sábado, 15 de agosto de 2026

Elvira e Marcondes


Olívia de Cássia Corria de Cerqueira


 É verão em Alagoas, nordeste do Brasil. Ainda é tempo de flores e de esperança. A manhã de dezembro promete, ensolarada e quente, fazendo muito calor. Dá vontade de tomar um banho de mar e de sol.

Maceió se agita com a temporada de turistas tendo como testemunha o mar, enquanto Dandara Luísa -, uma preta cor de canela, cabelos negros ao vento-, rememora o passado, refletindo nas consequências do que veio depois.

Morava com os pais e observava o ambiente. A casa organizada e limpa. No jardim havia muito verde e flores, suavizando o ar.

Dandara Luísa evoca temas de sua ancestralidade e refletia sobre os últimos acontecimentos na sua família. A jornada profissional que lida com as complexidades da mente humana fazia com que ela estudasse mais, enquanto navega por suas memórias. Pensa nos pais e nos irmãos.

Elvira e Marcondes, estavam juntos há muitos anos sem oficializar o casamento, seja no cartório ou na igreja; mas anos depois resolveram oficializar a relação, por conta da tradição e por causa dos filhos.

Eles pareciam um casal harmonioso, até que Marcondes pai começou a se interessar por outras experiências e aventuras fora do casamento.

Marcondes estava sempre acompanhado dos amigos de farra da adolescência, sem pensar nas responsabilidades cotidianas de um relacionamento.

De estatura mediana, olhos e cabelos escuros e traços indígenas, Marcondes gostava de diversão sem medidas e nem constituir uma família o fez mudar de comportamento.

Era imaturo na maneira de agir. Elvira nasceu em Maceió, mas passou grande parte de sua vida em União dos Palmares, por conta do trabalho de seus pais, Juvenal e Dandara, de quem Dandara Luísa herdou o primeiro nome.

Fiscal de renda, Juvenal amava Dandara. Eles moravam na Praça Basiliano Sarmento e a mulher ensinava na escola Municipal Mário Gomes, tendo sido aprovada em concurso público.

Detestava apadrinhamentos e injustiças. Dandara era devota de Santa Maria Madalena, assim como sua família, mas respeitava todas as crenças.

Quando a única filha, Elvira, nasceu foi uma alegria para os pais ansiosos. O nascimento foi comemorado e ela foi crescendo bonita, segura de si, inteligente, muito querida e saudável.  Era um tesouro para os pais.

Elvira conheceu Marcondes ainda adolescente, na festa de Santa Maria Madalena, padroeira de União dos Palmares. Ela acompanhava a programação do evento, religiosamente todos os anos. 

O dia oficial da santa é em 27 de julho, mas os festejos foram transferidos para o final de janeiro e começo de fevereiro, devido ao período chuvoso na região.

As comemorações à santa têm início no segundo domingo de janeiro, com a procissão do mastro, que leva às ruas uma multidão de devotos.

Em 23 de janeiro a procissão luminosa da bandeira leva outra multidão de católicos às ruas, numa demonstração de fé. Depois do percurso pelas ruas da cidade, a bandeira será erguida ao mastro ficando ali por nove dias, em frente à igreja matriz. 

Durante o período da festa, a população ficava eufórica com o evento, na praça Basiliano Sarmento, no centro da cidade.

O alto falante de Maurino Veras, animava o evento, com telegramas apaixonados, que marcavam encontros. Foi com um desses telegramas que Marcondes conquistou Elvira.

A festa tinha quermesse, leilões e bingos. Ambulantes vendiam bebidas e aperitivos nos arredores das mesas. Os brinquedos para o evento eram armados do lado esquerdo da igreja.

Anos depois foram transferidos para a Avenida Monsenhor Clóvis, que recebeu esse nome homenageando o ex-pároco da cidade, cujo busto está colocado nos fundos da igreja e defronte a avenida que carrega seu nome.

A bandinha do coreto da prefeitura foi substituída por grupos musicais. O coreto já não existe, com a construção da praça.

