sábado, 11 de julho de 2026

O nascimento de Amaralinda

 

Olívia de Cássia Correia de Cerqueira



Num ambiente rústico e carente, com escassez de recursos viveram Salomão Celestino e Carmem Celestino, no interior de União dos Palmares, Alagoas, no Nordeste do Brasil, na década de 1930 do século XX. Eles já tinham dez filhos, a maioria de mulheres.

Carmem estava grávida e teve complicações na gravidez: estava de nove meses e o casal solicitou formalmente ao dono da fazenda, sr. Israel dos Santos e sua esposa Guilhermina, para serem padrinhos da criança.

Sentindo as dores do parto no meio do mato, Carmem avisou a Salomão que era chegada a hora de o bebê vir ao mundo.

Aflito com a situação, Salomão correu para chamar dona   Zefa, a parteira da região, alguém com experiência em partos domiciliares e tradição na assistência ao nascimento, no ambiente rural do século passado, e se dirigiram para o rancho onde viviam precariamente.

Assim que pariu, Carmem faleceu: não resistiu às dificuldades do parto feito sem recursos. Salomão chamou a menina de Amaralinda, atendendo a um desejo da esposa, que dizia, se a criança fosse mulher daria esse nome e se fosse um cabra macho seria Amaro.

Com dificuldade para criar os filhos e tendo os padrinhos e donos da fazenda insistido para criarem a menina, Salomão cedeu Amaralinda para os padrinhos, objetivando que a menina vivesse com mais conforto, prática comum naquele tempo.

Os fazendeiros já tinham seis filhos: dois homens e quatro mulheres, que ficaram enciumados com a nova irmã e passaram a hostilizá-la.

“Isso mostra como a transferência de uma criança para outra família, mesmo com boas intenções, pode provocar tensões nas relações já existentes,” analisam especialistas.

Com o passar do tempo, a menina passou a ser tratada como se fosse escrava da fazenda. Num sol escaldante do Nordeste, saía capoeira afora, com trouxas de roupas na cabeça ou bacia de louça para serem higienizados no riacho, fosse dia ou noite.

Amaralinda cuidava das tarefas domésticas, alimentava porcos e galinhas e bezerros enjeitados pelas vacas e mesmo assim apanhava bastante de Guilhermina e dos filhos do casal, sem que nenhum deles tivesse compaixão, ou qualquer sentimento fraternal ou humanitário.

Amaralinda não tinha instrução escolar, a não ser as primeiras letras, que aprendeu com a professora da escolinha existente no local, escondida dos proprietários da fazenda e dos outros filhos.

Era Exploração infantil, trabalho extenuante e ausência de escolaridade em um contexto rural no Nordeste do Brasil, onde o trabalho doméstico e agrícola era intenso e muitas vezes acompanhado de punição física, especialmente antes de políticas de proteção infantil mais efetivas.

José Vaqueiro trabalhava próximo à fazenda de Israel e percebeu os maus tratos que Amaralinda sofria. Observando-a de longe, encantou-se pela cabrocha, que foi crescendo com toda mágoa dos pais adotivos e irmãos adotivos.

Os maus tratos para com a menina continuavam e Israel vigiava para ela não falar com José Vaqueiro, pois o namoro continuava proibido e Amaralinda apanhava daqueles que o pai biológico, Salomão, julgava que melhoraria sua vida.

Na obra Vidas Secas, o escritor Graciliano Ramos aborda conflitos interpessoais dos personagens, que vivem uma existência marcada por limitações expressivas, com uma linguagem que indica a opressão vivida tanto pelos adultos quanto pelas crianças.

Guilhermina aproveitou a oportunidade para espancar ainda mais a moça, com cascudos e pancadas; como se não quisesse se desfazer da “faz tudo” da casa.

Descarregou toda a sua raiva, de uma forma que José saiu de perto para não piorar a situação da amada. O sol ia baixando, e nuvens pesadas anunciavam muita chuva. E choveu cântaros naquele dia, parecendo que não parava mais.

 

 

 

 

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