sábado, 5 de setembro de 2026

Experiência de quase morte


 Por Olívia de Cassia Cerqueira



A experiência de quase morte para os transplantados, rendeu uma página da editoria de Cidades, especial para domingo na Tribuna Independente. O material seria para duas páginas, mas entrou anuncio e se resumiu a uma página apenas.

“As experiências de quase morte (EQMs) referem-se a fenômenos relatados por indivíduos que passaram por situações críticas, como parada cardíaca ou acidentes graves. Essas experiências podem incluir sensações de paz, visões de luz intensa e a sensação de flutuar fora do corpo”.

Na primeira entrevista, Saulo de Tarso, nome fictício, por solicitação do entrevistado, um médico alagoano cardiologista, que passou por uma experiência de EQM, falou à reportagem da Tribuna Independente sobre o fato, pelo Facebook.

“Eu tive uma linda visão quando tive o segundo infarto do miocárdio e estava anestesiado e depois vim saber que passei por maus momentos”, pontuou.

O médico contou que se desligou da sala quando estava passando muito mal.  “Vi luzes de todas as cores e em plena consciência de que algo difícil estava me acontecendo, via todo mundo na sala e me via também, pálido”, explicou.

Ele disse que olhava para os monitores cardíacos e gritava para o anestesista: “faz isso, faz aquilo e ninguém me ouvia, aí senti um sono profundo e uma mulher muito alta me disse: durma, teu mal foi embora”, destacou.

Depois de anos passados, ele faleceu, quando estava clinicando em Arapiraca. Era também escritor. Eu soube do falecimento há pouco tempo. Fiquei triste, que sua passagem tenha sido de paz e luz como desejou.

O médico Dr. Raymond Moody foi um dos primeiros a popularizar o termo EQM, apresentando uma série de casos em seu livro "Life After Life".

Desde então, vários estudos foram realizados para entender as características comuns dessas experiências e sua relação com o contexto cultural e psicológico dos indivíduos que as vivenciam.

Embora algumas EQMs ocorram em situações de 'quase morte', outras podem ser relatadas em estados de trauma intenso ou durante experiências extracorpóreas consideradas benignas, observa a pesquisa.



Seu Aldemar Jambo tinha 73 anos quando o entrevistei. Residente na Praia do Francês, disse que teve várias experiências que comprovam a existência de vida após a morte; mas observou que é difícil falar dessas experiências, porque as pessoas não acreditam.

Ele afirmou que não tinha religião. “Não frequento nenhuma, mas acredito em Deus e aí não preciso de religião. Até agora não vi necessidade”, ressaltou.  

Disse que teve dois enfartes e um edema pulmonar.  “Fui para a Santa Casa dirigindo e passando mal, com braço ardendo; cheguei lá bem ruim e fui logo atendido, eles me levaram para a UTI, fizeram o procedimento devido e todo o tratamento”, observou.

Seu Aldemar observou ou que foi atendido por todos os médicos da Santa Casa e eles tiveram que fazer uma cirurgia às pressas: abriram-lhe o peito.

“A parte que lembro é que eu estava numa maca, me senti flutuando e passei a viver deitado: eu saía passando pelas paredes da Santa Casa e percorri o hospital quase todo; tinha muito sangue, muitas coisas e mal-estar”, descreve.

Explicou ainda que nessa experiência, seu corpo foi seguindo, em direção a um local como se fosse uma caverna muito escura.

“Entrei nessa caverna e vi mutilações, coisas horrorosas, e fui passando; vi pessoas em sofrimento, mas eu não senti medo. Senti uma sensação muito gostosa e aí fui colocado em cima de uma pedra: depois que estava nessa pedra foi que vi uma luz vindo em minha direção, até que eu ouvi me chamarem”, destacou.

Segundo ele, os médicos estavam revitalizando-o. “Acordei assustado, mas a sensação na hora da luz era agradável.  Aí retornei já havia diversos médicos em volta, chamaram minha família e me recuperei aos poucos”, disse ele.

