quarta-feira, 5 de abril de 2017

Reformas que precisam ser feitas

Por Olívia de Cássia

Há mais de duas semanas que estou em reforma aqui em casa. Vou fazendo aos poucos, pois o dinheiro é curto; sem planejamento, não dá para fazer tudo de uma só vez. A pintura está quase terminada, mas faltam colocar piso e revestimentos. Tudo muito caro, mas que é preciso ser feito. Passei muitos anos sem fazer nenhum tipo de melhoramento no meu lar.

Comecei arrumando as gavetas do guarda-roupa, que estavam em confusão, tudo bagunçado. Não sou uma administradora do lar. Sou péssima nesta seara. E enquanto eu arrumava minhas roupas, lembrei das reflexões de Clarisse Lispector no livro A paixão, segundo G.H.

No livro a protagonista-narradora, que despede a empregada doméstica e decide fazer uma limpeza geral no quarto de serviço, faz algumas reflexões sobre a vida. Após recuperar-se da frustração de ter encontrado um quarto limpo e arrumado, G.H. depara-se com uma barata na porta do armário.

Depois do susto, ela esmaga o inseto e decide provar seu interior branco, processando-se, então, uma revelação. G.H. sai de sua rotina civilizada e lança-se para fora do humano, reconstruindo-se a partir desse episódio.

Não que eu me compare com a autora, seria muita pretensão de minha parte, mas toda vez que vou arrumar as gavetas do guarda-roupa, fico a pensar em algumas situações da minha vida.

A protagonista vê sua condição de dona de casa e mãe como uma selvagem. Tal qual a protagonista, não nasci para esse ofício, não sei quase nada de nada, sou um desastre. Clarice escreve: “Provação significa que a vida está me provando. Mas provação significa também que estou provando. E provar pode ser transformar numa sede cada vez mais insaciável.”

Estou me descobrindo com gosto de fazer novos experimentos em arrumação da casa, nunca fui muito de me dedicar a isso, mas estou gostando dessa nova fase da minha vida, depois de aposentada por invalidez.

Entendi que tenho que preencher meu tempo com foco e objetivo nas atitudes positivas, mesmo que meu dinheiro não comporte todas as minhas ideias de melhorar a minha qualidade de vida limitada pela Doença de Machado Joseph.

Quando terminar a reforma vou viajar, conhecer lugares que não conheço, desfrutar dessa paz que reina em mim, sem pensar nas dores do passado, que já ficaram para traz e focar na minha saúde, fazendo o que devo fazer para melhorar ainda mais a minha autoestima e minha espiritualidade já um pouco fraca.

São essas reformas pessoais de casa que precisam ser feitas;, mas para melhor. Não têm nada a ver com o que está sendo feito com o nosso país, que desce de ladeira abaixo todos os dias, com medidas indigestas para a maioria da população que precisa dos serviços do Estado para viver melhor. Tenham um bom dia.

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