Recentemente, a programação festiva do evento foi transferida para a rua do Jatobá, espaço onde as águas do Mundaú levaram as casas, em 2010.

Dizem alguns moradores que os shows foram transferidos pela justiça, com intervenção da igreja católica, com o argumento de que estava atrapalhando eventos religiosos, apesar do evento reverenciar também a santa.

Quem foi contra a decisão evoca Salvador, onde não há esse tipo de decisão e se não me engano em outras cidades do país.

Elvira avaliou que o som estava alto, que as pessoas gritavam para serem ouvidas, mas que a decisão foi radical e bastava baixar um pouco o volume dos grupos musicais.

No dia 2 de fevereiro, o principal dia do evento, tinha grandes encontros de amigos, na praça. Elvira e Marcondes participavam do evento que fervilhava na cidade, com a chegada de palmarinos que moravam fora ou de turistas, para participar do maior evento religioso dos católicos.

A padroeira de União dos Palmares unia muitos casais. Seja em namoro ou casamento. E muitas crianças eram e ainda são batizadas tendo a santa como madrinha e defensora de todos os devotos.

 

*****

 

Marcondes tinha um comportamento diferente dos rapazes que Elvira costumava namorar, mas era o começo do relacionamento e ela foi se envolvendo, não pensava que tudo mudaria.

Ela estranhava os gostos dele, mas da mesma forma que ele incentivava algumas ideias dela, não deu importância e seguia com o ficar do início do relacionamento.

No início do namoro, o casal participava de eventos diversos que tivessem em União dos Palmares ou em Maceió. A ida aos eventos foram escasseando com o passar do tempo.

Elvira e Marcondes tiveram três filhos e à medida que o tempo passava, tudo foi mudando. O desgaste aconteceu. Não havia mais no relacionamento deles a comunicação necessária na relação.

O desinteresse de planos para o futuro era visível, só ela fingia não notar. Marcondes se portava de maneira egoísta e só pensava em si próprio; se divertia pensando nas mulheres que conseguia ludibriar.

Quando procurava Elvira era para mostrar que era macho, mesmo que não conseguisse satisfazê-la a contento, deixando-a insatisfeita.

O cotidiano de ambos tinha um afastamento emocional e físico, que poderia ter sido evitado se tivesse havido entre eles uma conversa séria, um “papo reto”, como diz a moçada hoje em dia.

Dizem os estudiosos que “A distância emocional pode surgir de forma silenciosa e afastar pessoas que ainda estão fisicamente próximas”. Pesquisa no site “Quando o Silêncio Afasta: Como Reduzir a Distância Emocional aos Poucos

O resultado dessa insatisfação pessoal e a busca por novas experiências, ou simplesmente o desgaste natural da relação foi inevitável. Não podia ser diferente.

Eles precisavam de diálogo e esforço para ser reconstruída a intimidade ou, em último caso, o rompimento de vez, que veio acontecer.

Quando se juntaram, Elvira e Marcondes foram morar na Rua da Cachoeira, em União dos Palmares. Depois de dois anos morando juntos, compraram uma pequena casa, no começo da Rua da Ponte.

Tiveram a ajuda dos pais de Elvira, que não viam a escolha da filha com satisfação, mas resolveram ajudar. Era sua filha amada e ela poderia resolver seus problemas.

O relacionamento de Elvira e Marcondes nessa época ainda tinha atração e desejo. E quando a filha Elvira Liliane nasceu, mudaram para a Rua Correia de Oliveira, no centro da cidade.

Os dias foram passando; Marcondes evitava conversas mais sérias com Elvira. Com duas filhas e um filho, a crise no relacionamento aconteceu. Em. uma de suas obras Machado de Assis aborda o tema.

Marcondes estava ausente ou não queria ter discussões constantes com Elvira, na esperança de que a parceira tomasse a iniciativa de terminar o relacionamento, segundo dizia aos amigos. 

Elvira era uma mulher culta e cheia de projetos: não percebia as intenções do marido, embora o percebesse diferente.

