sábado, 28 de julho de 2018

Os cadernos...


Olívia de Cássia Cerqueira- Jornalista aposentada

Na adolescência eu tinha meus cadernos, da mesma forma que quase toda adolescente da época. Nesses meus diários eu registrava meu dia-a-dia, minhas frustrações, conflitos internos e de gerações e meus amores platônicos, entre outras situações.

Os cadernos e diários tinham muita força àquela época, fosse de perguntas e respostas, fosse para se escrever situações do cotidiano, numa época em que nem se sonhava com internet. Fui uma adolescente com baixa alta-estima, cheia de complexos e tristeza que eu não sabia explicar.

Eu escrevia diariamente muitas cartas para os amigos contando aquelas situações. Um dia minha mãe pegou aqueles cadernos, leu meus segredos e eu me revoltei e queimei tudo. Eu me achava fora dos padrões que ainda hoje se aplica à ditadura da beleza para as mulheres.

Eu não entendia de onde vinham esses padrões, mas tentava de alguma forma driblar esses preconceitos, que são de muito longe. um processo histórico que sempre relegou à mulher um papel subalterno na condução do drama humano.

Mesmo com os muitos avanços que conseguimos por meio dos movimentos sociais e as lutas infindas, as mulheres, principalmente as pobres, negras e liberadas ainda sofrem muito com isso, com agressões psicológicas e físicas, culminando com muitas mortes.

Segundo Fernando Leite, do site Opção, esses preconceitos contra nós mulheres estão nos ditados e nas canções de diversos povos. “Seja nos conselhos dos mais velhos, seja na obra de filósofos, em sermões religiosos ou nos textos de pensadores”.

Ele pontua que não é muito difícil encontrar alguns focos desse preconceito tanto na religião quanto na literatura. E como eu era rebelde, contra tudo e contra todos que pensasse assim, me punha contrária a esses conceitos ultrapassados e passei alguns perrengues por isso, sendo discriminada de alguma forma.

Daí eu registrava a minha rotina naqueles diários\cadernos e me punha a escrever e escrever, inspirada pela amiga Eliane Aquino, que criava histórias amorosas com todas as adolescentes daquela época, colocando ali minhas emoções e frustrações.

Ainda segundo o jornalista Fernando Leite, mesmo entre os cidadãos esclarecidos e de instrução, ainda reina um machismo velado, além de uma ideia antiquada de que a mulher se resume a papéis secundários, nunca nivelados aos pares do sexo masculino.

“A violência contra as mulheres tem sido discutida intensamente desde o limiar de 1970. No entanto, a persistência de estereótipos patriarcais e sexistas na sociedade e nas famílias tem permitido que os seus perpetradores sejam tolerados, perdoados e ilibados”, como relata Adelino Esteves Tomás, em seu estudo sobre a Violência contra a mulher.

“Trata-se de um fenômeno que para além de subjugar, maltratar e privar as vítimas dos seus direitos, sujeita-as à autorrecriminação, à ocultação do seu sofrimento e à aceitação da vitimização”.

Nunca fui de aceitar imposições e quanto mais me impunham um comportamento padrão, mais eu me colocava ao contrário, lutando para que tudo aquilo fosse revisto e acabasse.
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