quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Vivi a minha adolescência, em União dos Palmares

 Olivia de Cássia Cerqueira


Não posso responsabilizar ninguém pelos meus problemas que, às vezes avalio que são maiores do que os de outras pessoas. Há momentos que concordo quando me dizem que qualquer um pode fazer o seu próprio destino.  (Mosaicos do Tempo - 2018)

Sentia-me inferior às minhas amigas, achava-me fora dos padrões de beleza exigidos pela sociedade. Vivi a minha adolescência, em União dos Palmares, procurando respostas dentro de mim, tentando ser feliz. *Idem

Desconhecia a assertiva que diz que a verdadeira felicidade vem de se conhecer, se aceitar e valorizar sua singularidade.

Os especialistas afirmam que é natural a gente se sentir diferente ou inadequada durante a adolescência, especialmente quando nos comparamos com amigas ou com ideais estéticos impostos pelo meio social.

A adolescência é um período controverso. Eu me rebelava contra situações de preconceitos e injustiças sociais, contra a sociedade, que impunha um modelo de repressão – política e moral.

Nessa fase da vida a gente vive os primeiros amores e as primeiras experiências que nos acompanharão para o resto da vida.

A idade dos sonhos mais bonitos, de se pensar que a gente pode tudo, da vaidade e quando acontecem as coisas mais bonitas na vida de uma mulher. (Mosaicos do Tempo - 2018)

A vida é implacável e o tempo que disponho é muito pouco, eu sei. Já não posso mais sonhar, como antes; já não posso acreditar que ainda tenho muitas chances pela frente.  (Mosaicos do Tempo - 2018)

Nasci em União dos Palmares, Alagoas, Terra da Liberdade, de Maria Mariah, Povina Cavalcante, Jorge de Lima, Zumbi e tantos outros heróis e heroínas anônimos ou não.

Vim ao mundo no dia em que se comemora o Dia do Fico, aos 9 de janeiro de 1960, no pé da Serra da Barriga, entre dez horas da manhã e o meio-dia, na Rua Demócrito Gracindo, mais conhecida como Rua da Ponte, de saudosa memória.

Fui apressada; minha mãe contava que quando a parteira chegou, eu já tinha nascido. A mulher cuidou apenas do corte do cordão umbilical e da limpeza do bebê. Minha ansiedade vem de muito longe.

Meu pai só veio saber do meu nascimento quase à tarde, segundo me contaram depois, apesar de nossa casinha ser colada à bodega, que nos deu o pão de cada dia.

Graças aos anjos, forças do universo e a meus pais, não passei fome, não tive as mesmas dificuldades que eles tiveram, bem como os menos favorecidos de ontem e de hoje.

Meus perrengues foram outros, muito mais de saúde, psicológicos e neurológicos desde a mais tenra idade.

Quando saía com a minha mãe, nos dias de desfile cívico em União dos Palmares, no Dia da Emancipação do município, ou outro passeio qualquer, voltava nos braços dela, pois chegava quase a desmaiar de tanta que eram as dores que sentia nas pernas. Dor que ninguém sabia explicar do que se tratava. (Mosaicos do Tempo - 2018 )

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

4.

 

 

 

Hoje sinto os tais incômodos, sendo que mais acentuados. Avalio agora que já eram sintomas da Ataxia cerebelar, herança devastadora na minha família.

Eu devia ter por volta de seis anos, quando mamãe me deixou trancada, na casa da rua da Ponte. Foi cumprir algum compromisso que não quis ou não podia me levar, coisa que não costumava fazer e tive um ataque de fúria, achando que tinha sido abandonada. Quando ela chegou em casa, me sobrou uma surra, por ter rasgado o vestidinho que ela havia feito, com carinho.

A explicação que hoje tenho para isso talvez seja de falta de orientação, ou algum problema que não se tinha diagnostico para tal comportamento, a não ser falta de educação ou destempero mesmo.

 

*****

 

Tenho, de vez em quando, alguns pesadelos. Quando criança, costumava sonhar pesado. Eu acordava gritando desesperadamente.

Quando entrei em depressão, acendia velas no quarto e via vultos, até que uma noite percebi que tinha uma mulher me observando. Não voltei a repetir acender velas no quarto.  Seria o começo de algum transtorno¿

Depois de adulta os pesadelos continuaram e falo muito dormindo. Nem sempre lembro deles, mas quando acontece, sou sempre preterida e abandonada.

Hoje em dia a literatura médica orienta aos pais que as crianças podem estar passando por estresse, ansiedade ou mudanças significativas em suas vidas. Eles afirmam que é importante acolher a criança, oferecer conforto e, se necessário, procurar ajuda. Mas fui uma criança que vivia na rua.