Ainda entrevistei outro cardiologista, presidente de uma entidade que cuida de crianças carentes, esse espirita, mas entrou um anúncio e a entrevistas que tinha a visão dele foi cortada.

Outra entrevistada para essa reportagem foi a psicóloga Cláudia de Bulhões. Ela considerou que existe vida após a morte e que a reencarnação é uma delas, asseverou.

“Não se pode dissociar mente de espírito; isso pode se comprovar pela evidência (dos fatos). Nós podemos transitar pelo tempo através da memória”, observou.

Cláudia de Bulhões foi aluna de Brian Leslie Weiss, psiquiatra e escritor norte-americano, pesquisador sobre o tema. Suas pesquisas incluem os temas reencarnação, terapia de vidas passadas e sobrevivência do ser humano após a morte.

Uma edição do Globo Repórter, disponibilizada na internet, com o título “A experiência de quase-morte”, diz que as visões de quem esteve à beira da morte são impressionantes e traz dois personagens que descrevem uma experiência parecida com a de Aldemar Jambo. 

Médicos que trabalham em UTIs ouvem histórias ricas em detalhes. Relatos de pessoas que não admitem a possibilidade de terem tido alucinações. "Elas falam que isso foi a coisa mais real que já viveram na vida. E é isso que diferencia de uma experiência conduzida por uso de drogas, seja abusivo ou terapêutico", ressalta.

Não sei explicar se acredito em espiritismo. Sou católica por tradição, sem mais frequentar a igreja. O espiritismo é uma discussão profunda.

Tive visões que não sei se eram reais, na fase adulta, quando tive depressão e usava remédios tarja preta, receitados pela psiquiatra. Em estado de depressão, vi uma mulher vítima de feminicídio, em União. O termo ainda não era usado.

Ela foi assassinada pelo marido, perante as duas filhas e o pai dela quando abriu a porta e viu a cena, teve ataque fulminante e morreu.

Nessa mesma época também vi minha mãe me espreitando, como se tivesse vindo conferir meu estado de saúde. Aprendi que nossa mente é um mistério e capaz de criar situações diversas.


segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O passarinho

 Capítulo 2, de "Para não esquecer...


Olívia de Cássia Cerqueira

Um passarinho bem-te-vi vem me visitar todo dia. Chamei-o de Augustinho. Dias depois lembrei que namorei um rapaz de Murici, de nome Augusto. Foi um namoro tão rápido que não me lembrava mais. Faz tanto tempo!

Terminei o namoro com medo da reação de mamãe. Eu não sabia nada de como me comportar tecnicamente no namoro. O rapaz era preto e era lindo. Ele era de Boca da Mata, mas morava em Murici e trabalhava no hospital, do município.

O irmão dele era preto de olhos verdes, estudava na minha sala, no saudoso Santa Maria Madalena. Namorou uma grande amiga minha. Eu lembrava do que mamãe me dizia; ela era muito controladora. Tudo tinha que ser do jeito dela, cuidadosa que ela era, com minha “honra”.

Sempre muito receosa e preocupada para eu não me envolvesse com pessoas da cor preta, nem com quem ela não queria e também com os comunistas que tanto temia.  Mamãe tinha o ranço da burguesia colonial das famílias remediadas daquela época do final dos anos 1970.  

O país vivia uma ditadura militar. Tudo o que acontecia de ruim na sociedade, a sociedade burguesa dizia que era culpa dos comunistas.

Eu não ligava ´para aquelas narrativas porque achava exagero delas e nem entendia do tema, ainda muito jovem. Meus pais  acreditavam em quem estava no poder da nação, na conversa fiada que repetiam a ideia, sem pestanejar.

