sábado, 15 de agosto de 2026

Elvira e Marcondes


Olívia de Cássia Corria de Cerqueira


 É verão em Alagoas, nordeste do Brasil. Ainda é tempo de flores e de esperança. A manhã de dezembro promete, ensolarada e quente, fazendo muito calor. Dá vontade de tomar um banho de mar e de sol.

Maceió se agita com a temporada de turistas tendo como testemunha o mar, enquanto Dandara Luísa -, uma preta cor de canela, cabelos negros ao vento-, rememora o passado, refletindo nas consequências do que veio depois.

Morava com os pais e observava o ambiente. A casa organizada e limpa. No jardim havia muito verde e flores, suavizando o ar.

Dandara Luísa evoca temas de sua ancestralidade e refletia sobre os últimos acontecimentos na sua família. A jornada profissional que lida com as complexidades da mente humana fazia com que ela estudasse mais, enquanto navega por suas memórias. Pensa nos pais e nos irmãos.

Elvira e Marcondes, estavam juntos há muitos anos sem oficializar o casamento, seja no cartório ou na igreja; mas anos depois resolveram oficializar a relação, por conta da tradição e por causa dos filhos.

Eles pareciam um casal harmonioso, até que Marcondes pai começou a se interessar por outras experiências e aventuras fora do casamento.

Marcondes estava sempre acompanhado dos amigos de farra da adolescência, sem pensar nas responsabilidades cotidianas de um relacionamento.

De estatura mediana, olhos e cabelos escuros e traços indígenas, Marcondes gostava de diversão sem medidas e nem constituir uma família o fez mudar de comportamento.

Era imaturo na maneira de agir. Elvira nasceu em Maceió, mas passou grande parte de sua vida em União dos Palmares, por conta do trabalho de seus pais, Juvenal e Dandara, de quem Dandara Luísa herdou o primeiro nome.

Fiscal de renda, Juvenal amava Dandara. Eles moravam na Praça Basiliano Sarmento e a mulher ensinava na escola Municipal Mário Gomes, tendo sido aprovada em concurso público.

Detestava apadrinhamentos e injustiças. Dandara era devota de Santa Maria Madalena, assim como sua família, mas respeitava todas as crenças.

Quando a única filha, Elvira, nasceu foi uma alegria para os pais ansiosos. O nascimento foi comemorado e ela foi crescendo bonita, segura de si, inteligente, muito querida e saudável.  Era um tesouro para os pais.

Elvira conheceu Marcondes ainda adolescente, na festa de Santa Maria Madalena, padroeira de União dos Palmares. Ela acompanhava a programação do evento, religiosamente todos os anos. 

O dia oficial da santa é em 27 de julho, mas os festejos foram transferidos para o final de janeiro e começo de fevereiro, devido ao período chuvoso na região.

As comemorações à santa têm início no segundo domingo de janeiro, com a procissão do mastro, que leva às ruas uma multidão de devotos.

Em 23 de janeiro a procissão luminosa da bandeira leva outra multidão de católicos às ruas, numa demonstração de fé. Depois do percurso pelas ruas da cidade, a bandeira será erguida ao mastro ficando ali por nove dias, em frente à igreja matriz. 

Durante o período da festa, a população ficava eufórica com o evento, na praça Basiliano Sarmento, no centro da cidade.

O alto falante de Maurino Veras, animava o evento, com telegramas apaixonados, que marcavam encontros. Foi com um desses telegramas que Marcondes conquistou Elvira.

A festa tinha quermesse, leilões e bingos. Ambulantes vendiam bebidas e aperitivos nos arredores das mesas. Os brinquedos para o evento eram armados do lado esquerdo da igreja.

Anos depois foram transferidos para a Avenida Monsenhor Clóvis, que recebeu esse nome homenageando o ex-pároco da cidade, cujo busto está colocado nos fundos da igreja e defronte a avenida que carrega seu nome.

A bandinha do coreto da prefeitura foi substituída por grupos musicais. O coreto já não existe, com a construção da praça.

Recentemente, a programação festiva do evento foi transferida para a rua do Jatobá, espaço onde as águas do Mundaú levaram as casas, em 2010.

Dizem alguns moradores que os shows foram transferidos pela justiça, com intervenção da igreja católica, com o argumento de que estava atrapalhando eventos religiosos, apesar do evento reverenciar também a santa.

Quem foi contra a decisão evoca Salvador, onde não há esse tipo de decisão e se não me engano em outras cidades do país.