Ela era uma preta de olhos azuis, corpo dourado, tinha uma beleza estonteante; chamava atenção por onde passava, mas não dava guarida as investidas daqueles homens atrevidos.

A filha mais nova Dandara Luísa tinha a aparência física e intelectual da mãe, bem como Elvira Liliane, a filha do meio. Ambas muito amadas pelos pais.

Elvira herdou da mãe o gosto pelo ensino e era apaixonada pela profissão que escolheu: o magistério. Lecionava na Escola Jorge de Lima, na Rua Tavares Bastos.

Gostava do que fazia, incentivava as crianças a se engajarem nos projetos da escola. O dia da Consciência Negra, Zumbi e o poeta Jorge de Lima, além da libertária jornalista emponderada Maria Mariá e outros personagens da cultura local, eram pautas preferidas e presentes em suas aulas.

Elvira se mostrava desentendida sobre os boatos que corriam na cidade sobre o marido. Ao contrário disso, acreditava ter encontrado um homem simples, leal, companheiro, mas se enganara com o caráter do companheiro.

Marcondes vivia sendo apanhado em controvérsias. Ele começou a trabalhar aos 15 anos, desenvolvendo programas e informatizando algumas empresas de União dos Palmares. 

Casou aos 23 anos; seus pais eram divorciados e Marcondes não se dava bem com eles, principalmente com a mãe.

Eles faleceram anos depois de seu casamento e ele se embruteceu. A mãe, dona Judite, tinha muito ciúme das mulheres que se aproximavam de Marcondes, apesar de ter cinco mulheres e outro filho.  

Anacleto, pai de Marcondes, tinha mais dois filhos do primeiro casamento, que saíram de casa quando Anacleto casou novamente.

Elvira e Marcondes além do filho mais velho, Marcondes Filho, tinham duas meninas: a mais velha Elvira Liliane, já com 19 anos, inscreveu-se no Enem para Comunicação Social e Dandara Luísa, a mais nova, com 17, para Psicologia.

Num encontro de amigos, nas farras que frequentavam, Elvira escutou o marido conversando com companheiros de orgias na maior algazarra.

Ele disse que não conseguia ser fiel à esposa e que se relacionava com outras mulheres e se surgissem outras oportunidades com homens, ele dava conta. Se achava um garanhão.

’’O fato de existir traição em relacionamentos não é surpresa para ninguém”, observa. Na literatura mundial, bem como no cinema, há muitas histórias sobre adultério observa o psicólogo Carlos André, na interne

Toda pessoa espera, ao iniciar um relacionamento, que o parceiro ou parceira seja fiel. “E é muito doloroso quando se descobre com uma traição”, pontua. Internautas dizem como descobriram a infidelidade de seus parceiros.

Elvira ouviu a confissão que para ela era dolorosa e perturbadora, o que a levou a um turbilhão de emoções, incluindo choque, raiva e mágoa profunda do marido por ter omitido aquelas informações.

Naquele dia, percebeu o erro que tinha cometido, apesar dos avisos de sua mãe e do pai, mas não deu a entender que tinha escutado aquele comentário machista e sem noção.

Romântica, ela se impressionava com tanta falta de sensibilidade de Marcondes, mas não comentava sobre isso com ele. Estava decepcionada.

Tinha receio de humilhar seu homem. Apesar de tudo, era seu companheiro, pensava no pai dos seus filhos e vindo de família humilde, o que a intimidava a tomar alguma atitude.

Elvira não dava palpites nas escolhas das filhas, mesmo que as vezes discordasse delas. Sentia orgulho das cidadãs que se tornaram.

As meninas aprenderam na faculdade e na vida, que direitos humanos devia ser obrigação de cada pessoa.

Elas procuravam Elvira para conversar sobre as dúvidas do cotidiano e informavam para ela a respeito do que sabiam sobre o pai,  nas conversas com colegas da cidade. Se revoltavam e se preocupavam com a atitude passiva de Elvira.