Me perguntei, por onde andará Augusto e o que foi feito daquele menino lindo? Estará vivo, casado, tem filhos? Eu era uma menina começando a conhecer o mundo, com suas ideias e particularidades. Ele deve ter me imaginado muito estranha ou doida.

De vez em quando um rapaz que tinha uma banca na feira em União dos Palmares, me informava que ele perguntava sempre por mim, quando o rapaz ia para a feira, em Murici, trabalhar. Aprendi a beijar com Augusto.

Mas não foi por isso que chamei o passarinho visitante de Augustinho: foi involuntário. Agora veio outro bem-te-vi, que imediatamente chamei de Josué, mas não sei distinguir quem é quem.  

Acabo chamando os dois pelo mesmo nome. Olho para qualquer animal e dou um nome que pareça com ele. As lagartixas que os gatos trazem para dentro de casa são todas chamadas de Dorinha, por conta de uma música, que de vez em quando me pego cantando.

Só tenho repugnância de baratas e medo de ratos. Perdi o medo dos saruês ou cassacos, depois que li que o alimento principal deles são ratos, escorpiões e baratas, embora eles venham comer a ração que coloco para gatos de rua, na porta de casa.

Fiz algumas fotos de Augustinho com o celular, antes do Josué aparecer. Converso com os animais como se estivesse conversando com gente, ou com meus cinco gatos e três Pinscher barulhentos, que ficaram enciumados com a chegada do passarinho.

Sou um ser estranho. Ainda menina adorava observar e brincar com as formigas, no degrau da casa de vovó. Me punha a observar o movimento delas, enquanto meus avós Olivia Siqueira e vovô Manoel Paes, estavam na calçada, da Rua da Ponte, colocando o assunto em dia, ou observando quem passasse por lá.

Já na Tavares Bastos tinha no quarto, tapeçarias que eu fazia; pinturas, - que pareciam trabalhos de criança -, uma mistura psicodélica de objetos que falavam como eu era e uma coleção de mariposas que capturava na porta de casa à noite, com meu irmão Paulinho. (Mosaicos do Tempo- 2018)

Esses objetos faziam parte de uma decoração eclética que ia de discos velhos de vinil, a placas velhas de carro, fotos, poesias e chaveiros, entre outros objetos que eu via como tesouros. * Idem

Ali era meu mundo. Atualmente, me coloco diante dos livros na estante e imagino como seria bom se eu pudesse adquirir todo o conhecimento que eles carregam. Diante deles faço reverência. Meus livros (esses sim) são meus tesouros.

Já tive muitos, mas alguns que foram para doação, em União dos Palmares, foram extraviados e não chegaram ao destino. As edições que tenho agora, quando eu virar estrela se as herdeiras não quiserem, vão para a biblioteca municipal da Terra da Liberdade, meu chão.

Já comuniquei isso para Eliane, mãe da minha sobrinha Mikiane, avó das minhas sobrinhas-netas Milena e Larissa, minhas “herdeiras”, já que os demais não se interessam por livros e leituras. Mas amo a todas e todos. Pois cada um tem sua realidade.

Bem antes de estar na cadeira de rodas, costumava ler regularmente, pelos motivos diversos e agora muito mais e não com a velocidade de antes.  Quando eu não puder mais ler e escrever, está na hora de partir.

Me sinto privilegiada por saber ler e escrever, agora só no computador, e poder me expressar por meio de algo tão sofisticado como a linguagem escrita, como escreveu a colunista Daiana Mota no texto “Como a Escrita em Diários Pode Transformar sua Vida: Reflexões, Técnicas e Legado”, em seu blog.

domingo, 30 de agosto de 2026

Tenho em mim


 Olivia de Cassia Correia de Cerqueira


Parafraseando o poeta Fernando Pessoa, “tenho em mim todos os sonhos do mundo”. E diante de uma esfera tão complexa e cruel para alguns, posso dizer que, apesar de tudo, procuro ser feliz.