 

Idealismo

 Olívia de Cássia Cerqueira



2.

 

 

 

Não preciso de uma análise mais aprofundada para saber que sempre fui idealista e sonhadora. Sonhava com viagens, em conhecer o mundo, pessoas, culturas diferentes, concluir meu curso de línguas e fazer outros e nada disso eu fiz.

E vem a certeza de que muitas vezes, e quase sempre são melhores o silêncio, a reflexão e o desabafo interior, cá com nossos botões.

Procurar distrair aquela intuição com leitura, música; no meu caso escrever e não procurar descarregar frustrações nas outras pessoas.

Saber que o amanhã é outro dia e você poderá ser melhor do que agora; ter a certeza de que a esperança ainda existe em meu coração. (Cheiro de Memórias – 2021)

Agradeço ao universo pela vida que tive e tenho, pois tem gente por aí passando mais perrengues que eu. Não sou perfeita, há momentos de desalento. Mas quando a idade avança, a gente vai ficando mais frágil, mais sensível.

Meu desejo era construir pontes, caminhos que me levassem a realizar o melhor de mim. Não queria passar por essa vida sem deixar coisas boas e positivas, pensava eu.   

Ainda peço a Deus que me faça melhor a cada dia. Tenho em mim uma mulher que pensa, rir e não tem medo de chorar, embora as lágrimas tenham secado de tanto que fui chorona no passado já distante. Muitas vezes sinto-me uma criança que ainda acredita na vida, apesar de tudo. (Cheiro de Memórias - 2021). 

Me encanta a simplicidade das coisas, o pôr do sol, o mar, o surgir da lua. Escrevi no blog que tenho em mim um ser errante que busca em si a harmonia para viver em paz.

Passei a maior parte do tempo buscando verdades. As minhas verdades. Cometi muitos erros, principalmente com mamãe, desde a adolescência.  (Cheiro de Memórias - 2021). 

Eu não entendia o jeito de ser dela e por sua vez ela não me compreendia. Eu também não me amava e durante muito tempo foi assim.

Tinha tamanha agressividade e rebeldia, que nem eu me entendia. Precisei me reconectar com o mundo real, pois sobreviver era essencial.

Passados tantos anos fico imaginando quanto desentendimento poderíamos ter evitado. Hoje eu entendo que d. Antônia tivesse medo que eu passasse por situações difíceis e por isso relutava tanto diante das minhas fraquezas.

Ela me conhecia muito mais do que eu e sabia da dificuldade que sempre tive no que se refere aos relacionamentos afetivos. Há momentos que me sinto culpada pela falta de paciência com ela. (Mosaicos do Tempo - 2018)

Cecília Meireles escreveu que liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, mas que não há ninguém que a explique e ninguém que a entenda.

Talvez seja essa liberdade que existe dentro de mim, esse sentimento que sempre nutri, de ser livre, que esteja reclamando de algo que não fiz tenha me privado de fazer.

 

 

domingo, 23 de agosto de 2026

Festas juninas

Olívia de Cássia Cerqueira




Chegou o mês de junho. Quem nasceu no interior em décadas passadas entende o que é o festejo no Nordeste do Brasil. Anos passados era tudo diferente. Apesar de muita cor e beleza, as festas juninas atualmente parecem um grande carnaval.

As cidades estão mais coloridas e enfeitadas. As músicas poucas lembram o nosso forró. É um festival de cores e ritmos que não tem nada a ver com festa junina. As quadrilhas juninas se estilizaram para disputar o primeiro lugar.

As músicas, a maioria de outro ritmo, com o sertanejo ou “breganejo”, não lembram o nosso Nordeste. Em anos passados apenas Caruaru, em Pernambuco, e Campina Grande, na Paraíba, disputavam o título de Cidades do Forró.

A festa cresceu e outras capitais e municípios do país adotaram o evento com ornamentação com o tema da época. Cada cidade oferece grandes festivais juninos que atraem milhões de turistas com shows, quadrilhas, comidas típicas e muita mistura de ritmos, numa verdadeira apoteose esquecendo da cultura popular.

Por conta de questões ambientais, quase não se fazem fogueiras mais fogueiras de lenha, está certo. Mas que era bonito, era.

“A Festa tem suas raízes nas celebrações pagãs do solstício de verão na Europa, que foram trazidas para o Brasil pelos colonizadores portugueses no século 16” *. Originalmente, essas festividades eram realizadas para homenagear deuses da natureza e da fertilidade, mas com a chegada do cristianismo, foram adaptadas para celebrar santos católicos, especialmente Santo Antônio (13 de junho), São João (24 de junho) e São Pedro (29 de junho)’’

*  Fonte: Revista Brasil Escola https://brasilescola.uol.com.br/detalhes-festa-junina

 

***

 

Vivi alguns momentos nessa época do ano. Mamãe fazia vestidos sempre com bolsos do lado, com apliques sempre de patinhos ou outro bichinho, para que eu pudesse colocar traques, chuvinhas e os fogos apropriados para a minha idade.

