terça-feira, 7 de julho de 2026

Entre tombos e quedas


 Olívia de Cássia Cerqueira 


 

Ouço o apito do navio, no Porto de Maceió, anunciando a partida ou chegada de algum Cruzeiro. Imagino que eles estão trazendo ou levando turistas que vieram conhecer as belezas da nossa terrinha.

O aroma do café recém coado invade a casa com um aroma inconfundível. A ameaça de chuva passou, o sol ficou encoberto; faz muito calor em Maceió.

Apesar do tempo, veio alguma leveza e também muita criatividade nos movimentos. Se não posso caminhar na rua, caminho dentro de casa, auxiliada pela cadeira de rodas.

Minhas crises alérgicas aumentam com a mudança do tempo. Vão e voltam. Tem dias que é mais difícil respirar, mas a gente supera.

Os males da velhice e da Ataxia vão se acentuando com o passar do tempo, devido as quedas e a idade. Sou uma mulher com dores. Dores ciáticas e o enrijecimento das pernas aumentaram, atrapalhando a coordenação e o caminhar.

Não tenho medo da morte, eu tenho medo é de um ficar dependendo de terceiros, entrevada, e não mais poder ser eu mesma. Minha coluna já aponta sinal de desgastes, está torta.

O meu deslocamento quando consigo levantar, lembra o das bruxas retratadas no cinema e nas histórias infantis. Depender dos outros para as tarefas mais corriqueiras, simples e pessoais é a pior coisa na vida.

A gente se sente pequena, sem chances, com vergonha, sem metas e sem chão. Numa pesquisa rápida na internet, estima-se, no geral, que a taxa de ocorrência de pessoas com Ataxia Cerebelar Hereditária Dominante é 2,7/100.000. 

Avalia-se que haja pelo menos 2.000 pessoas portadoras desse problema no Brasil, segundo a Associação Brasileira de Ataxias Hereditárias e Adquiridas, na internet. Avalio que pode ser muito mais se levarmos em conta os casos não notificados. 

Pelo menos na minha família, quando comecei a fazer um levantamento para publicar meu primeiro livro, já tinham sido acometidos mais de 80 familiares, entre primos e tios.

De lá para cá, não pesquisei mais, mas foram muitos os acometidos, inclusive outro irmão, um sobrinho e tantos parentes.

Também conhecida como doença rara ou DMJ-Doença de Machado-Joseph, os primeiros sintomas da Ataxia aparecem geralmente na vida adulta, perto dos 40 anos. Aos poucos, o paciente perde a coordenação dos movimentos, começa a andar cambaleando e a falando com dificuldade.  

Com o tempo, as quedas se tornam frequentes e sou testemunha disso. Tenho caído muito e me ferido levemente, sem quebrar nenhum osso, mas a coluna e as pernas estão avariadas, devido a essas quedas.

E, finalmente, o destino cruel dos doentes é ficar limitados à cadeira de rodas. Imploro todos os dias ao Criador e anjos de luz, para não chegar ao estágio derradeiro que é o atrofiamento dos membros.

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