A mãe dissimulava a vergonha que tinha de falar sobre esses assuntos com as meninas, e ficava calada, mudando de assunto, para não confirmar o disse-me-disse das pessoas.

Marcondes Filho se espelhava no pai em narrativas machistas e preconceituosas e apesar da sua inteligência, seguia os exemplos do pai como a insensatez.  

Fez o curso técnico de Ciências da Computação, em Maceió, no Ifal - Instituto Federal, antiga Escola Técnica Federal, assim como Marcondes pai, que optou por cursar eletrônica.

Marcondes Filho herdou todas as características do pai, tanto físicas quanto no jeito de ser. Sabia dos tropeços dele, mas da mesma forma que ele, era conservador e tinha pensamentos que não evoluíam com os anos passados.

Estava sempre se relacionando com mulheres e homens diferentes, mas não aceitava sua bissexualidade. Isso gerava muitos conflitos interiores.

Bissexuais enfrentam estereótipos e invalidação em relacionamentos amorosos. A sociedade discrimina ainda hoje.

“Dentro e fora da comunidade LGBTQIA+, bissexuais sofrem com os estereótipos e a invalidação de sua sexualidade” e Marcondes filho tinha receio de se assumir.

Faltava autoconhecimento e a aceitação, fundamentais para o bem-estar emocional que ele precisava.

sábado, 11 de julho de 2026

O nascimento de Amaralinda

 

Olívia de Cássia Correia de Cerqueira



Num ambiente rústico e carente, com escassez de recursos viveram Salomão Celestino e Carmem Celestino, no interior de União dos Palmares, Alagoas, no Nordeste do Brasil, na década de 1930 do século XX. Eles já tinham dez filhos, a maioria de mulheres.

Carmem estava grávida e teve complicações na gravidez: estava de nove meses e o casal solicitou formalmente ao dono da fazenda, sr. Israel dos Santos e sua esposa Guilhermina, para serem padrinhos da criança.

Sentindo as dores do parto no meio do mato, Carmem avisou a Salomão que era chegada a hora de o bebê vir ao mundo.

Aflito com a situação, Salomão correu para chamar dona   Zefa, a parteira da região, alguém com experiência em partos domiciliares e tradição na assistência ao nascimento, no ambiente rural do século passado, e se dirigiram para o rancho onde viviam precariamente.

Assim que pariu, Carmem faleceu: não resistiu às dificuldades do parto feito sem recursos. Salomão chamou a menina de Amaralinda, atendendo a um desejo da esposa, que dizia, se a criança fosse mulher daria esse nome e se fosse um cabra macho seria Amaro.

Com dificuldade para criar os filhos e tendo os padrinhos e donos da fazenda insistido para criarem a menina, Salomão cedeu Amaralinda para os padrinhos, objetivando que a menina vivesse com mais conforto, prática comum naquele tempo.

Os fazendeiros já tinham seis filhos: dois homens e quatro mulheres, que ficaram enciumados com a nova irmã e passaram a hostilizá-la.

“Isso mostra como a transferência de uma criança para outra família, mesmo com boas intenções, pode provocar tensões nas relações já existentes,” analisam especialistas.

Com o passar do tempo, a menina passou a ser tratada como se fosse escrava da fazenda. Num sol escaldante do Nordeste, saía capoeira afora, com trouxas de roupas na cabeça ou bacia de louça para serem higienizados no riacho, fosse dia ou noite.

Amaralinda cuidava das tarefas domésticas, alimentava porcos e galinhas e bezerros enjeitados pelas vacas e mesmo assim apanhava bastante de Guilhermina e dos filhos do casal, sem que nenhum deles tivesse compaixão, ou qualquer sentimento fraternal ou humanitário.

Amaralinda não tinha instrução escolar, a não ser as primeiras letras, que aprendeu com a professora da escolinha existente no local, escondida dos proprietários da fazenda e dos outros filhos.

Era Exploração infantil, trabalho extenuante e ausência de escolaridade em um contexto rural no Nordeste do Brasil, onde o trabalho doméstico e agrícola era intenso e muitas vezes acompanhado de punição física, especialmente antes de políticas de proteção infantil mais efetivas.