Ainda criança e morando ainda na Rua da Ponte, cismei de assar um milho na brasa da fogueira, no dia de São João.  Fiquei e cócoras e a parte traseira do vestido de xadrez vermelho pequenininho, com patinhos aplicados, bateu na brasa queimou.

Quando percebi,  imediatamente tirei o vestido novo, avariado, apaguei o fogo e escondi a roupa embaixo do colchão. Quando mamãe percebeu o “desastre”, ao invés de se preocupar se eu tinha me queimado, me deu foi uns tabefes. Tudo acontecia assim. Era punição para qualquer coisa fora do padrão dela, não sei explicar.

Na rua da Ponte as fogueiras queimavam até o dia seguinte, para assar milho.  Mamãe fazia um verdadeiro banquete de comidas típicas: bolo Pão-de-ló, canjica, pamonha, munguzá, cocadas e broas. Tudo sozinha.

Era tudo muito gostoso, que ela organizava. Apenas as pamonhas, que ela ralava o milho, pedia ajuda ao meu irmão Petronio, (in memoriam) que ajudava sem reclamar. Diferente de mim, que quando já estava na idade de fazer alguma tarefa que ela pedia, reclamava muito. Eu só queria estar envolta com os livros ou estar na rua com amigas.

 

Entre tombos e quedas -Reflexôes

 

Olívia de Cássia C. de Cerqueira

1.


Ouço o apito do navio, no Porto de Maceió, anunciando a partida ou chegada de algum Cruzeiro. Imagino que eles estão trazendo ou levando turistas que vieram conhecer as belezas da nossa terrinha.

O aroma do café recém coado invade a casa com um aroma inconfundível. A ameaça de chuva passou, o sol ficou encoberto; faz muito calor em Maceió.

Apesar do tempo, veio alguma leveza e também muita criatividade nos movimentos. Se não posso caminhar na rua, caminho dentro de casa, auxiliada pela cadeira de rodas.

Minhas crises alérgicas aumentam com a mudança do tempo. Vão e voltam. Tem dias que é mais difícil respirar, mas a gente supera.

Os males da velhice e da Ataxia vão se acentuando com o passar do tempo, devido as quedas e a idade. Sou uma mulher com dores. Dores ciáticas e o enrijecimento das pernas aumentaram, atrapalhando a coordenação e o caminhar.

Não tenho medo da morte, eu tenho medo é de um ficar dependendo de terceiros, entrevada, e não mais poder ser eu mesma. Minha coluna já aponta sinal de desgastes, está torta.

O meu deslocamento quando consigo levantar, lembra o das bruxas retratadas no cinema e nas histórias infantis. Depender dos outros para as tarefas mais corriqueiras, simples e pessoais é a pior coisa na vida.

A gente se sente pequena, sem chances, com vergonha, sem metas e sem chão. Numa pesquisa rápida na internet, estima-se, no geral, que a taxa de ocorrência de pessoas com Ataxia Cerebelar Hereditária Dominante é 2,7/100.000. 

Avalia-se que haja pelo menos 2.000 pessoas portadoras desse problema no Brasil, segundo a Associação Brasileira de Ataxias Hereditárias e Adquiridas, na internet. Avalio que pode ser muito mais se levarmos em conta os casos não notificados. 

Pelo menos na minha família, quando comecei a fazer um levantamento para publicar meu primeiro livro, já tinham sido acometidos mais de 80 familiares, entre primos e tios.

De lá para cá, não pesquisei mais, mas foram muitos os acometidos, inclusive outro irmão, um sobrinho e tantos parentes.

Também conhecida como doença rara ou DMJ-Doença de Machado-Joseph, os primeiros sintomas da Ataxia aparecem geralmente na vida adulta, perto dos 40 anos. Aos poucos, o paciente perde a coordenação dos movimentos, começa a andar cambaleando e a falando com dificuldade.  

Com o tempo, as quedas se tornam frequentes e sou testemunha disso. Tenho caído muito e me ferido levemente, sem quebrar nenhum osso, mas a coluna e as pernas estão avariadas, devido a essas quedas.

E, finalmente, o destino cruel dos doentes é ficar limitados à cadeira de rodas. Imploro todos os dias ao Criador e anjos de luz, para não chegar ao estágio derradeiro que é o atrofiamento dos membros.

