sábado, 20 de agosto de 2016

Quem somos e para onde vamos?

Por Olívia de Cássia

Dizem que as lembranças da infância nos ajudam a descobrir quem de fato somos e são essenciais para desvendar nosso verdadeiro eu:  para cultivar relações mais saudáveis, de acordo com o psicólogo americano Kevin Leman, autor do livro O Que as Lembranças de Infância Revelam Sobre Você (Ed. Mundo Cristão).

Essas memórias, segundo o autor "permitem enxergar por trás de todas as fachadas e defesas, chegando ao fundo daquilo que a pessoa realmente é e não quem ela está tentando ser", avalia o autor, especialista em assuntos relacionados à educação e à família.

As crianças costumam ter sonhos com heróis, acreditar em contos de fadas e viver em fantasia, mas que eu me lembre, com minhas amigas da infância isso não acontecia e elas já tinham conhecimento logo cedo de como nascem as criancinhas e não acreditavam em Papai Noel, da mesma forma foi comigo.

Com essas amigas comecei a aprender, muito precocemente para a época, algumas situações do mundo adulto. Da mesma forma que nasci na Rua da Ponte e vivi ali até os nove anos de idade, as meninas da comunidade já eram bem sabidas e nas nossas conversas elas passavam os conhecimentos adquiridos, as curiosidades e as descobertas.

Tenho na memória alguns episódios nem tão positivos hoje em dia como minhas disfunções fisiológicas e encontrava os banheiros  da escola sempre fechados a chave, situação que me dificultava conter as vontades e fazer ali mesmo o que se faz no banheiro. Eu sou muito atrapalhada desde a infância.

Apanhei muito das meninas na escola e só me defendia em último caso. Não nego que algumas vezes perdi o controle, briguei com uma colega, minha vizinha, no Rocha Cavalcante, na saída da escola, não sei por qual motivo, que me rendeu ficar com a garganta inflamada vários dias, por conta dos apertos que levei e uma pessoa sem falar comigo, até hoje.

Outra situação foi a briga com minha amiguinha de infância Gracinha Melo, que ainda hoje me envergonho disso e quando nos encontramos que lembro, damos boas risadas.  Situações constrangedoras que ainda hoje me fazem relembrar com arrependimento.

Levava muito puxão nos cabelos compridos e uma vez quebrei uma régua da professora da infância porque ela me acertou na cabeça, fato que me rendeu o castigo em frente ao quadro da escola e a algazarra dos colegas.

Mas na escola da infância também vivi belos momentos de participação nos grêmios infantis, nas passeadas de desfile cívico, participar de jograis no Monsenhor Clóvis em datas comemorativas e cantar em inglês sem saber dessa língua.

Outra peraltice que fiz, ainda na Rua da Ponte foi quando minha mãe foi ao comércio e me deixou trancada a chave dentro de casa: ainda hoje tenho fobia disso. Quando vou ao banheiro em casa fico de portas abertas e tenho pavor se me deixam trancada em qualquer lugar.

Lembro que dessa vez eu aprontei o maior escândalo com meus gritos e rasguei toda a minha roupa, o que me rendeu uma bela surra quando mamãe chegou em casa e me viu malcriada, com a roupa rasgada. Se fosse hoje em dia, a situação tinha sido complicada.

Antigamente, muitas mães deixavam os filhos presos, se por acaso trabalhassem ou para ir resolver alguma coisa na rua. Tempos de poucos entendimentos. Eu apanhava muito por conta dos meus banhos es condidos no Rio Mundaú.

Já naquele tempo não tinha muita saúde e quando ia ver os desfiles com minha mãe ou ia com ela na rua, voltava sempre nos braços, por conta de dores agudas nas pernas, que os médicos da época nunca descobriam o que era.

Também tive todas aquelas doenças da infância, até febre tifoide, menos rubéola. Aquela febre rendeu a tristeza dos meus avós, principalmente do meu avô Manoel Correia Paes, seu Né Tibúrcio, que achava que eu ia morrer daquela doença. Sempre fomos muito ligados.

Aliás, sempre fui ligada aos entes queridos masculinos mais velhos da família. Meu avô, meu tio Antônio Paes de Siqueira e meu pai, de quem eu tenho os exemplos mais bonitos e também aqueles não tão criativos.

A adolescência foi um dos períodos mais complicados e difícil de viver, para uma menina daquela época, com a cabecinha a anos luz de distância da ignorância e do atraso que a sociedade vivia naquela época, um pouco diferente dos dias de hoje, quando as moças levam os morados para dormirem em casa e vice versa.

Meu quarto tinha quatro portas: duas na frente e duas de lado e uma vez o amigo Everaldo Mala Veia, de saudosa memória, ousou entrar e sentar no baú da minha avó para conversar comigo.
Quando ele saiu levei uma surra da minha mãe por ter ousado levar um menino para a minha casa, principalmente por tê-lo deixado entrar no quarto, mesmo minha mãe estando do lado, ouvindo nossa conversa.

Ela não entendia o motivo de eu ler tanto, fazer palavras cruzadas e já naquela época revelar tanta foto e comparar tanto livro. Por conta de eu não gostar de fazer as tarefas domésticas que me eram destinadas, coisa que nunca pareciei, ela reclamava o tempo todo.

Mas hoje amanheci com saudade de tudo. Saudade da infância, da juventude, dos amores inocentes e platônicos, do primeiro amor e de tudo de bom que vivi, tempos já tão distantes. E apesar de tudo, chego à conclusão de que as lembranças da infância realmente, como dizem os estudiosos, nos fazem saber quem somos. No meu caso eu sou não sei para que vim, mas com certeza com alguma missão. Bom dia.
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