sexta-feira, 10 de julho de 2026

Não acredito

 

Olívia de Cássia Cerqueira



Nem acredito que cheguei aos 66 anos, na tal da terceira idade. E quando estou assim, um tanto quanto nostálgica, a saudade de mamãe aumenta e de papai também.

Me transporto para a infância e a adolescência, tempo em que vivia em União dos Palmares.

Me veem as lembranças dos cuidados de mamãe quando eu tinha algum problema de saúde: fazendo chás, beberagens, comidas saudáveis e o que eu podia comer.

Passados os anos e depois que chegou o tempo da aposentadoria, me pego refletindo muito mais que antes.

Dizem os estudiosos, que a aposentadoria é um momento natural para a gente olhar para trás e refletir sobre as experiências vividas e as mudanças que moldaram a vida.

Aos poucos vamos mudando de fisionomia. Isso é péssimo. Olho-me no espelho e busco a menina que fui e não me reconheço. As rugas chegaram, as cicatrizes estão em toda parte do corpo.

As prioridades mudam. Ainda bem que tenho memórias e espero que não se percam, até chegar o momento de eu ir embora desse plano.

Aos poucos vou me adaptando a cada fase que chega. Ontem, 5 de fevereiro de 2026, inaugurei a cadeira de rodas. Não estranhei, pois tenho consciência dos sintomas que a Ataxia é capaz de trazer, das limitações que implicam.

A sensação não sei descrever. Ora de riso, ora de preocupação e estranhamento. Ou vontade de gritar, e gritar muito.

Não me desfiz de muitos defeitos, como dizer “não” e me envergonho disso, mas não posso reclamar de nada; só lamento não ter aproveitado mais, como fala a música Epitáfio, dos Titãs.

Tem dias que a gente acorda com um aperto no peito, como se o mundo tivesse pesando nos ombros.

Nessas horas, preciso respirar fundo, contar até dez, fazer o exercício de treinamento com o cérebro para ativar a paciência e a persistência; não desistir nunca e seguir em frente. (Cheiro de Memórias - 2021)

Eu tenho isso de vez em quando: parece um mantra, uma sensibilidade que ainda não entendi, quando algo está para acontecer ou já aconteceu.  E me vem aquela sensação imensa de querer conhecer o mundo que eu não conheci, de dizer que eu existo *. * Idem

A mídia anuncia o carnaval. Para mim ficaram só as lembranças dos momentos vividos em União dos Palmares. Dos bailes na Palmarina, do frevo na praça Basiliano Sarmento, do mela-mela e dos homens, a maioria da Rua da Ponte, vestidos com roupas de mulher e brincando na rua. Sem medo de ser feliz.

No princípio, papai não queria deixar que entrássemos na folia de Momo e fechava as portas de casa, para nos preservar. Eu nunca entendi e procurei explicar a visão dele, isso depois de mais velha, pela falta de conhecimento, ou por questão religiosa.

Já em Maceió, minhas incursões em blocos como Os meninos da Albânia, Filhos da pauta, ou no antigo Maceió Fest e outras brincadeiras por aqui. 

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