Apesar dos xingamentos que faço quando caio, tenho uma contrariedade na minha condição, que outras pessoas passam por situações piores que a minha. E isso não é conformismo: é constatação.

Procuro seguir em frente, mesmo tendo a certeza de que não tenho muito tempo para sonhar, para idealizar situações que sempre corri atrás para conseguir.

Alexsandra Leite, no site Desenvolvendo Potenciais, pontuou que muitas pessoas desistem dos seus sonhos, pois acreditam que não são capazes de realizá-los, e seguem a vida com aquele vazio ou frustração.

Outras, segundo a articulista, continuam apenas sonhando. E tem alguns que conseguem realizar os seus sonhos.

Posso dizer que realizei alguns, como cursar a faculdade que quis, mesmo indo de encontro a minha saudosa mãe, que a princípio queria uma filha médica, advogada, ou outra profissão, menos a de jornalista.

Na minha adolescência, perseguíamos o ideal de independência e achávamos que teríamos um pouco de liberdade.

Hoje em dia se dá o contrário; os jovens não querem mais sair da casa de seus pais. Talvez porque não tenham motivo, pois têm toda a regalia e toda a liberdade do mundo. E isso é uma realidade dos dias atuais. E fazem muito bem.

Não era para ser assim


 Olívia de Cássia Cerqueira


Não era para ser assim, não foi dessa forma que a adolescente que fui desejou. Queria ter sido uma excelente profissional, uma pessoa melhor e uma escritora de bons textos: simples assim.

Mas as limitações foram chegando no corpo. Fui ficando mais atrapalhada, descoordenada, mais lenta. Há dias em que não consigo escrever uma linha sequer, nem manualmente, como fazia antigamente, antes de passar para o computador, e achava que as palavras fluíam com mais facilidade.

Isso me deixa em uma desarmonia comigo. Digito agora “catando milho”, coisa que antigamente fazia com as duas mãos e com rapidez. Fui digitadora na gráfica do Sindicato dos Bancários de Alagoas, além de trabalhar na assessoria de imprensa. Sou de uma época em que tínhamos que aprender datilografia.

Quando “menina-moça”, andava com um caderno e uma caneta. Achava que o que colocava ali era poesia. O tempo passou, fui para a faculdade e percebi que tudo era diferente. Aprendi que o mundo era estranho e que nada seria da maneira que pensei.

Queria fazer viagens, conhecer o mundo, escrever por prazer. Literatura requer tempo e paciência para se pensar, solidão e boas leituras. Mas o que escrevo não é isso. Bem sei.

Há gente que não entende minhas angústias e minha forma de refletir sobre o mundo e suas especificidades. Dá vontade de responder à altura, mas não vale a pena. Cada um é de um jeito.

Quando tenho alguma contrariedade, como levar quedas, alguma emoção ou alguma raiva, fico fora do eixo. As pernas querem travar. Também não posso estar muito tempo sentada ou em pé.

‘’Questões que já passaram pela minha mente, prestes a embarcar em uma jornada de reflexões profundas e intrigantes sobre a angústia existencial”, pontuam cientistas. Então continuo lendo, escrevendo e procurando descobrir respostas que talvez nem saiba o que procuro. 

Prefácio

Carlito Lima (*)



O jornalismo alagoano de nossa geração, ou seja, dos séculos XX e XXI, foi pródigo em seus profissionais. Posso dizer, sem receio, que foi a era de ouro do jornalismo. Na época dos jornais impressos, as redações viviam abarrotadas de homens e mulheres eficientes, jornalistas enchendo as páginas de notícias, comentários, criando magias com as informações, identificando sentimentos com as palavras. Dava gosto pegar o jornal cedinho em casa, tomando café e se deliciando com as notícias bem escritas, bem contadas. Isso graças ao time primoroso que havia em todas as redações.