*****

 

Nem acredito que cheguei aos 66 anos, na tal da terceira idade. E quando estou assim, um tanto quanto nostálgica, a saudade de mamãe aumenta e de papai também.

Me transporto para a infância e a adolescência, tempo em que vivia em União dos Palmares.

Me veem as lembranças dos cuidados de mamãe quando eu tinha algum problema de saúde: fazendo chás, beberagens, comidas saudáveis e o que eu podia comer.

Passados os anos e depois que chegou o tempo da aposentadoria, me pego refletindo muito mais que antes.

Dizem os estudiosos, que a aposentadoria é um momento natural para a gente olhar para trás e refletir sobre as experiências vividas e as mudanças que moldaram a vida.

Aos poucos vamos mudando de fisionomia. Isso é péssimo. Olho-me no espelho e busco a menina que fui e não me reconheço. As rugas chegaram, as cicatrizes estão em toda parte do corpo.

As prioridades mudam. Ainda bem que tenho memórias e espero que não se percam, até chegar o momento de eu ir embora desse plano.

Aos poucos vou me adaptando a cada fase que chega. Ontem, 5 de fevereiro de 2026, inaugurei a cadeira de rodas. Não estranhei, pois tenho consciência dos sintomas que a Ataxia é capaz de trazer, das limitações que implicam.

A sensação não sei descrever. Ora de riso, ora de preocupação e estranhamento. Ou vontade de gritar, e gritar muito.

Não me desfiz de muitos defeitos, como dizer “não” e me envergonho disso, mas não posso reclamar de nada; só lamento não ter aproveitado mais, como fala a música Epitáfio, dos Titãs.

Tem dias que a gente acorda com um aperto no peito, como se o mundo tivesse pesando nos ombros.

Nessas horas, preciso respirar fundo, contar até dez, fazer o exercício de treinamento com o cérebro para ativar a paciência e a persistência; não desistir nunca e seguir em frente. (Cheiro de Memórias - 2021)

Eu tenho isso de vez em quando: parece um mantra, uma sensibilidade que ainda não entendi, quando algo está para acontecer ou já aconteceu.  E me vem aquela sensação imensa de querer conhecer o mundo que eu não conheci, de dizer que eu existo *. * Idem

A mídia anuncia o carnaval. Para mim ficaram só as lembranças dos momentos vividos em União dos Palmares. Dos bailes na Palmarina, do frevo na praça Basiliano Sarmento, do mela-mela e dos homens, a maioria da Rua da Ponte, vestidos com roupas de mulher e brincando na rua. Sem medo de ser feliz.

No princípio, papai não queria deixar que entrássemos na folia de Momo e fechava as portas de casa, para nos preservar. Eu nunca entendi e procurei explicar a visão dele, isso depois de mais velha, pela falta de conhecimento, ou por questão religiosa.

Já em Maceió, minhas incursões em blocos como Os meninos da Albânia, Filhos da pauta, ou no antigo Maceió Fest e outras brincadeiras por aqui.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Situações corriqueiras

      



                                                                                        Olívia de Cássia Cerqueira



O roteiro da falta de saúde e bem-estar me acompanha e amplia no dia a dia. Constantemente é uma novidade que aparece. Procuro não arruinar minhas querências e sonhos. Sinto dores. Depois do piripaque que tive, me coloquei a pensar que preciso publicar o que tenho escrito, com urgência.

Os pesquisadores apontam que algumas situações corriqueiras podem gerar ansiedade e a necessidade de controle, “ou pode servir como um poderoso impulso para vivermos com mais presença, propósito e significado” *.

 Bingo! Talvez o problema esteja aí, na falta que sinto da minha pequena vida social: exposições, idas ao shopping, corriqueiramente, praia, sol e mar, sair por aí sem compromisso, fazer fotos, etc., etc., etc. Coisas que não faço mais ou não posso.

O lançamento do meu livro Entre Tombos e Quedas – Reflexões foi agradável e muita gente compareceu. Os próximos, se ainda me for permitido pelo Criador, farei os lançamentos aqui na Vila Perdigão mesmo. O deslocamento é mais fácil.

Não me dou ao luxo de me preocupar muito com vendagem. Acabo doando mais exemplares do que vendo. Claro que para o pequeno escritor/escritora a vendagem é importante, mas o mais importante para mim é que os leitores avaliem o conteúdo e me compreendam, já que apesar de ser comunicadora, prefiro a escrita.

Gostaria de fazer uma agenda para lançar também em União dos Palmares, minha terra querida, mas as limitações agora me impedem.

Vamos ter em breve uma academia de letras na terrinha e estou indicada para participar como membro. Tomara que dê tempo. Me preocupo com a possibilidade de não poder estar presente, por conta dos impedimentos que tenho, mas espero poder participar.

