sexta-feira, 2 de abril de 2021

Sexta-feira da Paixão

 


Olívia de Cássia Cerqueira

 

Hoje para mim é um dia de reflexão, como tem sido há muito tempo. Sexta-feira Santa,  ou Sexta-feira da Paixão era um dia sagrado para nós e papai tratava de nos ver envolvidos naqueles rituais católicos: missas, ir à igreja nos sábados de Aleluia, procissão do Senhor Morto, depois beijar aquela imagem do Cristo morto.

E eu ficava encafifada com aquela história de um homem que só veio pregar o amor e a bondade entre os povos, quando seu Antônio Timóteo colocava aqueles vinis com a história do sofrimento de Jesus, a via sacra, no mais alto volume da vitrola. E eu já questionava o ato de aqueles homens cruéis terem feito aquilo com Jesus. A traição, a tortura, a crucificação e a morte.

Fui crescendo, estudando e tendo conhecimento da história. Será que vai ser sempre assim, com aqueles que lutam por um mundo melhor e mais justo? Cristo foi o maior revolucionário da história da humanidade.

A história de Jesus não é diferente da de hoje em dia e apenas mudou de logística, com alguns adendos. Os poderosos e donos do capital vão sempre condenar quem se insurge contra os malefícios do poder econômico.

E eu me pegava fazendo mil perguntas: como Deus permitiu que seu filho único sofresse e morresse para salvar uma humanidade que não está nem aí, pra isso tudo? Um povo que em nome de Deus cometeu e comete atrocidades, todos os dias por conta do Deus dinheiro? 

E uma sociedade hipócrita que vai à igreja todos os domingos ou aos sábados, mas quando sai desse recinto já sai cometendo injúrias e cometendo todo tipo de pecado? Fica a reflexão de hoje. Boa tarde.

domingo, 28 de março de 2021

Minha mãe Antônia

 Olívia de Cássia Cerqueira

 

Hoje acordei pensando em minha mãe e tinha que falar sobre isso. Dona Antônia, ou Toinha, como ela gostava de ser chamada, era uma mulher destemida e forte e ai daquele que cruzasse o seu caminho tentando lhe enganar ou fazer algo para os filhos. Era uma leoa, uma guerreira.

Talvez esse pensamento tenha vindo, por conta das  séries que estou vendo no computador e pelos livros que leio, forçada a ficar em casa agora por conta da pandemia. E ainda bem que tenho esse conforto; diferente de muitas companheiras trabalhadoras, que não têm a mínima qualidade de vida e por isso sou grata todos os dias quando acordo e quando vou dormir.

Tive muitos conflitos com a minha mãe, que hoje avalio poderiam ter sido evitados, muito mais por mim. Não que eu não gostasse dela e hoje eu a entendo muito mais. Infelizmente agora é muito tarde. Ela não me queria “amarrada” a ninguém e a algo que fossem me atrapalhar os estudos.

Queria que eu trabalhasse e viajasse apenas. Mas viajar e trabalhar faziam parte também dos meus sonhos. Mas eu não queria só isso: queria muito mais.  Queria além da liberdade, ter alguém do meu lado que pensasse como eu, que dividisse minhas angústias, propusesse um mundo diferente, com mais igualdade. Mais justo e mais fraterno.

Infelizmente, o mundo não é um conto de fadas e muito diferente dos sonhos quiméricos da juventude, a gente vai aprendendo a duras penas que cada um tem que ter suas próprias experiências, para se fortalecer e criar sua própria personalidade. E era isso que dona Antônia não me entendia: não queria que eu vivesse aquelas experiências, para não passar pelas dificuldades que ela passou.

Numa das suas sérias enfermidades, quando tive que trancar um período da faculdade para cuidar dela, disse que preferia ter uma filha analfabeta que se dedicasse mais a cuidar dela. E aquilo ficou na minha memória. Quando via novelas e programas ela dizia que felizes eram aquelas pessoas que apareciam na tV, que não tinham motivo para se preocupar com a vida. E eu me perguntava: será que ela estava certa?

São pensamentos que me veem hoje, nessa manhã  chuvosa de Domingo de Ramos, quando na min há infância em União dos Palmares, íamos com meus pais à Igreja rezar, rituais que eu não entendia muito bem e que hoje em dia me estão distantes. Bom dia.

segunda-feira, 22 de março de 2021

Eu gritei

Olívia de Cássia Cerqueira

 

Eu gritei. Gritei muito

Para que todos ouvissem

Ouvissem que não sou

Igual a todo mundo.

Não existem cópias.

Eu queria me fazer entender.

Gritos incontidos, berrantes

Eu queria gritar.

Gritar para todos,

Que eu não sou

Ninguém.

sexta-feira, 12 de março de 2021

A gente pensa que pode tudo

 

Olívia de Cássia Cerqueira

 

Quando somos adolescentes pensamos que podemos tudo. A gente ama e ponto, sem medir consequências e impedimentos. Somos utópicos sem mensurar o que seja o conceito, a definição do que seja, na realidade da vida.