E uma dessas jornalistas é, sem dúvida, Olívia Cerqueira. Certa vez, ela escreveu uma reportagem sobre o fim do carnaval de rua de Maceió. Aquela reportagem deu coragem e ânimo a um grupo de gente animada, que resolveu reativar o carnaval em seus próprios dias. Hoje, o carnaval de rua de nossa cidade ainda está incipiente. Porém, de apenas um bloco que desfilou após a reportagem de Olívia, em 2016, estamos com a previsão de 18 blocos desfilando em 2025, nos dias de carnaval, graças a essa reportagem. O carnaval é a maior manifestação popular espontânea do povo brasileiro.

Olívia resolveu escrever livros contando parte de sua história. São depoimentos verdadeiros, que serão fonte de consultas para historiadores e pesquisadores dos costumes de nossa época em Alagoas.

Agora, Olívia lança seu quarto livro. São crônicas implacáveis, que devem ser lidas tomando um bom vinho e degustando um queijo. Em nome dos que amam esse Estado, dos que têm o sentimento de pertencimento mais aguçado, agradecemos à Olívia por mais esse livro e por tudo que fez durante a época do ótimo jornalismo alagoano

 

Escritor, prefácio do mmeu livro Ainda Ontem, 2024(*)

Força e resiliência

Jean Charles da Silva Santos (*)

 

A doença de Machado-Joseph, também conhecida como ataxia espinocerebelar, é uma desordem neurodegenerativa que afeta o sistema nervoso central, culminando em sintomas como a incoordenação muscular, problemas de equilíbrio, dificuldades na fala e na deglutição, além de alterações motoras e oculares, levando a uma série de desafios físicos, emocionais e sociais para as pessoas que vivem com essa condição, exigindo do seu portador, força e resiliência.

A história de Olívia é marcada por desafios, que exigem dela uma força extraordinária de superação. Ela se adapta, se reinventa e, acima de tudo, não permite que a doença diminua seu brilho. Embora a carga emocional seja pesada, Olívia é um exemplo de coragem e inspira a todos ao seu redor. Com sua história, demonstra que mesmo diante das adversidades, é possível cultivar o otimismo e a persistência. Cada passo que dá, mesmo que hesitante, é um passo firme em direção à busca de sua autonomia. A cada desafio ela fortalece não apenas sua própria vida, mas também a de todos que têm o privilégio de conhecê-la e conviver durante o seu caminho na reabilitação.

A Fisioterapia é, em grande parte, um trabalho em equipe, e você tem sido sempre uma parceira exemplar. Sua disposição para enfrentar os desafios, seguir as orientações e trabalhar duro nas sessões faz toda a diferença. É inspirador ver como você tem se esforçado para alcançar seus objetivos e superar os obstáculos. Por isso, seus esforços são dignos de aplauso e respeito.

A sua disposição em se comprometer com o processo de reabilitação não apenas reflete sua força, mas também serve como um exemplo para todos ao seu redor. Cada progresso que você faz é uma vitória, e é uma honra acompanhá-la nesta jornada.

Agradeço pela confiança depositada em nossa equipe, como também, por sua dedicação e determinação durante o seu tratamento. Sei que lidar com a doença de Machado-Joseph apresenta desafios únicos, e sua coragem em enfrentar cada sessão de Fisioterapia é verdadeiramente inspiradora.

Estamos aqui para apoiá-la em cada passo da sua jornada, e juntos continuaremos a trabalhar para que você alcance seus objetivos.