 

***

 

Este ano também teremos eleição para presidente, governo, Senado, Câmaras federal e estaduais. Os brasileiros e as brasileiras terão a oportunidade de escolher, democraticamente, quem vai colocar no Congresso Nacional e na Presidência aquele que vem fazendo o melhor para o País, pois acredito, e tenho fé.

Sigo procurando algumas respostas.  Tanto pessoais quanto conjunturais. Peço orações as pessoas de todas as crenças, pois as vezes avalio que minhas preces são fracas e não têm muita fortaleza.

Tem horas que penso estar em falta com a espiritualidade. Não rezo mais ao deitar, como fazia na infância. e quando acordo, da mesma forma. Não lembro. Como disse o poeta Fernando Pessoa, “Navegar é preciso. Viver não é preciso”.

 

 

Quanto tempo!

 

Quanto tempo o tempo disporá

até que eu não saiba mais quem sou?

quanto tempo terei para reinventar

minha vida da de forma que ela

tenha um outro sentido??

Quanto tempo terei para tomar as rédeas

do destino seguir em frente

em busca de algo mais??

 


sábado, 15 de agosto de 2026

Elvira e Marcondes


Olívia de Cássia Corria de Cerqueira


 É verão em Alagoas, nordeste do Brasil. Ainda é tempo de flores e de esperança. A manhã de dezembro promete, ensolarada e quente, fazendo muito calor. Dá vontade de tomar um banho de mar e de sol.

Maceió se agita com a temporada de turistas tendo como testemunha o mar, enquanto Dandara Luísa -, uma preta cor de canela, cabelos negros ao vento-, rememora o passado, refletindo nas consequências do que veio depois.

Morava com os pais e observava o ambiente. A casa organizada e limpa. No jardim havia muito verde e flores, suavizando o ar.

Dandara Luísa evoca temas de sua ancestralidade e refletia sobre os últimos acontecimentos na sua família. A jornada profissional que lida com as complexidades da mente humana fazia com que ela estudasse mais, enquanto navega por suas memórias. Pensa nos pais e nos irmãos.

Elvira e Marcondes, estavam juntos há muitos anos sem oficializar o casamento, seja no cartório ou na igreja; mas anos depois resolveram oficializar a relação, por conta da tradição e por causa dos filhos.

Eles pareciam um casal harmonioso, até que Marcondes pai começou a se interessar por outras experiências e aventuras fora do casamento.

Marcondes estava sempre acompanhado dos amigos de farra da adolescência, sem pensar nas responsabilidades cotidianas de um relacionamento.

De estatura mediana, olhos e cabelos escuros e traços indígenas, Marcondes gostava de diversão sem medidas e nem constituir uma família o fez mudar de comportamento.

Era imaturo na maneira de agir. Elvira nasceu em Maceió, mas passou grande parte de sua vida em União dos Palmares, por conta do trabalho de seus pais, Juvenal e Dandara, de quem Dandara Luísa herdou o primeiro nome.

Fiscal de renda, Juvenal amava Dandara. Eles moravam na Praça Basiliano Sarmento e a mulher ensinava na escola Municipal Mário Gomes, tendo sido aprovada em concurso público.

Detestava apadrinhamentos e injustiças. Dandara era devota de Santa Maria Madalena, assim como sua família, mas respeitava todas as crenças.

Quando a única filha, Elvira, nasceu foi uma alegria para os pais ansiosos. O nascimento foi comemorado e ela foi crescendo bonita, segura de si, inteligente, muito querida e saudável.  Era um tesouro para os pais.

Elvira conheceu Marcondes ainda adolescente, na festa de Santa Maria Madalena, padroeira de União dos Palmares. Ela acompanhava a programação do evento, religiosamente todos os anos. 

O dia oficial da santa é em 27 de julho, mas os festejos foram transferidos para o final de janeiro e começo de fevereiro, devido ao período chuvoso na região.

As comemorações à santa têm início no segundo domingo de janeiro, com a procissão do mastro, que leva às ruas uma multidão de devotos.

Em 23 de janeiro a procissão luminosa da bandeira leva outra multidão de católicos às ruas, numa demonstração de fé. Depois do percurso pelas ruas da cidade, a bandeira será erguida ao mastro ficando ali por nove dias, em frente à igreja matriz. 

Durante o período da festa, a população ficava eufórica com o evento, na praça Basiliano Sarmento, no centro da cidade.

O alto falante de Maurino Veras, animava o evento, com telegramas apaixonados, que marcavam encontros. Foi com um desses telegramas que Marcondes conquistou Elvira.

