Olívia de Cássia Cerqueira
Nem acredito que cheguei aos 66 anos, na tal da terceira idade. E quando estou assim, um tanto quanto nostálgica, a saudade de mamãe aumenta e de papai também.
Me
transporto para a infância e a adolescência, tempo em que vivia em União dos
Palmares.
Me veem as
lembranças dos cuidados de mamãe quando eu tinha algum problema de saúde: fazendo
chás, beberagens, comidas saudáveis e o que eu podia comer.
Passados os
anos e depois que chegou o tempo da aposentadoria, me pego refletindo muito
mais que antes.
Dizem os estudiosos,
que a aposentadoria é um momento natural para a gente olhar para trás e
refletir sobre as experiências vividas e as mudanças que moldaram a vida.
Aos poucos
vamos mudando de fisionomia. Isso é péssimo. Olho-me no espelho e busco a menina
que fui e não me reconheço. As rugas chegaram, as cicatrizes estão em toda
parte do corpo.
As
prioridades mudam. Ainda bem que tenho memórias e espero que não se percam, até
chegar o momento de eu ir embora desse plano.
Aos poucos
vou me adaptando a cada fase que chega. Ontem, 5 de fevereiro de 2026,
inaugurei a cadeira de rodas. Não estranhei, pois tenho consciência dos
sintomas que a Ataxia é capaz de trazer, das limitações que implicam.
A sensação
não sei descrever. Ora de riso, ora de preocupação e estranhamento. Ou vontade
de gritar, e gritar muito.
Não me
desfiz de muitos defeitos, como dizer “não” e me envergonho disso, mas não
posso reclamar de nada; só lamento não ter aproveitado mais, como fala a música
Epitáfio, dos Titãs.
Tem dias
que a gente acorda com um aperto no peito, como se o mundo tivesse pesando nos
ombros.
Nessas
horas, preciso respirar fundo, contar até dez, fazer o exercício de treinamento
com o cérebro para ativar a paciência e a persistência; não desistir nunca e
seguir em frente. (Cheiro de
Memórias - 2021)
Eu tenho
isso de vez em quando: parece um mantra, uma sensibilidade que ainda não
entendi, quando algo está para acontecer ou já aconteceu. E me vem aquela sensação imensa de querer
conhecer o mundo que eu não conheci, de dizer que eu existo *. * Idem
A mídia
anuncia o carnaval. Para mim ficaram só as lembranças dos momentos vividos em
União dos Palmares. Dos bailes na Palmarina, do frevo na praça Basiliano
Sarmento, do mela-mela e dos homens, a maioria da Rua da Ponte, vestidos com
roupas de mulher e brincando na rua. Sem medo de ser feliz.
No
princípio, papai não queria deixar que entrássemos na folia de Momo e fechava
as portas de casa, para nos preservar. Eu nunca entendi e procurei explicar a
visão dele, isso depois de mais velha, pela falta de conhecimento, ou por
questão religiosa.




