mais sobre "Feminismo no Brasil" em: https://brasilescola.uol.com.br/historiab/feminismo.htm

Que saibamos agradecer às mulheres pioneiras, que começaram as lutas pela nossa independência. Salve Dandara, Alquatune, Berta Lutz, Frida Kalo, Maria da Penha, Dilma Russef e tantas outras companheiras e alguns companheiros progressistas.

segunda-feira, 4 de março de 2024

Mês de março


Olívia de Cássia Cerqueira

 

Sento-me diante do notebook, abrindo uma pagina em branco do Word, me recuperando de uma virose (Dengue), depois de afastada do Blog por cerca de dez dias.

Penso num tema para discorrer, mas eles são muitos que me vêm na imaginação, mas nenhum dos temas que vejo na mídia são novos: guerras insanas, violência se perpetuando, agressões às mulheres, crianças,  e outros que me revoltam.

Neste mês de março, dedicado às mulheres, é preciso não esquecer do protagonismo das companheiras, que provam sua competência, a cada dia.

E os machistas, misóginos e agressores, vão ficando para trás a cada dia. Pelo menos alguns, mostrando que o coronelismo não está com nada.

Alguns homens precisam reconhecer que ninguém é dono de ninguém. Resultado de muita luta das mulheres, ao longo de séculos, em especial das pretas, que foram muito mais exploradas.

Felizmente, o movimento feminino e o governo do PT, vêm empreendendo políticas públicas para amenizar ou tentar resolver questões que se discute há anos no movimento.

A Casa da Mulher Brasileira, no DF, com o objetivo de promover o bem-estar da população e acolher as mulheres em situações de violência,  de qualquer situação econômica ou escolaridade encontram alojamento por 48h – para filhas de qualquer idade e filhos até 12 anos, assistência de psicólogos, apoio e capacitação.

A Casa também centraliza o suporte às vítimas de violência doméstica, agilizando a resolução da ocorrência e define uma porta de saída para a crise, com o apoio da Defensoria Pública, do Ministério Público, da Polícia Civil e do Tribunal de Justiça.

Felizmente, em quase todo o país as instituições oficiais e entidades dos movimentos sociais vêm desenvolvendo ações nesse sentido, apesar das forças do mal quererem interromper ações que beneficiam os menos favorecidos.

Que sejamos respeitadas e que nossos direitos sejam garantidos. Salve o 8 de março,  Dia Internacional da Mulher. Bom dia!

 

sábado, 24 de fevereiro de 2024

De repente

 Olívia de Cássia Cerqueira

 

E de repente a gente tem um choque de realidade. Percebe que a vida não é um conto de fadas, que muito do que você sonhou a vida inteira, não aconteceu e que a vida é dura e não acontece nem a metade do que idealizou.

Não é o que queremos, mas o que tem que ser. “Esse final pode estar bem distante da vida de alguém”. Não é que eu tenha sido educada para viver “no mundo de Alice”.

Tudo o que aconteceu comigo, foi culpa minha, menos as limitações que tenho agora, além da velhice. Aos 64 já estou nessa classificação estatística. Tudo é fruto do que vivi e poderia ter vivido mais e muito melhor.

Cada um tem a sua história e somos o personagem principal dela. Como diz minha prima Maria “cada um com seu cada um”. Algumas pessoas são educadas quando crianças, dessa forma: “colocam em nossa mente que o mundo é maravilhoso e que tudo sempre acabará em um final feliz como nos contos de fadas”.

Embora eu tenha tido o choque de realidade muito cedo, com a perda de muitos entes queridos e vivenciando muitos problemas de saúde, tragédias na minha família desde muito cedo, sempre esperava o mais ou menos.

Em “A vida não é um Conto de Fadas - André Giarola, ele observa que “todos querem um ingresso para um parque de diversões, mundos mágicos, castelos, etc. Na vida há montanhas russas, mas poucos querem se aventurar. No mundo há vilões, mas ninguém quer combatê-los”.