O primeiro amor é quase sempre impossível, platônico e cheio de sofrimento, como naqueles filmes americanos água com açúcar, que a gente assiste, com aflição.

Eu acreditava que com aquele sentimento que eu tinha, que seria capaz de mudar tudo. O egoísmo das pessoas adultas que me cercavam, o interesse financeiro, a avareza, que eu definia, sem nada entender de concreto da vida.  Apenas sonhava acordada.

Aquele moço rebelde e cheio de sonhos era tudo o que me encantava naquele tempo. A poesia se fazia presente, a vontade de viajar, conhecer o mundo, conhecer o desconhecido, o misterioso mundo que eu não conhecia, se fazia presente naquele tempo, com mais convicção.

Queria ser independente, viver a minha vida sem amarras, de forma tranquila, sem impedimentos. Mas eu era muito jovem naquele tempo e embora já sonhasse com um mundo mais justo e melhor, eu não sabia de nada, não entendia muito, apenas questionava, era tudo ao contrário do que eu pensava.

Tive a sorte de ter pessoas próximas que me orientassem, embora não entendesse aqueles pensamentos, mas o  mundo gira, a gente vai amadurecendo, conhecendo a vida, seus impedimentos e justificativas e passa a lutar por propostas mais concretas, mais definidoras, que se amoldam a tua maneira de imaginar o mundo, mesmo que agora seja com os pés no chão. A gente pensa que pode tudo e a vontade de ver dias melhores e uma sociedade mais justa não passa. Somos resistência, a luta não para.

segunda-feira, 1 de março de 2021

8 de março sem ânimo para comemorar

 

Olívia de Cássia Cerqueira

 

Na próxima segunda-feira é o dia 8 de maço, Dia Internacional das Mulher. Em outros tempos estaríamos nas ruas celebrando uma data tão bonita e protestando contra a violência cometida contra o extrato feminino, que aumenta ao longo de décadas.

Uma data que foi institucionalizada depois de muitas lutas, sofrimentos e mortes de mulheres trabalhadoras e que deveria ser comemorada por todos nós que lutamos por liberdade, por uma sociedade mais justa, mais fraterna e por dias melhores.

Já foi dito e comprovado que a violência contra a mulher, crianças e adolescentes, na maioria das vezes, acontece dentro da própria casa, cometida pelos companheiros, familiares e até pelos pais. Ainda hoje tem muito assassino impune pelas ruas ou escondidos em  becos e fazendas de nosso Estado e isso precisa acabar.

A Lei Maria da Penha foi sancionada pelo ex-presidente Lula em 2013 e é uma homenagem justa a essa mulher que deu o nome à lei e que só conseguiu justiça por ter ficado paraplégica depois de um tiro que levou do marido, quando conseguir escrever um livro contando sua própria história.

O ex-marido de Maria da Penha negou que tivesse sido ele o autor do disparo, foi condenado à prisão por dez anos, mas só cumpriu dois deles. Inconformada com a atitude do juiz que deu liberdade a seu agressor, ela começou uma luta incansável que foi terminar no Congresso Nacional e que culminou com a aprovação da lei que tem o seu nome.

No dia 3 de março de 2015 foi aprovado o projeto de lei do Senado que classificou o feminicídio como crime hediondo e o incluiu como homicídio qualificado. O texto modificou o Código Penal para incluir o crime - assassinato de mulher por razões de gênero - entre os tipos de homicídio qualificado.

A aprovação da proposta foi um avanço para os movimentos sociais femininos e segundo o que foi publicado, a matéria estabelece que “existem razões de gênero quando o crime envolver violência doméstica e familiar, ou menosprezo e discriminação contra a condição de mulher”. O projeto foi elaborado pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) da Violência contra a Mulher.

Mas infelizmente, nem todas as mulheres têm a comemorar nessa data, pois a violência contra a mulher é um problema que precisa ser enfrentado, denunciando-se e combatendo a cada dia.

Nem a Lei Maria da Penha e nem O texto que modificou o Código Penal, tão pouco as denúncias têm surtido efeito na diminuição da violência cometida contra a mulheres, cotidianamente.

Os atrasos nas políticas públicas e inversão de valores que estamos vendo na política desde 2016, só aumenta o estímulo de trogloditas acharem que corpo de mulher é capitania hereditária.  Não podemos nos calar diante de  todo esse horror, diante do caos.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Somos cobaias...

 

Olívia de Cássia Cerqueira

 

Em uma de suas músicas o poeta Cazuza disse que: “somos todos cobaias de Deus”. Outros autores também já o disseram em seus escritos, e hoje me dei a refletir sobre o tema. Explicarei em seguida.

Voltei à fisioterapia presencial numa faculdade particular de Maceió, essa semana, e devo novamente esclarecer que sou grata e todos os dias agradeço a Deus pelos amigos que tenho, que conseguiram uma vaga para mim no local.