José Vaqueiro trabalhava próximo à fazenda de Israel e percebeu os maus tratos que Amaralinda sofria. Observando-a de longe, encantou-se pela cabrocha, que foi crescendo com toda mágoa dos pais adotivos e irmãos adotivos.

Os maus tratos para com a menina continuavam e Israel vigiava para ela não falar com José Vaqueiro, pois o namoro continuava proibido e Amaralinda apanhava daqueles que o pai biológico, Salomão, julgava que melhoraria sua vida.

Na obra Vidas Secas, o escritor Graciliano Ramos aborda conflitos interpessoais dos personagens, que vivem uma existência marcada por limitações expressivas, com uma linguagem que indica a opressão vivida tanto pelos adultos quanto pelas crianças.

Guilhermina aproveitou a oportunidade para espancar ainda mais a moça, com cascudos e pancadas; como se não quisesse se desfazer da “faz tudo” da casa.

Descarregou toda a sua raiva, de uma forma que José saiu de perto para não piorar a situação da amada. O sol ia baixando, e nuvens pesadas anunciavam muita chuva. E choveu cântaros naquele dia, parecendo que não parava mais.

 

 

 

 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Não acredito

 

Olívia de Cássia Cerqueira



Nem acredito que cheguei aos 66 anos, na tal da terceira idade. E quando estou assim, um tanto quanto nostálgica, a saudade de mamãe aumenta e de papai também.

Me transporto para a infância e a adolescência, tempo em que vivia em União dos Palmares.

Me veem as lembranças dos cuidados de mamãe quando eu tinha algum problema de saúde: fazendo chás, beberagens, comidas saudáveis e o que eu podia comer.

Passados os anos e depois que chegou o tempo da aposentadoria, me pego refletindo muito mais que antes.

Dizem os estudiosos, que a aposentadoria é um momento natural para a gente olhar para trás e refletir sobre as experiências vividas e as mudanças que moldaram a vida.

Aos poucos vamos mudando de fisionomia. Isso é péssimo. Olho-me no espelho e busco a menina que fui e não me reconheço. As rugas chegaram, as cicatrizes estão em toda parte do corpo.

As prioridades mudam. Ainda bem que tenho memórias e espero que não se percam, até chegar o momento de eu ir embora desse plano.

Aos poucos vou me adaptando a cada fase que chega. Ontem, 5 de fevereiro de 2026, inaugurei a cadeira de rodas. Não estranhei, pois tenho consciência dos sintomas que a Ataxia é capaz de trazer, das limitações que implicam.

A sensação não sei descrever. Ora de riso, ora de preocupação e estranhamento. Ou vontade de gritar, e gritar muito.

Não me desfiz de muitos defeitos, como dizer “não” e me envergonho disso, mas não posso reclamar de nada; só lamento não ter aproveitado mais, como fala a música Epitáfio, dos Titãs.

Tem dias que a gente acorda com um aperto no peito, como se o mundo tivesse pesando nos ombros.

Nessas horas, preciso respirar fundo, contar até dez, fazer o exercício de treinamento com o cérebro para ativar a paciência e a persistência; não desistir nunca e seguir em frente. (Cheiro de Memórias - 2021)

Eu tenho isso de vez em quando: parece um mantra, uma sensibilidade que ainda não entendi, quando algo está para acontecer ou já aconteceu.  E me vem aquela sensação imensa de querer conhecer o mundo que eu não conheci, de dizer que eu existo *. * Idem

A mídia anuncia o carnaval. Para mim ficaram só as lembranças dos momentos vividos em União dos Palmares. Dos bailes na Palmarina, do frevo na praça Basiliano Sarmento, do mela-mela e dos homens, a maioria da Rua da Ponte, vestidos com roupas de mulher e brincando na rua. Sem medo de ser feliz.