E assim como diz José Luís Nunes Martins, em sua crônica: Não fiques à espera da primavera:

“... Tempo bom é o que não desperdiçamos. Em tudo há uma beleza única à espera de ser encontrada. Muitas vezes, quanto mais difícil de descobrir, mais valiosa a alegria que nos faz chegar... O sentido da vida não é ficar à espera... A felicidade não é um prémio... É a recompensa de quem encontrou a sua forma de viajar entre o ontem e o amanhã... Ainda que o mundo acabe amanhã, a felicidade planta uma árvore hoje. “

 

Professor (*)

O caminho da saúde

 Livia Gitaí (*)

 

 

O caminho que nossa saúde vai trilhar, ao longo da vida, não costuma ocupar espaço no mapa de nossas jovens mentes. A saúde é apenas mais um atributo natural. De algum tempo para cá, tem ganhado relevância entre a juventude pela força da justa conscientização sobre a saúde mental e pela valorização de um estilo de vida saudável, mas, de uma forma geral, a saúde não é um fator que costuma entrar na equação dos jovens para as grandes decisões da vida.

Em algumas famílias, no entanto, preocupar-se com o futuro da própria saúde é um peso que se carrega desde cedo. É assim nas famílias com doença de Machado-Joseph. O gene causador da doença nasce com a pessoa, mas, durante uma parte da vida, em nada afeta a saúde física. Até que, mais cedo para uns e mais tarde para outros, a doença começa a dar os primeiros sinais. A pessoa e/ou os familiares não demoram a reconhecer esses sinais, pois já viram isso acontecer antes ou mesmo várias vezes antes. Com um dos avós, um dos pais, talvez com tios ou irmãos.

Cada filho de uma pessoa com doença de Machado-Joseph apresenta 50% de chance de herdar o gene alterado e, consequentemente, de desenvolver a doença. Até há alguns anos, só o tempo diria quem, da família, viria a desenvolver essa condição neurodegenerativa que afeta progressivamente a coordenação dos movimentos, causando desequilíbrio, visão dupla, dificuldade para falar, entre outras manifestações.

Atualmente, o aconselhamento genético com exame molecular nos permite identificar esse gene antes do surgimento de manifestações clínicas, o que pode ajudar no planejamento de algumas etapas da vida, como a parentalidade. Ainda assim, uma parte das pessoas que cresce em uma família com o diagnóstico de doença de Machado-Joseph prefere não saber se nasceu com o gene alterado e deixar essa revelação para o tempo. Prefere conviver com a dúvida a 50% de possibilidade de certeza de que terá a doença. Isso, em parte, porque, assim como outras doenças neurodegenerativas, a doença de Machado-Joseph ainda não tem cura. Não há como prevenir, impedir ou reverter seu curso. Ainda.

Há duas décadas, o processo de diagnóstico da doença de Machado-Joseph era bastante desafiador. Quando iniciei o curso de graduação em Medicina, anamnese e exame neurológico eram os únicos recursos disponíveis para o diagnóstico de uma pessoa com incoordenação motora progressiva de causa genética, o que levava a considerável imprecisão. Sete anos depois, ao iniciar a Residência Médica em Neurologia, o exame molecular para detectar a doença já era uma realidade, o que revolucionou o processo diagnóstico. No meu Doutorado, optei por trabalhar com pessoas com doença de Machado-Joseph, e todas elas tinham diagnóstico clínico e molecular realizado em um hospital público, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (HCFMRP).

Ao voltar para Maceió, atendendo no Hospital Universitário da UFAL, deparei-me com a realidade da falta de acesso a esse tipo de exame pelo SUS. A luta já não era mais exclusivamente da ciência – o diagnóstico molecular já havia sido desenvolvido. Em um país e em um estado desiguais como os nossos, a luta precisa ser por acesso aos recursos. Uma colaboração de mais de 15 anos com a equipe do Dr. Wilson Marques-Jr, do HCFMRP, vem nos possibilitando oferecer o exame molecular para nossos pacientes do HU-UFAL.

Felizmente, tem sido cada vez menos necessário acionarmos essa rede de colaboração, graças à diminuição do custo do exame, embora ainda não esteja disponível pelo SUS.