Dito isso, volto ao tema em tela, porque na volta de hoje nova turma foi me analisar e estudar o meu caso, e o professor explicou que sempre cita o meu caso em suas aulas de neurologia. Sou um estudo de caso, ou um caso de estudo, disse-lhe eu.

Mas eu não me importo com isso, pelo contrário: enquanto tiver mais profissionais e mais pessoas com informações sobre atrofia cerebelar, talvez tenhamos mais chances de chegarmos perto de uma evolução para esse problema.

Não é que eu acredite na cura, pelo menos nas próximas décadas, mas pode ser que as gerações futuras das famílias que herdarem a Ataxia ou outros problemas neurológicos, venham a ter mais chances, mais esperança que nós.

Não desdigo a má sorte, apesar de alguns dias serem mais complicados que outros. Cada dia aparece um novo sintoma diferente, ou mais complicado.

 E lembro daquele senhor, psiquiatra que me consultou e deu um diagnóstico de esclerose múltipla, por conta de um resultado de um encefalograma,  sem antes perguntar  o meu histórico familiar.

E eu, atrevida que sou, contei para ele sobre a Doença de Machado-Joseph, quando ele alertou que eu imaginasse que o meu cérebro era  um sistema estelar  em que morria uma célula a cada dia a cada dia ou instante.

Com leituras mais apuradas sobre Ataxia, antes com certa frequência, fui descobrindo que as doenças neurológicas têm sintomas de outras síndromes e são parecidas e só um mapeamento genético ou ressonância magnética, em alguns casos, podem dar o diagnóstico.

Nos últimos tempos, parei de ler sobre isso e atualmente procuro aproveitar o que posso, sem ressentimentos ou mágoas, tentando não depender tanto de terceiros, enquanto posso e tentando não pensar num amanhã de “grandes novidades”. Somos todos cobaias de Deus. Sou um estudo de caso, ou um caso de estudo. Bom dia.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

É sobre falar em não desistir...

Olívia de Cássia Cerqueira

 

Tem dias que a gente amanhece com aquele sentimento de ter vontade de desistir da luta, que a cada dia fica mais difícil. E como diz Chico Buarque em sua música Roda Gigante, “tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu, a gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu”.

Um mundo gigante, com todas as mazelas que assomam a humanidade. E dá um aperto no peito, sim. Dá vontade de dizer ao vento que vamos deixar como está.

E diante de tais sentimentos menos honrosos, procuramos uma forma de encantamento que nos faça retomar a força, a garra, o ímpeto de continuar perseverando por dias melhores.

Somos as consequências das nossas escolhas e essas escolhas nos levarão aos lugares, desejados, ou não. Imunidade não é impunidade e me surpreendo com “pessoas de bem” defendendo o troglodita “deputado” por conta do ódio que têm ao PT e a nós que simpatizamos, ou os que  defem uma linha mais à esquerda. E sobra até para o padre Júlio e o Papa Francisco.

Até onde a humanidade chegará com seu ódio, seus atrasos de pensamentos, sua ignorância intelectual, defendendo o que tem mais torpe, mais ruim para os menos favorecidos.

Não é sobre falar de um partido ou de uma pessoa, é sobre falar da falta de políticas públicas, principalmente para a saúde, que está no meio de um furacão.

Esses arreganhos de ódio não condizem com o que defendo. Eu quero um mundo justo, o mundo que sempre defendi de paz, respeito de harmonia entre os que pensam diferente da ignorância.

Quando nasci, em 1960, já se vai longe o tempo, as informações não chegavam ao povo de forma tão rápida. Agora, além da rapidez da informatização, como disse André Carvalhal, na Carta Capital, “Junto com o coronavírus, uma onda gigante de memes, fake news, teorias da conspiração, medo, pânico” e outras artimanhas são jogados todos os dias  por aí.

“A sociedade está doente, ao ponto de precisar de seguidas catástrofes para despertar. Quantos mais precisarão morrer?”, diz o texto da Carta Capital.

Me aborreço com a falta de argumentos e repetição dos mesmos chavões contra o PT e Lula, nas redes sociais. Faz tempo que o PT não é mais governo, Lula passou cerca de 500 dias preso, por conta da armação de um juiz passional e de armações da Lava Jato, que apoiou eleição de Bolsonaro e integrou governo.

E a falta de controle, de governabilidade, leva à falta de medicamentos para câncer, sífilis e covid-19 e também escancara ainda mais a crise na saúde pública, mas isso só não basta para a alienação geral.

Gasolina, gás e diesel subindo todo dia, também não vem ao caso para essa gente bronzeada, mas se fosse um governo de esquerda que tivesse no poder, panelas bateriam todo dia, caminhoneiros e outras hordas estariam por aí,  a falar palavrões e divulgar vídeos vergonhosos nas redes sociais.  

Preciso de motivos para não desistir, antes que meu tempo acabe. É sobre falar em não desistir... E tenho dito. Bom dia, ainda.

O nascimento de Amaralinda

  Olívia de Cássia Correia de Cerqueira Num ambiente rústico e carente, com escassez de recursos viveram Salomão Celestino e Carmem Celestin...