Elvira avaliou que o som estava alto, que as pessoas gritavam para serem ouvidas, mas que a decisão foi radical e bastava baixar um pouco o volume dos grupos musicais.

No dia 2 de fevereiro, o principal dia do evento, tinha grandes encontros de amigos, na praça. Elvira e Marcondes participavam do evento que fervilhava na cidade, com a chegada de palmarinos que moravam fora ou de turistas, para participar do maior evento religioso dos católicos.

A padroeira de União dos Palmares unia muitos casais. Seja em namoro ou casamento. E muitas crianças eram e ainda são batizadas tendo a santa como madrinha e defensora de todos os devotos.

 

*****

 

Marcondes tinha um comportamento diferente dos rapazes que Elvira costumava namorar, mas era o começo do relacionamento e ela foi se envolvendo, não pensava que tudo mudaria.

Ela estranhava os gostos dele, mas da mesma forma que ele incentivava algumas ideias dela, não deu importância e seguia com o ficar do início do relacionamento.

No início do namoro, o casal participava de eventos diversos que tivessem em União dos Palmares ou em Maceió. A ida aos eventos foram escasseando com o passar do tempo.

Elvira e Marcondes tiveram três filhos e à medida que o tempo passava, tudo foi mudando. O desgaste aconteceu. Não havia mais no relacionamento deles a comunicação necessária na relação.

O desinteresse de planos para o futuro era visível, só ela fingia não notar. Marcondes se portava de maneira egoísta e só pensava em si próprio; se divertia pensando nas mulheres que conseguia ludibriar.

Quando procurava Elvira era para mostrar que era macho, mesmo que não conseguisse satisfazê-la a contento, deixando-a insatisfeita.

O cotidiano de ambos tinha um afastamento emocional e físico, que poderia ter sido evitado se tivesse havido entre eles uma conversa séria, um “papo reto”, como diz a moçada hoje em dia.

Dizem os estudiosos que “A distância emocional pode surgir de forma silenciosa e afastar pessoas que ainda estão fisicamente próximas”. Pesquisa no site “Quando o Silêncio Afasta: Como Reduzir a Distância Emocional aos Poucos

O resultado dessa insatisfação pessoal e a busca por novas experiências, ou simplesmente o desgaste natural da relação foi inevitável. Não podia ser diferente.

Eles precisavam de diálogo e esforço para ser reconstruída a intimidade ou, em último caso, o rompimento de vez, que veio acontecer.

Quando se juntaram, Elvira e Marcondes foram morar na Rua da Cachoeira, em União dos Palmares. Depois de dois anos morando juntos, compraram uma pequena casa, no começo da Rua da Ponte.

Tiveram a ajuda dos pais de Elvira, que não viam a escolha da filha com satisfação, mas resolveram ajudar. Era sua filha amada e ela poderia resolver seus problemas.

O relacionamento de Elvira e Marcondes nessa época ainda tinha atração e desejo. E quando a filha Elvira Liliane nasceu, mudaram para a Rua Correia de Oliveira, no centro da cidade.

Os dias foram passando; Marcondes evitava conversas mais sérias com Elvira. Com duas filhas e um filho, a crise no relacionamento aconteceu. Em. uma de suas obras Machado de Assis aborda o tema.

Marcondes estava ausente ou não queria ter discussões constantes com Elvira, na esperança de que a parceira tomasse a iniciativa de terminar o relacionamento, segundo dizia aos amigos. 

Elvira era uma mulher culta e cheia de projetos: não percebia as intenções do marido, embora o percebesse diferente.

Ela era uma preta de olhos azuis, corpo dourado, tinha uma beleza estonteante; chamava atenção por onde passava, mas não dava guarida as investidas daqueles homens atrevidos.

A filha mais nova Dandara Luísa tinha a aparência física e intelectual da mãe, bem como Elvira Liliane, a filha do meio. Ambas muito amadas pelos pais.

Elvira herdou da mãe o gosto pelo ensino e era apaixonada pela profissão que escolheu: o magistério. Lecionava na Escola Jorge de Lima, na Rua Tavares Bastos.

Gostava do que fazia, incentivava as crianças a se engajarem nos projetos da escola. O dia da Consciência Negra, Zumbi e o poeta Jorge de Lima, além da libertária jornalista emponderada Maria Mariá e outros personagens da cultura local, eram pautas preferidas e presentes em suas aulas.