No princípio, papai não queria deixar que entrássemos na folia de Momo e fechava as portas de casa, para nos preservar. Eu nunca entendi e procurei explicar a visão dele, isso depois de mais velha, pela falta de conhecimento, ou por questão religiosa.

Já em Maceió, minhas incursões em blocos como Os meninos da Albânia, Filhos da pauta, ou no antigo Maceió Fest e outras brincadeiras por aqui. 

terça-feira, 7 de julho de 2026

Entre tombos e quedas


 Olívia de Cássia Cerqueira 


 

Ouço o apito do navio, no Porto de Maceió, anunciando a partida ou chegada de algum Cruzeiro. Imagino que eles estão trazendo ou levando turistas que vieram conhecer as belezas da nossa terrinha.

O aroma do café recém coado invade a casa com um aroma inconfundível. A ameaça de chuva passou, o sol ficou encoberto; faz muito calor em Maceió.

Apesar do tempo, veio alguma leveza e também muita criatividade nos movimentos. Se não posso caminhar na rua, caminho dentro de casa, auxiliada pela cadeira de rodas.

Minhas crises alérgicas aumentam com a mudança do tempo. Vão e voltam. Tem dias que é mais difícil respirar, mas a gente supera.

Os males da velhice e da Ataxia vão se acentuando com o passar do tempo, devido as quedas e a idade. Sou uma mulher com dores. Dores ciáticas e o enrijecimento das pernas aumentaram, atrapalhando a coordenação e o caminhar.

Não tenho medo da morte, eu tenho medo é de um ficar dependendo de terceiros, entrevada, e não mais poder ser eu mesma. Minha coluna já aponta sinal de desgastes, está torta.

O meu deslocamento quando consigo levantar, lembra o das bruxas retratadas no cinema e nas histórias infantis. Depender dos outros para as tarefas mais corriqueiras, simples e pessoais é a pior coisa na vida.

A gente se sente pequena, sem chances, com vergonha, sem metas e sem chão. Numa pesquisa rápida na internet, estima-se, no geral, que a taxa de ocorrência de pessoas com Ataxia Cerebelar Hereditária Dominante é 2,7/100.000. 

Avalia-se que haja pelo menos 2.000 pessoas portadoras desse problema no Brasil, segundo a Associação Brasileira de Ataxias Hereditárias e Adquiridas, na internet. Avalio que pode ser muito mais se levarmos em conta os casos não notificados. 

Pelo menos na minha família, quando comecei a fazer um levantamento para publicar meu primeiro livro, já tinham sido acometidos mais de 80 familiares, entre primos e tios.

De lá para cá, não pesquisei mais, mas foram muitos os acometidos, inclusive outro irmão, um sobrinho e tantos parentes.

Também conhecida como doença rara ou DMJ-Doença de Machado-Joseph, os primeiros sintomas da Ataxia aparecem geralmente na vida adulta, perto dos 40 anos. Aos poucos, o paciente perde a coordenação dos movimentos, começa a andar cambaleando e a falando com dificuldade.  

Com o tempo, as quedas se tornam frequentes e sou testemunha disso. Tenho caído muito e me ferido levemente, sem quebrar nenhum osso, mas a coluna e as pernas estão avariadas, devido a essas quedas.

E, finalmente, o destino cruel dos doentes é ficar limitados à cadeira de rodas. Imploro todos os dias ao Criador e anjos de luz, para não chegar ao estágio derradeiro que é o atrofiamento dos membros.

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domingo, 28 de junho de 2026

Jornalista Olívia de Cássia lança seu sexto livro “Entre tombos e quedas – Reflexões”

A jornalista Olívia de Cássia Cerqueira lança “Entre tombos e quedas – Reflexões”, seu sexto livro, no dia 15mde agosto. Portadora de Ataxia cerebelar ela afirma que quer aproveitar o tempo que ainda dispõe para publicar tudo o que tem escrito, depois que o pensamento da finitude se acentuou.

