sexta-feira, 10 de março de 2017

A escolha de Sofia

Por Olívia de Cássia

Quando Sofia nasceu, não teve festa, nem muita alegria. O pai estava trabalhando; a mãe pariu sozinha e quando a parteira chegou ela já tinha vindo ao mundo. A mulher atravessou o rio e veio correndo; cuidou apenas dos procedimentos necessários a uma recém parida e seu bebê.

Naquele tempo de poucos recursos, casar e procriar era o destino de toda mulher, mais que uma obrigação. Os pais de Sofia vieram da roça e mal sabiam ler, mas ensinaram para ela e os outros filhos que tiveram, os conceitos mais preciosos que formam uma família.

Sofia foi crescendo livre, rebelde, não pensava em casamento e queria viajar e conquistar um futuro promissor. Vivia livre, no meio daquela comunidade carente de políticas sociais e foi entendendo certas nuances da vida. Ela não se contentava com o chamado destino que os mais velhos falavam. Avaliava que poderia mudar tudo aquilo, se preciso fosse.

E foi com esse objetivo que começou a se interessar pelos estudos, conviver com pessoas ligadas à arte, a música e aprendeu com elas a ter bom gosto. A mãe de Sofia, dona Mércia, não entendia o motivo de a filha viver com a cara nos livros, gostar de hobbies caros como escrever todos os dias para os amigos, a fotografia e colecionar coisas.

Internet e tecnologias nem sonhavam em existir no Brasil dos anos 60, 70, quando Sofia nasceu e viveu sua adolescência. Ela gostava de poesia e personalizou seu quarto com painéis de poesias, colagens tapeçarias e almofadas, coisas que ela produzia na adolescência para deixar seu quarto de um jeito adequado ao seu mundo. Era ali que ela gostava de passar horas a fio.

Já na adolescência vieram os primeiros problemas ‘sentimentais’. Sofia era do tipo romântica e se ‘apaixonava’ com facilidade por qualquer garoto, mesmo que nem se importassem com ela. Passou a ter baixa autoestima por isso. Se achava muito feia e desengonçada e foi esse complexo de inferioridade que a levou quase à depressão profunda, já àquela época.

Dona Mércia passou a fazer intervenções fortes e cotidianamente na vida de Sofia. Jogava remédios sem receita que a filha tomava para emagrecer, mesmo sendo magra. Colocava os irmãos e rapazes amigos da família para vigiar a filha rebelde.

Acreditava mais nos mexericos das beatas fofoqueiras do que na filha e assim castigava a menina a cada comentário maldoso que ouvia sobre ela, sem antes nem saber se era verdade. Primeiro batia. Foram várias surras que Sofia levou.

E quanto mais ela apanhava, mais se rebelava contra o sistema, que para ela significava a proibição, o veto à sua liberdade. E Sofia começou a ler e ler mais, até que um dia chegou a vez de fazer vestibular, escolhendo um curso que não era do gosto de sua mãe.

Os pais, naquela época, queriam filhos ‘doutores’ e fazer uma escolha fora da Medicina e dos cursos nobres era uma afronta à família. E mais uma vez Sofia se mostrou firme na sua escolha; queria escrever, ser escritora, poeta, jornalista. Não adiantaram as críticas negativas: foi em frente e seguiu o seu destino.
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