Elvira se mostrava desentendida sobre os boatos que corriam na cidade sobre o marido. Ao contrário disso, acreditava ter encontrado um homem simples, leal, companheiro, mas se enganara com o caráter do companheiro.

Marcondes vivia sendo apanhado em controvérsias. Ele começou a trabalhar aos 15 anos, desenvolvendo programas e informatizando algumas empresas de União dos Palmares. 

Casou aos 23 anos; seus pais eram divorciados e Marcondes não se dava bem com eles, principalmente com a mãe.

Eles faleceram anos depois de seu casamento e ele se embruteceu. A mãe, dona Judite, tinha muito ciúme das mulheres que se aproximavam de Marcondes, apesar de ter cinco mulheres e outro filho.  

Anacleto, pai de Marcondes, tinha mais dois filhos do primeiro casamento, que saíram de casa quando Anacleto casou novamente.

Elvira e Marcondes além do filho mais velho, Marcondes Filho, tinham duas meninas: a mais velha Elvira Liliane, já com 19 anos, inscreveu-se no Enem para Comunicação Social e Dandara Luísa, a mais nova, com 17, para Psicologia.

Num encontro de amigos, nas farras que frequentavam, Elvira escutou o marido conversando com companheiros de orgias na maior algazarra.

Ele disse que não conseguia ser fiel à esposa e que se relacionava com outras mulheres e se surgissem outras oportunidades com homens, ele dava conta. Se achava um garanhão.

’’O fato de existir traição em relacionamentos não é surpresa para ninguém”, observa. Na literatura mundial, bem como no cinema, há muitas histórias sobre adultério observa o psicólogo Carlos André, na interne

Toda pessoa espera, ao iniciar um relacionamento, que o parceiro ou parceira seja fiel. “E é muito doloroso quando se descobre com uma traição”, pontua. Internautas dizem como descobriram a infidelidade de seus parceiros.

Elvira ouviu a confissão que para ela era dolorosa e perturbadora, o que a levou a um turbilhão de emoções, incluindo choque, raiva e mágoa profunda do marido por ter omitido aquelas informações.

Naquele dia, percebeu o erro que tinha cometido, apesar dos avisos de sua mãe e do pai, mas não deu a entender que tinha escutado aquele comentário machista e sem noção.

Romântica, ela se impressionava com tanta falta de sensibilidade de Marcondes, mas não comentava sobre isso com ele. Estava decepcionada.

Tinha receio de humilhar seu homem. Apesar de tudo, era seu companheiro, pensava no pai dos seus filhos e vindo de família humilde, o que a intimidava a tomar alguma atitude.

Elvira não dava palpites nas escolhas das filhas, mesmo que as vezes discordasse delas. Sentia orgulho das cidadãs que se tornaram.

As meninas aprenderam na faculdade e na vida, que direitos humanos devia ser obrigação de cada pessoa.

Elas procuravam Elvira para conversar sobre as dúvidas do cotidiano e informavam para ela a respeito do que sabiam sobre o pai,  nas conversas com colegas da cidade. Se revoltavam e se preocupavam com a atitude passiva de Elvira.

A mãe dissimulava a vergonha que tinha de falar sobre esses assuntos com as meninas, e ficava calada, mudando de assunto, para não confirmar o disse-me-disse das pessoas.

Marcondes Filho se espelhava no pai em narrativas machistas e preconceituosas e apesar da sua inteligência, seguia os exemplos do pai como a insensatez.  

Fez o curso técnico de Ciências da Computação, em Maceió, no Ifal - Instituto Federal, antiga Escola Técnica Federal, assim como Marcondes pai, que optou por cursar eletrônica.

Marcondes Filho herdou todas as características do pai, tanto físicas quanto no jeito de ser. Sabia dos tropeços dele, mas da mesma forma que ele, era conservador e tinha pensamentos que não evoluíam com os anos passados.

Estava sempre se relacionando com mulheres e homens diferentes, mas não aceitava sua bissexualidade. Isso gerava muitos conflitos interiores.

Bissexuais enfrentam estereótipos e invalidação em relacionamentos amorosos. A sociedade discrimina ainda hoje.

“Dentro e fora da comunidade LGBTQIA+, bissexuais sofrem com os estereótipos e a invalidação de sua sexualidade” e Marcondes filho tinha receio de se assumir.

Faltava autoconhecimento e a aceitação, fundamentais para o bem-estar emocional que ele precisava.

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