“Olívia é dessas escritoras que nos permitem mergulhar na sua obra. Viajar com ela em suas lembranças. Sentir o cuidado de Dona Antônia, sua mãe, em nossa pele. É fácil ler e se emocionar em cada texto escrito por essa jornalista que dita palavras com a alma, que joga seu coração como referência de sentimentos. É um mar de poesia, mesmo quando ela fala de dor, de decepção e de medo”, observa Eliane Aquino, amiga de infância e apresentadora da obra.

“Quero deixar registrado para sobrinhos, sobrinhas e sobrinhos-netos anotações e lembranças do meu tempo de vida nesse plano. Meu desejo era construir pontes, caminhos que me levassem a realizar o melhor de mim. Não queria passar por essa vida sem deixar coisas boas e positivas, pensava eu’”, diz a autora.   

‘” Mesmo quando se insurge como resistência. E é aí que a escritora nos ensina o significado real da superação”, pontua a jornalista Eliane Aquino. O livro será lançado no Condomínio Vieira Perdigão, na garagem da moradora Sônia, na Vieira Perdigão, no Centro de Maceió, para facilitar a locomoção de Olívia.

 

 

 

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Capítulo primeiro

Olivia de Cássia C de Cerqueira

Jornalista aposentada


 

Terminei de escrever o sétimo livro e senti um vazio dentro de mim, embora não tenha publicado nem o sexto livro, que está na revisão final.

Escrevo por uma necessidade visceral. Necessito colocar na lauda o que vai dentro de mim, para não descontar em alguém assuntos que pouco interessam.

Falo desse sentimento, muitas vezes comigo mesma ou com a psicóloga, mas muitas vezes tem algum impedimento na agenda que me impedem de ir. Não consigo explicar realmente o que seja.

O passarinho, que vem me visitar todo dia, ainda não veio e sinto sua falta. Converso como se estivesse conversando com gente, ou com meus cinco gatos e três Pinscher barulhentos quando escutam algum barulho, pequeno que seja.

Algumas pessoas próximas não entendem meu habito de escrever, publicar livros e tê-los em casa, ou até pelo hábito de ler regularmente, bem antes de estar na cadeira de rodas, que me limitam os movimentos e a maioria dos hábitos costumeiros.

 “Me sinto privilegiada por saber ler e escrever e poder me  expressar por meio de algo tão sofisticado como a linguagem escrita expressar por meio de algo tão sofisticado como a linguagem escrita”,  segundo a colunista   Daiana Mota em seu blog Como a Escrita em Diários Pode Transformar sua Vida: Reflexões, Técnicas e Legado

Em pensamento, vou  fazendo um tour pela cidade natal, lembrando de cada aventura, de cada rua, de cada momento vivido, cada amigo, com suas peculiaridades.  

Alguns migraram para outros estados ou para outra cidade apenas, buscando sobreviver ou por querência.  

Além de mim para a capital rememoro  alguns que fizeram medicina e vivem muito bem, outros e outras não tiveram a mesma sorte, ou já estão em outro plano.

Vou falar de Celine (nome fictício), que se preocupava comigo, quando comecei a dar os primeiros tombos e andar cambaleante  que quando precisasse ia morar comigo. Não teve tempo e foi pra outro  plano .

Eu procurava disfarçar a Ataxia andando com a máquina fotográfica para todo lugar, até que ficou difícil andar com ela. Registrei cada prédio  histórico de União dos Palmares, aumentando meu acervo. Sinto saudade, mas meu lugar é  aqui.

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Saudade

 Saudade,

Oliva de Cássia Correia de Cerqueira 

Palavra que só  existe

No dicionário de português 

Saudade é palavra triste, 

sinônimo de nostalgia.

Saudade de um tempo

Que nos lembra poesia,

O luar, o mar. 

Calmo ou revolto.

Nesse vazio que me preenche. 

Saudade de momentos bons,

Do que estar por vir.

Saudade é afirmação




 

Elvira e Marcondes

O lívia de Cássia Corria de Cerqueira   É verão em Alagoas, nordeste do Brasil. Ainda é tempo de flores e de esperança. A manhã de dezembro ...