“O autor oferece um ingresso especial para que você adentre em seu mundo mágico onde os finais são conturbados, cheio de curvas e pensamentos. A raiva, a angústia e a dor predominam e estão sempre à espreita. Um mundo que é realidade para muitos”, alguns mais que outros, digo eu.

Muitos pais querem que os filhos pensem exatamente como eles. Eu até entendo hoje esse querer. Mas na juventude tive problemas que hoje avalio que poderiam ter sido evitados.

Já a moçada de agora, observo eu, em sua maioria, tem tudo: liberdade de ir e vir,  e logo cedo  decidem o que querem, mas eles querem ser respeitados e  não respeitam ninguém. Querem ser ouvidos, mas não ouvem ninguém. Espero que os exemplos citados não sejam os seus. Bom dia.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Até quando?


Olívia de Cássia Cerqueira

 

Até quando as mulheres vão ser tratadas como seres inferiores e como propriedade privada por alguns homens e alguns setores da sociedade, em pleno século 21? A violência contra a mulher não é novidade, mas deve ser tratada como uma barbárie que deve ser combatida, cotidianamente.

Desde os anos 1980, do século passado, que bato nessa tecla. Em União dos Palmares fui colaboradora em alguns informativos e já naquela época discorria sobre o tema e já denunciava, quando nem se falava em machismo, homens misóginos e de mentalidade tacanha.

Na faculdade, desde 1983, também participei de movimentos de mulheres e passeatas, quando já denunciávamos as agressões sofridas por elas.

A violência cometida contra as mulheres, crianças e idosos é um ato dos covardes e assume muitas formas: violência física, psicológica, sexual e no caso das mulheres podem afetar desde o nascimento até a velhice.

Uma mulher violentada sofre uma série de problemas e precisa de muito apoio para se recuperar.

“As mulheres que experimentam a violência sofrem uma série de problemas de saúde, e sua capacidade de participar da vida púbica diminui, prejudica as famílias e comunidades de todas as gerações e reforça outros tipos de violência predominantes na sociedade”, observam os especialistas.

Pode-se afirmar que “A violência doméstica é a principal causa de morte e deficiência entre mulheres de 16 a 44 anos e mata mais do que câncer e acidentes de tráfego”.

De acordo com a Organização das Nações Unidas “(…) uma em cada três mulheres é maltratada e coagida a manter relações sexuais, ou submetida a outros abusos”, ainda bem que isso vem mudando.

Ban Aki, anos atrás,  observa que esse problema não está intrínseco apenas em uma cultura, uma região ou um país específicos, nem a grupos de mulheres em particular dentro de uma sociedade.

“As raízes da violência contra as mulheres decorrem da discriminação persistente contra as mulheres”, observa e eu acrescento, principalmente se for pobre e negra, ou favelada, principalmente.

Em 1994, o Brasil assinou o documento da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher, também conhecida como Convenção de Belém do Pará.

Este documento define o que é violência contra a mulher, além de e explicar as formas que essa violência pode assumir e os lugares onde pode se manifestar.

Foi com base nesta Convenção que a definição de violência contra a mulher constante na Lei Maria da Penha foi escrita. O que diz a lei? A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) define que a violência doméstica contra a mulher é crime e aponta as formas de evitar, enfrentar e punir a agressão.

Também indica a responsabilidade que cada órgão público tem para ajudar a mulher que está sofrendo a violência. Por trás da história da violência contra a mulher, há uma longa lista de fatos: desconhecimento, falhas na legislação, descompromisso social, falta de solidariedade e, acima de tudo, o silêncio e o medo de denunciar os agressores, que ainda existe nos lares em que há dependência financeira e emocional.

 Esses dois últimos itens são os maiores aliados desse crime. Não podemos nos calar diante dos fatos. Fiquemos de olho, sempre e não deixemos por menos. Denuncie. Bom dia.

A lavadeira Maria Rosa e a Rua da Ponte

Foto: José Marcelo Pereira  Olivia de Cássia Cerqueira Nos anos 1960, na Rua Demócrito Gracindo, conhecida como Rua da Ponte, viviam a lav...