Se o desafio científico do diagnóstico da doença de Machado-Joseph está quase inteiramente superado, o que dizer do desafio do tratamento curativo ou neuroprotetor? Pacientes e familiares acompanham, com avidez e urgência, cada notícia sobre o tema que surja nos meios de comunicação, nos grupos das associações e das redes sociais. Nessa expectativa, percebem-se em ciclos de esperança e de frustração e, como se não bastasse tudo isso, precisam aprender a se precaver contra notícias falsas sobre supostas soluções vendidas como milagrosas.

 A frustração é compreensível. O tratamento atual ainda é baseado apenas no alívio dos sintomas e nas terapias de reabilitação e, frequentemente, parece que a ciência não avança. 

A boa notícia é que a esperança é mais compreensível do que nunca. A terapia genética tem avançado significativamente nas últimas décadas, com o desenvolvimento de técnicas de transferência e de edição de genes e mesmo de manipulação dos produtos genéticos, além de atuação em outras vias intracelulares. Os progressos ficam quase invisíveis para a população, pois são divulgados e replicados em uma rede de trabalhos e testes de alto nível de especialização, mas estão acontecendo e as perspectivas são animadoras. Estamos todos na expectativa do momento em que os progressos vão atingir a etapa do uso clínico dessas terapias. Esse momento, que parece não chegar nunca, fica mais próximo a cada dia.

Com o avançar das pesquisas sobre terapia genética, a comunidade científica envolvida na assistência a pessoas com doença de Machado-Joseph, e com outras formas de ataxia genética, vem se organizando para iniciar a etapa de uso clínico dessas terapias em um esforço conjunto para a identificação de famílias afetadas. No Brasil, temos grupos de pesquisa em doença de Machado-Joseph de reconhecimento mundial, como o grupo do HCFMRP.

Entretanto, longe dos grandes centros de pesquisa, ainda carecemos de dados epidemiológicos. Em Alagoas, por exemplo, não havia dados sequer sobre a existência de pessoas com a doença no estado. Assim foi que, em 2018, iniciamos uma busca ativa por todas as pessoas com esse e outros tipos de ataxia genética em Alagoas e pudemos relatar, oficialmente, que nosso estado tem uma prevalência dessas doenças semelhante à média de prevalência mundial.

Agora o mundo sabe que, em Alagoas, há pessoas que também aguardam a chance de usar as novas terapias. São pessoas que enfrentam todo tipo de desafio para lidar com as limitações físicas, sociais, psicológicas, afetivas e financeiras que a doença de Machado-Joseph vai impondo e que, para as quais, o poder público, o sistema de saúde e a sociedade como um todo ainda não estão preparados para fornecer o apoio necessário.

No início dessa busca, ainda em 2018, comecei a conhecer um pouco o mundo da Olívia. Ela nos recebeu em casa para contar a sua história de vida e a história da família Cerqueira. Cerca de dois meses depois, fui ao lançamento do seu livro, Mosaicos do Tempo, que li com admiração e que guardo com carinho. Conhecer a Olívia foi muito importante para mim e para a equipe da pesquisa. Mulher, jornalista, aguerrida e apaixonada pela vida, Olívia tem sido uma inspiração para que persistíssemos, apesar de todas as dificuldades que fomos encontrando. Olívia luta por visibilidade, para si e para todos.

A cada livro, parece clamar “estou aqui”, “estou viva, sou viva”, “sou uma mulher, tenho uma história, tenho sonhos”. Sim, Olívia, você é uma mulher incrível que merece ser ouvida por cada um de nós e por todos nós. Estamos aqui para te ouvir, sempre.

 

Lívia Gitaí (*)

Médica, neurologista, pesquisadora e professora da Ufal, em 23 de setembro de 2024 - Publicado no livro Ainda Ontem, Crônicas, 2024 de Olívia de Cássia Correia de Cerqueira

 

Experiência de quase morte

 Por Olívia de Cassia Cerqueira A experiência de quase morte para os transplantados, rendeu uma página da editoria de Cidades, especial para...