A festa tinha quermesse, leilões e bingos. Ambulantes vendiam bebidas e aperitivos nos arredores das mesas. Os brinquedos para o evento eram armados do lado esquerdo da igreja.

Anos depois foram transferidos para a Avenida Monsenhor Clóvis, que recebeu esse nome homenageando o ex-pároco da cidade, cujo busto está colocado nos fundos da igreja e defronte a avenida que carrega seu nome.

A bandinha do coreto da prefeitura foi substituída por grupos musicais. O coreto já não existe, com a construção da praça.

Recentemente, a programação festiva do evento foi transferida para a rua do Jatobá, espaço onde as águas do Mundaú levaram as casas, em 2010.

Dizem alguns moradores que os shows foram transferidos pela justiça, com intervenção da igreja católica, com o argumento de que estava atrapalhando eventos religiosos, apesar do evento reverenciar também a santa.

Quem foi contra a decisão evoca Salvador, onde não há esse tipo de decisão e se não me engano em outras cidades do país.

Elvira avaliou que o som estava alto, que as pessoas gritavam para serem ouvidas, mas que a decisão foi radical e bastava baixar um pouco o volume dos grupos musicais.

No dia 2 de fevereiro, o principal dia do evento, tinha grandes encontros de amigos, na praça. Elvira e Marcondes participavam do evento que fervilhava na cidade, com a chegada de palmarinos que moravam fora ou de turistas, para participar do maior evento religioso dos católicos.

A padroeira de União dos Palmares unia muitos casais. Seja em namoro ou casamento. E muitas crianças eram e ainda são batizadas tendo a santa como madrinha e defensora de todos os devotos.

 

*****

 

Marcondes tinha um comportamento diferente dos rapazes que Elvira costumava namorar, mas era o começo do relacionamento e ela foi se envolvendo, não pensava que tudo mudaria.

Ela estranhava os gostos dele, mas da mesma forma que ele incentivava algumas ideias dela, não deu importância e seguia com o ficar do início do relacionamento.

No início do namoro, o casal participava de eventos diversos que tivessem em União dos Palmares ou em Maceió. A ida aos eventos foram escasseando com o passar do tempo.

Elvira e Marcondes tiveram três filhos e à medida que o tempo passava, tudo foi mudando. O desgaste aconteceu. Não havia mais no relacionamento deles a comunicação necessária na relação.

O desinteresse de planos para o futuro era visível, só ela fingia não notar. Marcondes se portava de maneira egoísta e só pensava em si próprio; se divertia pensando nas mulheres que conseguia ludibriar.

Quando procurava Elvira era para mostrar que era macho, mesmo que não conseguisse satisfazê-la a contento, deixando-a insatisfeita.

O cotidiano de ambos tinha um afastamento emocional e físico, que poderia ter sido evitado se tivesse havido entre eles uma conversa séria, um “papo reto”, como diz a moçada hoje em dia.

Dizem os estudiosos que “A distância emocional pode surgir de forma silenciosa e afastar pessoas que ainda estão fisicamente próximas”. Pesquisa no site “Quando o Silêncio Afasta: Como Reduzir a Distância Emocional aos Poucos

O resultado dessa insatisfação pessoal e a busca por novas experiências, ou simplesmente o desgaste natural da relação foi inevitável. Não podia ser diferente.

Eles precisavam de diálogo e esforço para ser reconstruída a intimidade ou, em último caso, o rompimento de vez, que veio acontecer.

Quando se juntaram, Elvira e Marcondes foram morar na Rua da Cachoeira, em União dos Palmares. Depois de dois anos morando juntos, compraram uma pequena casa, no começo da Rua da Ponte.

Tiveram a ajuda dos pais de Elvira, que não viam a escolha da filha com satisfação, mas resolveram ajudar. Era sua filha amada e ela poderia resolver seus problemas.

O relacionamento de Elvira e Marcondes nessa época ainda tinha atração e desejo. E quando a filha Elvira Liliane nasceu, mudaram para a Rua Correia de Oliveira, no centro da cidade.

Os dias foram passando; Marcondes evitava conversas mais sérias com Elvira. Com duas filhas e um filho, a crise no relacionamento aconteceu. Em. uma de suas obras Machado de Assis aborda o tema.

Marcondes estava ausente ou não queria ter discussões constantes com Elvira, na esperança de que a parceira tomasse a iniciativa de terminar o relacionamento, segundo dizia aos amigos. 

Elvira era uma mulher culta e cheia de projetos: não percebia as intenções do marido, embora o percebesse diferente.

Ela era uma preta de olhos azuis, corpo dourado, tinha uma beleza estonteante; chamava atenção por onde passava, mas não dava guarida as investidas daqueles homens atrevidos.

A filha mais nova Dandara Luísa tinha a aparência física e intelectual da mãe, bem como Elvira Liliane, a filha do meio. Ambas muito amadas pelos pais.

Elvira herdou da mãe o gosto pelo ensino e era apaixonada pela profissão que escolheu: o magistério. Lecionava na Escola Jorge de Lima, na Rua Tavares Bastos.

Gostava do que fazia, incentivava as crianças a se engajarem nos projetos da escola. O dia da Consciência Negra, Zumbi e o poeta Jorge de Lima, além da libertária jornalista emponderada Maria Mariá e outros personagens da cultura local, eram pautas preferidas e presentes em suas aulas.

Elvira se mostrava desentendida sobre os boatos que corriam na cidade sobre o marido. Ao contrário disso, acreditava ter encontrado um homem simples, leal, companheiro, mas se enganara com o caráter do companheiro.

Marcondes vivia sendo apanhado em controvérsias. Ele começou a trabalhar aos 15 anos, desenvolvendo programas e informatizando algumas empresas de União dos Palmares. 

Casou aos 23 anos; seus pais eram divorciados e Marcondes não se dava bem com eles, principalmente com a mãe.

Eles faleceram anos depois de seu casamento e ele se embruteceu. A mãe, dona Judite, tinha muito ciúme das mulheres que se aproximavam de Marcondes, apesar de ter cinco mulheres e outro filho.  

Anacleto, pai de Marcondes, tinha mais dois filhos do primeiro casamento, que saíram de casa quando Anacleto casou novamente.

Elvira e Marcondes além do filho mais velho, Marcondes Filho, tinham duas meninas: a mais velha Elvira Liliane, já com 19 anos, inscreveu-se no Enem para Comunicação Social e Dandara Luísa, a mais nova, com 17, para Psicologia.

Num encontro de amigos, nas farras que frequentavam, Elvira escutou o marido conversando com companheiros de orgias na maior algazarra.

Ele disse que não conseguia ser fiel à esposa e que se relacionava com outras mulheres e se surgissem outras oportunidades com homens, ele dava conta. Se achava um garanhão.

’’O fato de existir traição em relacionamentos não é surpresa para ninguém”, observa. Na literatura mundial, bem como no cinema, há muitas histórias sobre adultério observa o psicólogo Carlos André, na interne

Toda pessoa espera, ao iniciar um relacionamento, que o parceiro ou parceira seja fiel. “E é muito doloroso quando se descobre com uma traição”, pontua. Internautas dizem como descobriram a infidelidade de seus parceiros.

Elvira ouviu a confissão que para ela era dolorosa e perturbadora, o que a levou a um turbilhão de emoções, incluindo choque, raiva e mágoa profunda do marido por ter omitido aquelas informações.

Naquele dia, percebeu o erro que tinha cometido, apesar dos avisos de sua mãe e do pai, mas não deu a entender que tinha escutado aquele comentário machista e sem noção.

Romântica, ela se impressionava com tanta falta de sensibilidade de Marcondes, mas não comentava sobre isso com ele. Estava decepcionada.

Tinha receio de humilhar seu homem. Apesar de tudo, era seu companheiro, pensava no pai dos seus filhos e vindo de família humilde, o que a intimidava a tomar alguma atitude.

Elvira não dava palpites nas escolhas das filhas, mesmo que as vezes discordasse delas. Sentia orgulho das cidadãs que se tornaram.

As meninas aprenderam na faculdade e na vida, que direitos humanos devia ser obrigação de cada pessoa.

Elas procuravam Elvira para conversar sobre as dúvidas do cotidiano e informavam para ela a respeito do que sabiam sobre o pai,  nas conversas com colegas da cidade. Se revoltavam e se preocupavam com a atitude passiva de Elvira.

A mãe dissimulava a vergonha que tinha de falar sobre esses assuntos com as meninas, e ficava calada, mudando de assunto, para não confirmar o disse-me-disse das pessoas.

Marcondes Filho se espelhava no pai em narrativas machistas e preconceituosas e apesar da sua inteligência, seguia os exemplos do pai como a insensatez.  

Fez o curso técnico de Ciências da Computação, em Maceió, no Ifal - Instituto Federal, antiga Escola Técnica Federal, assim como Marcondes pai, que optou por cursar eletrônica.

Marcondes Filho herdou todas as características do pai, tanto físicas quanto no jeito de ser. Sabia dos tropeços dele, mas da mesma forma que ele, era conservador e tinha pensamentos que não evoluíam com os anos passados.

Estava sempre se relacionando com mulheres e homens diferentes, mas não aceitava sua bissexualidade. Isso gerava muitos conflitos interiores.

Bissexuais enfrentam estereótipos e invalidação em relacionamentos amorosos. A sociedade discrimina ainda hoje.

“Dentro e fora da comunidade LGBTQIA+, bissexuais sofrem com os estereótipos e a invalidação de sua sexualidade” e Marcondes filho tinha receio de se assumir.

Faltava autoconhecimento e a aceitação, fundamentais para o bem-estar emocional que ele precisava.

sábado, 11 de julho de 2026

O nascimento de Amaralinda

 

Olívia de Cássia Correia de Cerqueira



Num ambiente rústico e carente, com escassez de recursos viveram Salomão Celestino e Carmem Celestino, no interior de União dos Palmares, Alagoas, no Nordeste do Brasil, na década de 1930 do século XX. Eles já tinham dez filhos, a maioria de mulheres.

Carmem estava grávida e teve complicações na gravidez: estava de nove meses e o casal solicitou formalmente ao dono da fazenda, sr. Israel dos Santos e sua esposa Guilhermina, para serem padrinhos da criança.

Sentindo as dores do parto no meio do mato, Carmem avisou a Salomão que era chegada a hora de o bebê vir ao mundo.

Aflito com a situação, Salomão correu para chamar dona   Zefa, a parteira da região, alguém com experiência em partos domiciliares e tradição na assistência ao nascimento, no ambiente rural do século passado, e se dirigiram para o rancho onde viviam precariamente.

Assim que pariu, Carmem faleceu: não resistiu às dificuldades do parto feito sem recursos. Salomão chamou a menina de Amaralinda, atendendo a um desejo da esposa, que dizia, se a criança fosse mulher daria esse nome e se fosse um cabra macho seria Amaro.

Com dificuldade para criar os filhos e tendo os padrinhos e donos da fazenda insistido para criarem a menina, Salomão cedeu Amaralinda para os padrinhos, objetivando que a menina vivesse com mais conforto, prática comum naquele tempo.

Os fazendeiros já tinham seis filhos: dois homens e quatro mulheres, que ficaram enciumados com a nova irmã e passaram a hostilizá-la.

“Isso mostra como a transferência de uma criança para outra família, mesmo com boas intenções, pode provocar tensões nas relações já existentes,” analisam especialistas.

Com o passar do tempo, a menina passou a ser tratada como se fosse escrava da fazenda. Num sol escaldante do Nordeste, saía capoeira afora, com trouxas de roupas na cabeça ou bacia de louça para serem higienizados no riacho, fosse dia ou noite.

Amaralinda cuidava das tarefas domésticas, alimentava porcos e galinhas e bezerros enjeitados pelas vacas e mesmo assim apanhava bastante de Guilhermina e dos filhos do casal, sem que nenhum deles tivesse compaixão, ou qualquer sentimento fraternal ou humanitário.

Amaralinda não tinha instrução escolar, a não ser as primeiras letras, que aprendeu com a professora da escolinha existente no local, escondida dos proprietários da fazenda e dos outros filhos.

Era Exploração infantil, trabalho extenuante e ausência de escolaridade em um contexto rural no Nordeste do Brasil, onde o trabalho doméstico e agrícola era intenso e muitas vezes acompanhado de punição física, especialmente antes de políticas de proteção infantil mais efetivas.

José Vaqueiro trabalhava próximo à fazenda de Israel e percebeu os maus tratos que Amaralinda sofria. Observando-a de longe, encantou-se pela cabrocha, que foi crescendo com toda mágoa dos pais adotivos e irmãos adotivos.

Os maus tratos para com a menina continuavam e Israel vigiava para ela não falar com José Vaqueiro, pois o namoro continuava proibido e Amaralinda apanhava daqueles que o pai biológico, Salomão, julgava que melhoraria sua vida.

Na obra Vidas Secas, o escritor Graciliano Ramos aborda conflitos interpessoais dos personagens, que vivem uma existência marcada por limitações expressivas, com uma linguagem que indica a opressão vivida tanto pelos adultos quanto pelas crianças.

Guilhermina aproveitou a oportunidade para espancar ainda mais a moça, com cascudos e pancadas; como se não quisesse se desfazer da “faz tudo” da casa.

Descarregou toda a sua raiva, de uma forma que José saiu de perto para não piorar a situação da amada. O sol ia baixando, e nuvens pesadas anunciavam muita chuva. E choveu cântaros naquele dia, parecendo que não parava mais.

 

 

 

 

Vivi a minha adolescência, em União dos Palmares

 Olivia de Cássia Cerqueira Não posso responsabilizar ninguém pelos meus problemas que, às vezes avalio que são maiores do que os de outras ...